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SU/ HISTOÍ\I/, yVíONUMEí^TOS, HOyviENS ]S(X»TAVEI3,
USOS E cuí|^rosro/DES
PELO
DR. MOREIRA DE AZEVEDO
Sócio do Instituto Histórico e de outras Sociedades Litterarias
PRIMEIRO VOLUME
RIO DE JANEIRO
13. Ij. Garnier
Livreiro-editor do Instituto Histórico Brazileiro
Gõ — Tlua cio Ouvidor — 65
18T"7
OBRAS (lo mesmo autor
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Homens do Passado, chronica dos séculos XVIII e XIX 1 v.
in-S ene. 3$000, broc 2^0)0
■osaico Bmilciro ou coUecçao de ditos, respostas, pensamen- tos, epigraramas, poesias, anedoctas, curiosidades e factos históricos de Brazileiros illustres, 1 v. in-8 ene 3$0G0
Criminosos Celebres, episódios histórico^, Pedro Hespanhol, Vasco de Moraes, Os salte: dores da Caqueirada, 1 v. in-S', ene. 3$00\ bro: 2$000
Os Francezes no Rio de Janeiro, romance histórico, 1 v. in-8, ene.
3$000, broc 2$000
Lourenço de Mendonça, romance histórico, 1 v. in-8, ene. ^$000, broc. 2§000
Curiosidades, — Noticias e variedades liistoricas brazileiras, 1 v.
in-S, ene. 3$000, broc 2S'^00
Compendio de Historia Antiga, 4* ediç.ão 3$000
Quadros Guerreiros, Rio da Prata e Paraguay, 1 v
Ao Tlt.m. Sr.
DR. JOAQUIM MANOEL DE MACEDO
Mais de uma razão impellio-me a dedicar-vos este livro.
Nascestes na mesma terra que s?rvio-me de berço, encontrei o vosso nome entre os dos meus mestres, e em meu tirocinio escolar pude chamar- vos amigo. Mais tarde, quando comecei a trilhar a senda litteraria, soubestes corrigir meus erros, e louvar um ou outro acerto do es- criptor desconhecido ; o mestre se não esquecera do dis- cipuloe do amigo.
Que este livro devia ser vosso dizião-me o dever e o coração.
Eil-o, ahi vai, e seja o vosso nome o passaporte deste meu trabalho, imperfeito sim, mas de diííicil execução,, como vós, que tanto tendes enriquecido as lettras pátrias, podeis avaliar.
CDx-. (Moanoe^ (Diiaxte JHUotetxa ^e cfb»evet)o.
/
Publicamos este trabalho, ha annos, sob o titulo de Pequeno Pauorama que, por não parecer-nos apropriado, trocámos pelo actual. Havia na primeira edição omis- sões, repetições de factos, falta de ordem na distribuição das matérias, e muito descuido no estylo, por ser a pri- meira obra de maior fôlego que escrevemos, e termos de manuzear numerosos documentos ; nras na presente edição procuramos remediar esses males, tanto quanto ajudou- nos a nossa intelligencia, e em vez de cinco, reduzimos a obra a dous vuluQies para mais facilmente ser consultada.
Tendo o publico recebido com benevolência este livro, quando pela primeira vez sahio da imprensa, ani- mamos-nos a apresentar esta segunda edição mais com- pleta e limpa de certos defeitos, e sntregando-a aos lei- tores, pedimos desculpa, se ainda é deficiente, pois, se dispõe o auctor de boa vontade e gosto para o trabalho, reconhece que não deixa de ser a empreza superior ás suas forcas.
PALÁCIO IMPERIAL
Os primeiros governadores do llio de Janeiro não tivcrão domicilio certo ; residirão onde lhes pareceu mais commodo e con- veniente.
Vindo Luiz Barbalho Bezerra governar o Rio de .laneiro em 1643, pagou-llie a camará o aluguel da casa que occupou, e desde então tornou-se uso receber o governador dos cofres da camará o aluguel da casa em que habitava ; a principio dava a camará 80/^000 annual- mente, depois teve de dar I5O5ÇIOOO.
Nomeado segunda vez em 1648 governador do Rio de Janeirci, foi Salvador Corrêa de Sá e Benevides residir em casas suas, mas obrigou a camará a pagar-lhe os alugueis.' Retirando-se para Angola, c vendo que com sua ausência tiraria pouco lucro de seus prédios, pedio á camará que os comprasse para residência perpetua dos gover- nadores ; a camará comprou-os por 8,000 crusados, e deu em pagar mento os foros dos terrenos que possuía, obrigando-se Benevides, do dia que chegasse á corte á 2 ann&s, alcançar do rei a provisão con- firmando a venda , mas corridos í nnnos sem vir a provisão promet- tida, derão os vereadores por iiullo o contracto, entregarão as casas ao procurador de Benevides, e contiiuiarão a receber os foros de seuè terrenos.
Cl o mo iiK lAMimo
Km 5 (lo aiíoslo do 11)78 oscrcvou a caiiiara a ol-roi podiíido-llio iiiaiulasso apiilicar o sulisidio po(iiioiio dos vinhos na ooiiiitra í\c. uma casa dccciílo para os t^ovcniadoros, pois, lendo do ronda 3(30;^00(), nào podia dar ir)0;^000, o nem aos moradores convinha kirgar as casas em que residiào, para darein-n'as de aposentadoria aos gover- nadores.
Vendo que era indecente não ter o governador da capitania casa própria para residência, ordenou o governo, em 10 de novembro de 16'.)8, ([ue se comprasse o prédio, (juc fura do provedor Pedro de Souza Pereira, á rua Direita, por ser o niellior que havia na cidaih^ para perpetua habitarão dos governadores, retirando-se para esse fim 0,000 crusados da renda do subsidio dos vinhos. E determinou que aquclla casa fosse decorada, como pedia a dignidade de sua represen- tação ; que era do decoro real que aos seus representantes se desse um tralamcnlo competente á sua dignidade, para conciHar o respeito dos súbditos e a venerarão dos estrangeiros, que tocuvão neste porto, na arribada das viagens da índia.
Eis como se expressava o governo ha 178 annos ; entretanto julga-se hoje que não oílende o decoro nacional não ter o chefe supremo da nação, o Imperador, um palácio digno de sua alta cathegoria !
Parece que alguns dos antigos governadores residirão na rua, que depois recebeu o nome de rua da Alfandega, pois, em tempos remotos, foi conhecida com o nome de rua do Governador.
A carta régia de 5 de abril do 1702 mandou construir dentro da casa dos governadores casa própria para sua secretaria.
Invadindo osFrancezes o Rio de Janeiro em 1710, incendiou-se o armazém da pólvora, que estava na casa da provedoria, junto á alfandega, e á casa dos governadores, na rua Direita ; o fogo com- nuinicou-se a estes edificios, e nas cliammas perecerão o almoxarife Krancisco Moreira da Costa, cujo cadáver desappareceu, e trcs estu- ^lantes, que fazião guarda na casa do governador.
Em virtude da carta régia de 4 de setembro de 1704, que dcleimiiara se alugasse casa para a provedoria, e não havendo sufíi- ciente, se liasse de novo, e a de 5 de junho de 1700 que ordenara conslruissc o governador aquella casa sobre a alfandega, e contigua á do sua residência, iMJilicara Francisco do Castro Moraes a casa da pi'o- vedoria cm 1710.
o RIO DE JANEIRO /
Os edilicios incendiados forào reedificados por Francisco de Castro Moraes.
Crcara-se a provedoria da fazenda em tempo do governo de Mem de Sá, sendo nomeado provedor Estevão Peres, e em 1:2 de junho de 1 043 dera-se regimento a este tribunal. Creada a real junta da fazenda em 1G de agosto de 1760, estalieleceu-se na casa da provedoria, e para alii veio o erário creado eni 28 de junho de 1808.
Em consequência de recolher-se á provedoria os cabcdaes da coroa, importantes em avultados contos de réis, começou o povo a daj a esta casa o nome de casa dos contos.
Em 1805 uma quadrilha de ladrões lançou logo á casa dos contos com o fito de roubar, mas as providencias do vice-rei D. Fer- nando salvarão os cofres públicos ; ordenou o vice-rei a reedificação do prédio; o em memoria desse facto mandou a junta da fazenda col- tocar em frente á escada principal a seguinte inscripção, que j^' desappareceu.
I). 0. M.
(í Imperando o muito altoe poderoso Sr. D. João, Principe Pie- gente de l^orlugal.
A. PP. da P.
(( Sendo Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brazil o Illm. e Exra.Sr. D. Fernando José de Portugal, Varão Sábio, Prudente e Justo. Amador da Lei, do Rei, da Grey se reedificou e de- corou este edificio do erário régio e publico.
Havendo-se arruinado por um incêndio e pela diuturnidade do tempo. »
Actualmente occupão a antiga casa da provedoria e a da residên- cia dos governadores a caixa da amortização, creada pela lei de 15 de novembro de 1827, e o correio geral (1).
(1) Era 2G de janeiro de lG'à3 principiou no Brazil o estabeleci- mento do correio, que já havia sido decretado desde muitos annos.
o Itlil PK JANEIRO
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Kililicados na rua Primeiro de .Mano, ciUro as ruas da Alfandega c (Icneral (laiiiara, do lado do mar, apresentão cslcs odilicios 12jancllas do sacada 110 :2" pavimonto, A porias o -ijancllas do peitoril no l"; na poria principal lia uma guarda conunandada por uHicial, o sobro a janclla central do "2^ andar erguom-sc as armas do Império.
Na anliga casa dos governadores residio dez annos (}onicS: Freire de Andrade ; mas não julgando esse edilicio digno da primeira autoridade da colónia, tratou de construir, no largo do Carmo, uma| casa decente para os governadores, um palácio... E' preciso, porém,! notar que a ordem de 27 de novembro de 1730 proliibio chamar-se palácio a casa dos governadores.
Outrora não se empregavão a esmo palavras que marcavão dis- tincções ; assim não se podia dar excellencia senão a certos emprega- dos do reino. A pragmática de D. João V mandava dar aos viscondes o barões, aos officiaes da casa real, e aos das casas da rainha e prin- cezas, aos fdlios e fdhas legítimos dos grandes, dos viscondes e barões, como também aos moços fidalgos, o tratamento de senhoria ; o alvará i de lõ de janeiro de 1759 mandava dar senhoria aos ministros, que í tinlião carta de conselho ; e a carta régia de 17 de junho de 1718 extra- nhou ao governador do Rio de Janeiro de consentir que lhe dessem o .■ , tratamento de excellencia. Mas hoje já não ha lei que regule a tal res- -;' peito, e se ha está em esquecimento, porque cada um toma para si o tra- 1 lamento que quer, elogo que pouco sobe na escala social,julga-se com | (lireito não a senhoria, senão a excellencia, e por isso ha confusão nos|
i tratamentos dendii;ê*a--'' """ '-— iii....l --^'->^""'""-"-^>'^>.' ^- """"^J
■^^^.^--'^"dn^tniido o palácio, que descreveremos em lugar competente^t* I nelle residio Gomes Freire de Andrade 19 annos, enelle fallecen (1); ^ Encarregado o artista José de Ohveira de decorar a sala princi-
/! pai chamada das audiências, pintou no tecto o génio da America ' caminhando para o templo da humanidade, ao mesmo tempo que o , •■ sol fazia o giro do oriente para o occidente.
Expulsos os jesuítas do Rio de Janeiro, e dcsoccupada a casa no^ morro do Castcllo, que servira-lhes do coUegio, ordenou o governa,
(I) No fim deste capitulo enconWftrá o leitor a relação dos go- vernadores e vice-reis do líio de Janeiro.
o RIO DE JANEIRO U
em 19 de outubro de i7GG, que se transferisse para ahi a residência do vice-rei, construindo-se, á custa dos bens confiscados aos jcsuitas, ^s accommodações necessárias nesse edifício, e uma tribuna para a Igreja, que devia ficar separada e debaixo da administração do ordi- ,; nario. O palácio construido pelo conde de Bobadella passaria a servir / de quartel para soldados e officiaes pobres, em virtude da carta do ^aor^M^r^-jc fip pgtado dc 23 de julho de 1766.
. conde da Cunha deu principio ás obras no collegio dos
ransformal-o em palácio ; mandou rasgar as janellas do
erior ; porém não realizou-se a mudança, e no vice-rei-
j destinou-se para hospital mihtar a antiga casa dos
inuando a cadeira dos vice-reis no palácio de Bobadella.
rei conde de Rezende construioura segundo andar, com 12
. sacada, na face do palácio voltada para a praça.
pavão os vice-reis a galeria superior do lado da praça ; em
e mesmo lado trabalhava o tribunal da Relação, e no pavi-
:'eo estava a casa da moeda, residindo o provedor no quarto
da face opposta.
igando ao Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1808 o brigue •om a noticia da vinda da familia real para o Brazd, tratou o .V íonde dos Arcos de raobilhar e ornar o palácio para receber as * reaes, transferindo sua residência para uma casa de Anacleto ' o campo de Sant'Anna. De feito em 8 de março de 1808 des- Ai o principe regente D. João, no Rio de Janeiro, e foi reco- ao palácio dos vice-reis, que passou a servir de paço real. ^0 dia 10 desembarcou a rainha D. Maria I, pelo que houve a no terreiro do paço, occupando a famiha real, a curte e os »s as janellas do palácio.
láraais se vira tanta gente, e de tão alta gerarchia, nas janellas edificio, que sendo pequeno para tantas pessoas, tiverão os s do Carmo de deixar o seu convento, que foi reunido ao paço ^ jjor ura passadiço.
Tornou-se também dependência do palácio o edificio da camará 'a, servindo de residência ás criadas da casa real. A Relação foi transferida para uma casa da rua do Lavradio per- tencente a João Marcos Vieira da Silva Pereira, a qual é actualmente
2
lo o HIO DE lANEÍUO
próprio nacional, e as ollicinas da moeda conlinuarào a occiípar os baixos do palácio até 1815, cm que forão removidas para o edifício do erário, á rua do Sacramento.
Do antigo convento do Carmo a parte fronteira á praça foi dcs" linada para residência de D. Maria I c suas damas, e a parte interior e pateos adjacentes forão occupados com as cozinhas, ucharia e outras dependências do paço.
Logo depois da chegada da familia de Bragança o negociante Elias António Lopes, residente na rua Direita, offereccu ao principe D. João uma quinta cm S. Christovão, então a melhor casa existente nos arrabaldes da cidade, e aceita a offerta, o negociante mandou levantar na frente do prédio as armas reaes, que descobrio ao visitar o principe pela primeira vez essa casa.
Conhecida desde então com o nome de real quinta da Bôa-Vista, toriiou-se^ residência híibitual de D. Jojio Yl. •~'«~->»*.,*^,_,^,.,,.p,'^*'"' ■""'i ransformaía á sala' áas audiências era sala do throno, foi a pin. tura de José de Oliveira substituida por outra de Manoel da Costae representaud!? o reino unido sustentando o escudo de Portusral.
Is fidalgos e criàíTosde alta graduação, que não poderão ter aposentos no paço real, forão residir nas casas, que os proprietários e inquilinos tiverão de desoccupar, pondo-se em pratica a lei das apo- sentadorias.
O fididgo que desejava obter uma casa ia ao juiz aposcntador, que mandava o meirinho intimar o proprietário ou alugador ; c feita a intimação escrevião-se com giz na porta do prédio as letras P. R . principe regente, que o povo traduzia por ponlia-se na rua.
Eai daquellequc, no prazo de três dias, não entregasse a casa >
' ficava sujeito a todas as arbitrariedades e abusos praticados em nome
^ido rei, que sanccionava essas violências, sem saber, ou sem poder
^ evital-as. Os proprietários erão violentados, raras vezes recebião o
aluguel de seus prédios, e alguns vião-se obrigados a largar não só o
domicilio, como a mobília dos aposentos !
tendo cedido já dous prédios, em que habitava, para os fidalgos de cl-rei, vio-se tão perseguida uma senhora chamada D. Izabel Maria que rctirou-sc para uma casinha da lua dos Barbonos ; e ne- cessitando, por ter familia numerosa, de muitas accommodaçues, levantou um sobrado no prédio que occupava; mas concluindo-o inte-
o RIO DE JANEIRO íl
riorraente e nos fundos, deixou a frente sem reboco e sem vidros, para não ser a casa appetecida pelos nobres ; e só assim pôde fixar sua residência !
O decreto de 6 de fevereiro de 1818 concedeu aos habitantes do Rio de Janeiro o privilegio de aposentadoria passiva.
Era 1817 construio-se ura terceiro pavimento de três janellas com uma grade inteiriça, na face principal do palácio, vindo de Lisboa o mármore para as janellas.
No reinado de D. Pedro I o artista Francisco Pedro do Amaral pintou na sala do tlironoas armas do Império, que substituirão o escudo portuguez.
Pedro I, assim como tem feito o actual Imperador, escolheu a quinta da Bôa- Vista para sua residência habitual.
Erguido na praça D. Pedro II, apresenta o paço imperial, na face principal voltada para o mar, três pórticos, cada um cora uma escada de três degráos de mármore, tendo o do centro duas columiias de pedra entre as quaes lê-se esta inscripção :
« Pieinando el-rei D. João V, Nosso Senhor, sendo governador destas capitanias e da de Minas-Geraes, Gomes Freire de Andrade do seu conselho, sargento-mór de batalha dos seus exércitos. Anno 1743.»
Ha no primeiro pavimento seis janellas de peitoril, no segundo nove de sacada, no terceiro três ; um attico com vasos de már- more, construído em 1841, coroa os corpos lateraes desta face.
Apresenta a face do norte quatro pórticos e vinte janellas dei peitoril no primeiro pavimento, vinte e quatro de sacada no se-| gundo, e doze no terceiro ; vendo-se nas extremidades um attico| coroando seis janellas do segundo pavimento. ^
Na' face do sul ha o pórtico do vestíbulo, seis portas o deseset(| janellas de peitoril no primeiro pavimento, dezenove de sacada* c cinco de peitoril no segundo, e dez de sacada no terceiro. | Nesta face a platibanda corua só quatro janellas do lado esquerdo. «
Na face posterior ha duas portas e sete janellas de peitoril no \ primeiro pavimento, e sete de sacada no segundo. ■;
Um passadiço sustentado por três arcos, que abrem communica- ^ ção entre a rua da Misericórdia e a praça, liga o palácio ao antigo convento do Carmo ; tendo três janellas para a rua da Misericórdia e três para o largo.
12 o mo PE JANEIRO
O oditicio (lo ronvonlo não Icm relação alguma architcctonica com o palácio, (luo (• tio cstylo barroco, c aquolle não tem gcncro tlc arclii" lectura ; c apezar de, lia mais ilc meio século, servir de dependência (lo paço, ainda lhe não derão um aspecto scraclhantc ao palácio a que foi encorporado.
Ligava-se esse edifício á torre da igreja próxima, mas aberta a rua Sete de Setembro ató á praça, construio-se um passadiço de madeira para ligar o paço á capclla imperial ; em 1858 demolio-sc o passadiço provisório, c construio-se outro sustentado por uma trave de ferro com uma saliência no centro, que produz máo aspecto : ha nesse passadiço seis janellas para o largo, e seis para a rua Sele de Setembro.
Descreveremos cin lugar competente o exterior do edifício que foi antigo convento dos carmelitas ; interiormente apresenta diversas salas e corredores, e no terceiro pavimento occupa o Instituto Histórico uma sala e diversos quartos, cedidos pelo Imperador D. Pedro II, que desde 184'.) assiste ás sessões desta patriótica associação.
Nesta dependência do paço residirão em 1844 o conde d'Aqiiila c a princeza D. Januaria.
E' extenso o vestíbulo do palácio, e apresenta duas ordens de columnas, que conduzem á escadaria, dividida em dous lanços, um fronteiro ao outro, e dous lateraes ; o segundo da frente foi feito por occasião da coroação de D. Pedro II, c vai ter ao salão dos archeiros, que abre communicações para as diversas salas.
A sala do throno recebeu maior altura em 1840, e o artista bra- zileiro Manoel de Araújo Porto Alegre pintou no tecto o anjo custodio cercado das províncias do Brazil, que genuílexo recebe do aHJo o influxo da protecção do eco ; as paredes ornadas de pilastras de ca- piteis dourados, são forradas de damasco encarnado, e apresentão três janellas para a face principal e seis para a do norte ; mas em consequência de ameaçar ruina o tecto, está esta sala abandonada.
Seguem-se a sala do docel, forrada dedamasco cariiiezim com um painel da coroação de D.Pedro II; a sala amarella forrada de damasco ainarcllu com um painel memorando a batalha de Ourique ; a sala da tocha, onde vè-seem alto castiçal dourado uma tocha de cera ; a s;ila encarnada com oito bustos da familia de Dragauça feitos por Pcttrich, •' um quadro do casamento da Imperatriz D. Thercza Christina em
o RIO DE JANEIRO 13
Nápoles ; a sala azul chamada outrora dos estrangeiros ; a sala ama- | relia, actualmente sala do tlirono com dous quadros de factos da his- |- toria portugueza, e outro memorando o juramento da constituirão do ;^< Brazil ; todas estas salas tém janellas para a praça. ív
Junto á antiga sala do throno, na face do palácio voltada para o | mar, ha a sala amarella com um painel do sacrifício de Isaac ; a sala dos camaristas ; outra sala forrada de damasco amarello ; a sala das damas com um retrato de D. Maria l ; o gabinete do despacho com um retrato de Pedro l ; mais duas salas;, o aposento do camarista, sala de jantar, sala almoxarife, do medico, e aposentos do guarda roupa, do veador, e do mordomo.
No terceiro pavimento, do lado do sul, estão a salada Imperatriz, o oratório, os antigos aposentos das princezas, e do lado do norte os aposentos das damas, açafatas c criadas.
No sobrado superior da frontaria do edifício estão os aposentus particulares do Imperador e da Imperatriz.
Era uma das salas do palácio imperial celebrão o Inslitulo His- tórico e a Academia de Medicina suas sessijes magnas.
Depois da coroação do Imperador em 18 de julho do I8il, esteve o paço exposto cinco dias e cinco noites para ser visitado pelas pessoas decpntes ; e na quinta-feira maior, depois que o Imperador sae a visitar as igrejas, expõe-se em uma das salas do palácio, parte dabaixella da casa imperial.
O primeiro pavimento do edifício 6 occupado por antigos servido- res da casa imperial, ou por suas familias necessitadas ; eD. Pedro II permittio que alli estabelecessem suas officinas o esculptor Pettrich e o pintor Biard quando esliverão no Piio de Janeiro.
Se o exterior deste edifício c mesquinho e acaçapado, o interior t' pobre e despido de ornatos ; não ha grandeza, nem elegância nas salas do paço imperial que, destruído pelo cupim, não deixa de amea- çar ruina.
Na Europa attrahem os paços renes por seu esplendor e luxo a attenção dos viajantes, e entre nós dá-se e nome de palácio a uma casa antiga, sem l)(;lleza, sem g'iislo, som arte e sem aspecto ; no emtanlo taes edificius devem ser nobres duas vezes, pelo destino e como primor da arte ; uàu basta levantar um edifício com commodos sufíi- cicntes para o lim a (jiu; l' destinado, deve elevar-se uin monumento
li o mo DE JANEIRO
bollo, grandioso pelos primores da arle, c digim do rhoto da narào c da própria nação ; porque taes ronslriicrões engrandecem o paiz aos olhos do estrangeiro, e quando vè-se cercado de esplendor o poder supremo de uma nação, respeitão-se mais as instituições de tal paiz.
Taes monumentos indição o progresso e civilisação do povo, que executa-os ; foi no tempo de sua maior gloria que os romanos eleva- rão o Colisèo e o Capitólio.
Cliameni-se pois os artistas nacionaes para que exponliãoo plano da construcçao de um palácio digno do primeiro magistrado do paiz, e digno do próprio paiz .
PALACETE DA PRAÇA DA ACCLAMAÇÃO
Em 1818, por occasião da coroação de D. João VI, fizerão-se grandes festas no campo de SanfAnna, onde levantou-se um palacete para a família real assistir aos festejos, o qual elevava-se do chão cerca de vinte palmos.
Pelos quatro lados corria uma varanda constituída por arcos entre columnas unidas por uma balaustrada ; a varanda da frente era mais saliente que as outras uma hraça, e sustentada por cinco arcos, três maiores na frente e dous menores lateralmente, constituindo ura vestíbulo com grades ; a escada ficava fronteira ao arco central, e interiormente havia um salão e três quartos forrados de damasco e velludo carmezim.
Este edifício era de madeira, mas alguns annos depois fizerao-no de pedra e cal.
Neste palacete ouvio o principe D. Pedro ura patriótico discurso do presidente da municipalidade que, em nome do povo, offereceu-lhe o titulo de imperador constitucional e defensor perpetuo do Brazil. Er a era 12 de outubro de 1822, e cercado de seus ministros, rodeado de immenso povo, que enchia o campo de SanfAnna, declarou o prin- cipe que, ouvido o seu conselho de estado e os procuradores geraes, aceitava o titulo de imperador constitucional e defensor perpetuo do Brazil.
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O povo (' a tropa sauilarào o novo imperador com granilf> rigosijo.
Knlrou a imperatriz em um carro, e dirigio-se para o pa(;o da cidade, c o imperador a pé, debaixo do pallio, seguido por toda a curte, e por uma nudtidào eiilhusiasuiada, caminhou para a capclla mperial, onde assislio com a imperatriz a um te-Dcum.
Caliia a clmva com violência, mas nem assim era menor o ardor c cnlhusiasmo da immensa multidão, q.ie acompanhava o monarcha ; se o pallio vergava ao peso da agua, também custava a suster em seu regaço as flores, que sobre elle espargião lodo o povo.
Este acontecimento foz o campo de Sant'Anna mudar de nome ; o por portaria de 1:2 de dezembro de 1822 denorainou-se praça da Acclamação.
Em 20 de março de 182i, formada na praça da Acclamação, em grande parada, a força militar existente na cidade, sob o conmiando do tenente-general Joaquim Xavier Curado, achando-se no palacete a imperatriz, montou o imperador a cavallo, e ordenou marchasse a força em columna cerrada á frente do palacete, onde prestou ella juramento á constituição, salvando após este acto a arlilheria com lOl tiros, e mais três descargas de racsqueteria ; e cm seguida tendo o imperador á sua frente, desfilarão os batalhões em continência á imperatriz (1).
Para festejar a sagração e coroação de D. Pedro II preparava o artista Francisco de Assis Perigreno um grande fogo artilicial no pala- cete, quando, em 22 de julho de 1841 pela manhã, estando a secar ao sol um pouco de estupim e 140 bombíjes, reflectirão-se os raios do sol nos vidros de um lampeão visiuho, preso ao angulo do palacete, e immediatamcnte arderão os bombões, communicando-se o fogo ao edifício. Houve um estampido estrondoso, uma explosão violenta, que annunciou á cidade o desastre que acontecia ; as grades do palacete saltarão á grande distancia, decepando uma arvore visinha ; os vidros do paço do Senado, de diversas casas da praça e ruas adjacentes esta- larão : a violência do incêndio tornou inútil o auxilio das bombas, e
(1) Veja no vol. 32 da Revista do Instituto Histórico a noticia histórica intitulada a Constituição do Brazil.
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o RIO DE JANEIRO
assim entregou-se o edifício ás labaredas, e collocarão-se sentinellas em circulo para conler o povo. Havia dentro do palacete ura barril com uma arroba de pólvora, cinco mil e tanlos foguetes do ar, duas mil e tantas peças de fogo de vistas, uma illuminaçào de varias cores de dez mil e tantas luzes, cincoenta libras de chiorato de potassa, vinte de nitrato de stronciana e vinte de nitrato de barita, e por isso terrível devera será explosão.
Salvarão-se, saltando pelas janellas, poréntl ficarão feridos, Fran- cisco Rodrigues Lima, Joaquim Baptista Perigrino e os escravos Paulo, Cypriano, Simplício e Severino, que forão remettidos para o hospital do quartel do campo ; perecerão Josij da Costa Velho, seu . íilho Cândido José da Costa, e o director Francisco de Assis Perigrino que, conseguindo saltar por uma janella, foi nesse momento esma- gado por uma parede que desabou.
O guarda nacional Púcardo José de Figueiredo, que estava de sentinella no palacete, escapou, mas ficou ferido nas costas ena perna.
Logo que teve noticia do desastre o Imperador enviou uma guarda de archeiros para o lugar do sinistro, e ordenou que á custa de seu bolsinho se fizesse o enterro de Francisco Perigrino, que no dia seguinte foi sepultado na igreja de Santo António, dedicando-lhe o poeta Teixeira e Souza uma linda poesia, que termina com estes versos :
Honrai-lhe, honrai-lhe a campa c uma lagrima, Dai-lhe um ai de saudade, elle o merece.
Em signal de sentimento o Imperador não ([uiz visitar as luminá- rias na noite desse dia.
Edificado na praça, do lado do edificio do Senado, tinha o pala- cete, (pie o fogo consumii), a fichada voltada para o edifício do quartel.
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() jiovo I' a tropa saudarão n novo imporador com grando rigosijo.
Eiilroti a impcM-alriz cm um carro, c dirigio-so para o paro da cidade, o o imperador a pé, debaixo do pallio, seguido por Ioda a còrlc, e por uma multidão enlliusiasmada, caminhou para a cap(!lia nípcrial, onde assislio com a imperatriz a um le-Dcnm.
Caiiia a chuva com violência, mas nem assim era menor o ardor e cnlhusiasmo da inunensa multidão, qae acompanhava o monarcha ; se o pallio vergava ao peso da agua, também custava a suster em seu regaço as llòres, que sobre ellc espargião todo o povo.
Este acontecimento foz o campo de Sant'Anna mudar de nome ; e por portaria de \t de dezembro de 1822 denorainou-se praça da Acclamação.
Em 20 de março de 1821, formada na praça da Acclamação, em grande parada, a força militar existente na cidade, sob o commando do tenente-general Joaquim Xavier Curado, achando-se no palacete a imperatriz, montou o imperador a cavallo, e ordenou marchasse a Jorça em columna cerrada á frente do palacete, onde prestou elia juramento á constituição, salvando após este acto a artilheria com lOl tiros, e mais três descargas de mcsqueteria ; e em seguida tendo o imperador á sua frente, desfilarão os batalhões era continência á imperatriz (1).
Para festejar a sagração e coroação de D. Pedro II preparava o artista Francisco de Assis Perigrcno um grande fogo artilicial no pala- cete, quando, cm 22 de julho de 1841 pela manhã, estando a secar ao sol um pouco de estopim e l-iO bombões, reflectirão-se os raios do sol nos vidros de um lampeão visinho, preso ao angulo do palacete, e immediatamcnte arderão os bombões, communicando-se o fogo ao . edifício. Houve um estampido estrondoso, uma explosão violenta, que annunciou á cidade o desastre que acontecia ; as grades do palacete saltarão á grande distancia, decepando uma arvore visinha ; os vidros do paço do Scnailo, de diversas casas da praça e ruas adjacentes esta- larão : a violência do incêndio tornou inútil o auxilio das bombas, e
(1) Veja no vol. 32 da Revista do Instituto Histórico a noticia histórica intitulada a Constituição do Brazil.
o RIO DE JANEIRO 17
assim eiitregou-se o edifício ás labaredas, e collocarão-se sentinellas em circulo para cunier o povo. Havia dentro do palacete um barril com uma arroba de pólvora, cinco mil e tantos foguetes do ar, duas mil e tantas peças de fogo de vistas, uma illuminaçcào de varias cores d e dez mil e tantas luzes, cincoenta libras de chlorato de potassa, vinte de nitrato de stronciana e vinte de nitrato de barita, e por isso terrível devera será explosiào.
Salvarão-se, saltando pelas janellas, poróm ficarão fe ridos, Fran- cisco Rodrigues Lima, Joaquim Baptista Perigrino e os escravos Paulo, Cypriano, Simplicio e Severino, que fortào rcmettidos para o liospital do quartel do campo ; perecerão José da Costa Veflio, seu íilho Cândido José da Costa, e o director Francisco de Assis Perigrino que, conseguindo saltar por uma janella, foi nesse momento esma- gado por uma parede que desabou.
O guarda nacional Piicardo José de Figueiredo, que estava de sentinella no palacete, escapou, mas ficou ferido nas costas ena perna.
Logo que teve noticia do desastre o Imperador enviou uma guarda de archeiros para o lugar do sinistro, e ordenou que á custa de seu bolsinho se fizesse o enterro de Francisco Perigrino, que no dia seguinte foi sepultado na igreja de Santo António, dedicando-lhe o poeta Teixeira e Souza uma linda poesia, que termina com estes versos :
líonrai-lhe, honrai-lhc a campa e uma lagrima, Dai-lhe um ai de saudade, ellc o merece.
Em signal de sentimento o Imperador não quiz visitar as luminá- rias na noite desse dia.
Edificado na praça, do lado do edificio do Senado, tinha o pala- cete, que o fogo consumio, a fachada voltada para o edificio do quartel.
GOVERNADORES E VICE-REIS DO RIO DE JANEIRO, GOVERNO DA MONARCHIA.
ReinaíKio D. Juào III em Porlugal, dirigio-sc á F.ahia do Rio lic Janeiro uma expedição francoza sob o commando do vice almirante da Bretanha, Nicoláo Durand de Villegaignon, qne, saliindo do Havre, então Franciscopolis, era G de maio de 1555, chegou a este porto em l-i de novembro, e desembarcou no iíhéo chamado Lage. Situado no meio da barra, e balido continuamente peias ondas, não era esse ilhéo lugar próprio para ura desembarque, e por isso buscou o almirante uma ilha próxima á terra, de quasi mil pós de circumfe- rencia, chamada poios indígenas Serigipe, e nella estabeleceu-se, erigindo um forte, a que deu o nome de Coligny, assim como á ilha ; porém, mais tarde, foi conhecida com o nome de Villegaignon, que ainda conserva.
Nessa ilha, cercada de cachopos, levantarão os Francezcs casas de páo apique, e cobertas de palha pnra sua residência, pois tenciona- vão demorar-se, estender suas conquistas ao continente, que devia receber o nome de França Antartica, e elevar na praia fronteira á ilha, uma cidade denominada Henri\ilie, em homenagem ao rei Henrique II de França.
Tnirão-se os Francczes cm estreita alliança com os naturaes do paiz, tratando-os com humanidade, e respeitando suas crenças e cos- tumes ; mas severo e rigoroso mostrou-sc Villegaignon com os seus
tíO (1 um nR JANEIRO
conipalrioliis, iiào loliMaiido ilcllos a mais leve lalla do (lisciplina, ou o osíjuecimonU» do luonor prcceilo da religião calvinista. K Ião pesado toniou-sc seu governo, tão excessivo seu rigor, que alguns dcscon- lenles ousarão altear a fronte para repellir o captiveiro ; porém sobre os culpados caliio a pesada mão de ferro do almirante, que da posteri- dade mereceu o nome de Caim da America.
ilecoberàoos Frauce/.es do Rio do Janeiro soccorros de França, e de dia para dia angariavào a amizade dos lillios do paiz.
Para repellir inimigo tào ousado saliio Mcm de Sá da Bahia, c chegou ao Rio de Janeiro em 21 de fevereiro de Í5G0; mas já nào encontrou Villegaignon, que, com o fim real ou supposto de obter re- forços, abandonara seus compatriotas, h.i oito para nove mezcs ; inti- mou aos Francezes do forte que se rendessem, c nào sendo, porém, obedecido, rompeu as hostillidades contra as fortificações inimigas que, no fim de dous dias e duas noites de fogo, abrirão brecha, pcrmittindo o desenUiarque aos soldados portuguezcs, cujo primeiro cuidado, ao pisar em terra, foi elevar preces a Deus pela victoria, celebrando o sacrificio da missa dous jesuítas.
Arrasado o forte, e recolhida a arlilheria aos navios, cmbarcou- se Mem de Sá, e para nào enfraquecer suas forças dividindo-as, vele- jou com todos os seus soldados para a cidade da Bahia.
Vencidos, porém não repellidos do paiz, tratarão os Francezes, logo que virão longe as náos portuguczas, de elevar novas fortifica- ções nas aldéas de Uruçumirim e Paranapucnhy, a primeira junto ao rio Carioca, hoje Caltete, na praia do Flamengo, o a seg-indana ilha do Governador.
Desejando afastar da America tão valente e persislontc inimigo, enviou o rei de Portugal o sobrinho de Mem de Sá, Eslacio de Sá, com dous galeões carregados de petrechos bellicos. Chegou este capi- tão a Bahia, e alentado com as instrucções de seu tio, partio logo l)arao Espirito-Santo, onde colheu sorcorros ; avistou nos primeiros diasde fevereiro de loíV"), o penhasco do Pão de Assucar (1); desem-
(l) Este escarpado e alto penedo, extremo de uma extensa cordi- lUeira, er.i,'iic-se 91 braças p<;rpeudiciilarmenle na ponta da oiUrada da barra, servindo de pliarol diurno aos navegantes, que buscão o
o RIO DE JANEIRO 21
liarcou junto delle, lortilicouse, c lançou alli os fundamentos da nova fidàde, que denominou S. Sebastião, eijQ honra do monarclia por- tuguez ; nomeou para juiz ordinário àa nova povoação a Pedro Mar- tins Namorado, e para alcaide-mór a Francisco Dias Pinto, elegendo outros officiaes.
Em todo o anno de 1565 houve entre os fundadores da nova ci- dade e os Francezes e indigenas continuados combates, repetidas escaramuças e frequentes correrias, que embaraçarão o augmento das fortificaciJes, pondo era imminente perigo o estabelecimento dos Portuguezes, cançados de tão amiudados choques e pelejas, e despre- venidos de viveres e munições de guerra.
Para livrar seu sobrinho da arriscada posição, em que se achava, sahio Mem de Sá da Bahia, e soltando as velas ás náos, appareceu no Rio de Janeiro em 18 de janeiro de 1567 ; dons dias depois ata- cou a aldêa de Uruçumerim, onde travou-se renhido combate, do qual sahirão os Portuguezes victoriosos ; mas entre os feridos estava o va- lente Estacio de Sá, que, tocado no rosto por uma fiecha hervada, sobreveio-lhe alguns dias depois a morte, sendo sepultado na ermida, coberta de palha, que erguera ao padroeiro da recém povoação, co- nhecida mais tarde com o nome de Villa Velha (2).
Vencido o inimigo mudou Mem de Sá o assento da cidade para o morro, que mais tarde se chamou do Casteilo, abandonando a povoa- ção da Villa Velha, cujas choças de toscos ramos e palmas seccas, pouco c pouco desapparecerão.
Levantou Mem de Sá' as primeiros fortificações da nascente ci- dade, e entregue o governo delia a Salvador Corrêa de Sá, singrou para a Bahia, onde falleceu, merecendo as bênçãos da pátria.
porto ; recebeu seu nome pel.a semelhança com as formas de barro, onde se coalha o caldo da canna, já purificado e feito cm melado: para se reduzir á assucar.
Diversos estrangeiros têm subido a este penhasco ; em 23 de abril de 18G3 subirão-o dous ofuciaes da marinha ingleza ; hastearão uma bandeira no cume, e á volta, tendo-se transviado, pernoitarão na montanha, cuja base alcançarão ás 9 1/2 horas da manhã do dia seguinte.
(2) Veja o capitulo em que so trata da igxvja parochial do Sacra- mento.
'1'2 o Rid nr, .lANF.ino
Nii i;(iviTii:ii_à(i de Siilvador Cdrivo, ilo 1508 a \~ú'l, lovo o Rio de .lanoiro imjiíiIo aiii;iiiPH'o ; ostoiídou-so cm lodo o niorm o var/.iM adjacriUo, prriiiitlindo o govoniaiior aos moradores edificarem, onde Item lhes parecesse, sem algum oulroomis do que o livre arhilrio de rada um ; no cciilro da povoação ergueu um modesto templo ao pa- droeiro da cidade, que em breve foi abençoada por diversas ermidas levantadas pelo fervor religioso dos habitantes.
Succeilcu-lhe no governo Ghristovão de Barros, que gover- nou alé l"ii\, rreando-se em seu tempo a prelazia do Uio de Ja- neiro.
Dividi(hi o ISrazii cm dous governos em 1573, lornou-sc o Rio de Janeiro residência dos governadores do Sul, para onde foi nomea- do o desembargador António Salema, que se achava em Peinainhuco com alçada.
Reunido de novo, em um só, o governo do Brazil, foi secfunda vez eleito governador do Rio de Janeiro Salvador Corrêa de Sá, que já em 1Õ78 exercia esse cargo, no qual conservou-so vinte c uni annos
Para snbstituil-o elegeu o rei a Francisco de Mendonça e Vas- conccUos, que conservou o gov.v-n.i ali' !7 de jiillio do 1002, eni (\w tomou posso Martim de Sá.
Em IGOS veio governar o Rio de Janeiro Alíonso de Albuquer- que, que lançou a primeira pedra do convento de Santo António, e governou ati; 23 de novendiro de 101-4, em que entrou de posse Constantino de Menelau, que expellio os Francezes do Gabu-Frio, e começou a povoar esse lugar.
Principiou a governar eu) 10 de juihn de IG17, Rny Vaz Pinto, que foi despótico, opprimio o povo, c em proveito seu inlroduzio o conimcrcio de negros africanos, empregando-os em carregar e des- carregar os navios que vinhão a este porto.
Em 20 de junho de 1G20 teve começo o governo de Francisco ['""ajardo, o qual durou até 1G23, sendo substituído pur Marlim t\o. Sá, que, pela segunda vez merecera esse cargo, cm roinuneraçào di; seos serviços ; fortificou a ciilade, levantando trindieiras e forliíica- oõcs por temer a invasão dos Ilollandezes, que havião atacado a Rabia, e falleceuem 10 de agosto de KJdH, tendo sepultura na igreja do Carmo.
Provido no governo do Rio de Janeiro, pelo governador geral
o RIO DE JANEIRO á3
do Brazil, começou Piodrigo de Mirandu ilenriques a governar em 13 de de junho de 1G33.
Recebeu o governo em 3 de abril de 1637 Salvador Corrêa de Sá e Benevides que,ausentando-se para visitar as minas, por ser admi- nistrador geral delias, deixou a capitania entregue a Duarte Currèa Vasques em 10 de março de 164:2, o tjual conservou-se cerca de um anno.
Em 27 de junho de 1643 começou a administração de Luiz Bar- balho Bezerra, que falleceu em 16 de abril de 1644, tendo sepultura na igreja dos jesuítas, no Castello.
Elegeu a camará para governador a Francisco de Souto Maior, que tomou posse em 7 de maio de 1644 ; mas pouco depois Ibi enviado pai"a Angola, e lá falleceu.
Veio segunda vez governar o Rio de Janeiro Duarte Corrêa Vas- ques em 27 de março de 1645, tendo em seu tempo esta cidade o titulo de leal.
Parasubstituil-o foi nomeado pela segunda vez Salvador Corrêa de Sáe Benevides,que, começando a reger a capitania em 16 de janeiro de 1648, foi enviado a Angola em 12 de maio, vindo pela terceira vez governar a capitania Duarte Corrêa Vasques como governador interino.
De 25 de janeiro de 1649 data o governo de Salvador de Brito Pereira, que pereceu era 20 de junho de 16õl, tendo jazigo na igreja do Carmo ; e um anno antes, em 23 de maio de 1650, fallecera Duarte Corrêa Vasques, que foi enterrado na igreja dos jesuítas.
Nomeado interinamente pela camará, veio governar, em 19 de agosto de 1651, António Galvão até 3 de abril de 1652, em que chegou D. Luiz de Almeida Portugal que, depois de cinco annos e nove dias de administração, foi substituído por Tliomé Corrêa de Al- varenga governador interino, c natural do Rio de Janeiro.
Eiii 17 de outubro de 1659 teve principio o terceiro governo de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, que partindo em outubro do anno seguinte para S.Vicente a inspeccionaras minas, deixou em seu lugar a Thomé Corrêa de Alvarenga ; mas o povo amotinou-se, depoz, e prendeu Alvarenga, e outras pessoas das mais qualificadas da ci- dade, e de acordo com a camará, elegeu para governador aAgostinlio Barbalho Bezerra, obrigando-o, sob pena de morte, a aceitar o cars:o.
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Cabendo Salvador Corroa a revolta, que houvera no Rio de Ja- ueu-o^ chamou os Paulistas a seu pnrlido, puWicou um bando.per- doaudoaos revoltosos, e ordenando que Âgostmho Barbalho cont,- nuasse no governo, mas como delegado seu e não do povo ; pelo que a o>-rmi de«oz a Agostinho Barbalho eui 8 de fevereiro de 1Ô61, e Uinio o governo- Cedo,porêm, reconheceu que procedia mal, e era 11 de abril de 1661 encarregou do governo interino a João Corrêa de Sá, filho de Salvador Corrêa.
Emá9 de abriUe 166-2 é substituído Salvador Corroa de ba e Renevidespor D. Pedro de Mello, que regeu a c.npiUmiíi até 19 de ::m de l666, em que veio rendel-o D. Pedro de M ^ -rie quatro annos, leve por sii ^ ^ . lô-se o dia e raez em que este tomou posse
^1 1610, e o dia e o mez em 1675 era que succeden-lhe Malhi;is da C-eiiha, que peremi na Rihia, se . ' - ' ' ■* ^l ''í» Bra?>í •
^^ '^ ^3 niaiô de 1679 p: , . '•- ^- Manoel
I dou, nmií» á ilha de S. Gabriel, a foru.'iv^, que deu
Na ajisíiida de ú- Manoei Lobo
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Em 1 7 de abril de i 090 principiou o governo de Luiz Cezar de "^ ipzes, que durou até 25 de marro de 1093, dia da posse do go- ^ lador António Paes de Sande ; mas este por seus achaques passou I irgo era 7 de oulubrode 1091 ao Irlandez André Cuzaco, nomeado j I governador geral do Brazil, e em ^'2 de fevereiro de 1095 pe- I eu, sendo enterrado nocollegio dosjesuitas.
Em 17 de abril de 1095 começou a exercer o cargo de gover- I lor Sebastião de Castro Caldas, que foi quem remetleu para Porlu- '- a amostra do primeiro ouro descoberto pelos Paulistas nos sertões > Minas-Ceraes ; fundarão-se nesse tiMiipM as povoações de .Macacú, ' :.»ssú, S. Gonçalo, Campo Craipli', Pinlaiie e Magé.
Em 2 de abril de 1097 veio Arlhur de Sá e Menezes, o primeiro
I leve patente de capitão general, sendo que seus antecessores lia-
\ .) governado com a patente de capilAo-mõr. Indo visitar as minas
I S. Paulo, licou regendo a capitania Marlim Córnea Vasques, e
entando-se segunda vez para Minas, teve o governo interino Kran-
< 10 de Castro de Moraes.
Em 15 de julho de 1702 entrou no governo D. Alvan» da Sil- \ ra e Albuquerque, que deu principio a casa da alfandega.
Veio em 1° de agosto de 1701 D. Fernando Martins Mascare- is de Lencastre, que i i Minns para bater os eiuboadas ; ' í encontrando forte o\\ . i para S. I'aulo. donde reií cessou |:a o Rio de Janeiro, sem nada haver feito.
Na 'sua ausência governarão o Riu de Janeiro o bispo I). Fran-
< 10 de S. Jeronymo, ons nieslrcs de campo Marlim Corrêa Vasques Oregorio de Castro de .Moraes.
Em 11 de junho de 1709 principiou a governar António de AI-
juerquc Coelho de Carvalho, que partio para Minas para bater • revoltosos, que sujeitaruo-se; mas os Paulistas, desejosos de agança pelas traições, que havião soíTrido dos eraboadas, não
londerão ao governador, que vio-se coagido a voltar para o it de Janeiro. Então enviou para Minas o mestre de campo y egorio de Moraes com duas companhias de linha, e escreveu aos iiulistas offertando-lhes o retraio do rei D João V para signili-
i-lhes que o rei os visitava e segurava-lhes o perdão régio.
Applacarão-se os Paulistas, e reconhecendo o governo da metro-
le a necessidade de haver um governo especial naquellas capitiinias,
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Sabciiilo S.ilvailor lloi-iva a rcvoll;!, qiio hoiivora no Hio ãc Ja- neiro, cliaiiinii os Paulistas a sen jiarLido, piililicoii iiiii liaiuU) pcr- (loamlo aos rovullosos, o ordoiiaii.io que Agostinho Barbailio conti- nuasse no governo, mas como delegado seu e nào do povo ; pelo que a camará depoz a Agostinho Barbalho em 8 de fevereiro de lOGl, e assumio o governo. Cedo, porém, reconheceu que procedia mal, o em 11 de abril de lOGl encarregou do governo interino a Joào Coriva de Sá, lilho de Salvador Corrca.
Imii :20 de abi-il de 1002 é substituído Salvador Corrr-a de Sá e Tienevides por D. i*edro de Mello, que regeu a capitania até 19 de maio de lOOG, em que veio rendcl-o D. Pedro de Mascarenhas, que tendo governado cerca de quatro annos, teve por successor João da Silva e Souza; ignorando--se o dia e mez em que este tomou posse em 1070, e o dia e o mez em 1075 em que succedeu-lhe Matliias da Cunha, que pereceu na Bahia, sendo governailor geral do Brazil.
Em 9 de maio de 1079 principiou o governo de D. Manoel Lobo, que íundou, junto á ilha de S. Gabriel, a fortaleza, que deu origem a colónia do Sacramento ; e atacada alguns mezes depois essa fortaleza por D. José Garro, governador de Buenos-Ayres, foi tomada, arrasada c D. Manoel Lobo preso e levado para iiuenos-Ayres, onde morreu.
Na ausência de D. Manoel Lobo íicara com o governo João Ta- vares Pioldon, que depois de haver regido a capitania pouco mais de um anua, renunciou o lugar, vindo substituii-o, em Í28 de janeiro de 1081, o mestre de campo Pedro Gomes.
Em 3 de junho de 1682 veio nomeado para succeder-lhe Duarte Tei.xeira Chaves com uirisdicção sobre todas as capitani:is do Sul, semlo encarregado de reparar a colónia do Sacramento, que por um tratado voltara ao dominio de Portugal ; de feito em O de janeiro de 1083 parllo o governador para aquella colónia, deixando o governo ao senado da camará, que conservou-o até 13 de junho do mesmo anno.
Em 22 de abril de 1080 começou a administrarão de iMirtado de Mendonra que, depois de pouco mais de três annos, foi substitiiido por D. Erancisco Naper de Lancaster, em 24 de junho de 1089, go- vernailor interino, em virtude de uma carta régia que encarregara-o deste governo, iMiupianto não chegasse o governador cHectivo.
o RIO DE JANEIRO 25
Em n de abril de IGOO principiou o governo de Luiz Cezar de IVÍenezes, que durou até 25 de março de 1G93, dia da posse do go- vernador António Paes de Sande ; mas este por seus achaques passou o cargo em 7 de outubro de 1G9-Í ao Irlandez André Cuzaco, nomeado pelo governador geral do Brazil, e em 22 de fevereiro de 1695 pe- receu, sendo enterrado no collegio dos jesuítas.
Era 17 de abril de 1695 começou a exercer o cargo de gover- nador Sebastião de Castro Caldas, que foi quem remetteu para Portu- gal a amostra do primeiro ouro descoberto pelos Paulistas nos sertões de Minas-Geraes ; fundarão-se nesse tempo as povoaçijes de Macacii, Iguassú, S. Gonçalo, Campo Grande, Piedade e Magé.
Em 2 de abril de 1697 veio Artlmr de Sá e Menezes, o primeiro que teve patente de capitão general, sendo que seus antecessores ha- vião governado com a patente de capitão-mór. Indo visitar as minas de S. Paulo, ficou regendo a capitania Martim Corrêa Vasques, e ausentando-se segunda vez para Minas, teve o governo interino Fran- cisco de Castro de Moraes.
Era 15 de julho de 1702 entrou no governo D. Álvaro da Sil- veira e Albuquerque, que deu principio a casa da alfandega.
Veio era 1° de agosto de 1704 D. Fernando Martins Mascare- nhas de Lencastre, que partio para Minas para bater os emboadas ; mas encontrando forte opposição, foi para S. Paulo, donde regressou para o Rio de Janeiro, sem nada haver feito.
Na «sua ausência governarão o Rio de Janeiro o bispo D. Fran- cisco de S. Jeronyrao, eos mestres de campo Martim Corroa Vasques e Gregório de Castro de Moraes.
Em 11 de junho de 1709 principiou a governar António de Al- buquerque Coelho de Carvalho, que partio para Minas para bater os revoltosos, que sujeitarão-se; mas os Pauhstas, desejosos de vingança pelas traições, que havião soffrido dos emboadas, não attenderão ao governador, que vio-se coagido a voltar para o Rio de Janeiro. Então enviou para Minas o mestre de campo Gregório de Moraes com duas companhias de linha, e escreveu aos Paulistas oííertando-lhes o retrato do rei D, João V para signiíi- car-lhes que o rei os visitava e segnrava-lhes o perdão régio.
Applacarão-se os Paulistas, e reconhecendo o governo da metró- pole a necessidade de haver um governo especial naquellas capitanias.
-JG o lUU DK JANKIlUt
por caria ilo .'{ de novembro de 1709, desnicmbroii-as da do llio de Janeiro, e para primeiro governador de S. Paulo e. Minas foi esco- lhido António de Albuqueniue Coelho de Carvalho.
Fitou com o governo interino do llio de Janeiro Gregório de Moraes que, em UO de abril de 1710, enlregou-o a seu irmào Fran- cisco de Castro de Moraes.
Km 1710 foi a cidade invadida pelos Francezes.
Kmbarcando-se cm Brcst com mil homens em cinco navios cuma balandra, dirigio-se João Francisco Duclerc ao Púo de Janeiro, desem- bafcou em Guaraliba em 11 de setembro, avançou para a cidade, onde entrou e:n 19 desse mez pela azinhaga de Matacavallos, tendo solírido na lagoa da Sentinella ataque vigoroso de Bento do Amaral Gurgel, que arrigemenlara seus estudantes para repellir o inimigo ; ao descer o morro do Desterro, (Santa Thereza) forão os Francezes investidos por ^00 paisanos guiados pelo religioso frei Francisco de Menezes, que matou e ferio a muitos. Fortificado no largo do Rosário, iiào moveu-se o governador da praça Francisco de Castro de Moraes, deixando o inimigo peneirar no coração da cidade, c avançar até á iiia Direita, onde atacou o palácio do governador e a alfandega ; mas houve ahi quem desalírontasse os brios nacionaes ; os estudantes do lícnto do Amaral Gurgel, o povo e o mestre de c.:mpo Gregório de Moraes, á frente de seu terço, fizerào resistência aos invasores, ca- hindo ferido no ardor da peleja o valente Gregório de Moraes, que deu a vida pela pátria, protestando contra a inépcia e covardia do governador, seu -irmão.
Accomettido por forças superiores ás suas, e perdida a espe- rança -da victoria, tuniou Duclerc o trapiche chamado da cidade ou de Luiz da Moita, para ahi fortificar-se ; do que sabendo o governador, animou se a avançar com as tropas, e ordenou ao chefe francez se rendesse ; assentio este na tarde do mesmo dia 19, entregando-se prisioneiros elle e 040 Francezes, entre os quaes 200 feridos, lendo tido iOO mortos, e da parte dos Portuguezes 50' mortos e 80 fe- lidos.
Duclerc e alguns officiaes furão enviados para o collcgio dos jesnilas, e os soldados com grilhões e seiítincllas ú visla remellidos para a cadra, casa da moeda e conventos. Em festejo á victoria cele- brou-se um Te-lkum, fizerão-se procissões, c declarou-se o dia 19 de
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sclembro, em ([iie a igreja reza de S. Januário, festivo dos muros da cidade para dentro.
Tendo a cidade por menagem, e residindo em uma casa da rua de S. Pedro, íoi Duclerc assassinado em 18 de março de 1711 por dous embuçados que, apezar da sentinella, penetrarão na habitação e, coramettido o delicto, desapparecerão. .
Cedo voltarão os Francezes para vingarem a aíTronta recebida com a derrota e assassinato de Duclerc.
Sahio em 9 dejunlio de 1711 do porto da Rochella uma expe- dição de 18 velas com 3,000 homens de desembarque, commandada por Duguay-Trouin, e em 12 de setembro appareceu na barra do Uio de Janeiro, onde entrou perdendo no ataque das fortalezas 300 ho- mens.
O fraco commandante das náos portuguezas ancoradas no porto, Gaspar da Costa, appellidado o Maniquez,não tendo coragem para re- sistir ao inimigo, lançou fogo a seus navios ; dando-se um incêndio no paiol da pólvora na fortaleza de Villegaignon, perecendo no sinistro 2 officiaes e muitos praças, cessou esta fortaleza o fogo contra o ini- migo que, encontrando abandonada a fortaleza da ilha das Cobras, occupou-a, causando dalli muito damno a cidade.
Desembarcou no dia seguinte na praia do Valongo o exercito invasor dividido em Ires columnas de três batalhijes cada uma, comman- dada a da vanguarda pelo cavalheiro de Goyon, a da retarguarda pelo cavalheiro de Courserac e a do centro por Duguay Trouin, que es- colheu o palácio episcopal para seu quartel general.
Apoderou-se o inimigo dos lugares imminentes, dos pontos mais importantes da cidade, sem encontrar resistência, pois, corno na pri- meira invasão, permanecia o governador Francisco de Castro no largo do liosario, sem nada emprehender, e sem alentar o valor e denodo dos soldados ; haviào as fortalezas emmudecido, e estando o inimigo senhor da cidade, resolveu o povo fugir salvando o. que pudesse ; c ciilão forão incendiadas uma náo e duas fragatas ancoradas próximo ao morro de S. Bento, e diversos armazéns e trapiches da cidade.
Intimando o vencedor a Francisco de Castro que entregasse a praça á mercê de el rei de França, recusou-se o governador, de- clarando que a defenderia até á ultima gotta de seu sangue ; mas sem mover-se dos arraiaes, occupou-se em reunir um conselho, no qual
-iH '» lUn KE JAiNEIUii
determinou deixar a cidade, e de feito o fez precipitadamente com toda a tropa de liidia, fugindo para a fazenda do Engenho-Novo.cdalii para Iguassii.
Causou grande confusão e terror ao povo a noticia da fuga do governador e tropa, e eulào aterrados e espavoridos refugiarão-se os habitantes no interior, desprezando suas casas e haveres ; a noite estava tenebrosa, o vento destelhava as casas, a chuva inundava as ruas, amiudavào-se os relâmpagos e trovões, troava a artilheria ini- luiga, e o povo corria apavorado vendo contra si o céo e os homens ; c lamentavíio os filhos aos pais, os irmãos ás irmãs, as mais aos filhos, que exânimes cahião na estrada.
Ao amanhecer do dia 21 a cidade, quasi deserta, era preza dos Francezes, que saquearão-n'a, não attendcndo aos gemidos, que parlião dos peitos, o ás lagrimas que' rcsuraavão nos olhos dos vencidos.
Em vez de combater para vingar os ultrages e soffriraentos do povo, aceitou Francisco de Castro covardemente as propostas do al- mirante francez para o resgate da cidade, que foi ajustado em 010,000 cruzados, WO caixas de assucar e 200 bois.
No diá 13 de novembro fizerão-sede vela os Francezes, lendo conservado a cidade em seu poder 4i dias.
A casa da uioeda, os cofres da fazenda, dos orphàos, dns au- sentes, da bulia, dos padres da companhia, dos religiosos de S. Bento e de diversos particulares concorrerão com- dilTerentes quantias para rcalizar-se o pagamento aos Francezes, que, segundo consta, elevarão seu esbulho a 72 milhões de cruzados, excedendo a 30 as perdas e prejuizos do Estado.
Mas tão copiosas riquezas não forão aproveitadas ; a maior parle licou. sepultada no oceano, que desarvorando os navios dos inva- sures da cidade de Eslacio de Sá, submergio a muitos delles.
Foi entregue o governo da praça a Anlonio de Albuqucr(iue,quc chegara de Minas, cora algumas forças, estando já feita a negociação com os Francezes ; e quanto a Francisco de Castro de Moraes, aberta devassa contra elle, foi condemnado a degredo e a prisão perpetua em uma das fortalezas da índia ; forão sentenciados outros ofliciacs, e enforcado em estatua, pur acliar-se ausente, o capitão da lurlaleza de S. .loào, que apressadamente reudeu-se ao inimigo.
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Era 7 de junho de 1713 succedeu a António de Albuquerque o governador Francisco Xavier de Távora, que visitou as minas do Sul, e por questões com o senado da camará pedio sua demissão, e reco- Iheu-se a Lisboa, entregando o governo em 1716 a Manoel de Aí- raeida Casiello Branco, que regeu interinamente a capitania até 27 de junho de 4717, era que tomou posse António de Brito e Menezes; mas fallecendo este era 1719, e sepultado no collegio dos jesnitas, veio de novo para o governo o mestre de campo Manoel de Almeida Castello Branco.
Em 18 de maio de 1719 principiou a governar Ayres de Salda- nha e Albuquerque Coutinho Mattos e Noronha, que foi a Santos para visitar as minas, e conduzio á cidade as aguas da Carioca ; sendo sub- stituído em 10 de maio de 1725 por Luiz Vahia Monteiro, que a prin- cipio governou bera, mas começando a soffrer do juiso, entrou era desavenças com a camará, usurpando-lhe attribuições, e também com a justiça, executando os moradores da cidade sem procedência de crime ou culpa formada ; continuando o mal do governador, foi elle deposto pela camará em 1732, e falleceu era 19 de setembro de 1733, sendo enterrado no convento de Santo António.
Deu-lhe o povo a alcunha de onça, que tarabera sérvio para deno- minar o tempo de seu governo, e desde então tornou-se commum a phrase — isto é do tempo do onça — para declarar-se que qualquer cousa era antiga.
Recebera o governo interino da praça era 1732 Manoel de Freitas daFonseca, que conservou-o até 26 de junho de 1733, em que iniciou Gomes Freire de Andrade a sua governação que durou trinta annos ; edificou o convento de Santa Thereza; erigio ura chafariz de pedra mármore no largo do Palácio ; reconstruio o aquedncto da Carioca, e fi3z a dupla ordem de arcaria de volta inteira, que conduz a agua deste aqueducto desde. o raorro de Santa Thereza até o de Santo An- tónio; recolheu os lázaros em duas casinhas era S. Christovão, e lan- çou a primeira pedra da cathredral do Rio de Janeiro ; creado o tribunal da Relação, em 16 de fevereiro de 1751, pôl-o em execn- çãoem 15 de junho de 1752, sendo elle o primeiro presidente e re- gedor.
Em virtude das ordens do marquez de Pombal cercou o collegio dos jesnitas era 3 de março de 1760, prendeu-os, e no dia 16 enviou-os
30 o iiKi ni: .lANTino
par:i Pdfliiguljoncarrcgado do governo doS. Paulo (! Minas drií-llie co- mpçocm l2l) do marro de 1735,6 em llõ^í embarcou para o Sul como plcnipolonriario do rei de Portugal para dar execução ao Iralado de limilos.
Keunidos alguns lilteratos em seu palácio celebrarão, solt o nome de Felizes, uma sessão littcraria em Ode maio de 1730 ; (! talvez dessa reunião partisse a idv-a da creação da academia dos Selectos, que celebrou a primeira sessão em 30 de janeiro de 175'2 no mesmo
palácio.
Dessa associação nasceu a idéa de estabelecer- se uma typographia no Rio de Janeiro, que foi a primeira que aqui bouve, pertencente a António Izídoro da Fonsecar mas pouco durou, porque a corte man- dou abolil-a,e queimal-a para não propagar idóas, que podião ser con- trarias ao interesse do Estado. (1)
Em 17Õ8 obteve Gomes Freire de Andrade o titulo de condo de Bobadella, e, além desta lionra, alcançarão elle e seu irmão, Josó António Freire de Andrade, muitas outras.
Escrevendo ao conde de Oeiras, dizia Gon.es Freire «'IVabal lia- remos por nos fazer dignos da menor parte de tantas lionras, c protesto até o ultimo alento de vida sacri[ic:il-o no real serviço. » E cnmprio sua palavra.
Permillio o rei que se coUocassc o retrato deste fiel servidor no paço da camará.
Cbegada era 5 de dezembro de 1702 no Rio de Janeiro a noticia da perda da colónia do Sacramento, da qual se apoderara D. Pedro Cevallos, em ^20 de outubro daquoUe anuo, pela capitulação do go- vernador Vicente da Silva da Fonseca, sen tio o conde de Bobadella lanto pezar etão sentido ficou por imprestar-lhc o corpo do commer ■ cio, ferido cm seus interesses, a culpa deste acontecimento, que caliio no leito, do qual se não levantou mais ; baldados forão os soccorros da medicina, porque profundo era o abatimento moral do distincto ser- vidor do Estado, tendo-se offendido seus brios, e duvidado de seu zelo
0) Veja a Memoria Origom e Desenvolvimento da imprensa no Rio df Janeiro irapreisa no tomo 2-S, pag.lGU da Revista do Instituto His- tórico.
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e virtude. Concorreu também para compungil-o a noticia de terem sido destroçadas as duas embarcações inglezas Clive e Arabuscade. que em 20 de novembro de 1762, mandara em auxilio da colónia.
Pereceu o conde de Bobadella em 1 de janeiro de 1703, e deposi- tado o cadáver em uma das salas do palácio, vierào os benedictinos cantar um responso na tarde daquelle dia, e no seguinte houve os funeraes, sendo o corpo enterrado no presbitério da igreja de Santa Thereza, não se abrindo epitaphio sobre seu tumulo, como elle pedira.
O illustre monge benedictino frei Gaspar da Madre de Deos recitou uma oração fúnebre, e segunda vez subio ao púlpito, era 22 de ja- neiro, nas exéquias celebradas pelo abbade de S. Bento.
Nào se perdera a colónia do Sacramento por culpa do conde de Bo- badella, que fizera grandes esforços para defendel-a ; escrevendo ao conde de Oeiras em 28 de abril de 1762 dizia :
((.\ praça da Colónia é o grande osso e cuidado deste governo ; Deos me ajude era tão arriscado passo. »
Procurara fornecer vi\?eres e munições áquella praça, tanto que era uma Carta escripta por Vicente da Silva da Fonseca dizia este : « Não me mandem mais farinha ; »
Ora se o governador da praça recusava mantimentos é porque tinha-os em abundância.
O conde de Bobadella de notável estirpe, era dotado de grande força e vivacidade, benéfico, justo, prudente, muito activo no ser- viço da pátria e muito virtuoso.
Mereceu do povo o nome de pai da pátria, e é o heróe do poema Uruguay.
Durante as vezes, era que esteve ausente do Rio de Janeiro, re- gerão interinamente a capitania era primeiro lugar José da Silva . Paes, era segundo Mathias Coelho de Souza, em terceiro José António Freire de Andrade, e em quarto Patricio Manoel de Figueiredo; e quando elle falleceu coube a administração ao bispo D. frei António do Desterro, ao brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim e ao chan- celler João Alberto de Castello Branco.
Transferida em 27 de janeiro de 1 763 a capital do Brazil da ci- dade da Bahia para a do Piio de Janeiro pela importância deste porto, mais próximo das guerras do sul, foi eleito vice-rei em 27 de junho
;í'2 o MIO DE JANEIRO
O i-ondo lia ('linha, U. Anlonio Alvares da C.iinlin, com o soldo de 1-2,000 crti/adus; cliegon a esla capital em 15 do outubro de I7(»8, 110 dia 10 tomou posse do i,^ovcruo, o no dia 27 da iircsideiicia da Relação.
Visitou -as fortalezas fazendo obras imporlanles cm algumas ; con- struio na ilha das Pombas, hoje de Santa Barbara, dous armazéns para deposito de pólvora ; para deposito do armamento ml".;>,ar, que se guardava em uma casa contigua á dos antigos governadores, na rua Direita, edilicou no morro da Conceição uma grande casa com diversas otlicinas de armas; no ponta chamada da Mi- sericórdia construio uma casa para o parque de artilheria, e assim deu principio ao arsenal de guerra; no mesmo lugar levantou um quartel para duas companhias de cavallaria ligeira, creadas cm 31 de janeiro de 17 05 para servirem de guarda aos vice -reis ; mas só se formou uma companhia.
Doara o mosteiro de S. Bento ao Estado, por escriptura de 20 de abril de 1090, o terreno que possuía no principio do morro do Mosteiro para o mar, onde eslavão situados os armazéns da junta do commercio ; nesse terreno estabeleceu o vice-rei o arsenal de Marinha, e construio a náo S. Sebastião, com lindos ornatos de madeira na camará, a qual foi lançada ao mar em 8 de fevereiro de 1707 com melhor fortuna, do que era 30 de janeiro, em que parou no meio da carreira.
Indo quasi sempre ao arsenal activar a construcção da náo, notou que um trabalhador de machado, ao descarregar o golpe da ferra- menta, o suspendera por ouvir soar a primeira badalada do meio-dia; extranhou o vice-rei tal procedimento, e tratou de examinar se esse trabalhador era vadio ; por isso esperou que dessem 2 horas, mas logo que o sino bateu a primeira badalada, o carpinteiro tomou o machado, e desfechou o golpe.
Admirando a pontualidade doartezão, perguntou -llie o conde da Cunlia :
— Quanto ganhas?
— Duas patacas, senhor.
— Pois (içarás ganhando trez, porque sabes servir o soberano.- Executou a carta regia de 28 de novembro de 1008, que prohibio
nesta capitania mais de dous ou trez ourives, a de 20 de setembro de
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1703 ordenando a observância da precedente, que se fechassem as lojas, e se retirassem os instrumentos das que excedessem áquelle numero ; assim também cumprio a ordem de 30 de julho de 1766 que mandou extinguir o ofiicio de ourives nas capitanias do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Minas, fechar as lojas, e recolher os instrumentos delias á casa da moeda.
Abrioa rua do Piolho do Largo da Carioca cá lagoa da Sentinella, que ficava no espaço coraprehendido entre as actuaes ruas do Conde d'Eu, Formosa, c do Areal; ordenou á camará que cobrisse com Inges grossas a rua da Valia, onde o povo lançava toda a iramundicia, prejudicando a saúde pubhca ; consegnio para hospital dos lázaros a casa dos jesuítas emS. Christovão, na qual ainda se achavcão.
Deu principio ao alistamento dos habitantes para formar quatro terços de infanteria auxiliar ; mas não chegou a constituir estes corpos, e apenas realizou a nomeação de alguns ofllciaes.
Para moralisar o povo, augmentar a população e diminuir o nu- mero de vadios, obrigou os jovens a casarem-se, e os que não querião, ião ser soldados; e tão útil foi semelhante providencia, que além do augmento da população, começou a haver muita moralidade e também socego e paz na cidade ; e tal era a confiança, a tranquillidade, em que vivia a população, que nas horas do somno, ficavão abertas as portas das casas. Longe vão esses tempos !
Hoje não ha segurança nas ruas e praças ao sol do meio-dia ; o menor esquecimento de deixar aberta á noite uma janelln, faz a po- licia registrar no dia seguinte mais um furto ou ura roubo ; e mul- tiplicão-se os ratoneiros, os ladrões, porque é insuficiente a força, que deve velar na segurança publica, e ha perdido a autoridade o prestigio das eros antigas.
Desejando manter o paiz em paz, e dar prestigio e força á autori- dade, usou a principio o conde da Cunha de tanto rigor, que todos se aterravão em sua presença.
Junto á guarda do palácio mandou fazer uma prisão chamada da potencia, e junto tá escada do mesmo palácio dous quartos chamados de segredo, para onde ião alguns presos recommendados por elle ; e desse modo tornou seu palácio uma casa de solidão e terror.
Masseovice-reierasevero e absoluto, seus subalternos tornavão-
n'o cruel aos olhos do povo, commettendo abusos e arbitrariedades
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34 o rUO 1)K JANEIRO
om sou noiíic; soube o viço rei iloá abusos pralicailos prlo (illicial da Sala Abíxandre Cardoso de Moiiozes e outros, e tratou de puuil-os, atlondoudi) desse modo ás queixas c clauiorcs do povo.
Krao s.d uui género de coutrai-toreal.mas o contrarlaute para vcu- (b^l-o uiais caro claiidestinauieute, procurou occultar o sal nos ar- mazons; do que tendo noticia o vice-rei, mandou collocar um tronco no largo doi^alacio, e vir á sua presença ocontractante, ao quaI,mos- traiiilo o tronco, dissc-lhc :
— Amanhã o povo ha de ter sal.
i\o dia seguinte appareceu na cidade sal em abundância.
Havia na cidade um tanoeiro chamado Cunlir.,quc era estimado pelo vice-rei, c foi em um anno nomeado imperador do Espirito Santo na festa da igreja de Mataporcos.
Dlrigio-se a tarde o vice-rei á igreja, e subindo os degráos do tlirouo, no qual estava o imperador de sceptro c coroa, f(!z-llic com toda etiqueta a primeira, segunda c terceira cortesia; o imperador Cunha nem se quer se dignou dar um signal de correspondência ao vice-rei que, voltanao-se para os circumstantes, disse :
— O tratante faz bem o seu papel, quando não meltia-liie este itaslãu pela boca.
Celebrava-se outr'ora o jubihki da Porciuncula com muita devoção das pessoas mais gradas do paiz, e o vice-rei, que assistia á solem- nidade no convento de Santo António, costumava dar esmolas aos pobres, ([ue encontrava na ladeira.
Aconteceu uma vez dar, sem examinar, umamoLVlade G^^iOOa um mendigo.
.\u regressar da igreja, disse-lhe o mendigo.
— V. E\. por engano deu-me esta meia dobra. Tomou o conde a moeda, e i'etorquio.
— Enganei-me, era para aquelle ; e entregou o dinheiro a outro pobre.
Desejando uma mulher casada, que entretinha relações illicitas, ver-se livre do marido, foi ao palácio, e declarou ao vice-rei que era maltratada injustamente pelo esposo ; ouvio-a o conde, e logo (p.ie ella i'('llrou-se, ordenou a um soldado que a seguisse para prendel-a juiUaiiiente com o primeiro individuo, com quem ella conversasse.
o RIO DE JANEllíO 35
Caminhava a mulher pelo lorgo, quando sahio-lhc ao cncoiilro um individuo, e pergiinlou-lhe :
— Que disse o vice-rei ?
A mulher não teve tempo de responder porque o saldado prcn deu-a, assim coioo ao imlividuo, que se approximara
Encerrados nos quartos de Segredo, mandou o vice-rei chamar o marido da offendida, e perguutou-lhe :
— Porque maltratas tua mulher ?
— Minha mulher, seduzida por um vadio, falta a seus deveres, senhor.
— E conheces o scductor?
— Sim, senhor.
Mandando buscar o individuo que estava preso, disse :
— Será este ?
— E', e.ulamou o marido cheio de cólera.
Voltou -se o vice-rei para o official da sala, e ordeuou-lhc, iqion- taiido para o adultero :
— Degradado para Angola; c tu, disse para o marido oireudido, leva tua mulher, e com um páo cnsina-lhe a cumprir os deveres de esposa.
Assim procedia o conde da C'uih:), por ser esta a justiça do tempo; rigido c severo não perloava á menur falta ; ncn deixava de applicar rigoroso castigo ao criminoso; mas era magistrado hon- rado ; e tão pobre sahio do governo, que pedio ao ouvidor Ale- xandre Nunes Leal iOOiíiOOO para as despezas da viagem, e che- gando a Lisboa mandou pagar as dividas que fizera no Brazil.
Governou at'"' 12 de novembro de 1707, em que chegou d.iRaliia o conde de Azambuja; partio para Portugal ein2'2 do dezembro, e fal- loceu a 9 de julho de 1791 com pouco mais de 80 annos.
D. António Pioli;n de Moura, conde de Azanbuja, nascido em IH de março de 1709, filho de D. Nuno deMeuilonça e D. Leonnr Maria An- tónia de Noronha, filha do marquez de Angeja, assentou praça em 23 de janeiro de 172G ; nomeado governador de Matlo Grosso tomou posse em 1751, e eiu l9 de março de 1752 creou a povoação cha- mada Yilla Beila ; nomeado brigadeiro cm 1751, e successivamente íçovernador da P)ahia, onde, marechal do exercito, foi eleito vice- rei cm 31 de janeiro de 1767, de cujo cargo entrou em exercirioem
36 o mo nii janeiuo
n lie novonibro do mesmo anno, c governou ale 31 de oulubro de nOO, di;i da chegada do maniiiez do Lavradio.
Levaiilni a segunda companhia de cavallaria da guarda dos vice- reis, disignando os priíicipacs olTiciaes, mas nào organisou a compa- nhia, e nora determinou o numero dossoldados;procurou melhorar as fortificações encarregando ao marechal Diogo Fundi da organisação de alguns planos, porém nada fez por falta de dinheiro o de autori- zarão regia.
Em Lisboa occupou os cargos de presidente do conselho da la- zenda, de conselheiro de guerra, de tenente general das armas da Còrle e Estremadura, e falleceu em 8 de dezembro de 1782.
O terceiro-vice rei foi D. Luiz de Almeida Portugal, Soares d'Eça Alarcão Silva Mascarenhas, segundo marquez do Lavradio e . quarto conde de Avintes.
Também governava a Bahia quando foi nomeado vice-rci; e partindo para o Piio de Janeiro em 11 do outubro de 1769 chegou no dia 31 ; no dia -i de novembro entrou no goso do poder e no dia 7 de presidente da Relação.
Para dar mais segurança a barra construio a fortaleza do Pico á cavalleiro da de Santa Cruz, vencendo muitas difficuldades pela aspe- reza do sitio quasi inaccessivel ; fez reparos nas fjrtalezas da ilha das Cobras, da Lage, nos reductos do Garagoatá e da Boa Viagem, c no forte deS. Thiago ou do Calabouço ; edificou nas montanhas da Co- pacabana a fortaleza do Leme, da qual existem ruinas, e em S. Cle- mente levantou um reducto ; continuou a demídição do monto da fortaleza de Villegaignon, começada pelo conde da Cunha, abrio na ilha uma cisterna e um fosso para isolar a fortaleza; fez alojamentos para a guarnição na fortaleza da Praia Vermelha, e ultimou a da Praia de Fora, á sombra do morro de Santa Cruz, a qual tivera prin- cipio no governo do cjnde da Cunha ; fortificou o monte de S. Bento, e o cume de S. Januário no morro do Caslello ; construio na casa do Trr'in novo armazém para deposito de petrechos de gu;'iT;i, assim como uma grossa muralha do lado do mar e casas para os ofíiciacs arlinces ; regulou as duas companhias de cavallaria da gua^^da dos vice-reis, dando-lhes a mesma lotação de praças que a do re- gimento dos dragões do Rio Grande, d'onde tirou dous capitães para
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cominandar áquellas companhias, que lambem ficarão encarregadas de fazer rondas na cidade.
Alistou o povo, formando três terços de infanteria auxiliar de homens brancos e o quarto terço de pardos, dando a essa milicia dis- ciplina igual a da tropa de linha.
Creou uma fabrica de cordas de guaxima em Mataporcos sob a direcção de João Ilópraan, na qual fizerão-se cordas de differentcs grossuras, quer para embarcações, quer para u3o| de obras particu- culares;mandou vir da Europa bichos da seda,e creando-os nas amorei- ras do paiz, tirou alguns resultados dessa útil diligencia; mas igno- rando-se a creação desses insectos, dirainuio o seu numero, e essa industria não 'progredio ; protegeu a industria, fez prosperar'o com- mercio, de sorte que os navios que até então sahião do Piio de Janeiro qnasi em lastro, ou com alguns couros e assucar, para irem receber carga na Bahia e Pernambuco, poderão sahir carregados deste porto pela abundância de géneros novos que forão apparecendo ; pro- moveu a cultura do anil, do arroz, do linho, da coxonilha, e ini- ciou a do café : cuidou da limpeza da cidade, mandou calçar e lagear as ruas, aterrar os pântanos circumvisinhos, e construir matadouro e curraes na praia de Santa Luzia ; levantou dous chafarizes, um na Gloria e outro era Matacavallos, e abrio desde essa rua até ao campo da Lampadosa, chamado depois do Rocio, a rua que recebeu o nome de Lavradio ; deu novo aspecto as casas da cidade, mandando de- struir os penelros ou grupemos tecidos de palha, que guarneiiào asja- nellas e portas das casas térreas e que, coUocados de dia, erào reti- rados a noite ; removeu do centro da cidaile para o sitio do Valongo os armazéns em que os negros da Africa erão expostos a venda, e com tal providencia afastou da cidade as moléstias contagiosas, que os Africanos espalliavão na população, e tornou povoados os bairros da Saúde, Gamboa e Sacco do Alferes.
Piecolheu á casa da moeda o cofre publico, que um thesoureiro particular, chamado depositário, guardava em sua casa, tornando fácil (1 extravio dos dinheiros publicus ; consegnio que as rendas do se- nado, que não excedião de 9 a 10 mil cruzados, se elevassem ao dobro ou mais, descobrindo bens sonegados qne pertencião-lhe ; pro- tegeu as lettras, creando a academia scientifica, por proposta feita em dezembro de 1771, por seu medico Dr. José Henrique de Paiva; ceie-
38 i> Hio Dl-: ,iam;iiu)
brou a acailomia a primeira sossão cm 18 de lovereiro de 177-2 no palacid (lo vice-rei na prescnra deste e de outras pessoas grudas, sondo eleito presidente o mesmo Paiva c secretario Luiz Borges Sal- gado.
Creada com o lim de desenvolveras sciencias naluraes, medicas c a agrii iilUira, tornou essa associação mais conhecidas na Europa certas plantas do Brazil, e contribuio para a cultura do anil, cacáo, coxonilha, e de outros productos.
Estabeleceu uma leira no largo da Gloria em 15 de agosto de 1771, que seu successor abolio em 1779.
Era o marquez do Lavradio amigo de festas c prazeres, amante do bello sexo, justiceiro, benéfico, e pôde dizer-se que no seu governo teve começo o tbeatro no Rio de Janeiro.
SolTrendo na viagem da Bahia para esta cidade grande tormenta, pedio a protecção da Virgem da Conceição, e prometteu, se chegasse a esta cidade, ir logo orar na igreja daquella invocação ; de feito ao desembarcar, tlirigio-se á igreja do Hospicio, e desde então instituio uma ladainha aos sabbados neste templo, devoção que desappareceu quando ausenlou-se para Portugal.
Partio para Lisboa nn s;;bb ido 10 de junho de 1779; e tendo oc- cupado os cargos de conselheiro de guerra, presidente do desem- bargo do Paço e de tenente general, lalleceu em 2 de maio de 1790 com Gl annus não completos.
Sabida a sua morte no Rio de Janeiro houve solemnes exeipiias na calhi'cdal, orando o padre mestre iVei António de Santa Úrsula Rodovalho.
Paliando deste governador diz o monsenhor Pi/arro :
«Constante na piedade, nem as leisõ fizerão rigoroso, nem a espada sanguinolento, e sabiamente unia o poder com a ternura, e a justiça com a humanidade.»
Aomoado vice -rei e capitão general de mar e terra em :25 de setembro de 1778, chegou Luiz de Vaseoncellos e Souza no Rio de Janeiro em -29 de março de 1779; a fragata de guerra que con- duzia-o .ivislou á barra no d'):irmgo de Ramos, mas entrou no dia seguinte ; em 5 de abril, segiinda-lcira de Paschoa, houve na só a cercmonia da posse-
.Melhorou a praça denominada largo do Palácio, e hoje de D.
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Pedro li, c:\l(;on-a cora solidez e gosto, deii-llie 75 braças de com- primento desde o cáes até ao convento do Carmo e -45 de largara ; removeu p'ira a face do mar o chafariz, que collocado no centro delia, impedia as manobras militares, e humedecia « terreno circuravisinho; mondou construir na mesma praça ura cáes de 105 braças de com- primento, todo de pedra lavrada cora assentos e peitoris de pedra e três escadas e uma rampa para o mar ; e projectava leval-o até a Gloria. Annos depois foi essa obra demolida pela camará municipal, que resolvera levantar outro cáes mais próximo do mar, e hoje é o governo que encarregou-se de semelhante obra.
Preparou materiaes para fazer obr.is no palácio, mas não chegou a realizal-as; construio o Passeio Pnblico, abrio a rua das Bellas Noites, hoje das Marrecas ; fez o chafariz das Marrecas ; reedificou o recolhimento e a igreja do Parto; favoreceu as pesquizas do botâ- nico frei José Marianno da Conceição Velloso ; creou a casa djs Pás- saros, que foi o começo do Museo Nacional ; restabeleceu a academia scientifica fundada pelo marquez do Lavradio e creou uma aula de retho- rica.
Estabeleceu Vasconcellos uma aldêa de Índios, denominada de S. Luiz Beltrão, distante quatro legoas das margens do rio Paraliyba, do lado da Mantiqueira, encarregando um padre de catliechisar os Índios: na aldèa de S. Barnabé, fundada pelos jesuítas em 1584, e que o marquez do Lavradio elevara á villa com o nome de Villa Nova de S. José de El-Piei, sera outra formalidade além da de enterrar entre a igreja e o cruzeiro do adro um padrão de pedra co;n suas armas, levantou era fevereiro de 1787 casa da camará, cadeia, pe- lourinho e nomeou vereadores.
Esta villa da província do Piio de Janeiro, conhecida com o nome de Villa Nova, acha-se hoje decadente.
Por ordem de 9 de junho de 1789 creou a villa de Magé, hoje cidade, distante da Corte pouco mais de sete e meia legoas; no ter- ritório de S. João e Campo Alegre, situado além da serra de Ita- guahy, creou 1-4 companhias de milícias, dividindo a primeira loca- lidade em 5 districtos, e a segunda em 9
Constando ao conde da Cunha que erão exploradas occultamente as minas de ouro existentes era terras aléra da Cachoeira do rio Ma- cacíi, mandara destruir as ítzendas alli existentes, deixando desertas
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estas torras ; mas sendo iiiiUil esta modiíla, e continuando os minas a serem exploradas, entregou Vasconcellos ess:is terras á cnltura, attrahioparaalli a povoação, e fundou um triljuu.il de íiscalisaçào da exploração das minas.
Ilaviào as cartas regias de 20 e 23 demarco de IG88 provi- denciado sobre os castigos excessivos (]nc os senhores applicavào aos escravos, e para dar-llies execução estabeleceu uma casa chamada Calabouço, na praia de Santa Luzi;i, onde os escravos devião ser castigados, porém com reserva e humanidade ; protegeu o com- niercio e a industria, creou uma feitoria de linho cânhamo no Rio Grande do Sul;procurou propagar a cultura da coxonillia, e se mais não fez pelo commercio e industria proveio de não serem nttendidaspelo governo de Portugal as suas representações, como elle próprio se queixa no relatório dirigido a seu successor.
Em seu tempo promulgou-se a carta regia de iõ de janeiro de 1779 elevando o ordenado dos vice-reis a 20,000 cruzados annual- roente, sem mais propinas e emolumentos, que antes se lhes pagavão, aliMii do ordenado de governadores da Relação, que era de OOOy^OOO annuaes.
Governou até O de junho de 1790, que chegou de Lisboa o conde de Rezende; e partindo para a Europa em 30 de junho na fra- gata de guerra Tritão, occnpou em Lisboa diversos cargos, teve o titulo de conde de Figueiró, e lá pereceu.
Succfideu-lhe no governo D. José Luiz de Castro, segundo conde de Rezende, que começou a reger a capitania em 9 de junho de 1700, dando-se poucos dias depois o incêndio do edifici» do se- nado da camará.
Para diminuir as despezas do Estado, ou para molestar João Rodrigues Gago, commandante do regimento velho, supprimio esse regimento creado por Estacio de Sá e Mem de Sá; reparou algumas fortalezas ; collocou na de Santa Crnz uma bateria baixa, e 20 peças ao nivel da b:iteria antiga ; espalhando-se a noticia de um ataque inimigo mnndou levantar fortes de fachina pela marinha da cidade ; fez um no Trem, outro defronte do becco da Musica, outro no ar- senal de Marinha, outro n:i Prainha, no morro do Castello e em outros lugares, e collocou peç;:s de artilheria no adro da capella da Gloria ; para comniandar esses fortes nomeou capitães, tenentes e ai-
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feres sem patente, os quaes obtinhão o titulo de officiaes de fortaleza a troco de dinheiro ; mas com sua ausência desapparecerão esses pos- tos momentâneos.
Projectou continuar o cáes da praça do Palácio pela praia de D. Manoel, e formar alli um dique para embarcaçucs pequenas, mas por ignorância do engenheiro Joaquim Corrêa, ou por outro motivo, não furão avante taes obras, e sob o entulho e arèa do mar ficou soterrada muita cantaria lavrada ; e para acudir a despeza desta obra e da fortaleza de Santa Cruz, deu postos de capitães, tenentes e al- feres por quantias estipuladas, com o titulo de officiaes do cáes.
Emprehendeu aterrar os campos da Lampadosa e de Santa Anna, concorrendo os moradores mais abastados com quantias de dinheiro, pedidas a titulo de obras pias, e o povo com o trabalho de seus escravos ; construio um chafariz era frente ao quartel do Mou- ra ; cobrio o aqueducto da Carioca ; subslituio por conductores de pedra os de ferro, que levavão a agua para o chafariz do largo do Palácio ; arrancou as lages que cobrião o encanamento da rua do Cano, hoje Sete de Setembro, e calçou o meio da rua sobre abobada ; igual obra fez na rua da Valia, até á do Piosario ; recommendou á camará o asseio das casas e ruas da cidade ; abrio a rua dos Inválidos, onde preparou casa e chácara para o asylo de soldados inválidos, donde proveio o nome da rua ; mas no tempo de D João VI essa chácara passou ao domínio do phisico-mór o barão de Alvaiázere ; construio na Prainha em 1798 a fragata Princeza do Brazil ; esta- beleceu uma carreira de botes para a ilha das Cobras a 10 réis de passagem, e perscguio e prendeu os membros da academia scientifica do Piio de Janeiro, conservando-os reclusos dous annos e sete mezes, até que fórão soltos por ordem régia.
Era homem colérico, amante do arbítrio e despotismo, e diver- tia-se vexando seus súbditos, e perseguindo-os.
Sabendo que o coronel Seixas era homem doente e hemorrhoi- dario, era uma noite, era que este e outros achavão-se reunidos em palácio, mandou coUocar um fogareiro com brazas debaixo da cadeira do coronel.
Encarecendo a fiirinha na Bahia e_ Pernambuco, deixarão os ne- gociantes de vendel-a aqíft para envial-a áquelles portos. Em breve
houve falta deste género no Piio de Janeiro.
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4.'-2 II lUO l»K .lANKlU.'
C.liogaiulo ao viíe-roi os claiiioros do povo, onliMimi qiití viesse á sua presença o iiílciulente do arsenal de guena.
— OiiPi'o, disse o viec-rei, que se annc unia barraca gerai no largo do palácio, c que se descarregue a farinha que houver a bordo, para ser vendida nessa mesma barraca por preço comiiiodo.
Appareceu a grande barraca cheia d'' lurinha, que foi vendida a ir»0 rs. a (juarta.
Querendo os negociantes de sal formar monopólio, forào occul- lando c encarecendo o sal. Os clamores do povo chegarão ás portas do p;dacio do vicc-rei, que ordenou que doze soldados, armados de machados, fossem arrombar as portas dos armazeus de sal na Prainha, se os negociantes recusassem expol-o á venda.
Os negociantes nào se oppuzcrão ás ordens do vice-rci, e o sal começou a ser vcndiílo a 100 rs. a meia quarta.
Apezar de nào louvarmos medidas tão despóticas, certo é que assim obtinha o povo remédio prompto a seus males ; emquanto hoje as delongas, e hesitações tornào tardias e improíicuasas providencias, de que podia o povo tirar benéficos resultados, se fossem prompta- mente executadas.
Retirou-se o conde de Rezende para Lisboa depois de um governo de 11 annos ou pouco mais, alcançando a patente de tenentc-genera]_ e a grã cruz de Aviz.
Em li de outubro de 1801 recebeu o bastão de vice-rei D. Fer- nando José de PortLigal, da casa dos marquezes de Valença, tendo antes governado a Bahia, e occupado em Lisboa os cargos de agra- vista na Relação do Porto, e na supplicação de Lisboa.
Era homem honrado, affavel para com seus subordinados, e exacto no cumprimento de seus deveres.
Reedificou a casados contos, e governou até 21 de agosto de 1801).
Conta-se que vendo o conunandante do navio, que devia con- duzil-o á Lisboa, muita carga a bordo, dirigio-se a D. Fernando, e perguntou-lhe se ainda tinha carga para embarcar.
— Tenho, e muita porque ainda não enviei natla para bordo, respondeu o fidalgo.
Estava o navio carregado de presentes oiVerecidos pelo povo ao saiidiiso governador.
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Occiípoii em Portugal a presidência rio conselho uUraniarino, e foi conselheiro de estado ; vindo para o Rrazil com a familia de Bra- gança, exerceu os cargos de ministro do reino, de presidente do erário, do conselho da fazenda e da junta do commercio ; fui pro- vedor das obras da casa real, ministro de estrangeiros e da guerra, condecorado com a grã cruz de Âviz, da Torre e Espada e de Izabel a Catholica ; gentil homem do paço, conde de Aguiar por decreto de 17 de dezeuibro de 1808, marquez do mesmo titulo por decreto de 13 de maio de 1813 ; publicou uma traducçào da critica de Pope, a qual enriqueceu de notas ; e aqui casou cora uma sobrinha, e falleceu em 24 de janeiro de 1817, com pouco mais de 64 annos, sepultando- se na igreja de S. Francisco de Paula.
De\ãa succeder-lhe no governo do Rio de Janeiro o marquez de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal, nomeado vice-rei em 27 de dezembro de 1804 ; mas indicado para governar o Alemtejo, foi sub- stituído por D. Marcos de Noronha e Brito, conde dos Arcos que, dei- xando o governo do Pará e Rio Negro, chegou ao Púo de Janeiro, depois de uma viagem de 4 mezes e 4 dias, em O de agosto de 1801), e [i dias depois entrou em exersicio.
Mostrou-se justo c imparcial na administração da justiça ; formou no campo de S Christovão uma feira, que tornou-se mui concorrida, e na qual, conta-se, tivcrão muit.i extracção uns assobios de barro da barraca de Manoel da Fonseca por ter o vice-rei entrado nessa bar- raca e comprado um assobio !
Nomeado governador da Bahia em 1810, creou as coramissões militares para julgar os indivíduos da revolução de Pernambuco em 1817, com os quaes mostrou-se rigoroso, mandando enforcar alguns na Bahia ; e a taes scenas assistia a pl^bo embrutecida e es- cravisada pelo absolutismo, repetindo, entre outras, a seguinte qua- drinha em suas cantigas :
Bahia é cidade, Pernambuco é grota. Viva o conde dos Arcos Morra o patriota.
Em 5 de fevereiro de 1818 voltou ao Piio de Janeiro, c ocupou o cargo de ministro da marinha, tendo a grã cruz de Aviz, a coin- nienda da Conceição, e o lugar de gentil homem
tíe n Klo DK ,IANF.1H(»
Foi ministro do jii"in(iiio rogpiitc D. Podro; mas accusado de sor o clicto do partido portiigiiez, ausonloii-se porá Lislioa em 18i21, e lá laliocíMi 0111 O do moio de 18:28, tendo nascido cm 7 de junho de 1771 .
Em 7 de marro de 1808 tornon-se o Uio de Janeiro capital da monorchia portiigncza, recebendo a laniilia real de Bragança, ([uc veio asy!ar-se no Rrozil, abandonando a pátria e o tbrono.
Rápido tornou-se enlào o caminhar da ilorosccnte cidade; crearào- se ulois estabelecimentos, importantes instituições ; cresceu a pupuhi- ção, surgirão oflkinas, fabricas e fundições ; prosperou o commercio, cstendeu-se a área da cidade, favorecendo o governo aos moradores, que edificassem prédios no terreno pantanoso da cidade nova, com a isen • çào por lOannosdo imposto da decima para os prédios de uni sobra- do, e por '20 annos para os de mais de um sobrado.
E foi em geral um periodo de felicidade, de rigosijo e paz para o povo do Piio de Janeiro lodo o tempo, em que rcsidio nesta cidade o velho rei D. João VI. As repetidas festividades religiosas, celebradas com luxo e pompa; as continuadas solemnidades da curte; as festas populares do Natal, dos Reis e do Espirito-Santo ; as frequentes pro- cissões, os amiudados fogos de artificio, e outros divertimentos ale- gravão o povo e mantinbão-o em paz ; mas uma inundação, dada na cidade em 1811, veio aterra^r a população e enlutnr algumas famílias.
Em 10 de fevereiro, ás 11 horas da manhã, começou uma abun- dante chuva, que continuou sete dias e sete noites, inundando as casaS e ruas, que erão vadeadas por canoas ; desabou p.irte do morro do Cas- lello, soterrando nmitas casas das ruas da Misericórdia e Cotovello, c deixando sob as ruinas familias inteiras ; abrirão-se as igrejas para supplicar o soccorro da Providencia, e livrar o povo dessa inundação, que ficou conhecida com o nome de aguas do monte (1).
(1) iím 4 de abrii de 175 i caliiu sobre a cidade, depois de víd- lenta tempestade, tão copiosa chuva que, coiuinuaado 3 dias seiu interrupção, aterrou 03 liabitautes qt:e abandonarão as casas, d is quaes rauitas desribarão, fugindo p;ira as igrojas ; as ruas ficarão inundadas navpg-ando nellas as canoas, como ?e fosse em caudaloso rio; no dia fi unia canoa navegou com 7 pessoas desde o Valongo (Saúde) atè á igreja do Kcsario.
Come^íiirão cm lius de uiaito e cuii'iiui;i rão até 21 de abril de 1/2 'liuvas torreuciae- e abundaiue;, que desmoronarão casas e mures;
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A lei de 10 de dezembro de Í815 elevou o Brazil a reino, e fal- lecendu a rainha D. Maria 1 era 1.° de março de 1816, foi coroado e acclamado rei D. João VI. Acontecimentos políticos chamarão-no a Portugal, e depois da desastrosa scena da praça do Comraercio, onde deliberava a assenibléa eleitoral, embarcarão o rei e sua faniilia para Portugal em :26de abril de 1821, ficando como regente no Brazil o príncipe D. Pedro.
Vaticinarão os políticos, e o próprio rei D. João VI, que o re- gresso da côrle para Lisboa seria seguido immediataraente da declara- ção da independência do Brazil ; de feito era 7 d3 setembro de 1822 resoava nos campos do Ypiranga o brado independência oh morte, le- genda do novo Império Americano ; em 12 de outubro era acclamado, e saudado pelo povo o primeiro imperador do Brazil, e em 1 de de- zembro cingia-llie a fronte a coroa imperial. Em 3 de maio de 1823 o imperador Pedro í abrio a primeira assembléa constituinte do Brazil, que foi violentamente dissolvida em 12 de novembro ; em 25 de março de 182i jurou a constituição politica do Brazil (1), e era 6 de maio de 1820 assistio á abertura da primeira assembléa legislativa; nesse mesmo anno crearão-se os cursos jurídicos de S. Paulo e Olinda, e elevarão-se as prelazias de Goyaz e Giiyabáa bispados. Acontecimentos políticos obrigarão o imperador ;'. :issígnar o decreto de 7 de abril de 1831, abdicando a coroa em seu filho D. Pedro II.
na i'ua. da Ajuda morreu ura preto esmagado por uma parede, que desabou, pereceu um homem na rua da Saúde de igual desastre, e no Engeuho-Novo dous pretos ficarão sepultados sob os muros da casa em que residião ; em muitas casas a agua chegou até o peitoril dasjaaellas.
(1) A Constituição que nos rege foi formulada por 10 conselheiros, que a concluirão e assignarão em 11 de dezembro de 1823, no curto espaço de 1T> dias.
Esses conselheiros forão ;
João Severiano M;iciel da Tosta (depois marquez de Queluz).
Luiz José de f-arvalho Mello (s'isconde da Cachoeira).
Clemente Ferreira França (marquez de Nazareth).
Marianno José Pereira da Fonseca (marquez de Maricá),
João Gomes da Silveira Mendonça (marquez de Sabará). FraacLsco Villela Birbjsa (marquez de Paranaguá).
46 o ItlO HK .lANKIKíi
A abilicarào do iiiípcrailDr, a oxallarão dos partidos, a iiiilisri|)liiia da tropa, as meilidas exageradas, coiiio piasões, doportaròes e outros rxrossos do partido domiiiaiito, para aniiiquilar o partido contrario, prodiizirào desordens, lutas e sublevarões, tra/.endo sempre nublado n horizonte politico da capitul do Brazil ; foi o goveiiio entregue a uma regeni-ia, por ser menor o imperador, até que, em 23 de jidbo de 1840 foi proclamado maior o Imperador D. Pedro II, então sereuarào- seosaniuios, desenrugou-sea laco politica dos partidos, extinguio-sea rebellião do Rio Grande do Sul, entrando o i)aiz em um período de paz c prosperidade ;'e se as provincias de S. Paulo e Minas se revolta- rão cm 18-4:2, e a de Pernambuco em 18 i8, facilmente farão venci- das, sendo amnistiados os chefes desses levantamentos.
Em 18 do Julho de 18ÍI fora sagrado e coroado o segundo Im- perador do Brazil, que, em 30 de maio de 18-43, casou por procura- ção com a princeza, filha do rei de Nápoles, recebendo as bênçãos iiiatrimoniaes no Piio de Janeiro em 4 de setembro do mesmo anuo.
Em 18' O invadio o Uio de Janeiro a febre amarella que, acli- matando-se no paiz, tão fatal tem sido ao augmento da população, e ao desenvolvimento do commercioe industria nacionaes ; no anuo se- guinte venceu o Brazil ao dictador Bosas da Confederação Argentina, que sonhara rdisorver a republica de Montevideo, incorporando-a a seus dominios ; em 1855 npeslou a cidade a epidemia da chulera morbus, que foi especialmente fatal aos escravos ; e nesse niesnu) anno, por decreto de 19 de setembro, determinou~se que daria três deputados á assembl;''a geral o município da Corte que, desmendu-a- do pelo ('to addicional em 1834, da provincííi do Bio de Jantíiro, e
B.iriTo de Santo Amaro (marquez do mi-snio titulo).
Aiit'aio Luiz Pereira da Cunha (marquez de Inliambupe^
Manoel Ja<iatho Nogueira da Gama (marquez de Haei)eady).
José Joaquim ''.arneiro de Campos (marquez de Caravellas).
Eli! 1-18 morreu o marquez de Maricá, o único dos signatário.^ da Constituição, que ainda existia nessa quadra.
Cunhou-te em Pariz pin l'^21 uma medalha commemorativa do juramanto da Constituição, tendo no verso o busto de Pedro I e em volta o dístico D Pedro I Imperador, no reverso o 1'urao e café, e no centro o distico Constituirão do Brazil, ÍS2 í; essa medalha em forma de cai VI contém em papelinhos arredondados, presos entre si, toda a Constituição do Império.
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por não ficar annexo á província alguma, mas sujeito á immediala administração do governo geral, recebera o nome de municipio neutro.
As medidas exageradas do cônsul inglez Chrislie, que, mandara aprisionar íúra da barra navios brazileiros em represália, por não serem attendidas as reclamações, que fizera em 18Gi2, em nome de seu governo, sobresaltarão os ânimos dos fluminenses, que concitados pelo patriotismo, raostrarào-se promptos a repellir a affronta lançada á nação, assim como o Imperador e o governo em manterem illesas a honra e dignidade do paiz; felizmente em 6 de janeiro de 1863 an- nunciou-se ao povo que havião tido solução pacifica as questões susci- tadas entre o governo imperial e a legação ingleza, e estavão reatadas as relações entre o Império e a monarchia da Grã -Bretanha.
Em i8Gi o dictador do Paraguay, sem previa declaração de guerra, tomou um navio brazileiro, prendeu o presidente de Matto- Grosso, e outros Brazileiros, que ião no barco, e invadio as províncias de Matto-Grosso e Rio Grande do Sul ; tratou o Império de vingar esses ultrajes, e ligado ás republicas do Prata, sustentou renhida e brilhante luta contra aquelle tyranno desde 1865 a 1870, sahindo victorioso dessa campanha, que terminou com a morte do dictador e completa destruição do seu poder militar.
A noticia da terminação dessa gloriosa campanha chegou ao Rio de Janeiro na sexta-feira 18 de março de 1870 pelo vapor Tycho- Bralie, que entrou enbandeirado.
Toda a cidade illumiuou-se, o Imperador, a Imperatriz e a Princeza percorrerão a pó as ruas da cidade, e nessa mesma occasião foi ga- lardoado com o titulo de visconde de Pelotas o general José António Corrêa da Gamara, que sorprendera e anniquilara o inimigo em Aquidabam.
Enviara o Brazil para essa guerra 83.000 homens ou pouco mais, e perdeu entre mortos, feridos e extraviados em combates 39.910.
Em 9 de fevereiro de 1871 falleceu em Vienna d'Auslria a princeza D. Leopoldina, filha de D. Pedro II e casada com o príncipe Duque de Saxe, deixando 4- filhos. Nesse mesmo anuo, ausentarão-se para a Europa o Imperador e a Imperatriz, e prestou a Princeza D. Izabel em 9 de maio o juramento de regente do Império.
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A loi (io -IH lie Sotemljro do 1871, publicnda om 2'.) de sotein- liro, regulou o elemento servil, libertando o ventre das mullicrcs es- cravas, e destle então não nascerào mais escravos no Brazil.
Em !2C) de janeiro de 1873 pereceu em Lisboa a imperatriz do Brazil, duqueza de Bragança, com 01 annos de idade.
Em 22 de junho do anuo seguinte entrou o Brazil em communica- ção immediata com a Europa por meio do telegraplio transatlântico, acontecimento que loi por todos saudado com grantle jubilo e sa- tisfação.
Preso em 10 de janeiro de 1875 o bispo de Olinda, e depois o do Pará, por questões com o poder civil, furão condemnados a i an- nos de prisão com trabalho pelo supremo tribunal de Justiça ; com- mutada a pena cm -í- annos de prisão simples, forão os prelados am- nistiados por decreto de 17 de setembro de 1875.
Em maio deste anno deu-se violenta crise commercial no llio de Janeiro, suspendendo os bancos Mauá, Nacional e Âllemão seus paga- mentos, e pedindo moratórias : o gerente do banco Allemão suici- dou-se, e o governo para fl\zer face a essa crise emettio 25.000 contos de papel moeda.
Em 2-2 de julho de 1875 inaugnrou-se a communicação directa por cabo submarino entre o Rio de Janeiro e Montevideo, e em 23 de setembro entre o Brazil e o Peru.
Em 15 de outubro foi extrahido a fórceps em Petrópolis o filho da Princeza Imperial D. Izabel, o qual baptisou-se era 2 de dezembro recebendo os nomes de Pedro de Alcântara, Luiz Felippe Maria, Gastão, Miguel, Rafael, Gonzaga ; sendo padrinhos o Imperador e a Imperatriz. No mesmo dia do baplisado do Príncipe do Grão Pará abrio-se a quarta exposição de productos nacionaes no palácio da se- cretaria da agricultura.
Em presença da Familia Imperial, da camará municipal, de mui tas pessoas gradas e de numerosíssimo concurso de povo lançou-se na praça da Acclamação em 14 de março de 1870, a podra funda- mental do monumento, qne se vae erguer para commemorar os gran- diosos feitos do exercito e armada nacionaes na guerra do Paraguay ; e em 20 de março partirão o Imperador e a imperatriz para os Esta- dos-Unidos a visitarem a exposição da Phyladelphia, tomando pela segunda vez a regência do Império a Princeza Imperial D. Izabel.
II
CÂPELLA IMPERIAL
Creado em 1G7G o bispado do Rio de Janeiro, sú seis annos depois chegou á esta cidade o primeiro bispo; e tendo a provisão de 18 de novembro de 1681 declarado o numero dos cónegos que ha- vião de compor o corpo capitular, foi este instituído por D. José de Barros Alarcão em 19 de janeiro de 1685.
Os primeiros cónegos, fòrão Dr. João Pimenta de Carvalho, Felippe de Barros Neves, Manoel Lourenço de Carvalho, Amaro Pinheiro, António Dias, Manoel da Costa Escobar e Gaspar Ribeiro Pereira, qile começarão a residirem 15 de setembro de 1686.
Installou-se o corpo capitular na igreja de S. Sebastião que ser- via de SC ; mas deixando o povo o morro do Castello para vir habitar a várzea circumvisinha, foi pouco e pouco se despovoando a monta- nha, erguerão -se casas nas ruas abertas na planície, que se estendia entre os montes da nascente cidade, e o morro de S. Januário, cha- mado depois do Castello, tornou-se solitário; pois, exceptuando-se os jesuítas e os cónegos, poucos indivíduos galgavão as ladeiras íngre- mes e extensas dessa moi^tanha.
O monte que servira de berço ú cidade do Rio de Janeiro tornou- se. deserto, o mato começou a crescer no lugar em que outr'ora er-
guião-se habitações ; e por estar em lugar ermo a igreja calhedral,
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,")(! O mu KK JA.NKIIU'
collocou-se alli umaseiUinolla ; iiiasaiiczar disso poneliarào os lailiws na igreja jnir uma poria travessa, e roubarão diversos casliçaes ; da segunda vez levarão uuia caldeira de praia para agua lienla.
l::sses allenlados, o mio estado da igreja catliedral, que ora de telha \ã, e a distancia eui que se achava do centro da povoação, re- solverão o bispo a representar a el-rei em I "0-2 pedindo a umdança da SC para a capella de S. José.
A carta regia de 13 de março de 1703 ordenou á camará que, ouvindo o parecer e sentimento dos homens bons, inf<ji'masse sobre a pretenção &o bispo, e ao mesmo tempo ordenou-se ao governa- dor (pie lizesse o orçauionlo da despeza do novo templo, que devia ser levantado sob o risco, feito em Lisboa, pelo padre Francisco Tinoco.
Sendo "tardias as providencias do governo, e receando o bispo algum sacrilégio na igreja cathedral, mandou tirar d'alli o sacra- mento, consumir as partículas sagradas, e guardar o cofre. Em 13 de setembro de 1703 referio ao rei seu procedimento, c declarou ler obtido a igreja da Cruz para cathedral.
Mas em 1-2 de setembro de 1704 informara o governador ao rei qiiaes as obras necessárias na igreja de S. José, para servir de sé, e (piai a despeza da construcção do novo templo.
iiBcebendo essa carta escreveu el-rei ao bispo, cm IG de feve- reiro de 1705, declarando-lhe que, orçando o governador cm mais de 100,000 cruzados a obra da nova sé, convinha que o povo con- corresse com esmolas para einprehender-se semelhante obra, pois achavão-se em máo est^ulo.as finanças do reino.
Em consequência da urgente necessidade que havia da mudança da cathedral para outra igreja mais decente e mais próxima da po- voação, o bispo, apezar de ainda não estar autorizado, e de não ter transferido a cathedral, já celebrava na igreja da Cruz todos os actos divinos.
Vendo invadida sua igreja, a irmandade de Santa Cruz represen- tou a el-rei em IG de março de 1705 ; e em 4 de setembro de 170G iiihibio o rei ao bispo de usar da igreja da Cruz, até que se tomasse a uitima deliberação sobre este assumpto. Parecia ao bispo a igreja (la Cruz a melhor para servir de sé, não só por se achar no centro i|;i povoação, como por ser possível augmeulal-a, havendo espaço
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para a olira ; pelo que continuou a solicital-n ; o por cumprir ao ordens regias, no erlitalde 15 demaio de 1706, pedio ao povo que concorresse com esmolas para as obras da nova se.
Attendendo á opposiçcão que se fazia á transferencia da só para a igreja da Cruz. e não tendo tido do throno resposta favorável a este respeito, pedio o bispo a igreja da Candelária para cathedral.
Depois de varias cartas regias mandando ouvir o voto da ca- mará e do povo sobre a mudança da cathedral, determinou o alvará dei de abril de 1721 a transferencia para a igreja da Candelária, para cujas obras se destinavão meia decima das propriedades das duas freguezias da cidade, e 20,000 crusailos fornecidos por quatro annos pela casa da moeda desta cidade ou de Minas.
Esse alvará encontrou morto o bispo D. Francisco de S. Jero- nymo, mas continuou seu successor a requerer a trasladação da cathedral ; e de feito, corridos alguns annos, permittio o alvará de 30 de setembro de 1733 a mudança da sé para a igreja da Cruz (*).
Sabendo o rei que o cabido não vivia em harmonia com a ir- mandade dos militares, ordenou ao governador que, em conferencia com o bispo e o brigadeiro Josó da Silva Paes, indicasse outra igreja para cathedral, ou lugar em que de novo se odificasse, conforme parecesse mais conveniente.
Estando arruinada a igreja da Cruz, officiou ocabido a el-rci que, em 10 de novembro de 1730,, determinou se escolhesse um sitio conveniente, onde se construísse a cathedral ; mas- receando serem esmagados sob as rninas da igreja em que estavão, resolve- rão os cónegos cm 28 de julho de 1737, emigrar para a igreja do Rasario; e tendo consentimento do prelado, dirigirão-so cm [jrocissão para essa igreja na tarde de 1 de agosto, onde não fòrãobeui recebidos.
A igreja de S. Sebastião servira de sé mais de meio sccido, a da Cruz inais de três annos, e a do Rosário vae ser cathedral du- rante mais de setenta.
Xão julgando-se lisongeados com o titulo de s<) cathedral, ipie os cónegos vinhão dar á sua igreja, representarão os pretos a el-rei quci:cando-se de ter o caliido invadido sua igreja.
.•) VoJT o capitulo em que se do?creve a iarroja ria • tuz.
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o mo DK .i.WKino
K linliào os prelos ra/.ào de estar prevenidos coiilra os ronegos.
Antes de 1631 nascera na igreja de S. Sebastião a irmandade de Nossa Senhora do Rosário, onde já existia, ou tormou-se mais tarde a ronlVariade S. Bencdiclo.
Km 1007 foi eleito juiz da irmandade do Rosário um individuo que ofrnpava igual cargo na de S. Benedicto ; quiz elle recusar esse duplo cargo, mas nào sendo aceita sua escusa, começou a dirigir as duas contrarias.
Nào sabemos como essejuiz procedeu; certo é, porém, que as duas confrarias, até entào amigas, inimislarão-se ; mas, depois de alguns annos de contendas, resolverão formar uma só irmandade sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário e S. Benedicto. Approvada semelhante deliberação, formularão seu compromisso, que foi con- lirmado em í2"2 demarco de 1009.
Instituido o corpo capitular na igreja de S. Sebastião, entrou logo em contenda com a irmandade dos pretos ; exigio que no fim de três dias cxhibisse seus títulos, compromisso e relação de alfaias; snjeilou-se a irmandade, que recebeu ordem de não praticar ceremo- nia alguma sem participar antes ao cabido .
Depois de conllictos e contestações de jurisdicção curvou-se a irmandade, e em lodos os seus actos figurava um conogo, que tudo ordenava, e decidia ; pagava a irmandade propinas e emolumentos dos actos que celebrava, e pagava os sepulturas dos seus confrades.
Resolveu procurar abrigo em outra igreja, por não poder sup- porlar mais tempo as exigências do cobido ; mas não tendo onde recolher-se, pensou em dissolver-se entregando as imagens e al- faias ao prelado, e já despedira seu capellào, quando a devota Fran- cisca de Pontes offereccu-lhe um terreno para edificar uma igreja.
Requereu a irmandade licença regia para a edificação da igreja, o que alcançou em 1 1 de Janeiro de 1700, e em lU de janeiro ilo mesmo amio obteve o privilegio de celebrares officios divinos cum sacerdotes de sua escolha.
Em agosto de 1701 lavrou-sc em casa de Francisca de Pon- tes a escriptura da doação de um terreno na rua de Pedro da Gosta, hoje largo do Piosario, com 7 braças "de frente e 32 de fundos, para a edificação da igreja da Senhora do Rosário e de S. Benedicto.
Em 2 de fevereiro de 1708 benzeu o terreno c lançou a iiriniei'
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ra pedra do novo edilicio o padre Dr. João Pimenta, de Carvalho, era presença do cabido, autoridades civis e numeroso concurso de povo.
Concluida a capelia-mór concorreu o governador Luiz Vahia Monteiro para a construcção do corpo da igreja ; e estavào em an- damento as obras, quando ein 20 de agosto de 1728, João Macha- do Pereira doou á irmandade uma capella que possuia nos fundos do novo templo ; e vindo habitar essa capella, se passou a irmandade cm 1736 para o templo que construirá.
Vé-se quetinhão os pretos do Rosário razão de entristecer-se ven- do os cónegos installados em sua igreja ; de feito transformarão-se estes hospedes era donos da casa ; a irraandade começou a resistir- Ihes, e representou ao rei que, em resposta, enviou a provisão de 3 de outubro de 1739 ordenando qne se conservasse interinamente na igreja do Rosário o cabido e cathedral, em quanto se fazia nova sé, para cuja obra recommendava de novo se escolhesse sitio próprio onde se executasse, sem ser na igreja dos pretos, por não ser de- cente que o mesmo prelado e o cabido estivessem celebrando os offi- cios divinos em uma igreja emprestada, e de raistura com os pretos»
Conferenciando o bispo, o general Gomes Freire de Andrade e o brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim sobre o sitio era que se devia construir a cathedral, depois de diversas deliberações, opi- narão ppla igreja do Rosário, por evitar maiores despezas ; mas á vista da expressa inhibição régia, e das ordens expedidas cm 1746, cera Ode raaio de Mil, escolheu o governador o terreno onde se devia erguer a sé, segundo o plano do sargento-raór Carlos Manoel, ,que, por exigir muita despeza, foi desprezado, sendo admitúdo outro feito pelo brigadeiro Alpoim.
Mandou Gomes Freire ornar a praça onde tinha de lev;.ntar-se a calhedral, a qual recebeu o nurae de largo da Sé Nova, c mais tarde de S. Francisco de Paula ; oi-denou que houvesse symetria e boa direcção nos edifícios que fossem alli construídos ; e era 4 de setem- bro de 1748 convidou ao^bispú, á camará, á nobreza e ao povo para assistirem á collocação da primeira pedra.
As 4 horas da tarde do dia 20 "de janeiro de i 749 dirigirão-se para o lugar da ceremoniao governador, o bispo, a nobreza, povo, clero, ordens e irmandades religiosas, e depois das bênçãos e sagra- çào, feitas era uraa capella de taboas erguida pelo bispo, carregou o
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govcniaildi- a i» ri nu» ira pedra alr o lugar indicado, salvando as íorla- Iczasna tropa dos Ircslcrrosda cidade formados cm parada.
Coiuliiidos os alicerces, levantadas as paredes na altura de :2() (•ovados, lendo-sc cjasto na obra mais de !200,000 cruzados, parou a ronstrucrào em 17r):2, uào só por ter de applicar-se as ipiaulias consignadas pai'a a obra á qneslàode limites, senão por lor di' rcli- rar-sc para essa commissão o governador (lomcs Freire de An- drade.
No entanto continuava o cabiilo cm luta com a ii'inan(laile dos prelos, qu.e, lirmando-se em direitos adrpiiridos, sustentava porliada demanda.
Procurou o cabido apossar-se da igreja do Pinsario, mas nào conseguio. Km 1788 retirou do altar-mór S. nenedicto, siilislitiii;i,lo-o porS. Sebastião, e mandou tapar as sepulturas da capclla-mór ; mas o accordào de 27 de setembro de 1791 mandou abrir essas sepul- turas, c collocar no respectivo altar a imagem de S. Benedicto.
Essa luta manifestava a necessidade de dnr-se andamento as obras da sé ; e por isso, apczar de não haver consignação regia, a mitra rocomeçou-as por meio de esmolas cm 1700; os capitulares oITere" cerão parle de. suas côngruas ; mas lentamente camiuluiva a coiistruc- çào daigrej;!, por não merecer do bispo decidida proíecçào, nem do vicc-rèi conde de Rezende, que não c.imprio o que promettera, que era de mandar os galés para substituírem. os serventes.
Concluira-sc a capella mór e as casas latcraes correspomlentes; mas em 1707 cessarão de novo as obras, ficamlo muita madeira lavrada, cantaria preparada e outros materiaes qne não forào aproveitados, apczar do zelo do padre José Coellio Pires da Fonseca, que se en- carregara da direcção dos trabalhos desde o começo.
Tinha-sc dado principio ás torres, e já sobre a verga da eulr.ula cenlnd viào-se as seitas c o arco, emblemas do marlyrin do Santo padroeiro da cidade e orago do templo.
Rcípiereu o cabido ao rei a continuação da obra c auxilio para eila; mas as guerras do Napoleão preoccupavão çntão o governo piotii- guez, e não se abria facilmente o erário régio, quando se tratava de erguer edifícios na colónia da America; assim ficou paralysada a cou- stnicção da sé; e só mais tarde foi concluído o edilicio para fim muito diverso, como veremos ipiaiido tratarmos da Fscola Pulytliechnica.
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Continnara a igreja do Rosário a servir interinamente de cathedral, e essa interinidade durou mais de setenta annos !
Esta igreja, que recebera os bispos D. frei António do Des- terro, e D. José Joaquim Justiniano, recebeu em 8 de março de 1808 a famiiia real de Bragança, e em 13 de maio o bispo D. José Caetano.
O alvará de lõ de juuho de 1808 elevou á capella real e ca- thedral a igreja dos frades carmelitas, e na tarde desse mesmo dia deixou o cabido a igreja do Rosário.
Este templo, cuja fundação já descrevemos, acha-se edificado no largo do Rosário defronte da rua do mesmo nome; tem um átrio la- drilhado de pedra e cercado com grades de ferro ; o pórtico é de mármore, ha duas janellas no coro, o entablamento, um segundo corpo com um óculo, e o frontão recto. Tinha uma única torre mui baixa, ao lado esquerdo, mas em 1860 construio-se outra do lado opposto, a qual também não tem elegância.
Edificado sem um plano determinado, sem as regras da arte, patenteia este edificio o nosso atrazo e pobreza dos tempos coloniaes, e ahi subsiste como ura padrão do máo gosto e ignorância daquelles que erguerão-no, e daquelles que conservão-no.
O interior é ura extenso salão acaçapado cora ornatos mesquiiilios e de máo desenho; contavanove altares, hoje tem sete; era 1801 pre- parou o artista António Jacy Monteiro a obra de talha que ormamenta o templo ; construio quatro coluranas c diversas pilastras para susten- tarem o coro ; assoalhou e forrou a igreja, e cobrio de mármore o pa- vimento por debaixo do curo.
A capella m.ór era pequena, porem o irmão António da Silva Ri- beiro reformou-a em 1773, e deu-lhe a extensão e a altura que apresenta.
Na sacristia, que está ao lado direito, veem-se o retrato de Luiz Valiia Monteiro, que a irmandade, em signal de gratidão, mandou fazerem 1736; o do bispo D. Pedro Maria de Lacerda:, e o de Abrajião Felippe do Espirito Santo, que conseguio accumular os redditos da irmandade para emprega-los em 1861 na reconstrucção da igreja, aberta aos fieis era 1863. Falleceu este prestimoso juiz da irmandade em. 18 de março de 1867.
Do mesmo lado da sacristia está o consistório, cuja construcção
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começuii em 1 "(ti ; c do ([iial leremos aiiula de lallar quando oreií- par-iios do paro da camará municipal.
A irmandade do Rosário celebrava outrora pomposas festas, com procissão e dansas pela rua, nas quaes viào-se um rei e uma rainlia eleitos pelos seus confrades ; mas pouco e pouco forão-se mo- dificando esses divertimentos, c em 18:20 deixarão de ser eleitos o rej e a rainha dos prelos (1)
Dissemos que da igreja do Rosário passou o cabido para a igreja dos frades do Carmo, cuja origem convém o leitor conhecer.
Na nascente cidade de S. Sebastião erguera uma mulher devota a ermida da Senhora do O' á beira mar.
Nessa ermida, que abençoava as aguas do oceano, onde se re- flectia, abrigarão-se em 1589 dous frades benedictinos, e no anuo seguinte alguns frades carmelitas, que alcançarão a doação da capei- la, e ao lado direito delia erguerão um mosteiro em terreno dado pela camará.
Mas a velha ermida já não podia suster-se em seus fracos aíi. cerces, e em dia de festividade desabou, sepultando sob sua ruina muitos firis.
No rnesmo lugar resolverão os frades levantar um [oinplo, o em 10 de ma o de 17GI lançavão a primeira pedra, cm prcsínça do go- vernador, da camará e de outras pessoas da nobreza. Da ilha das En- xadas, que lhes tinha sido doada, extrahirão a pedra para a edili- cação da igreja.
Acha-se este edifício no principio da rua Primeiro de Março, e é separado da igreja do Carmo por um corredor descoberto, e fechado com port(5es de ferro.
Levantado do chão três degráos, é o alrio mais saliente quo o da igreja do Carmo, cercado com gradil de ferro e ladrilhado de mosaico de mármore, 'ires portas, divididas por pilastras, dão entrada no tem- plo; segue-se o entablamcnto, as três janellas do coro com vidrai.as, que são separadas por pilastras que sustcntão o segundo entablamento; YiVse depois um terceiro corpo, com duas pilastras com capiteis co-
(1) Veja Breve Noticia da irmandade de N. S. do Rosário eS. Beiiedicto por Joaquim José da Costa,
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rinlhios, no centro um nicho que corta o tynipano, no qual estào as arnins do Império, e por fim o frontão recto e a cruz.
Quando chegou a familia real não estava concluida a frontaria ; mas destinada esta igreja para capella real, construio-se um frontão de madeira, coUocando-se no tympano as armas reaes. O átrio tinha grades de páo, e era assoalhado de madeira.
No reinado do primeiro imperador o architecto Pedro Alexan- drino Cavroé fez o desenho e dirigio a obra do terceiro corpo, que completa a fachada da igreja ; substituirão-se as grades de madeira do átrio por grades de ferro, e cobrio-se de mármore o pavimonto ; mas ha dons ou tresannos foi esse hidiilho substituído por outro.
A fachada desta igreja não pertence a uma ordem regular de architectura, e são baixas as pilastras do terceiro corpo era relação aos capiteis que enfeitão-nas.
Em frente de cada porta ha um paravento construído no tempo do rei D. João VI.
O templo conta sete altares e duas capellas fundas, e é ornado de talha dourada feita em 1785 pelo mestre Ignacio, que também or- namentou a capella-mór da igreja dos benedictinos.
Ignorão-se o dia, o anno do nascimento e da morte desse hábil artista; noemtanto merecia que delle se desse noticia circumstanciada, pois é de admirável perfeição a talha de estylo barroco, que enfeita o interior da igreja cathedral ; os anjos, as columnas, os arabescos, as flores e outros enfeites são de tanta belleza e perfeição, que reconhe- ce-se ter sido um artista de génio quem concebeu e executou seme- lhantes trabalhos.
Mas outrora ulilisavão-se do talento dos artistas, exiarião delles muito esforço, muito trabalho, porem, concluida a obra, deixavão-nos na obscuridade, e não julgavão útil indagar qual a pátria, o dia, o anno em que o filho da á^te viera ao mundo. O misero era despre- zado e considerado simples artesão.
Insensatos, não coraprehendião que esses operários do progresso deixarião gravados seus nomes na pedra, na madeira, no bronze, e que a posteridade recordando-os, teria de lançar maldição sobre aquel- les que não amarão e prezarão os autores de taes obras !
Os altares do lado do evangelho pertencem ao Senhor dos Pas- sos, a S. José e a S. João Baptista, eos da epistola á Senhora da Ca-
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.»N U lilO 1>K .lANKIlUi
l)ri(,-a, a Saiila Aiiiia c a S. .Iitfio Nciuiiimcciio c SniUo António .Moni- 1,0 (lo C'"'io.
iNo aliai" (Ic S. .Idsc lunar unia SiMilima da Vicloria. iiiiP, rrli- rada dos dospojos iiiiiiiiii;os na coii(|iiisla de (layoiina, loi reinoltiila jiolo j^uvoniadur porUiijuez ao príncipe rcgeiíle D. João, (jue nianiiuu collocal-a eai um aliar da sua real capella, assiui como duas bandeiras loniadasao inimigo ; mas celebrada a paz geral na Europa, relirarão- se as bandeiras, e algum tempo depois a imagem, (pie está actual- mente depositada no thesourú da capella.
Km um altar da igreja de S. Sebastião noCastello rollucaia M .r- lim de Sá, com permissão do prelado Aborim, a imagem da Senhora da Cabeça ; e para sustentar o culto e festejar a imagem de sua de- voção, instituirá o fundador p itrimonio, por escriplura de 2-i d(! abril de ICiH», lavrada pelo tabellião António de Andrade.
.Marlim de Sá, nascido no Hio de Janeiro em 1555, falleceu em 10 de agosto de l(>8'2, tendo s>'pultura na igreja rpie descrevemos, e era (illio de Salvador Corrêa de Sá o velho, que nascido em 1530 pereceu em li»;!! com 101 annos de idade.
Tomara o cabido a Senhora da Cabeça por sua padroeira, e con- duzida a imagem para a igreja da Cruz, e desta para a do Rosário, quebrou-se por ser de barro ; mas o padre Gaspar Ribeiro Pereira mandou fazer em Lisboa outra de madeira semelhante á anti- ga, e essa imagem secular ainda se conserva na catbedral, onde o cabido a festeja annualments como sua padroeira. Entre os altares e as capellas fundas estão os púlpitos.
As capellas são separadas do corpo da igreja por grades de ba- laustres dourados. A da epistola pertence a S. Pedro de Alcântara, cuja imagem de mármore branco foi enviada de Pioma a D. l'edro I, »'• de tauianhu natural, e está de joelhos sobre uma pedra.
Na base do altar vè-se em um tumulo de vidro a imagem de S. .lulianetti que, olVerlada á Imperatriz D. Thereza Cliristina, foi depositada em 1850 neste altar.
Em 1870, collocou-se nesta capella, dentro de u,n armai'io de vidro, a bambiira do "1." batalhão de voluntários da pátria, que, dentre muitos, foi um ipie mais se distinguio na guerra do Paraguay.
Pcrlcni-eii esta capella ao Si'iilior dos Passos, e aiiula vi''-se a
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porta, que ia ter á sacristia da irmaii ladp, p esí\ do lado opposio a que dá subida pira o palpito.
A capella fronteira''- do Sacramento ; tem no altar um piinel d,i c.r-a pintado pelo artista U lymnnilo, e de cada lado uma tribuna ; ni.is a do lado do evangelho é a única que serve, pois alli se confessa e communga a familia imperial ; a do lado opposto encerra diversos armários, e está fechada com grades de ferro. No tempo de D. João VI tinha o nome de tribuna da familia, por vircn orar alli as pessoas da familia real. Junto dessas tribunas ha commnngatorios que estão inu- tdisados, e mais adiante uma porta década lado, sendo uma delias dn púlpito, e outra da sacristia do cura.
Era esta capella igual a que íica-lhe fronteira, mas D. Joàn VI deu-lhe a extensão ijue apresenta.
Ha no corpo da igreja três tribunas de cada lado divididas por pilastras; pertencião as do lado direito ás damas do paço, mas ac- tualmente servem de thesouro de alfaias, e occupão as damas as do lado fronteiro
No tempo de D. João VI havia, úm do coro, um ante-ci^iro sustentado por columnas, para conter a numerosa orchestra das fes- tas rcaes ; e na frente desse coro via-se uma r;irranc;i con<lruida pe^i artista António Jos'*, a qual abria e fechava a boca quando o oi'gão locava ; porém em IS.VJ supprimio-se essa carranca, que excitava o riso nos actos religiosos. Na boca do coro vé-se uma peça represen- tando 03 canudos do orgào, que está collocado na parte posterior.
Dous degráos dão subida para a capella-mór, que é fechada com balaustres dourados, e apresenta no altar a imagem de S. Sebastião, e w.u painel de trinta e dous palmos de cumprimento e deseseis de largura com os retratos em corpo inteiro de D.Maria I, que conduz pela mão o príncipe D. Pedro, seu neto, de D. João VI e da rainha Carlota; in parte superior está entre anjos e nuvens, a Senhora do Carmo, (pie estende seu manto sobre as pessoas reaes ; vè-se inferiormente de cadi lado um anjo, uin cora uma cesta de flores, o outro com uma esphera na qual l(^-se : nostrns deprccntioiícs ne deftpicias ; aos pés da imagem notào-se do:i • anjos, um com uma pdma, o outro com um escudo, onde está escripto sub tunm prccsidinm coiifugiiniis.
Foi este painel pintado por José Leandro de Carvalho, cuja bio- graphia encontrará n leitor no fim deste capitulo.
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OiKiiulo esta ij^roja aimla porlencia aos frades, propalavào clles, para especular com a crcilulidade publica, que uo altar-mór havia rcliquias do S;uito Leulio, Ires cabellos de Nossa Seuhora, e, uma touca de Santa Anna !
Estào na capella-in''ir as tribuiKis iki corpo diplunalico, dos se- manários, a tribuna imperial, o sólio com a cadeira episcopal, e a quadratura e estante do cabido ; no teclo lia um painel representan- do a Senhora do Carmo (1).
Constava a principio o cabido de cinco dignidades, deào, chantre, thesourciro-mór, mestre escola e arcediago, de seis cónegos de pre- benda inteira, dous de meia prebenda, um subchantre, quatro capel- Icães, quatro moços do coro, um organista, um mestre de capella, um sacrist.ão, um porteiro da massa, um cura e um coadjnctor.
A provisão de 1 de março de 1681 creou o mestre de ceremo • nia ; o alvará de 19 de outubro de 1733 augment lu as cadeiri;s de doutoral, magistral, penitenciário e duas de meia prebenda; e o de 3 de dezembro de 1750 elevou a doze os capellães, incluindo o mestre de ceremonia ; creou-se em 9 de dezembro de 1758 a conezia parochial, sendo essa cadeira igualada a de prebenda inteira. Consta- va assim a folha dos ministros da si; de cinco dignidades, dez cóne- gos de prebenda inteira, qn;;tro de meia prebenda, todos com voto no cabido, doze capellàes incluindo o sub-chantre e o mestre de cere- monia, moços do coro, dous sacristães, um mór e outro menor pago pela fabrica, um parteiro da massa, um mestre de capella e um or- ganista. Em 1808 o príncipe regente D. João elevou a monsr>nhores as cinco dignidades do cabido, e para completar o nu:iiero de seis, creou a dignidade de arcipreste ; nugineiUou o numero dos capitulares e de todo pessoal, dividio os cónegos em duas cathegorias, presbíteros e diáconos, e coni';'deu-llies o uso do roquetc e capas magnas roxas c umrças encimadas. Km '21 de dezembro de 1808 honrou-os com o tratamento de senhoria, e aos mouscnhores concedeu illuslrissíma Conta atlualmenle o corpo capitular seis mouscnhores, descseís cónegos, qualorze capellàes, três mestres de ceremonia, e um de sólio ; um monsenhor ou cónego exerce o iagar de inspector e lahri-
()) Vide a biographia doariista José de Oliveira.
o RIU DE .lANElKO Gf
qiieiro, e um dos coneiíos ''• curn da imperial capella, tendo por ove- lhas os empregados do jni^o e os da capella imperial.
Os iiionsenhoris não cnntào missa, e só fazem pontiíicaes.
Ha dez sachrisl.v^, dous miceiros, Ires thesoareiros, um do ihesouro, dous da sacri-;ii. dous mestres de capella, d^uis organistas, um atulador, um empr '^ndo das tribnn is, trese uiusicos cantores, vinte o dous instrumentistas, dous sineiros e dous varredores.
Na cathedral recitlo-se diariamente as horas canónicas, tendo sido esse coro instituído por D. Pedro II quauilo regenlí! de Por- tugal, o teve principio em 19 de janeiro de 1685.
lia no corpo da i-,('-ja quatro portas, duas ao lado do arco cru- seiro, e duas próximas An nòro ; ura i delias vae ter á antiga casa ilo armador, hoje thesonro da capella, onde, além de outros objectos de valor, njiào-se um cálix, custodia e ambula de ouro, e duas bacias de prata dourada, rpie tèm servido no baptisado dos príncipes.
A outra portn vae ter á sacristia, que tem um altar com a ima- gem de Christo, iim arcaz sobre o qual vè-se um painel da Goncei çào que pertenceu ao tribunal da Pielaçào, e um esguicho de mármore em um quartinho próximo.
Junto desse quartinho houve uui jardim, cujas paredes crào or- nadas com pinturas e trabalhos de conchas, marcando os dias de galla do Brasil ; servia de recreio ás pessoas imperíae?, e tinha sa- bida para a rua do Carmo por uma porta que ain la existe, sobre a qual vè-se a coroa imperial e embaixo um P. Actualmente está este jardim transformado em latrina.
As outras duas portas do corpo da igreja d<ào entrada, uma para o c^ro, a outra para a capella do Senhor dos Passos. ,
Aberta em 1857 a >ua Sete deSeLembro al>í ao largo ilo Paço, perderrio os cónegos e a Igreja calhedral certas accommoilaçõcs; con- struio-se o passadiço que une o pil icio i capella, deu-se enlrada para o coro pelo interior da igreja, inulihsarào-se algumas tribunas como já vimos, e do lado da rua Sete de Setembro estendeu-se um corredor que vae ter á torre, ás tribiuias da c.riella do Sacramento e da ca- peila-mòr, eásala do cabido que é p/ (ueni, aial ornada, e tem um oratório que conserva-se aberto i^ illumiuado em quanto o cabido trabalha; chamava-se oulr'ora sala do empregailo, por alli residir o empregado das tribunas.
Cd
o mo PK .lA.NKlIKl
A ivt|iolla ili) S.Miliiinliis Passos nãn iPiu oxlorianiuMilc forma dcigrpja purcro uma riisa de sobrado collooada enirc o loiíiiiln ea lonv ; lom um alrio ladrilhado di? p^dra com gradil de forro, il;ias por tas no 1" pavimento, e dti.is janellas de sicada no 2."
lnliM"iorinenlc ó oriíaila com talha dourada, tem no tocto iini painel do descimíMilo da Cruz (*); iriii cipeilinha fim li con a im - gem do iirago, e dons altares, um nniito anf,i;jf), cmi a imagnm de Chrislo, tendo latoral'nente dons painéis, que represenlào a Se- nhoradi. Dores e S João, e o outro feito ha poucos aiinos e consa- grado A Senhora dos Mysterios.
A torre da igreja é baixa, sem gosto, nem regras de archilectu- ra ; parece torre de uma igreja de ald."'a; tem na parede anterior o alpendre da antiga portaria do convento do Carmo, sobre o alpendre ha uma janella de peitoril, depois outra de sacada, o mostrador do relógio, a abertura dos sinos e o pin,tcnlo em forma d'ab)b,ida, sus- tentando sobre uma espher i um gálio de metal que gyra á merc' do vento. Antes de abrir-se anu at' a praça, subia-se á torre por uma escada, que principiava em umpateo.
Por estar esta igreja ligada ao edi(ii'io, qne foi Ir.inifoi-iiiado em palácio, tencionou lo;:;) D. Joào VI apossar se dt^lla para cipella real ; de feito fez celohrar al!i em 12 de lu irço de IS08 uma solem - nidade em ac;ào de graças p.?h sui c.hogida ao Rio de íaneiro ; toda a familia real assistio á festa, que terminou com Tt-D."i:)i e pro- cissão, indo ás varisdo pallio o prin'-ipe regente, o infinte í). Pedro Carlos, o principe D. Pedro e os grandes ilo reino, o salvando os navios, fortidezas e um destacamento postado na rua Direita.
• Elevada esta igreja á capella real, hnivo alli em ■() de junho, a festa do corpo de Deus com assistência das ppssoas re.aes e do bispo, e procissão ;icompanhada pelo rei, seus íillios, fidalgos, clero regular e secidar. Oito dias esteve exposto o Sacramento, lindos os quaes celebrou-se a festividade própria da casa real com procissão á tarde ; mas, corridos alguns annos suprimio-se a pro á^ào ilo oiia vario.
E' anliqiiissima no Rio de Janeiro a procissão do Corpo de Deus, a qual ein KjOS cahio cm desuso ; mas a camará restaurou-a orde-
{■) '-'íja a biojiraphia do arti-ta Maiio^lda Cunha.
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nando qne os juizes dos ferreiros e padeiros apresentariào a iiiiageni de S. Jorge, os dos alfaiates a serpe, os dos sapateiros o dragão, os dos tanoeiros os cavallos, os dos iiiarcineii'os a imagem do Menino Deos, os dos ourives e pedreiros acompaiiliarião com suas tochus, e os dos taverneiros e mercadores apresenlariào uma dansa para cujo ílni se deveria fintar.
Coníi o tempo forào se supriiiiindo essas cousas ridiculas e im- próprias do culto; mas ainda hoje veem-se o S. Jorge parafusado sobre a sella de um cavallo, seu pagem a cavallo, e de calções e ca- lielleira de rabitdio, o homem d'arm:is também a cavallo e envolvido eiu uma armadura de ferro, uma banda de músicos, ridiculamente vestidos, e 10 on 12 cavallos envoltos em mantos de panno verde e com fitas entrelaçadas nas crinas e na cauda !
Sahe o santo guerreiro da igreja de S.Gonçalo Garcia, e logo que completa seu giro, segue a procissão do Corpo de Deus, composta de irmandades, confrarias, ordens religiosas, do cabido, do clero, do bispo, do imperailor e grandes do Império ; armão-se com cortinas de si'da as janellas do paço e de algumas casas, e um batalhão acom- panha o préstito ; mas outrora toda a tropa, quer da guarda nacio- nal quer de linha, postava se nas ruas em que transitava a pro- cissão, e acompanhava-a.
Também sahe da capella imperial a procissão de S. Sebastião. Ordcnuu o alvará de 30 de setembro de 1733 que houvesse na igreja de S. Sebastião, no Castcllo, u,n capellão privativo, e que no dia 27 de janeiro, depois dos ofiicios divinos e da missa conven- tual da cathedral, conduzissem o cabido e o clero, sem excepção do regular, a imagem de ^S. Sebastião ao Gastello, onde se cantaria missa solenme, sendo declarado de guarda esse dia. Desde então essa procissão começou a ser feita no oitavario, e não no próprio dia do santo, como se fazia.
At,'- 1757 curaprio-sc exactamente o alvará, eelebrando-se a procissão logo apijs dos ofiicios na cathedral, e na antiga sé havia outra missa cantada com assistência do cabido e da camará ; mas tendo de fazer-se a procissão em horas de luuito calor, que difii- cultava a subida da ladeira do Gollegio, hoje do Carmo, resolveu o cabido dividir-se, ficando parte na sé,e parte na igreja do Gastello para assistirá segunda missa, e conduzir a imagem de tarde. Approvada
(li I) mo ni". JANKiiio
esta clolibi'i'ai,Mii pi.'l() liisjio e pela laniara, í'i);iiím;ou-so em 1708 a fazer a procissàa de tanle, coiiio se prauea até hoje.
Era a c::iiiara que se eiiearri-iíava ilcssi" aeto, e iiú seu pari) guiirilava-se o estauJarle tia santo ; hoj(! puréui neai comparece á ceremonia, que é cclebraila pela capella impeiiil, oiiije o saiilo é les- lejado no dia próprio, que é de guarda para a.; habitantes do Rio de Janeiro, e no dia ^7 é a imagem conduziíia á igreja do Castello, donde volta occullamente no dia seguinte.
Nas três noites anteriores ao dia d > saulo pailroeiro da cidade illurainão-se os edifícios pubUcos e casas piuticularcs, pagando ou- trora multa ([uem nào deitava luminárias ; o o principe regente D. Joào ordenou que a Ibrtaleza da ilha das Cobras salvasse no co- meço e fim das illuminações ; o que ainda se pratica.
Em uma(|uinta-leirada quaresma sahe da capelli imperial para a igreja da Misericórdia a imagem do Senhor dos Passos, que no dia seguinte percorre as ruas em procissrio solemne, visitando os passos em diversas igrejas, os quaes outrora erào apresentados em uratorios, levantados em ditVerentes ruas.
Seguindo o costume dos vice-reis, de U. Jofio VI e Pedro I, acompanha D. Pedro 11 a imagem até a Misericórdia.
Depois da revolução de 7 de abril vivia o povo sobresaltado e apprehensivo pela continua perturbação da ordem publica, pois raro era o dia em que não havia um motim ou desordem, que levava os moradores a fecharem as port:is;e lendo liaviilo na tarde dessa procis- são um distúrbio, foi ella supprimida durante annos ; porém resta- belecida mais tarde, é ainda hoje celebrada com pompa.
No reinado de D.JoàoYI,o amigo dos frades e dos actos religiosos, fazião-se soleumcs festividades na igreja cathedral ; então occupavão o púlpito pregadores eminentes como Rodovalho, Lado de Christo, S. Carlos, Sampaio, Monte Âlverne, Januário e outros, que por sua dicção castigada e enérgica, gesto grave e apropriado arrebatavão o auditório, e glorificavão a cadeira da igreja ; região a orchestra os mestres José .Mauricio e. Marcos Portugal, ([ue trausforinavão os hym- nos da igreja em harmonias celestes ; e toda a familia real, os nu- nistros, os fidalgos, a corte, e o povo assistiào ás solemnidades no l^emplo ricamente decorado com cortinas de velliido e seila franjndas de ouro.
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Mas hoje as festas da cathedral são executadas sem pompa, sem a gravidade e decência convenientes ; também já passou a época de gloria do púlpito brazileiro, e é um musico estrangeiro quem rege a orchestra ; por isso s3o estas festividades pouco concorridas, e con- sideradas como simples actos do culto, ou da etiqueta da curte !
Já vimos que a capella imperial está longe de ser um monu- mento, e não apresenta a vastidão e magnificência das cathedraes da Europa ; era um bom templo para um convento, mas é mesquinho como cathedral e capella imperial.
Essa antiga igreja de frades, sem belleza nem architectura, pa- tenteia nosso atrazo e pouco gesto pelas artes : e se na altura e gran- deza dos edifícios que ergueu, deixa um povo signal de sua existên- cia, parece que não será famosa a nossa gloria, pois seguindo a phrase de Lúcio Floro res est unius celatis, só preoccupa-nos os acontecimentos, os interesses, as paixões da época em que vivemos.
JOSÉ' LEANDRO DE CARVALHO
Xasceu Josc Leandro de Carvalho era Muriqui, lugar do dis. Iricto de Ilaborahy, onde ainda residem parentes seus.
Mostrando propensão para a arte da pintura, dirigio-se a!< Rio de Janeiro, c aqui começou a estudíir o desenho com um homem pardo chamado Manoel Patola.
Rápidos forao seus progressos, porque grande era a propen- são que tinha para a arte de Rubens c Van-Dieck, e immenso fieu talento.
Consta que lura recrutado para soldado, mas, por inten'ençào de seus amigos, conseguio libcrtar-sc da praça.
Pintou para a igreja do Bom Jesus um painel da Aicencào quf desappareceu ; fez diversos retratos de D. João VI, e foi elle o pintor que melhor copiou as feições desse rei. Para o theatro S João, hoje deS. Pedro de Alcântara, pintou alguns scenarios, que competirão com os do scenographo portuguez Manoel da Costa.
Em 1817 encarregou-se do douraraento da capeila real, obra que licou concluída em um mez, trabalhando diariamente iuais de 200 artistas. Como não ficasse bem acabado o dourado da cimalha of- t'ereceu-se ao thesoureiro da casa real, Joaquim José de Azevedo, depois marqucz de Jundiahy, para fazer de novo o trabalho, sem retribuição alguma; porém o thesoureiro, recusou dizendo :
— El-rei nosso senhor não necessita do favor d** pmlore-^.
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Piulou José Lcanilroos 1^ apóstolos, que ornào as pilastras do interior da igreja cathedral, 8 no corpo da igreja, c 4 na capella- niór.A physionomia de cada um desses retratos, a expressão e o co- lorido indicão a niào de mestre que traçou-os.
Abrindo-se concurso para um quadro que, representando a fa- mília real, tinha de Ãcrcollocado no altar uiór da igreja cathedral, inscreverào-se José Leandro e um pintor italiano ; o primeiro estabe- leceu sua oflicina no consistório da igreja de S. Francisco de Paula, o segundo no consistório da igreja do Rosário, lào diversos indivi- dues examinar os trabalhos dos dons artistas, e houve quem se offere- cesse a José Leandro para mostrar-lhe o painel de seu competidor, mas o artista recusou, repetindo:
— Não quero; seria uma deslealdade indigna de mim e da minha arte.
O artista italiano pintou ama monstruosidade, e José Leandro fez o lindo painel já por nós descripto.
Consta que recebeu por este trabalho um conto de réis.
Pintou ú colla alguns prophetas para cobrirem as imagens do templo deS. Francisco de Paula, nos dias de quaresma ; esse tra- balho desappareceu, mas dizem os homens velhos que era primoroso, pois na pintura á colla sobre o panno, excedeu José Leandro a todos seus contemporâneos. Para a mesma igreja pintou dous anjos, que ornavão a capella-raór.
Para a varanda da coroação de D. João VI preparou um lindo painel ; e quer nas festas deste rei, quer nas do primeiro imperador do Rrazil, as mais bellas pinturas, os mais lindos painéis sahirão do pincel deste artista.
Pertenceu á primeira sociedade de piíilorcs instituída no Rio de Janeiro, na qual jamais quiz occupar o menor cargo.
Amando a arte que professava, e a terra em ([ue nascera, pin' curou ensinar o que sabia, e deixou bons discípulos que honrarão seu nome, entre outros Francisco Ignacio de Araújo Lima, que dislin" guio-se como scenographo, cum seu lilho, José Leandro de Carva- lho que pintava flores admiravelmente.
Casara-se José Leandro com uma moça de perigrina formosu- ra, chamada Águeda, e além do lilho que foi artista, teve outro chamado Marcez Genserico de Carvalho.
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Exaltados os ânimos pelo movimento revolucionário de 7 de abril de 1831, que occasionou a queda do primeiro imperador, houve quem se lembrasse de mandar apagar as figuras das pessoas reaes, que havia no painel da capella-imperial ; de\ia desappa- recer dalli a figura de Pedro I que a nação repellira, sentenciavão muitos, e assim escolheu-se um artista para borrar o quadro da capella.
Também quando Cromwel subio ao poder vendeu-se a um cu- tileiro a estatua de Carlos I erguida na praça Charing Gross.
Veremos que não foi este o único desacato contra a efligic da- quelle imperador, que abdicou sem resistir, e sem fazer victimas.
Qui/.erào que o artista Debrét se incumbisse de inutilisar o painel de José Leandro, mas elle escusou-se ; chamarão o autor do quadro, que com mão tremula e coração dolorido, tomou a broxa, e correu uma camada de colla sobre os retratos da familia de Bragança.
Sujeitou-se José Leandro a este sacrifício, mas comprehendeu que obedecia á exaltação da época, que uma vez serenada, reconhe- ceria, que não é profanando objectos de arte, que um povo se vinga, antes avilta-se ; pensou o artista que, quietos os ânimos, aquellas figu- ras terião de reapparecer, porque o povo respeita sempre o seu pas- sado, e preza suas recordações. Por isso cobrio com uma simples ca- mada de colla as figuras de seu quadro.
Mas o sacrifício tinha sido supremo; o próprio artista profanara sua obra, e desde então viveu melancólico e taciturno, até deixar o mundo pela eternidade em 9 de novembro de 1834.
Conduzido o corpo em uma rede para a igreja de S. Francisco de Paula, mandou a ordem celebrar no dia seguinte encommendação e Ubem-nK pelo finado, que occupara o cargo de definidor, e deu-lhe sepultura na catacumba n. 4:2.
Fomos nós que com pesquiza e trabalho descobrimos o jazigo deste habil artista nacional, que como súe acontecer aos artistas no Brazil, morreu pobre.
Dissera o douto escriptor e artista Porto-Âlegre que não era irremediável o facto praticado sobre o painel de José Leandro. De feito, gessando-se e dourando-se a capella imperial em 1850, foi convidado para retocar esse painel no qual só apparecia a imagem da Senhora do Carmo, o artista João Caetano Ribeiro,
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i|tu' ;io hivaro i|iia(lro, (lesrolirio ;is lii:;iiras iiuc alli ha\i;i, r iT>laii 1 ou-as com totlo primor.
O painel resiiscitoii bollo o granàioso, romo excculara-o spíi autor, rujo nomo paroren lambom rcsuscilar para não morrormais, para viver na posteridade (I).
(1) Veja o livro Homens do Passado, chronicas do século XVIU.
III
MOSTEIRO DE S. BENTO
Checados ao Rio de Janeiro em 1589 os frades benedectinos, frei ['edro Ferraz e frei João Porcallio,deu-llies o governador Salvador Cor- rêa de Sá,para asylo a ermida de N. Senhora do O', situada na praia da cidade.
Desejando fundaram mosteiro era lugar silencioso e retirado, obtive- rào esses monges de Diogo de Brito Lacerda, por escriptura de !25 de março de 1590, o morro fronteiro ao Castello, no qual havia uma capellinha da Conceição, edificada por Aleixo Manoel e sua niulhei' com o beneplácito de Lacerda. Essa ermida e a quinta ou granja, que alli tinhão, doarão Aleixo Manoel e sua mulher Fraancica da Costa aos frades bentos sob a condição de festejarem á Senliosra da Conceição com missa cantada, e celebrarem missas por alma dos doa- dores (1).
Ignora-se o dia em que os monges benedictinos se passarão para a ermida da Conceição, e apenas referem as chronicas ler ha- vido nesse dia copiosa chuva depois de longa e tormentosa secca.
Sendo primeiro presidente frei Pedro Ferraz derão os frades principio a ronstrucção do mosteiro ; em 4628 tornou-se o con-
(1) Veja Sanctuario Mariano.
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vento casa regular, tPiúlo por primeiro alibaile Irei Ruperlo de Je- sus, cujo retraio ainda se conserva ; demolida a c;ipella de Aleixo Manoel, resolverão os frades levantar junto do convento, uma igreja de vastas dimensões ; c, comer.idaa obra em 1G33, licou concluída em 1641 ou 1042.
Dez annos depois erguiào, unido á igreja, um convento digno da ordem, ficando construída a parte do ediíkio que se estende da igreja para o mar, e está voltada para a cidade.
Em 1648 contribiiirào os monges com mantimentos e gado para a armada rpie foi restaurar o reino da Angola, c em 26 de abril de 1696 fizerão doação do terreno, que acha-sc occupado pelo arsenal de marinha.
Invadindo os Francezes a cidade do Rio de Janeiro em 1711 apoderarão-se do forte da Ilha das Cobras, donde fizerão fogo p;ira a fortaleza de S. Sebastião no morro Castello, e para o morro de S. Bento, onde os frades havião armado um forte commandado pelo sargento-mór Gaspar da Costa Athayde ; as balas inimigas crivarão as paredes do mosteiro, que experimentou grandes estragos ; e ren- dida a praça em 23 de março, aquartelarão-se os chefes da armada inimiga nas cellas dos religiosos, dos quaes levarão alguns livros e destruirão o archivo.
Para o resgate da cidade contribuirão os monges com 1 :õ75;fii680.
Em 1732 um incêndio devorou o dormitório do mosteiro que olha para o sul e parte do de leste ; e se não fossem os promptos soccorros prestados pelo governador Luiz Vahia Monteiro, pelos franciscanos e pelo povo seria também a igreja presa das chammas.
Em 1743, por pedido do senado da camará, abrirão os religio- sos pela cerca e horta do convento, desde os quartéis até a Prainha, uma rua que recebeu o nome de rua do Arco de S. Bento, por haver nella um arco (pie conduzia a outra parle da horta ; e em 1745 com utihdade do povo completarão os mesmos religiosos a travessa, que vae daPrainliaá rua do Visconde de Inhaúma, conhecida com o nome de travessa de Santa Rita.
Para obstar a venda de seus prédios determinada por aviso régio, offerecerão os benedictinos 70,000 cruzados á fazenda real, e contribuirão com mais 100 em 1804.
Vindu para o Brazil a familia real de Bragança prepararão os
o RIO DE JANEIRO 73
benedictinos um palaceto de recreio na ilha do Governador para o principe regente D. João, gastando nessa obra para mais de 100,000 cruzados. Proclamada a independência do Brazil , libertarão '1''2 pardos, escravos do mosteiro, para assentarem praça em defeza da nação ; era IS^^ aquartelarão-se no mosteiro dous batalhões es- trangeiros contractados para o serviço do paiz, e após estes vierão os batalhões ns. 21 e2i da província de Minas, conimandados pelo brigadeiro Cattete.
A bulia de 7 de julho de 1827 separou de Portugal a congre- gação de S. Bento estabelecida no Brazil, sendo designado o mosteiro de S. Sebastião da cidade da Bahia para celebrar-se o primeiro capi- tulo da ordem, e foi eleito primeiro geral frei José de Santa Esco- lástica e Oliveira.
Era 1831 desalojarão o mosteiro os batalhões, que alli se tinhão conservado sete annos ; em 1843 celebrarão os religiosos ura con- tracto com a camará municipal para a abertura das ruas dos Bene. dictinos e Municipal no terreno da antiga horta dos frades ; era 1855 receberão o aviso do ministério da justiça prohibindo a entrada de noviços em todos os conventos, e esteve estacionado no mosteiro o 1" batalhão de fuzileiros, em 1857 oabbade frei Luiz da Conceição Saraiva, depois bispo do Maranhão, instiluio no mosteiro um exter- nato com cursos primário, secundário e superior para instrucção gratuita da mocidade ; e frequentado no primeiro anno de exercício por trezentos alumnos, conta actualmente mais do dobro.
Declarada a guerra ao Paraguay libertarão os frades seus escra^ vos.
Possue a ordem benedictina no Brazil i 1 mosteiros, 7 abbadias, 4 presidências ; o património do mosteiro da corte consta de casas e terrenos foreiros na cidade, e de 7 fazendas situadas no municipio da corte e provinda do Bio de Janeiro.
Situado sobre o morro de S. Bento, para o qual sobe-se pela escadaria, que começa no fira da rua Primeiro de Março, tem o mos" teiro de S. Bento uma face voltada para a cidade, outra para o arse- nal de marinha, e a terceira para a parte posterior da bahia.
Consta o edifício de dous pavimentos, tendo na face que olha para a cidade seis janellas decellas e du:is conventuaes com sacadas de grades de ferro no primeiro pavimento, e no segundo seis janellas
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í 1 o HIO DK JA.NKIUO
(le ccllas, duas convcntuaes lom grades de lerro, e duas sobre a portaria, na ([ual vt^-se um alpendre de telha vã sustentado por coluni- nas de pedra, e sobre a porta a data 1777. Ha no 1'^ pavimento o salão da portaria, o salão da aula de philosophia, o refeitório, dous corredores, dez cellas, e o claustro com a capella de Christo
O claustro é quadrangular, todo de granito, de aspecto sombrio e triste, quer pela arcaria de pedra que o circumda, quer pelas lousas dos sopulrliros que so eslondem pelo chão ; foi começado em 17-13 pelo alibade frei Francisco do S. José, e encerra os jazigos dos bispos D. frei António do Desterro e António José Bastos, do arcebispo de Samos c de alguns religiosos distinctos, cujos nomes mencionaremos no fim deste capitulo. Yierão também para este recinto de mortos o cirurgião Or. João Alvares Carneiro e o senador Antó- nio Carlos de Andrada Machado e Silva.
Os tectos do primeiro pavimento são abobadados e todas as es- cadas de cantaria.
Abaixo deste pavimento ha um corredor subterrâneo, abobadado, escuro e huinitlo com algumas cellas, o (jual é conhecido pelo nome triste, mas apropriado, de catacumbas.
lia no segundo pavimento o salão do coro, o salão sobre a portaria, no qual veem-se diversos painéis; três correilores, vendo-se no pri- meiro as cellas do abbade, do secretario e do geral, no segundo sete cellas e no terceiro duas, a secretaria e as salas das aulas esta- belecidas no lugar do antigo noviciado ; linda o primeiro corredor no salão do relógio, onde estão diversos painéis commemorativos dos milagres de S. Bento ; o segundo no salão das conclusões, onde veem-se os retratos dos bispos D. frei António do Desterro, D. frei Luiz Saraiva, e do bispo de Areopoli, os dos monges frei Matlie us da Encarnação Pina, frei José da Natividade, frei António de S. Ber- nardo, frei Huperto de Jesus, frei José da Natividade, abbade, e frei Marcellino do coração de Jesus.
Está neste salão a capella do Sanctuano fundada em 17G0 pelo bispo António do Desterro, o qual doou ao mosteiro um oratório de prata com uma imagem da Conceição de jaspe e coroa de ouro, e lambem muitas relíquias de santos, que são veneradas em liO nichos collocados por todo o espaço da talha ; e para património
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desta capella legou o fundador 3,000 cruzados, que servirão para comprar três propriedades.
O terceiro corredor termina em um salão que communica-se com a bibliotheca, em cuja porta lè-se o seguinte distico :
Sapientia edificavitsibi domum.
Conta a bibliotheca 4,000 volumes.
Circundão o claustro, no segundo pavimento, extensos e lar- gos corredores com janellas para o mesmo, os quaes sào conheci- dos com o nome de varandas.
Todos os tectos do segundo pavimento sào de madeira lavrada, excepto os das varandas que são de estuque.
Ao lado direito da igreja ha outra portaria, semelhante á pri- meira, a qual dá entrada para a cerca e casas dos fâmulos :
O convento dos benedictinos não apresenta em sua frontaria nenhuma escola architectonica,é uma tusão de linhas sem definição, nem harmonia, e na simpUcidade jesuitica, que manifesta, parece querer demonstrar a austeridade da disciplina monástica.
Rntre as duas portarias levanta-sc o templo, com três portas do arcada e grades deferro, que abrem para o vestíbulo, notão-se três janel- las no coro com vidraças, o frontão recto e uma janella no tympano com vidrara ; ha duas torres com os pináculos em forma de pyramidos quadrangulares ; em uma delias vò-se um antigo relógio.
A frontaria deste templo é simples, e no gosto jesuítico, que pre- dominou na construcção dos nossos primeiros edifícios.
O vestíbulo é abobadado, ladrilhado de mosaico de mármore, e tem no fundo três portas elegantemente lavradas, e construídas em if»7l na abbadia de frei Bento da Cruz.
.\ igreja é dividida em três naves, e tem o pavimento coberto de mármore, que substituio as antigas lousas que ferhavão as sepultu- ras. Foi o abbade frei Marcellino do Coração de Jesus quem mandou fazer em 1842 este ladrilho, e rasgar a clara-boia, que vasa luz sobro o templo.
Estas modilicaçijes alterarão o aspecto sombrio, severo c mona- dial, que predominava neste recinto, e tornava o sentimento reli- gioso mais profundo e mais intimo.
No? arcos, nas piiaslras,que constituem as naves avnltào os or- natos, as flores, os anjos, as estatuas de papas, de bispos e abbades
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da onlpiii Itoncdiclina ; naqiicllas paredes está cs( ripla a historia de varões santos, e illustrcs nas lettras, nas sciencias c nas virtudes.
Foi trabalhada em 1 73!) por Simão da Gunlia e Josi; da Cun- ceirão a opulenta e esplemlida ohrade talha, que ornamenta o in- ^■erior desta igreja ; furão elles os esculplores das estatuas, que le- vantão-se sobre as cohimnas, as pilastras e os arcos.
lia quatro capelh.s lateraes fechadas com balaustres de már- more, havendi em cada uma uma lâmpada de prata de feitio diíTe- rente, o (pie prova terem sido feitas em épocas diversas.
Dascapellas a mais funda é a do Sacramento, edificada por frei Luciano do Pilar, que foi o primeiro brazileiro abbade do mosteiro.
Fecha esta copellauma grade dourada, eó o interior ornado de talha dourada, leuilo lateralmente três tribunas. Ha neste recinto, allumiado pela luz tremula de uma lâmpada, tanta gravidade, aspecto tão melancólico que, quando alli se penetra, parece quererem os lábios balbuciar uma oração. ISa entrada ha uma antiga sepultura, e defronte, do lado opposto, está a capella da Conceição, que era a padroeira do mosteiro, em consequência da ermida desta invocação, que havia no monte quando para alli forão os benedictinos ; mas instados por D. Francisco de Souza tomarão os religiosos por padroeira a Senhora do Monserrate em 1602. Vè-se na enlradii uma sepultura, e uo corpo da igreja, junto a grade de jacarandá que o divide, estão dous jazigos com as seguintes inscripções :
Sepultura do doador Diogo de Brito de Lacerda E seus herdeiros.
Sepultura
da doadora
D. Victoria de Sá
Falleceu
Aos 20 de Agosto de 1007.
Doou esta devota todos os seus bens ao mosteiro, havendo en- tre elles as três fazendas do Gamorim, da Vargem Pequena c da Var- gem Grande.
©•"líTO Be janeiro
j O arco cruzeiro da capella-aiór ;'' de apurado gosto, pelas co-
I Iiimnas, ornatos, estatuas e anjos que o enfeitào ; o autor da es- í cuiptura foi frei Domingos da Silva, monge benedictino, que também I preparou a imagem de Christo que vc-se no coro, e a de Santo I Amaro que ostenta-se em uma das capellas lateraes.
Guardcão a entrada da capella-mór dous anjos de quinze pabnos de altura feitos na abbadia de frei Manoel da Cruz, e revestem as pare- des e o tecto lindos retábulos relatando a vida do patriarcha do mos- teiro. Pendente do tecto veem-se duas lâmpadas de prata, que no século passado importarcão em 7: TõOj-^S 17, além de 450 mar.-os de prata que se derão das antigas; e forão feitas por Martinho de Brito, . o melhor ourives de raartello de sea tempo. ■ v:,^A:.^;Ax^''^'^^:^m}-^,.,,.f. Ha no corpo da igreja cinco tribunas de cada lado, e tom o coro primorosos ornatos. V, Por traz da capella-mór está asacnsira""?}^*^-'^^^^^^ elegan-
i te, com espelhos e retábulos nas paredes, uma credencia de marmo- Ire preto no centro, o pavimento revestido de mosaico de mármore, I construído na abbadia de frei Marcellino, e no fundo a imagem de ; I Christo representada em um lindo painel. ^í,^,>,v^a'*>;wí»»>«^^"'^~''^^^ ;■
I O mosteiro benedictino do Rio de Janeiro ha tido alguns religio- 1 |sos notáveis nas letras e nas virtudes. Entre outros mencionaremos ■: 'frei Bento da Cruz, que ensinou no mosteiro cora grande proveito e . applauso a philosophia e a theologia ; frei Matheus da Encarnação Pina, nascido no Rio de Janeiro em 23 de agosto de 1687, abbade, theologo notável e orador applaudido ; frei José da Natividade nas- cido no Piio de Janeiro em 19 de março de 1649, e fallecido em 1714, philosoplio notável, theologo, doutor pela universidade de Coimbra, orador distincto, abbade, presidente de província e provincial; frei Gaspar da Madre de Deus, nascido na villa de Santos cm 1714, e fallecido na mesma villa em 1800 doutor, lente de theologia, ab- bade, prelado, provincial e autor da Memoria para a historia da capitania de S Vicente ; frei Domingos da Conceição ou da Silvíi^,^. homem virtuoso, artista notavefrquetenno' professado em 1690, pe- receu em 1718 ; frei Ricardo do Pilar natural de Colónia em Flan- d ff s, professou em 24 de maio de 1695 e pereceu em 12 de feve- iciro de 1700; honioiu virtuoso o penitente, consta que nunca vestia camisa, e alimentava-sp de mal guisados legumes, porque
7S o lUO DF, .lANKIRO
*{ cvava nos presos da cadr-a a sua rarào ; conliocia o laliin e era do ;eiUeiidiiiieiU() claro. Foi o autor dos quadros do tecto e paredes hite- laos, da rapolla-inu' do scii iiiosleiro o do painel que ornauieiita o aliar da sacristia. Kslc quadro indica a mão do mestre que o traçou, o i- : admirável (pior pelo colorido, quer pela expressão. Mencionando os } trabalhos deste artista diz o escriptor Porto-Alegre, hoje liarão deS. Angelo : — mas aquelle que funda sua gloria ('> o painel que apresenta a imagem do Salvador, collocado no altar da bella sacristia do conven- to. Frei Policarpo de Santa Gertrudes, lente de philosophia do an- tigo seminaiio de S. .loaquim, ex-ahbade, pregador imperial, mem- bro da academia das sciencias de Lisboa, e director das escolas pri- marias da província do Rio de Janeiro ; pereceu em 1:2 de janeiro de 184-1 ; e frei Rodrigo de S. José, antigo vice-reitor do collegio Pedro II homem lido, douto e poeta.
IV
CONVENTO DO CARMO
Em 1590 vierao estabelecer-se os frades carmelitas Irei Pedro Vianna e oiitr«s na ermida da Seuliora do O', erguida na praia do mesmo nome, onde um anno antes havião residido os frades bene - dictinos.
Procurarão os carmelitas construir uma casa para residência, e auxiliados pela camará e pelo povo erigirão na praça chamada lugar do ferreiro da Polé um edifício com dous dormitórios, tendo cada um treze janellas ; e desde então a praça íicou conhecida com o nome de praça do Carmo.
Nesses remotos tempos fácil era levantar-se uma igreja, erguer- se um convento, porque o povo, arrastado pelo sentimento religioso, fazia vJiosos donativos em troca de uma benção ou indulgência ; erão communs as doações ás ordens religiosas ; o governo, a camará, o povo, todos porfiavão em prestar benefícios á rehgião, aos padres ; e assim não tardarão os carmelitas a obter muitas e importantes acqui- sições, que enriquecerão a corporação ; doou-lhes uma mulher a er- mida da Senhora do O', a camará a vargea junto a ermida para a edificação do mosteiro ; em 28 de abril de 1590 Jorge Ferreira con- cedeu-lhes uma légua de terra de duas,que possuia em sua sesmaria;
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cm 5 til' iiovciiiliro de lõUl FtMMiaiiilo Alloiiso c sua mulher dorào-llios 150 l)ra(;as de terra, comeranilo da cruz/de S. Francisco ao longo da lagoa ; no mesuio anuo reríduMão ile Cris|ii,u da Casla c sua imi- llier lsa!)L'l do Mariz terrouos (|uo estes possuião ao entrar do bo- queirão da Carioca á mào esquerda, até iiUestar com a agua da lagoa, e de comprido pelo outeiro acima GO braças ; em 7 de de- zembro de Í50G tiverão terras em Irajá doadas por António Dias Coelho 8 sua muliíer Maria de Sá ; em KH 1 alcançarão o terreno para a cerca do convento, e alli construirão mais tarde casas com frente para a rua, que recebeu o nome de becco do Carmo, c depois de rua Detraz do Carmo ; obliverão terrenos em Suridiy ea pedreira da ilha das Enxadas.
No capitulo provincial reunido em Lisboa, em 15 de janeiro de 1595, havia sido nomeado prior do convento do Rio de Janeiro o pa- dre frei Pedro Vianna.
Era esta casa conventual uma vigararia unida a da Bahia, e de- pendente da de Lisboa ; mas havendo grande difíicuklade na visitação dos conventos pela distancia e perigos das viagens, tendo perecido o provincial e 12 religiosos no trajecto da B diia para o Rio de Janeint, resolveu-se tornar vigararia distincta e separada dos conventos da Bahia e Pernambuco o convento do Piio de Janeiro pelo breve de 22 de setembro de 1058, que só foi confirmado pelo papa Innocencio X( era 8 de fevereiro de 1686 ; effectuando-se, em 15 de março do anno seguinte, a separação, sendo eleito provincial do convento do Rio de Janeiro o padre frei Bento Garcez.
A provisão do conselho ultramarino de 23 de março de 1656 estabelecera para a província dos carmelitas do Brazil a ordinária annual de duas pipas de vinho, quatro arrobas de cera, e oitenta al- queires de farinha pagos pela fazenda real ; mais tarde reduzio-se esta ordinária a dinheiro na quantia de I8O.5OOO divididos pelos qua- tros conventos de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos, vin- do o do Rio de Janeiro a receber 00^000, pelo augmento de 4-5^ concedido pela provisão de 26 de outubro de 1692.
Havendo em 1693 uma epidemia de bexigas nesta cidade, a qual causou grande mortandade de escravos, patentearão os frades do Carmo muita caridade e zelo, não só consokmdo os doentes, senão sepultando os mortos, pelo que enviou o rei Pedro II duas cartas
o RIO DE JANEIRO 8 1
em 4 de fevereiro de 1694 e '28 de janeiro de 1G95, dirigidas aos frades António das Chagas e Ignacio da Graça, nas quaes louvava-lhes os serviços prestados á humanidade e ao Estado.
Em IG97 passou o convento por uma reforma operada por frei Manoel Ferreira da Natividade, reformador geral dos conventos de todo o estado do Brazil, e em 1702 por outra pelo coramissario visi- tador apostólico e reformador frei Pioque de Srmta Thereza.
A bulia sacrosanctum de Clemente XIl de 22 de abril de 1720 erigio em província distincta, e isenta da de Lisboa, a vigararia do Rio de Janeiro, ficando-lhe sujeitos sete conventos.
Em 29 de março de 1757 alcançou o convento, livres de di- reitos, os géneros vindos de Portugal para seu gasto e sustento.
Reinando a intriga, o deleixo e ciúme no convento, por quere- rem todos governar e ninguém obedecer, representarão o bispo e o vice- rei Vasconcellos á rainha D. Maria I, notificando-lhe a indisci- plina e o tumulto que havia no claustro ; e então expedio o núncio apostólico de Lisboa, Vicente Ranuzi, ura breve era 20 de julho de 1784, cora o beneplácito régio, nomeando visitador geral e refor- mador o bispo D. José Joaquim Justiniano. Recebido o breve dirigio- se o bispo ao convento, na tarde do dia IG de fevereiro de 1785, acompanhado de seu secretario o Dr. João Rodrigues da Costa Mar- mello, do vigário geral Francisco Gomes Villas Boas, do desembarga- dor ouvidor do crime António José Cabral de Almeida, de officiaes da camará ecclesiastica, escrivães, alcaides e meirinhos, e reunidos os frades era capitulo, ordenou ao secretario a leitura do breve.
Eslavão postados na praça do Carmo um piquete de cavallaria e o regimento de Bragança, que haviào acompanhado o bispo até o convento, e atopetava o povo os lugares circumvisinhos, ancioso de saber o que ia acontecer.
Intimou o bispo a frei Bernardo de Vasconcellos e a frei Inno- cencio do Desterro Barros que seguissem ao seu secretario, que con- duzio-os ao palácio do vice-rei, de onde forão remettidos para o con- vento da ilha do Bom Jesus (1); e ordenando o provincial frei José de
(1) Depois de viver desterrado mais de cinco annos adoeceu o padre mestre Dr. frei Bernardo de Vasconcellos, e removido por or- dem do bispo, de 11 de dezembro de 1700, para a enfermaria do con- vento dos Franciscanos nesta cidade, alli falleceu. Permaneceu frei
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^'1 o MO DF JANEIRO
Santa Tliereza Costa aos religiosos, ruj entregassem as chaves das suas cellas, forão estas revis'rd:.Siior o.dem do diocesano.
Em 12 de novembro de 1735 expcdio o prelado uma circular aos parochos determinando, que ;tor si ou por interpostas pessoas declarassem com todo o segredo possível tudo que pudessem possuir, e que houvesse pertencido aos carmelitas, qualquer que fosse o titulo ou doação que tivessem recebido dos frades ; e se o não fizessem, serião excomnuuigados, malditos e anr.bHçoados de Deus Todo Poderoso.
Sois religiosos represcnturr>ú á rainha mencionando delictos commettidos pelo diocesano, sou reformador ; declararão que este chamava os carmelitas de vis e balios em presença de seculares, que repetia ter autorização para esvasiar a cadeia dos presos, e nella re- colher os religiosos, e que deixavu-os morrer a fome, fornecendo- Ihes na ceia comidas não usuaes no claastro, como tripas, mocotós, bananas e sardinhas !
Em lo de julho de 1795 dlrifio o senado da camará uma repre- sentação á soberana a favor dcs fi':.des lo Carmo, e depois de outras supplicas e representações, extrahhou a rainha, em aviso de 28 de março de 1797, a falta da execuçro do breve na parte relativa a convocação do capitulo e eleição dos prelados ; cxpedio-se outro aviso em igual santido em agosto d-3 1799, até que em 3 de maio de 1800, veio o bispo ao convento e, reunida a communidade, deu por finda a sua missão.
Foi eleito provincial o padr.: frei António Gonçalves Cruz. Se os frades havião abusado, e ^ir.jfi.iidr.. dcordem reinara no con- vento, parece que também dr.nuite rua administração raostrou-se violento o bispo 1). José Joaquin. JusHaiano ; de sorte que nessa época sccularisarão-se tantos frad.s, e f-.llecerão tantos, que a corpo- ração religiosa ficou muito tempo imporsibilitada de cumprir os en- cargos das missas diárias, e out;a3 obrigações da casa.
CuCíjando em 1808 ao Rio c'e Jr-ieiro r^. Himilia real de Bragan- ça, tornou-ss o convento do Gan.:G r.ma dependência do paço, ao qual foi uuiJo per um passadiço coi]s'.rLvdG em frente da rua da Miseri- córdia.
Innoceiício durante treze annos no ronvento da ilha ; mas perdoado pela rr.iiiha em 8 de julho do 1707, em CO de outubro desse anno re- gressou ]iura a cella de seu rao~te,'i'o.
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Este edifício, collocado na ;a.le occidental da praça de D. Pedro II, á de aspecto desagradável e sem arcliitectura ; composto de três pavimentos contem os dou;, últimos treze janellas rasgadas cada uma, guarnecidas de balcões de ferro, e ornadas superior e la- teralmente de rotulas de m?.d..lra, qj: desapparecerão quando de convento transformou-se em : ak.cic ; nj pavimento inferior havia um arco com um portão, que dava tni a/a [ara o pateo do mo£t3Íro, que estendia-se até a rua Detraz do Gai mj, onC.e vião-se duas janellas de peitoril e uma de sacada, e a face, que olhava para a rua da Cadeia, hoje da Assembléa, apresentava três janellas de peitoril.
No pateo do convento, csiuva a enfermaria dos escravos dos frades, e erguia-se um chafariz, rue desappareceu em 1848 ou 1849. Do lado esquerdo unia-se o convento á igreja ; na parede ante- rior da torre estava o alpendre da portaria com quatro columnas de pedra, o qual ainda exic^^e; a porta de entrada, construída em 1681, era guarnecida de pregos de metí.l como ainda se vè : o tecto do salào da portaria era abobadado; lo kdo direito abria-se uma porta, que ia terá escada do interior do cc:i\ento, e em frente outra que ain- da existe, a qual conduzia ao c^iu-lr), circumdado de cellas ; seguia- se a igreja, que já descrevemos tragando da capella imperial.
Não havia arte nem belLzr. no ii:t3rior deste edifício, que apezar de haver soffrido diversas moè.ifícaçoes interiormente, ainda apresenta no terceiro pavimento os quartos que forão cellas dos frades.
Transformado em ' alacio rea'. o cciivento dos carmelitas, forão estes asylar-se no hospício dcs frai'es Capuchinhos na rua dos Barbo- nos, que abrigarão-se em um so'}radc no Outeiro da Gloria ; mas não julgando-se bem accommodai^os, podirão os frades do Carmo o semi- nário da Lapa do Desterro pí-.ra as;lc seu ; e doando-lhes o rei esse edifício, em 21 de outubro de 1810, trasladarão em procissão as imagens da casa, assistindo ..o actc o bispo, o príncipe D. João, seus fílhos, seu sobrinho e a corte.
O seminário da Lapa lirria s!do lundado pelo padre Angelo de Siqueira, natural de S. Paulo, e missionário apostoUco, que, tendo obtido do capitão António Piebelio r, c'oaç~.c do terreno, e alcançado a licença episcopal em 2 de revereirc de 1751, deu comsço a obra a custado seu bolsinho e ssmclas dcj fícis. Concluído o edifício entra- rão em exercício as aulas de la.im, cantochão e cerenionías do coro ;
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usaviio os alumiios de sotaina prcla c capinhas da mesma i;òr, pelo que appellidava-os o povo de formigues.
Extinclo o seminário, e transformado em residência de frades, conslniirào-se dormitórios e outras dependências, que nao derào a esse edifício aspecto monástico. Estcnde-se o convento ao lado direito e posterior da igreja ; a face que está do lado direito apresenta um dormitório de oito janellas de peitoril ; segue-se um corpo mais salien- te com sete janellas, qne abrem para o lado do Passeio Publico, vendo- se alii a portaria, sendo de sacada as duas janellas, que ficão-lhe su- periores.
A face posterior conta duas janellas de sacada e nove de peitoril, erguendo-se na extremidade direita dessa face outro corpo com duas janellas para o mar e onze para o pateo do mosteiro fechado do outro lado pelas casas dos escravos, havendo no centro um chafariz.
Interioramente é o convento tão irregular e mesquinlio como no exterior a portaria é pequena e mal preparada ; vestem-lhe as pare- des três painéis, sendo um da Senhora do Carmo pintado pelo artista nacional Piaymnndo da Costa. Nascem da portaria dous corredores, um estreito e escuro, que vae ter á enfermaria dos escravos, ao refeitório e á cozinha, e o outro á sacristia. Subimlo-se a escada ao lado esquerdo da portaria chega-se ao segundo pavimento onde vé-se um salão ornado de grandes painéis, quasi todas devidos ao pincel do pintor João de Souza, e de um retrato de D. João VI pin- ■ tado por José Leandro ; ha um outro salão chamado do collegio, onde está a cadeira com o dístico Inilhim sapientix thnor doinini, na qual sentarào-s3 illustres religiosos para doutrinar seus irmãos do claustro ; ha vinte e sete cellas.
Veem-se ni 3" pavimento a capella de Santa Barbara, nua de or- natos, o cárcere e o salão da livraria, que tem estado em abandono.
Na frente do convento, no principio da rua da Lapa, ergue-sc a igreja, cuja fach ida não tem belleza, nem architectura. Transpondo o átrio com dous degráos de pedra, e cercado de gradil de ferro, coustruido cm 1800, vé-se o pórtico, três janellas no coro com vidra- ras, sendo maior adocenlro, o frontão recto e a cruz ; de cada lado levanta-se uma torre, mas a do lado esquerdo está incompleta. Guarda o interior cinco altares, vcndo-se aos lados do altar-múr as imagens de dez palmos de altura dos palriarchas Santo Elias e Santo
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Elyseu ; orna o tecto da capella-mór um painel da Senhora do Carmo cercado dos quatro evangelistas; e estão alii as cadeiras dos religiosos e no pavimento a sepultura do bispo de Chrysopolis.
Todo o pavimento da igreja é de mosaico de mármore ; assim como o da sacristia, coUocada na parte posterior, tendo um esguicho de mármore feito era 1844, e janellas, que deitara para um jardira.
Junto a torre do lado esquerdo h;iv\a o recinto das catacumbas, e ahi abrirão os religiosos uma porta para o salão das aulas que, inauguradas em 13 de janeiro de 185:2, pouco tempo funccionarão !
O convento do Carmo do Rio de Janeiro possue mais de 70 casas térreas e de sobrado, no districto desta cidade, e varias fazen- das de cultura ; é habitado actualmente por quatro religiosos.
A ordem carmelitana fluraineuse conta além do convento da corte, um era Angra dos Reis, um na cidade da Victoria, província do Espirito Santo, um na de S. Paulo, um na de Santos, um em Mogy das Cruzes, e um era Itú.
Além destes ha, um na cidade de Relera no Pará, que foi ar- rendado ao bispo para estabelecimento de um asylo da infância des- vahda ; o convento da cidade da Victoria está era ruinas.
Promulgada a lei de 28 de setembro de i87l, forão libertados todos os escravos do convento.
Pieunidos os religiosos em capitulo era 1850 para procederem á eleição dos prelados da casa, levantou-se tão renhida contenda que, se não chegou a deliberação alguraa pelo que o núncio apostólico, monsenhor Mariano Falcinelli nomeou para visitador apostólico mon- senhor Narciso da Silva Nepomuceno, que tendo sido carmelita, secularisara-se; terminou essa reforma em 16 de fevereiro de 1851; e convocado o capitulo em 21 de abril do mesmo anno, foi eleito pro- vincial o padre mestre Dr. frei R3rnardinj de Santa Cecilia Ribeiro, orador notável, que falleceu ha poucos annos ; em 1865 foi nomea- do visitador apostólico do convento frei José Damásio de S. Vicente Ferreira, e actualmente exerce esse cargo o monsenhor Félix Maria de Freitas Albuquerque.
Illustrarão esta casa conventual homens notáveis era lettras e virtudes, entre outros :
O padre mestre Dr. frei João dos Santos Coronel, douto e mui recolhido, confessor de freiras, eloquente pregador, sendo
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loiíilirado cntrfi seus sermões, que perilerão-sc, um repelido na igreja (lo Rosário em uma ([uarla-leira de cinza.
Frei Fulgencio, virtuoso, sábio c austero na execurão da disci- plina monástica; só tomava rapécin suacella; quando tocava á silencio tirava os sapatos e andava descalço, leccionou no convento dezoito annos, e muitos de seus discípulos doutorarão -se.
O padre mestre Dr. frei António Gonçalves Cruz, sábio c reli- gioso ; em sua cella não havia nem uma cadeira ; duas taboas sobre dous cavailetes e um pedaço de pau envolvido em um couro, eis de que constava seu leito ; foi provincial e morreu cego ; era na- tural de Guaratinguetá (1).
O padre mestre Dr. Fernando de Oliveira Pinto, natural da província de Minas, confessor de freiras e lente do convento, pre- gador notável ; nomeado presidente do convento durante a reforma do bispo D. José Joaquim Justiniano, renunciou o cargo ; foi quem offereceu o convento para a residência da família real; era de alta esta- tura e tão gordo que não podia ajoelhar-se.
Frei Leandro do Sacramento, natural da cidade do Recife em Pernambuco que, tendo obtido em Coimbra o titulo de licenciado em philosophía, veio para a pátria, onde vestío o habito de carmelita; no Rio de Janeiro foi nomeado inspector do Jardim Rotanico e do Passeio Publico em 10 de fevereiro de 1824 com o ordenado de '240^ réis, e alli abrio uma aula de botânica e de agricultura ; publicou sobre a cultura e fabrico do chá, no Jardim Botânico, uma cxcellente me- moria. Era homem de temperamento bilioso, de estatura mais que or- dinária, magro, de côr morena, cabellos pretos, olhos pequenos c nmi expressivos, tendo os ossos malares mui salientes ; na caixa do peito apresentava um defeito de configuração, o osso sternum nos seus duiH terços inferiores era muito deprimido. Tendo solTrido repe- tidas híMUOptises, que fazia cessar com o uso da erva tulangá leomiiius iartaria veio a íallecer de tubérculos pulmonares em 1 de julho de 1829, contando 50 annos de idade.
Frei Pedro de Santa Marianna, natural da cidade do Recife, onde nasceu em 30 de dezembro de 1782, e professou no convento do Carmo da mesma cidade, alcançando em pouco tempo o gráo de
(1) Veja Mosaico Brazileiro pelo Dr. Moreira de Azevedo pag, 61.
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mestre por dedicar-se ao ensmo da geometria ; indo a Coimbra ap- plicou-se ás sciencias matheraaticas, e de volta para o Brazil foi no- meado lente da escola militar, jubilando-se depois de 25 annos de ma- gistério, durante os quaes deu duas ou três faltas ! Escolhido para preceptor do Sr. D. Pedro II em 1833 habitou desde esse anno o palácio imperial, e alli falleceu em 6 de maio de 1861 ; em 1841 foi sagrado bispo de Chrysopolis ; teve o cargo de esmoler raór, o gráo de doutor em mathematicas, conferido aos lentes da escola ; a commenda de Christo, e recebeu de Gregório XVI os titulos de seu prelado do- mestico, bispo assistente ao sólio pontifício, e conde palatino, honra pela primeira vez concedida a um prelado brazileiro. Clirismou as princezas D. Isabel e D. Leopoldina, sendo esta a ultima vez que ce- lebrou. Viveu 31 annos no paço de S. Christovão, gozando da maior consideração e respeito por sua illustraçào e virtudes ; quanto tinha repartia cora os pobres. Deixou a sua cruz, o annel e a biblia ao Im- perador, a quem consagrava verdadeira estima ; seu corpo depois de embalsamado, por ordem do Imperador, foi conduzido no coche, que tem servido para o enterro dos príncipes, á igreja do convento da Lapa, onde ao chegar pegou o Imperador de uma das argolas do caixão, como já havia feito ao sahir do paço, honra de que não havia exemplo no Brazil; e, depositado o cadáver na camará ardente, houve no dia seguinte as encommendações e outras ceremonias religiosas, as quaes assistio a familia imperial ; mandou o Imperador preparar a sua custa a lousa, que fecha o sepulchro do finado, e vae todos os annos assistir a missa rezada pela sua alma. Era o bispo de Chryso- polis membro do Instituto Histórico e de outras sociedades scienti- ficas.
Frei Custodio Alves Serrão, natural da província do Maranhão, cursou cora proveito a universidade de Coimbra, onde recebeu o gráo de bacharel em sciencias naturaes ; por vontade dos seus progeni- tores entrou para a ordem carmelita, mas não chegou a tomar ordens de missa. Foi nomeado lente de physica e chimica da academia mili- tar ; e por decreto de 26 de janeiro de 1828 director do Museu Na- cional, cargo que exerceu durante 19 annos ; alcançou o titulo de doutor como lente jubilado da academia militar; occupou durante dous annos o cargo de director do Jardim Botânico; íez Importantes desco- Dertas sobre o páo-Brazil e sobre o palladio, podendo-se obter pelo
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SOU processo esse met;il iiílciraniiMUi' separado de todos os corpos com que costuma se ndnc unido, o que alií enlào se nào sabia ; acon- tecendo ser obtido o palladio mais ou menos impuro e pouco dúctil ; assim o hábil chimico barão d'Arcct olTereceu ao Sr. D. Pedro 11 um sinete julgando ser de palladio puro, mas examinado na casa da moe- da vio-se que era de carbureto de palladio ; botânico notável era frei Serrão consullailo pelas summidades scieuliflcas da Europa; poróiu mui modesto vivia retirado em uma chácara na Gavoa, onde eslabt>- leceu seu horto botânico; recusou diversas vezes coudecoraròes o honras, o no seu retiro veio a morte encontra-lo em 10 demarco de IS-3.
Frei António lie Santa Gertrudes, distinclo nas leltras divinas (! humanas, pregador imperial, mui eloquente, appellidndo por Bal- iha/.ar da Silva Lisboa, o Bossuet brozileiro ; occupou diversas vezes o cargo de provincial.
CARMELITAS DESCALÇOS
Vierào com a familia real de Bragança dons religiosos carme- litas descalços, frei João dos Santos e frei Nicoláo de Jesus Maria, qiuí alcançarão a estima do povo por se prestarem a qualquer hora ás necessidades espirituaes. Uetirando-se D. JoãoYI para l>isboa se passarão estes frades para a capella de Santo António dos Pobres na rua dos inválidos, e tendo residido ahi oito annos, íorão habitar a ca- pella do Senhor dos Passos na raado mesmo nome; mas realizada a independência do Brazil, e intimados os prelados dos conventos a pedirem a separação de obediência á Portugal, retirarão-se do Piio de Janeiro estes relÍ!;iosos.
E S.
Foi frei Henrique, religioso franciscano, quem celebrou a pri- meira missa na terra de Santa Cruz, no domingo de Paschoela, 26 de abril de lõOO; e cento e seis annos depois estabelecião-se esses religiosos no Rio de Janeiro.
Tendo conseguido do governador do Piio de Janeiro, Salvador Corrêa de Sá, e da camará a doação da ermida de Santa Luzia, na praia do mesmo nome, enviou frei Leonardo de Jesus, custodio do convento dos franciscanos em Pernambuco, os frades António das Chagas e António dos Martyres para esta cidade, afim de fundarem uma casa claustral, que teve principio naquella ermida em 22 de outubro de 160G.
Em 20 de fevereiro do anno seguinte chegarão de Pernambu- co frei Leonardo de Jesus, frei Estevão dos Anjos, frei Vicente do Salvador, frei Francisco de S. Braz, e frei Francisco da Cruz, que, não achando convenientes nem a situação, nem os comraodos do hospício, aboletarão-se na Misericórdia, e dalli se passarão para a ermida da
Ajuda.
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'.M' O níO DE .lANEíRO
Alcaiivarào ossos iVados a prolocrào da camará c do governador Marlim de Sá, que dooií-lhes o outeiro do Carmo, defronte da vargea e bairro de N. Senhora, sobre a lagna de Santo António, sendo a es- (Tiptura de posse lavrada pelo escrivão Anliaja em 9 de abril de KiOT; e desde entào mudando o outeiro de senhorio, mudou de nome, rece- bendo a denominarão de outeiro ou morro de Santo António, que ainda conserva.
Km quanto não edificavão sobre o morro o sou convento, con- struirão os frades ao sópc uma casa para residência provisória e uma ermida, que abrio-se em A de outubro de 1G07, dia do patriarcha da ordem, tendo em frente um cruzeiro de pedra mnrmore Ijranca e encarnada (1).
l.anrarão em 4 de junho de 1008 no alto do morro a primeira pedra do convento, o á esta ceremonia assistirão o prelado Matheus da Costa Aborim, o cx-govcrnador Martim de Sá, o governador Alíon- so de Albuquerque, o reitor do collegio dos jesuítas Pedro de Toledo, o vigário da freguezia de S. Sebastião Martim Fernandes, e outras pessoas de distincção.
Concluída a parte principal do convento trasladarão para alli as imagens em procissão em 7 de fevereii'0 de 1615, assistindo ao fes- tejo o governador, os vereadores, os frades bentos e carmelitas; no dia seguinte houve na igreja junto ao convento a primeira missa, concluindo--se no anno seguinte a capclla-múr desse templo, no (piai em 8 de dezembro houve missa solemne em louvor da Senhora da Conceição, padroeira da província.
Por muito tempo teve a ladeira do convento duas subidas, uma om frente á rua de Santo António, que é a única que existe, c a ou- tra no largo da C-arioca.
i)o lado direito da ladeira, que conserva o calçamento antigo, voem-se a antiga casa, que pertenceu aos frades, uma caixa d'agua do
(1) Alada existe, mui modificada exterior e interiormente, essa onsa que sérvio de asylo aos frades, erguida no principio da ladeira de Santo António na esquina da rua da Guarda Velha : nella residia, no tempo dos vice-reis, o poeta António Diniz da Cruz e Silva, que alli fallereu, tendo vindo julgar em alçada os réos da revolução do Tiradeulos
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encaiiaiiiento da Carioca, e uma pequena porta cliauiada portaria dos pobres, porque vinhão alli muitos infelizes receber o sustento quo- tidiano, e junto dessa portaria havia uma sala coin uma mesa de doze talheres para igual numero de pobres. E não erão só os mendigos, que aproxiniavão-se áquella portaria ; ião alli muitas lamilias indi- gentes que dos frades, que professão pobreza, recebião alimentos e esmolas.
Em frente á ladeira veera-se três frontões, tendo o central uma crnz, havendo alli, em outras eras, nichus com imagens, diante dos quaes os irmãos da Penitencia fazião a via-sacra ; e mais tardo um lindo presepe com primorosos trabalhos de Valentim, Raymuudo, e Xavier das Conxas.
Do lado esquerdo da ladeira abrem-se os portões qiie dão en- trada para o hospital da Penitencia, e para um extenso terraço la- drilhado, parte de mármore e parte de tijolo.
Desse terraço começa uma escada de pedra de dez degrúos, que dá subida para o átrio do convento e da igreja.
E' o convento um ediíicio extenso, de trez pavimentos, tendo no primeiro cinco janellas conventuaes ; quatro conventuaes e seis de cella no segnndo, e duas conventuaes e nove de cellas no ter- ceiro ; conta mais de 100 cellas ; extensos corredores, e cin- co salões ; o da portaria onde ha um painel da morte de S. Fran- cisco, pintado pelo artista nacional Miguel Vidal, tendo na parte in- ferior algumas oitavas do poeta frei Francisco de S. Carlos, e mais dous painéis ; o saião dos guardiães com os retratos de frei Sampaio, Monte Aiverne, S. Carlos e Fiodo"valho, feitos pelo artista Tirone e alli coUocados era 13 de junho de i8G0, por dehberação do provin- cial frei António do Coração de Maria ; o dos provinciaes, na ex- tremidade do terceiro pavimento, com os retratos de D. João VI obra de José Leandro, de D. Pedro leD, Pedro li, e mais outro qua- dro representando Santa Ismeria, pintado por frei Solano ; um sa- lão por cima da sacristia, no qual residio frei Sampaio, e outro cha- mado da Barbearia construído pelo provincial frei Joaquim Brados. Estiverão estes dous salões occupados algum tempo pela pagadoria das tropas, depois pelo urchivo pubUco, que em i87!2 mndou-se para o ediíicio do antigo recolhimento do Parto na rua dos Ourives, es- Muiua da de S. José.
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O salão do refeitório, o capitulo c o cárcere estão no pavimento inferior.
Houve um frade que conseguio evadir-se dessa prisão abobada- da c com grades de ferro, abrindo um rombo no soalho ; sendo de novo preso, tentou segunda fuga, mas foi tão infeliz que ferindo-se na queda veio a fallecer. Sobre o cárcere ha um terraço.
Na parte posterior do edifício está a cozinha, e ha alli um quarto pavimento no qual vè-se a enfermaria dos religiosos com 18 leitos e pendente das paredes um painel do Senhor da Paciência, pintado por frei Solano ; seguem-se a enfermaria dos escravos do convento com a capella da Senhora do Rosário, a botica, e o salão do refeitório dos convalescentes. Nesta mesma parte do convento vêem-se a livraria, tendo na frente um pateo com uma cisterna, que foi destruída pelo provincial frei João de S. Francisco Mendonça, c a capella do Senhor dos Passos.
A portaria do lado esquerdo do convento c pequena porém ele- gante, o pavimento é de mosaico de mármore ; conserva a lapida de uma antiga sepultura, e tem um altar com a imagem da Conceição, habilmente esculpturada pelo preto João Vermelho. Do lado direito está a capella de Santo Aleixo, onde cahio um raio em 1800, que causou muitos estragos, e consta que no mesmo dia cahio outro na ilha das Cobras, que matou uma sentinella, e outro na torre da igreja de S. Sebastião.
O claustro, cuja cantaria dizem ter sido trabalhada por um leigo, c espaçoso, com arcarias de pedra, circumdado de dez capellas, ven- do-se na do Ecce Homo o tumulo de D. João, íilho primogénito de Pedro! ; e na da Sacra Família os túmulos de D. Affonso e D. Pe- dro, filhos de D. Pedro lí.
Sobre a portaria levanta-se o campanário com um relógio e um nicho com a imagem do orago.
A igreja manifesta exteriormente o gosto jesuítico ; tem trcs portas no primeiro pavimento, três jancllas de peitoril com vidraças no curo, um frontão recto e um óculo no tyinpano. Teve a principio um vestíbulo sobre arcaria de pedra, com uma porta larga ao lado esquerdo, que ainda vA-se, a qual era a portaria.
No interior ha poucos ornatos ; a capella-múr 6 elegante, ves-
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tida de talha ; tendo lateralmente e no tecto painéis, que commemo- rão a vida do padre Santo António.
E' de barro e de tamanho natural a imagem do orago, que por determinação do governador Francisco de Castro de Moraes passou de soldado a capitão do regimento velho, patente que a carta de 21 de março de 1711 confirmou, mandando applicar o soldo para a festa e ornato da capella do santo.
Tendo os francezes invadido a cidade do Rio de Janeiro em 1710, o íraco e pusillanime Francisco de Castro Moraes, fiando-se pouco em seu valor, implorou o patrocínio do padre Santo António, e o provin- cial do convento, retirando das mãos do Santo um rico bastão, que um antigo governador oflertara, enviou-o a Moraes para com ellenas mãos pelejar, mas depois de have-lo beijado, reenviou-o o devoto Francisco de Moraes, pedindo fosse a imagem do Santo collocada so- bre o muro, e desde então ficou em um nicho sobre a portaria.
Em IA de julho de 1810 subio Santo António ao posto de ma- jor, e em 26 de julho de ISl^ chegou a tenente-coronel, recebendo o respectivo soldo, tendo em 13 de agosto do mesmo anno, por es- forços de frei Manoel da Conceição, a grã -cruz de Christo !
Factos taes ridicularisão a rehgião, aviltão-na, e despem-na do culto e veneração que devemos tributar-lhe.
O p-rovincial frei António do Coração de Maria mandou cobrir de mosaico de mármore o pavimento da capella- mor, em cuja entra- da ha dous anjos sustentando duas lanternas, que conservão-se sempre accesas.
Ao lado do evangelho está o altar da Conceição, padroeira da provinda, havendo também alli a imagem de Santa Barbara. Houve no antigo morro do Carmo uma ermida consagrada á essa santa, e outra á Santa Catharina, cujas ruinas tivemos occasião de visitar.
Do lado da epistola está o altar de S. Francisco, patriarcha da ordem, e também vê-se alli a imagem de S. Benedicto.
Do mesmo lado vè-se a capella funda da Conceição, que sérvio de igreja á Ordem Terceira da Penitencia, e defronte o púlpito sagrado.
Dividia a igreja uma grade mui alta, que cortarão-na a meio quando celebrarão-se as exéquias do irmão do vice-rei D. Fernando, fallecido em Portugal ; a grade que alli ha foi feita, sendo provin- cial o padre mestre frei António do Coração de Maria.
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E' espaçoso o coro ; leni na parle iiilerior os bustos de 13 niar- tyres da ordein, e uni orgào com a imagem de Chrislo, encerrada em um oratório, cujas portas apresentfio dous painéis pintados por l)u- iiiiciano Pereira Barreio.
Na parle posterior da igreja está a sacristia, coin retábulos no tecto, um lindo arcaz, o melhor que ha nas igrejas do Uio de Ja- neiro, e o pavimento ladrilhado de uiarmorc ; na ante-sacrislia ha um esguicho de mármore com quatro gollinhos e a estatua da Pureza na parte superior, c ao lado esquerdo da sacristia nota-se um jardim com uma cisterna.
O convento de Santo António é um edifício extenso, mas de aspecto feio e de má archilectura. Occupadosos portuguezes nos sé- culos XV e XVI em viagens e conquistas, tendo os olhos íilos na Ásia, e cuidando em levar mui longe seus navios e expedirues, pou- co se dedicavão ás bailas artes; talvez expUque isso o máo gosto, que presidio á construcção dos nossos primeiros edifícios.
Em 1851 o morro de Santo António foi vendido a particulares, e actualmente pertence ao governo, (jue nada ha feito nesse terreno, coberto de espesso arvoredo e atravessado pelo aqueducto da Cario- ca, donde sac ura annel d 'agua para o convento, concedido pelo go- vernador e pela camará, e confirmado por ordem regia de 3 de julho de iVã.
Até iGã7 os franciscanos do Brazil dependião do provincial do convento da Bahia, e provinhào da provinda de Santo António de Lisboa ; mas allendendo aos perigos das viagens dos prelados, pro- poz o frade Pantalccão Baptista que ficassem separados os conventos da capitania do Espirito-Santo para o Sul, e de feito desde esse anuo constituirào esses conventos uma custodia independente, intitulada da Immaculada Conceição da Virgem Nossa Senhora ; o breve do papa Clemente X, de 15 de julho de 1675, elevou-a a província, e o pri- meiro capitulo foi celebrado em 1077, sondo eleito provincial frei Euzebio da Expectação.
A casa capitular do liio de Janeiro conta aclualinente Ires re- ligiosos, e possue nove conventos que se achão abandonados, e al- guns em ruinas ; o património da ordem consiste em 186 apólices da divida publica ; nào possue escravos, nem tem dividas.
A ordem de 15 de dezembro de 1720 facultou a casa conventual
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desta cidade o privilegio de não pagar direitos de vinte pipas de vi- nho annualmente, jurando que erão para seu gasto, e a carta de 2 de janeiro de 1807 permittio-lhe mandar vir de fora, isentos de di- reitos, os géneros para seu provimento. Attrahião outrora grande concurrencia as pomposas festas dos franciscanos, nas quaes era o púlpito occupado quasi sempre por algum pregador notável, ou theo- logo distincto; os vice-reis, e depois o rei D. João, e também Pedro I costumavão assistir a taes solemnidades, qne erão as mais esplendidas que se fazião.
Erão os franciscanos mui respeitados pelo seu saber, virtudes e serviços que prestavão como capellães das fortalezas, no hospita i da Misericórdia, onde havia sempre dous religiosos chamados ca- pellães da agonia, pelo que desde antiga data concorria a Misericórdia com IjíJ-iSO réis- cada anno para asdespezas do convento ; erão elles que acompanhavão os padecentes ao patíbulo, erão elles os mestres mais autorisadose doutos (1).
Constituo um periodo de gloria o passado desta casa conventual ; sob as suas abobadas hoje ennegrecidas e ermas, existirão [pregado- res notáveis, philosophos, sábios e santos varões ; nesse edifício, hoje solitário e esquecido, viverão homens, que se avantajarão nas scien- cias, nas artes, nas virtudes, e relevantes serviços prestarão á reli- gião, á humanidade e á pátria ; foi ura monumento de gloria esse claustro, mas hoje... poucos frades habitão-no e esses que alli vivera nessas cellas erguidas ha quasi três séculos, são como sombras dos grandes vultos que alli existirão, e estão encarregados da triste mis- são de fechar as portas de seu convento, pois prohibio o governo a in- troducção de noviços.
Ainda nos últimos annos de sua existência inglória contou esta casa conventual um religioso, frei António do Coração de Maria Al- meida, ({ue além de ser pregador hábil, procurou dar vida e alento á sua ordem ; esforçou-se por conservar o convento em asseio, em lem- brar a chronica brilhante, a historia desse edifício venerado pelo povo, mas esse prelado pereceu era 19 de junho de 1870, e se Monte
(1) Em 23 de setembro de 1831 foi o convento dispensado de ter a seu cargo as capellanias das fortalezas de Santa Cruz e Praia Verme- lha por falta de religiosos.
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Alverne havia feito o testamento do claustro com as suas obras ; frei António do Coração de Maria levou para o tumulo a chave do sen convento.
Pisando no pavimento da igreja, visitando a capella do capitulo, percorrendo as arcarias escuras, pesadas, tristes e solitárias do claus- tro encontraremos túmulos de doutos padres, de homens distinctos, que legarão serviços á pátria, e seus nomes á posteridade. Levante- mos as lages desses sepulchros, e recordemos á pátria os feitos de alguns desses seus filhos.
Na igreja do convento sepultarão-se Gregório de Moraes, irmão do governador Francisco de Moraes, o qual combatendo valorosa- mente contra os francezes, foi ferido por duas balas inimigas, que matarão-o era 19 de setembro de 1710; o governador Luiz Vahia Monteiro, appellidado o Onça, e fallecidoem 19 de setembro de 1733; • ministro conde de Linhares, amigo dos brazileiros, o qual pereceu em 1812 ; o poeta sagrado António Pereira de Souza Caldas que fi- nou-seem 1814 ; o monsenhor Callepi, o primeiro núncio apostólico enviado a esta corte, que morreu em 10 de janeiro de 1817 e ou- tros (1).
Encontra-se no claustro a sepultura de frei Fabiano de Christo homem virtuoso e santo, que durante longos annos sérvio de en- fermeiro na enfermaria do convento, manifestando caridade, paciên- cia, resignação inexcediveis ; era a sua cella perto da enfermaria, e alli não peneirava um gemido que o não despertasse ; e se afastava- se dalli esse padre era para attender aos doentes, para consolar os agonisantes, e tranquilisar os aflictos, O povo venerava-o, seus conselhos erão ordens, sua protecção poderoso auxilio, e seus remé- dios considerados certos e infalliveis.
Guarda-se no convento um moringue de barro coberto de zinco, que pertenceu a frei Fabiano, e a agua dessa vasilha era tida pelo povo como milagrosa, e niemoravão-se prodigiosas curas operadas por ella, tal era a fé que tributava o povo ao virtuoso monge.
O passamento de frei Fabiano, em 17 de outubro de 1747, cau-' sou consternação geral, o povo correu afflicto ao convento lastimando
(l)yeja a memoria intitulada Túmulos de um claustro, na Revista do Instituto Histórico, tomo 23,pag. 2G3.
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a morte do seu protector, e desejando possuir uma relíquia do santo varão dilacerou os três primeiros hábitos, que revestirão o cadáver; interveio a força armada para executar-se o enterro, ao qual assisti- rão o bispo D. frei António do Desterro, o governador Gomes Freire de Andrade (1) e milhares de indivíduos de todas as classes e con- dições.
A sepultura do virtuoso frade traz o seguinte epitaphio :
Sepultura do servo de Deus frei Fabiano de Christo. fallecido em 17 de outubro de 1747.
Procedendo-se á exhumaçào, íicou o sepulchro impedido pelo bispo, e os ossos do homem bom e justo forão depositados em uma caixa collocada na parede de um corredor, defronte da capella do Senhor dos Passos, gravando-se alli uma inscripção em latim com- posta por frei Francisco de S. Carlos.
Veio para o claustro em 1811 o cadáver de frei Marianno da Conceição Velloso chamado no século José Velloso Xavier, nascido e baptisado na villa de S. José, comarca do Rio das Mortes, em Minas, no anno de 1742.
Entrando para a escola na idade de 6 annos, frequentou o es- tudo primário, cursou as aulas, e matriculado no latim, farailiarisou- se com as difficuldades dos clássicos ; destinado pelos pães á vida mo- nástica recolheu-se ao convento desta cidade* veslio o habito no convento de S. Boaventura em Macacú, em lide abril de 1761, e um anno mais tarde professou.
Resolvido a transformar sua cella em gabinete de estudo, con- sagrou-se ao cultivo da botânica classificando as flores, os arbustos, que enfeitavão o jardim do convento
Matriculou-se em 1766 na aula de philosophia do convento do Rio de Janeiro, e nesse mesmo anno conferio-lhe o bispo as ordens sacras ; occupou com brilho o púlpito, e em 1768 foi eleito pregador; em 27 de junho de 1771 foi escolhido para passante de geometria, do convento de S. Paulo, e mereceu o titulo de confessor.
(1) Veja os Francezes no Rio de Janeiro, romance h-storico pelo Dr. Moreira de Azevedo.
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Favorecido pelo vice-rei Vascoiicellos, emprelieiitleu viagens e excursões para estudar melhor o reino vegetal, levando comsigo o frade franciscano frei Sohuio, que encarregou-se de desenhar as plantas estudadas ; e oito annos viajarão esses religiosos despre- zando as fadigas, nào atlendendo ás intempéries do tempo; nas ilhas do Parahjba expoz-se frei Velloso a tfio ardente sol, que sobreveio- Ihe uma ophtalmia, que dnrou-lhe oito mezes. Regressarão em 1790, trazendo frei Velloso ao vice-rei um valioso mimo, a obra Flora Fluminense ou descripção das plantas que nascem esponta- neamente no Brazil, ornada com desenhos de frei Francisco Solano
Animado pelo vice-rei resolveu frei Velloso levar a sua obra « Lisboa, onde elogiarão-na os melhores naturalistas e botânicos.
Longe da pátria nào se esqueceu delia o douto frade ; traduzio e escreveu diversos artigos sobre agricultura applicada ao Brazil; mereceu a protecção do conde de Linhares, relacionou-se com os sábios do paiz, tornou-se amigo de Bocage, e do príncipe regente recebeu a nomeação de director do estabelecimento typographico do Arco do Cego, onde imprimio-se a sua obra em onze volumes o Fazendeiro do Brazil.
Escolhido para um dos lugares de director da imprensa régia, á qual incorporara-se o estabelecimento do Arco do Cego,continuou a estudar e a escrever ; compoz as seguintes obras : Instrucções para se transportar pelo mar as arvores, plantas vivas e outras curiosidades naturaes; Annuario brazilico ou galeria ornithologica das aves do Bra- zil ; Relação das moedas dos paizes estrangeiros, o valor de cada uma reduzido ao dinheiro portuguez. Traduzio do hespanhol, ita- liano, francez e inglez, diversos trabalhos scientificos, 3 foi nomeado sócio da academia das sciencias de Lisboa, e de outras sociedades. Alcançou do príncipe regente a pensão de õOOj^OOO pelas suas des- cobertas, e as honras de ex-provincial, e regressando ao Brazil em 1809, apresentou um breve de Pio Vil que permettia aos francis- canos a celebração da festa do Coração de Maria com o rito da se- gunda classe ; e houve então pela primeira vez essa festividade no Rio de Janeiro, seguida de procissão, na qual appareceu frei Velloso carregando o andor da Virgem Inmiaculada
Aflectado de hydropesia falleceu na enfermaria do convento na noite de 13 para 14- de julho de 1811, sendo a sua livraria offereci-
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da pelos religiosos á Bibliotheca Publica, onde pxistem manu- scriptos do douto frade.
Julgava-se perdida a Flora Fluminense, mas ein 1 825 o bispo de Anemuria encontrou-a na Bibliotheca Publica, e impressa por ordera de D. Pedro I, na typographia nacional, sob a direcção do bispo de Anemuria e do Dr. João da Silveira Caldeira, formou onze volumes, contendo a classificação de 1640 vegetaes pela maior parte de géneros e espécies novas, e 1700 gravuras abertas era Paris. Tinha frei Velloso génio áspero, mas facilmente serenava a sua cólera. Tenho génio mão, porém bom coração : dizia esse religioso, que foi litterato distincto, homem virtuoso, e muito deverão-lhe a sciencia, a religião e a pátria.
Frei Dyonisio de Santa Pulcheria lente de philosophia e theolo. gia, pregador e bom poeta ; falleceu repentinamente no convento da ilha Grande em 1811.
Fr. António de Santa Úrsula Rodovalho, natural de Taubaté. professou em 1762; distincto pregador, professor de philosophia do Seminário de S. José, censor régio, lente de prima em seu con- vento ; guardião do convento de S. Paulo, e provincial do convento do Piio de Janeiro ; nomeado bispo de Angola em 25 de abril de 1810. renunciou o bispado em 1812; falleceu em 2 de dezembro de 1817, escrevendo frei Sampaio no livro do registro do convento eloquentes palavras de elogio a esse douto padre (1).
Frei Joaquim de Santa Leocadia, nascido e baptisado na fregue- zia de S. José ; criado na casa de António Alvares da Cunha, deveu a esse homem caritativo a instrucção que adquirio ; entrando para o convento distinguio-se logo pela sua inlelligencia e amor ao estudo : foi guardião, secretario da província, lente de philosophia e Iheologia dogmática durante seis annos ; alcançou reputação de bom pregador, e pereceu em 8 de maio de 1818.
Frei Francisco Solano, nascido na vilia de Macacú ; padre vir- tuoso e excellente pintor ; além de outros trabalhos pintou para o convento quatro jarras de madeira imitando a porcellana da índia.
(1) Veja a biographia de frei António de Santa Úrsula Rodova- lho pelo Dr. Moreira de Azevedo no tomo XXVIl da Revista d" Instituto parte segunda pag. 187.
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Frei Fernando AnloniodeS. José Menezes, padre mestre, exa- minador synoilal e provincial. Assistindo o conde de Rezende euma das conclusões, em que orava frei Fernando, ordenou que recolhes- sem-no ao cárcere do convento, por ter esse frade conibutido a in(;dlil)ilidade do papa , doutrina que então nào soffria contro- vérsia.
Frei Francisco de S. Carlos, natural do Rio de Janeiro,*onde nasceu em ISdeatíosto de 17G3,e destinado por seus pais ávida ecclesiastica, entrou aos l3 annos para o claustro, e no convento de Macacú a sua intelligencia, pureza de sentimentos, e conducla exemplar angariarao- llie a estima dos prelados ; logo quí3 teve idade suííiciente recebeu ordens sacras, e envolto no habito, encerrado na cella, só pensou no estudo ; vindo para o Rio de Janeiro começou a occupar o púlpito, e sua physionomia expressiva e bella, seus olhos pretos e grandes, sua presença imponente, sua voz doce e clara, o seu estylo elegante e poético, forào dotes, que contribuirão para ser considerado o primei- ro orador sagrado do Brazil. Em 1801 foi nomeado lente de eloquên- cia sagrada, e alem de outros cargos, occupou o de guardião.
Foi um dos prinleiros |)regadores brazileiros, que orou em pre- sença da íamilia real de Bragança, e foi eleito, pelo príncipe regente D. Joào, pregador régio.
Do púlpito, dominava o auditório ; se manifestava sentimento com suas palavras chorava o povo, se pintava o prazer, alegrava a todos os onvintes.
Se uào tinha tempo de estudar os sermões improvisava-os, ecada vez que descia do púlpito, podia dizer que havia ganho um triími- plio. Muitos de seus sermões perderào-se, mas alguns coriem impres- sos, entre outros o que foi pregado no imnivcrsario da chegada do rei ao Brazil, e outro recitado nas exéquias de D. Maria l, peça ora- tória igual as de Massiilun e Bossuet.
Tocava S. Carlos diversos instrumentos, compunha musica, e ha um hymno de S Francisco queó trabalho seu.
Compoz o poema sagrado Assumpção, e de um assumplo árido o já tratado, tirou mimosos versos, enriquecendo o seu livro de lindos epi- sódios, elegantes imagens e primorosas descipções da America, espe- cialmente do Brazil; mas encontrarão os críticos deleito no poema, e o poeta ;ittOMdeu-(t> fincndíindo r refundindo sua obra ; pouco depois
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adoeceu, e na enfermaria indo visital-o o padre mestre Monte Alver- ne, mostrou-lhe o poeta um exemplar do poema todo riscado e emen- dado, com folhas manuscriptas entercaladas em diversos lugares, e declarou-lhe ha ver acrescentado alguns episódios e ampliado outros. Monte Alverne offereceu-se para publicar o manuscripto, mas S. Car- los disse-lhe que promettera-o a sua irmã.
Alguns dias depois pereceu S.Carlos era 6 de maio de 1829. Propoz o cónego Januário á irmã do poeta a publicação do poema revertendo para ellaos lucros; mas como esta pedisse-lhe 12:000)fii pelo seu precioso legado, não pôde realizar-se a impressão, e até hoje se não imprimio o trabalho emendado e refundido pelo autor.
Em 8 de agosto de 1778 nasceu no Rio de Janeiro frei Fran- cisco de Santa Thereza de Jesus Sampaio, filho do negociante Ma- noel José de Sampaio, e de D. Helena da Conceição, que falleceu ao dar a luz este filho.
Nos estudos mostrou vocação e intelligencia ; e tendo propensão para ávida religioso, entrou para o convento desta cidade, profes- sando, em 14 de outubro de 1793, no convento da ilha do Bom Je- sus ; no convento de S. Paulo apphcou-se á philosophia, e no Rio de Janeiro, para onde regressou em 1802, com ordens de presbitero, obteve o diploma de lente de theologia e eloquência sagrada ; em "1808 foi nomeado pregador régio e examinador da mesa da con- sciência e ordens. A sua voz clara e forte, sua figura nobre e expressi- va, sua eloquência fácil e fecunda, o seu gesto imponente e grave da- vão aos seus discursos tanta magestade e belleza que o auditório commovia-se, e enlevava-se de admiração e respeito pelo orador.
Nomeado pregador da casa, era muitas vezes convidado inespe- radamente para orar em qualquer festividade, e se não recusava o talentoso monge, subia ao púlpito, e recitava uma oração su- blime.
Sabia aproveitar -se de qualquer incidente para impressionar aos seus ouvintes. Aconteceu um dia, que occupava o púlpito, sobrevir furioso temporal, acompanhado de horríveis trovões e vivos relam-. pagos ; interrompeu frei Sampaio o s ermão e em uma apostrophe arrebatou a multidão que atopetava o templo.
Quasi sempre que orava em presença do rei D. João Vi, offere- cia-llie este um mimo. de ordinário uma boceta de ouro para rapé.
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p ronla-sn que, quando o douto frado pcrcrou. oucontrarâo-sc cinco ou seis bocolas uiVorladas pelo rei.
De vasla e fecunda inlelligencia poucos oradores liào escripto lautos seruiòes como fiei Siuipaio, mas quasi todos desapparecerão da sua celia logo depois delle expirar.
Foi censor episcopal em 1813, deputado da Imlla da s;inta cruzada em 18^1, sócio da academia das bellas letras de Muuich e de outras sociedades litterarias.
Tomou parte activa na causa da independência do Brazil, escre- veu em diversos periódicos, e transformou a sua cella em conciliábu- lo politico ; pereceu em sen convento em 13 de setembro de 1830.
Existe em poder do Dr. Josií Mauricio Nunes Garcia o craneo de frei Sampaio (1).
Frei Francisco de Monte Alverne, chamado no século Francisco José de Carvalho, filho do ourives João António da Silveira, e de I). Anna Francisca da Conceição, nasceu no Rio de Janeiro em O de agosto de 1784. Entrou para o i'onvento em 28 de junho de 1801, e professou em 3 de outubro de 1802 ; partio para S. Paulo em 1804-, e lá recebeu ordens sacras das mãos do bispo D. Malheus de Abreu Pereira .
Applicando-se com muito estudo á philosophia, rhetorica e theo- logia, em pouco tempo passou dcdiscipulo a mestre ; em 1810 foi eleito passante de philosophia. e opposilor da