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Professor
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OlARTA PARTE DAHI8T0EIA
DE S. DOMINGOS
PARTICULAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL
OFFEnECIDA
DOM JOÃO V
POR
FR. LUCAS DE SANTA CATHARINA
ClIRONISTA DA ORDEM DOS PREGADORES, E ACADÉMICO DA ACADEMIA REAL
TERCEIRA EDICAO
VOLUME VI
LISBOA TYP. DO PAN0RA3fA
112— Rua do Arco do Bandeira— 112
M DCCC LXVI.
1)f
OE QUE A. J. F. LOPES É EDITOR,
E SE VENDEJI
NA SUA LOJA, RUA AUBEA N.« 132 E 134
Panorama, semanário dc inslruc- çào e litleratiira, funiiado em Í837. Uma colleccâo de 15
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Illuslraçào Luso-Brazileira. pe- riódico universal, coIlaLorado por muitos escriplores dislin- ctos. Tem completos 3 vol , em
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Como se sobe ao poder, c. cm 3 actos, 1 vol.8.°fr 400
O Sapateiro d'escada, c. em 1 acto, 1 vol. 8.° 160
A Doinadora de feras, c. em 1
acto, 1 vol 8"fr 160
A. CEZAR DE LACERDA
Um Risco, c. em 2 actos ICO
Scenas de familia, c. em 2 actos. 320
A Dúplice existência, c. em 4 actos 240
A Probidade, c em 2 actos c 1 prologo, 2.'ed 3#0
Os Filhos dos trabalhos, J. era 4 actos 300
OlARTA PARTE
BA
HISTORIA DE S. DOMINGOS
OllARTA PARTE DA HISTORIA
DES. DOMINGOS
PARTICILAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL
OFFERECIDA
A AUCÍUSTA MAGEfiTADE D'EL.-REI
DOM JOÃO V
POR
FR. LUCAS DE SANTA CATIIARINV
C!I1U)MSTA DA ORDEM DOS PREGADORES, E ACADÉMICO DA ACADEMIA tlKAL
ÍEIICEIUA EnU, 10
VOLUMl': VI
líSnOA TYP. DO !\[X0nA3IA — l\nà do Arco do na:.deíra. \\'>.
M DCCC LXVI.
QUARTA PARTE
DA
HISTORIA DE 8. DOMINGOS
PARTICULAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL I.ITRO TERCBIRO
Í)A FLWDAÇÃO DO MOSTEIRO DO SACRAMEXTO DA OBSERVÂNCIA DA ORDEM DE S. DOMINGOS, NA CIDADE DE LISíiOA
CAPITULO I
Dos Fundadores cresta Casa, e embaraços, que se oppuzcrão á fundação d'eUa.
Grande industria dos mais sábios Archi tectos da reforma, e resíaií- ração da observância arruinada, oííerecer aos olhos hum exemplar, quo jiKuluramente esteja convencendo erros, e abusos, para que vagarosa- mente (como se llie fora minando os ahcerces, e cnCraquecendo as re- sistências) se arrumem ás batarias da razão, e da verdade. Esta foi a santa, e bem considerada estratagema, com que o venerável RaymuMdo deCapua, Mestre geral da Ordem Dominicana, quiz reduzir a toda ella (I) das devassidões, e liberdades, que se tinhão introduzido pelo scisma, que contra Urbano VI prevaleceo, em favor do intruso Clemente VII, pelos annos de mil e trezentos e sessenta e oito. Decretou o Geral, que em cada Província liouvesse sequer hum Convento, que observasse a regra com todo o rigor, como está escrita, e a guardarão nossos primeiros Pa- dres, sem admittir dispensações, que forão as brechas por onde se iíi- troduzio a ruina na observância.
Imitou bem esta industria o venerável Padre j\íestre Frei João di; Portugal. Achava-se consultado do Conde do Vimioso, seu irmão, e da Condessa, ambos com espirito de darem á Ordem hum Mosteiro refor- mado ; applicou suas forças para que sahisse aquelle e^xemplo mudo, a
(Ij o nosso Castilho, llist. de S. Dom. 2." pait, liv, 2. cap. G2 c 93.
6 LIVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
condemnar a frouxidão, com que já caminhavão, nao só os da Provín- cia, mas de quasi todo o Reino ; talvez pelo abuso de começar a ser gé- nero de vida, o buscal-a em huma clausura, quem a nâo podia ter no século com mais fausto.
Era grande o coração do Mestre Frei João, criava brios nas difíicul- dades, voltava a Deos, e ao seu Patriarcha S. Domingos os olhos, e os cuidados, e sahia com a esperança de dar huma nova gloria a esta Pro- víncia, que a elle lhe está devedora das muitas, que nesta Casa contou, e vai contando, ajudando-o o Ceo, e metendo-lhe nas mãos a adminis- tração d'este ihesouro, que a Providencia Divina nos guardava, e agora lhe descobria por bem novo caminho. Era o Conde do Vimioso Dom Luiz de Portugal, filho do Conde Dom Affonso, que na lamentável batalha áe Africa, seguindo a El-Rei Dom Sebastião, perdeo a vida : desgraça, em que o acompanharão seus dous irmãos Dom Francisco, e Dom Manoel de Portugal. Achava-se casado com Dona Joanna de Mendonça, filha do Conde de Basto Dom Fernando de Castro, e de Dona Filippa de Men- donça, sua mulher.
Não vivião os Condes só em paz, e concórdia conjugal, mas com hum notável exemplo de piedade christãa, qne se via bem cm seus filhos, e famiha ; faíscas sem duvida nunca apagadas do amor de Deos, que nos primeiros annos lhes abrazara assim os corações, que mal escutados os afagos do mundo, o Conde buscara (fugindo á casa dos pais) o penitente bruel dos filhos de S. Francisco da Província da Arrábida, e a Condessa perseguira, e importunara sua mãl, para que lhe trocasse o dote na se- pultura de huma recoleta. Não tiverão eífeito estas grandes resoluções, porque quiz o Ceo guardal-o para idade, em que ficassem menos escru- pulosas, por mais meditadas, e mais ennobrecidas, por mais difficultosas.
Casarão finalmente os Condes, e vivião com o conhecimento de que tinhão perdido melhor estado; mas praticando entre si o não perder as esperanças d'elle. Inspirações parecião, que costumão acompanhar tão piedosos desejos, qne nunca estes vem a ficar menos bem pagos. Rei)o- tião-se-lhe na oração, que ambos frequentavão : e representando-so-llie bum dia ao Conde (estava então em Madrid) com mais viveza a perfei- ção da vida religiosa, e sahindo os embaraços a suspender-lhe os dese- jos, sentio ao fim d'es{a batalha hum interior abalo, que lhe confortava o espirito, como se ouvira, e claramente se lhe dissera: «Que não havia diíiiculdades para quem se resolvia.» Rezava então (como grande devoto
PÂUTICn.ÂR DO r.EIXO DE PORTUGAL 7
sen) o ?40sario da Senhora ; parcceo-lhe, que lhe devia aqiiellc bom peií- í^aiiíeiito, e o animo já mais níToiUo para execiital-o. Assim lhe encom- niendava o l)om effeito, [Kídindo-lhe, como a melhor estrelia, luz, e nor- te, para acertar o caminho ; e consuUando-o com pessoas doutas, e des- tras em matérias de espirito, que não duvidavão assentar que era ins- piração soberana, a que o chamava para melhor vida.
Não succederia menos n"este tempo á Condessa. Escreveo-lhe o Conde com resolução, achou-a com os mesmos desejos, e por ventura da mesma sorte favorecidos. Havia só a suspensão na escolha da casa; resolvia a Condessa, que a não aceitaria menos que recoleta. Como se n'ella vive- rão, bião passando, e esperando que o Ceo pozesse de melhor sem- blante as diííiculdades, que lhes diiaíavão, mas não torcião a determina- rão ; mas elle, que lhes queria arrezoar o premio, dobrou-lhe o coníli- cto, porque publico o segredo, começarão as resistências a provar-lhe as constancias. Divulgava-se, que o retiro seria para Conventos de mais estreita observanoia; que se lavraria hum, para recolhimento da Con- dessa. Parecia tudo, antes idéas, que resoluções assentadas, e soltavão-se facilmente contra ellas raí'I)es, que paredão convincentes na pratica da Corte, e especial, e mais livremente nas casas dos parentes, que não só estranhavão o intento como aéreo, mas feitos cm hum corpo, lhes nega- vão a communicação, sendo os primeiros Dom Fernando de Castro (pai da mesma Condessa) o Arcebispo de Lisboa Dom Miguel de Castro, seu irmão, e Dom Diogo de Castro, seu filho.
Discorri"ão : «Que a Condessa era já maior, que não teria forças, que resistissem, ou suportassem os rigores da vida austera, estranhando a falta do trato, que tivera sua. Que os Condes se achavão com três filhos, e duaá filhas.» Erão elles Dom AíYonso, succovssor na casa. Dom Miguel, e Dom Fernando de Portugal ; eilas Dona Filippa, e Dona Luiza (de que despois haverá maior noticia nas particulares d'esta Casa.) «Que parecia género de impiedade, deixal-os no mundo em idade, que inda necessi- tavão de amparo, e ensino. Que erão inconsideraveis os dispêndios com huma Casa, que se levanta dos primeiros alicerces, e que mal se- podia estender a favorecel-a, quanto mais a dotal-a, huma, em que eslavão attenuadas as rendas, e tão grossas ás dividas. Que resolução em maté- ria tão árdua, tinha de diíTicultosa o que lhe faltava de meditada, e posta em execução, por pessoas de tanta qualidade, estava sendo o alvo, a qne se applicavão os olhos, e os reparos de todo o mundo, com a conside-
'8 ■ LlVnO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
ração, de que o acerto passaria cora o nome de fortuna ; e o desmanclio, com o de imprudência.»
Assim discorrião as opposiçoes humanas, tão esquecidas de catiioli- cas, qae não advertião, que resoluções de melhoras de espirito só se podem vèr á luz d'aquella sagrada labareda, que para reduzir resistên- cias, e difficuldades a -cinza, assim sabe atear-se nos troncos secos, como nas verdes plantas da vida, e da humanidade. Ardia agora n'aquellas Abaras menos verdes, illustrando-lhes os entendimentos, para responde- rem -ás objecções, que lhes punha o mundo n"aquel[e natural idioma, em que só discorre sobre os commodos da vida.
Assim parece respondião os Condes : «Que para seguir a Deos em clausura, e estreiteza d'ella, não erão inhabeis os que chega vão na un- décima hora; porque o pai de familias, que satisfazia a estes, como aos que vierão ao romper do dia, lhes confirmava as capacidades na paga. Que deixar os filhos nos braços do mundo, pela pressa de fugir os en- ganos d'elle, tão fora estava de parecer desatino, que o melhor Salomão o dera por conselho, a quem quizesse grangear muito. (Se deixares, não só os pais, mas a esposa, os filhos, e as herdades, por hum vos hei de dar cento, dizia Christo (1).) Que se o desamparo dos filhos era n'este caso dos pais da terra, não era menos que de Deos a tutoria.» E não se vi- rão com menos admiração os effeitos d'esta nestes filhos deixados; por- que Dom Affonso, herdeiro da Casa, sahio varão claríssimo, luzindo so- bre os reaes timbres do sangue com o esmalte de virtudes naturaes, e adquiridas ; casou rico còm a filha de Dom Christo vão de Moura, Mar- quez de Castel-Rodrigo, privado grande de Filippe Prudente, e Yice-Rei n'este Reino, teve muitos filhos, desempenhou a casa, e satisfez ao em- penho, em que os Condes seus pais estavão á do Sacramento, para po- derem professar sem embaraço. Dom Fernando foi grande soldado, com procedimentos muito filhos de sua qualidade, e espíritos tão ardentes, e catholicos, que adiantando-se a pertender os prémios da immortalida- de, perdeo a vida, peleijando pela Fé, e ganhou a da í;\ma (entre natu- raes, e estranhos) como a que Deos costuma dar aos seus soldados. Dom Miguel avultou na modéstia, nas letras, e na capacidade, e occupando lugares de que era benemérito o seu talento, se sentou na Cadeira Epis- copal de Lamego, e passou a Roma Embaixador del-Rei Dom João o IV, que alargava a mão a prémios, que merecia maiores, a não estender-se
(i) Malth. 19. 29.
PÂRTICUI.AR DO REINO DE PORTUGAL 9
3 da morte a tirar-lhe a vida, que não mereceo tão curta. As filhas so- ])irão ambas a thalamo de melhor esposo, porque se não queixassem suas prendas, e qualidade, que era pouco o que fosse menos, queaquelle. Professou huma no Mosteiro do Sacramento, onde a Condessa sua mãi foi filha, e Fundadora ; outra em Santa Catharina de Sena em Évora : ambas exemplares, ambas n'estas escritos assumpto da nossa penna, e de maior memoria. Assim desempenhou Deos o oíTicio de tutor com os íilhos dos Condes. Mas atemos o fio ás repostas, que ainda vão dando ás objeções do mundo.
((Que não era inconsideração dar principio a huma Casa recoleta, «em segurança nos subsidios da terra, quando estas, como todas do Ceo, correm por conta da Divina Providencia, sahindo de suas mãos o que se escacea nas humanas, e passando por ellas (sem as importunarem supplicas) não só o sustento das pequenas aves, que suspirão no ninho, que a gala dos graciosos lirios, que respirão no campo. Que resolução, que Deos sem duvida inspirara para melhorar de vida, elle mesmo a havia de adiantar por sua gloria, e honra ; porque não era abreviada a sua mão, nem nas posses, nem nas piedades. Finalmente, que elles so punhão n"ella, como lugar, a que não podião chegar as calumnias dos homens mais que para melhora de seus interesses, e meritória prova de suas vontades.»
Fomentava estas o venerável Padre Mestre Frei João de Portugal, como quem andava destro em conhecer que aquelles estorvos erão o crisol dos espíritos, .e enfurecidos ventos, que inclinando os ramos da planta, dão a conhecer a firmeza, com que entranhou as raizes na terra; só restava a difíiculdade de haver quem se obrigasse ás dividas do Con- de, impedimento, que lhes retardaria as profissíjes (tomada a nova vida): mas soltou-se o embaraço, fazendo Dom Affonso, Conde herdeiro, a obri- gação, e deixando os pais livres, assim para votarem vida religiosa, co- mo para dotarem a nova Casa ; acto, que se celebrou na forma da se- guinte escritura :
«Em nome de Deos Amen. Saibão quantos este instrumento, doação, e doações entre vivos validouro, virem, que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesu Christo de mil e seiscentos e cinco, em vinte dias do mez de Outubro, na cidade de Évora, nas casas e aposentos do Se- nhor Dom Luiz de Portugal, Conde de Vimioso, ora morador nesta ci-
10 UVP.O III DA mSTOUIA DE S. DOMINGOS
ilade, estando o dito senhor presenic, e bem assim a Senhora Dona Joan- na de Mendonça, Condessa de Vimi<)so, sua mulher; e bem assim estan- do mais presente o Padre Mestre Frei João de Portugal, da Ordem, e ha- í)ito de S. Domingos, ora aqui estante, que a isto disse intervir em seu nome, e por sua parte, e por virtude de huma patente, que logo apre- sentou a mim Tabalião, perante as testemunhas ao diante nomeadas, do l'adre Frei Jeronymo Xavier, Mestre Geral da dita Ordem de S. Domin- gos, e por elle assinada, e sellada com o sello da dita Ordem, que no íim doeste instrumento irá tresladada, e incorporada; e logo pela dita Senhora Condessa Dona Joanna foi dito, que ella tinha tratado, e com- municado muitas vezes com o dito Senhor Conde seu marido, de faze- rem em Lisboa hum Mosteiro de Freiras da Ordem, e habito de S. Do- mingos, para o qual já tem havido auctoridade do dito Padre Geral, e ostão já assinalados quatro mil cruzados, que se hâo de empregar em <^:em mil réis de jiu-o, em cumprimento dos legados da Senhora Dona Liiiza, Condessa do Vimioso, que Deos tem em gloria, como mais larga" mente se contém em huma escritura, e instrumento publico, feito pelo dito Senhor Conde, e outorgado por ella dita Senhora Condessa. E por quanto ella Senhora deseja, que o dito Mosteiro tenha commoda renda, para melhor se poderem sustentar, e perpetuar no dito Mosteiro, por serviço de Nosso Senhor, que só he o que a isso a move, de sua livre vontade, e motu próprio, era contente de dar, e doar ao dito Mosteiro, como logo com effeito por este instrumento deu, e doou quatro mil cru- zados, os quaes nomea, e declara, que são do seu dote, daquella parte, 6 porção do dito dote, que ella Senhora pode testar, por entender que esta he huma das obras pias, qne ella pôde fazer, e deixar de maior ser- viço de Deos Nosso Senhor. Pelo que desde agora para sempre quer apartar, e aparta para bem de sua alma a contia dos ditos quatro mil cruzados, por este instrumento, e contrato entre vivos, e no modo mais firme, que em direito possa ser, e valer, digo, se fundará na Cidade de Lisboa, em todo o rigor das Constituições da dita Ordem de S. Domin- gos, e que serão as gradas do locutório fechadas, de modo que se não possão nunca nelle ver as pessoas, com quem fallarem, nem serem vis- tas, e assim mais serão obrigadas as ditas Religiosas a mandar dizer em cada hum anno para sempre doze Missas rezadas, e huma cantada de todos os Santos, todas em vida dos ditos senhores Condes, e Condes- siis, ditas por sua tenção, e despois de sua morte se dirão as ditas Mis-
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 11
SUS por suas almas, e de sou pai, e mãi, e descendentes, e a Missa so- Iciiine será de Defuntos, com o Officio de nove lições. E os ditos qua- tio mil cruzados, que por esta doação aparta da maior contia do sen dote, quer, e ordena a dita Senliora Condessa, que se empreguem em juro perpetuo, de dezaseis o milheiro, que vem a fazer contia de cem inií réis de juro perpetuo, os quaes quer, que sejao compra do dito Mosteiro, e que andem sempre nelle unidos em capella, com obrigação das Missas acima ditas. E porque esta doação, que ella dita Senhora Con- dessa faz, he para bem, e utilidade de sua alma, a qual utilidade deve jireferir a todas as mais, pedia ao dito Senhor Conde, que presente es- lava, que estes quatro mil cruzados acima declarados, e os cem mil réis de juro, que com elles se havião de comprar, se dessem, e pagassem logo ao dito Mosteiro, porque com isso os ha ella Senhora por recebi- dos, e a elle, Senhor Conde, por desobrigado de llfos tornar a dar, e jjagar para comprimento de seu dote: e desde agora para o tempo, em (jue as Religiosas do dito Mosteiro houverem os ditos quatro mil cruza- dos, e cem mil réis de juro, que com elles se houverem de comprar, dá quitação plenária ao dito Senhor Conde da dita contia do dote, cons- tando, que as Religiosas do dito Mosteiro estão satisfeitas delle, o que ludo' assim cumprir, obriga todos seus bens, e rendas, e em especial hypothecava os ditos quatro mil cruzados, de que em todo o tempo po- dia testar. E logo pelo dito Senhor Conde foi dito, que era verdade, que muitas vezes tinha tratado com a dita Senhora Condessa todo o sobre- dito, e que pois ella de seu próprio motu, e livre vontade fazia esta doa- ção, e obrigação: que elle declarava, que de tudo era contente, e a tudo dava seu pleno consentimento, e outorgava, e promettia de em tudo cumprir, e guardar esta doação, como pela dita Senhora Condessa esta- va dito, e declarado, por entender, que esta era huma das cousas demais serviço de Deos Nosso Senhor, que elles podião fazer, e ordenar; e que para este contrato, e doação ser mais firme, elle Senhor Conde para tudo haveria provisão de Sua Magestade; e por quanto tinha hypothecado, para pagamento do dote da dita Senhora Condessa, o seu prazo de Pa- Ihacana, que está situado no termo de Alemquer, e Torres Vedras, elle Senhor Conde agora de novo torna a hypothecar, e obrigar por este ins- trumento toda a renda do dito prazo de Palhacana, para pagamento dos ditos quati'o mil cruzados acima declarados, por serem, como são, bens dotaes, e por ser a {larle, e porção d'elles, que precede todo o mais pa-
12 LIVRO lil DA HISTOBIA DE S. DOMINGOS
gamento do dito dote, e bens dotaes, pois lie para proveito, e utilidade da alma. E disse mais o dito Senhor Conde, que elle desde agora para sempre, se obrigava logo dar, e pagar os ditos quatro mil cruzados, e comprar com elles os ditos cem mil réis de juro, situados na cidade de Lisboa, por padrões assinados por Sua Magestade; e que em quanto não dava os ditos padrões, pagaria a contia dos ditos cem mil réis, que n'el- Jes se monta, dos bens, e rendas de sua casa, dentro na cidade de Lis- boa; o qual pagamento começaria a fazer do dia em que as Religiosas do dito Mosteiro entrarem n'elle, o que para tudo assim elle dito Senhor inteiramente cumprir, e guardar, disse, que obrigava todos seus bens, e rendas, em especial o dito prazo de Palhacana, como está dito, e de- clarado. E logo pelo dito Senhor Conde foi dito, que posto que por esta doação, e por outro publico instrumento, que elle dito Senhor Conde fez, para comprimento dos legados da Senhora Condessa sua mãi, as di- tas Religiosas hajão de haver em Machico cada anno duzentos mil réis de juro, conteúdos no dito instrumento, e neste presente; e que posto í}ue para o principio da fundação do dito Mosteiro seja bastante esta renda, que todavia lhe parece, que crescendo o numero das Religiosas, como confia em Nosso Senhor, não se poderão bem sustentar com me- nos de quatrocentos mil réis de renda ; e tratando elle, Senhor Conde, com a dita Senhora Condessa muitas vezes, o que nisto podião fozer, para que esta fundação do dito Mosteiro, que ora pertendem fazer, vá sempre em augmento, ambos de mão commum consenti mento^ hão por bem, e são contentes de fazer de novo doação, além das duas, que já estão feitas, e acima referidas, de fazenda, e juros, que bem valhão du- zentos mil réis de renda in perpetuum cada hum anno. A qual doação em eíTeito agora por este instrumento fazem elles Senhores ambos, e cada bum de commum consentimento. Declarando, que por quanto ao presen- te tem muitas dividas, com as quaes não podem com boa consciência fa- zer obrigações, e doações, que elles Senhores hajão de pagar logo : E por quanto conforme a traça, que tem dado para pagamento de suas di- vidas, conforme a renda que hoje tem, e possuem, lhes parecia, e en- tendem que dentro de termo de oito annos poderão facilmente pagar todas as suas dividas: por este publico instrumento dizem, e declarão que elles não serão obrigados a dar, e pagar os ditos duzentos mil réis de juro, conteúdos n'esta ultima doação, senão despois de oito annos compridos...»
I
PAimCULAn DO REINO DE PORTUGAL Í3
Este o essencial da escritura, estendendo-se mais em seguranças, e clau- sulas tabalioas. Foi feita em Évora, por Luiz de Pegas, publico Tabalião. Correrão logo facilmente as licenças, assim da Ordem, como d'el-Rei ; só o que nâo teve effeito, forâo os segundos duzentos mil réis, que diz a escritura, porque el-Rei Filippe III de Castella, que governava então esta Coroa, respeitando os serviços do Conde Dom Luiz, deu a este Mos- teiro, em que estava, e professara sua filha Dona Filippa, duzentos mil réis de pensão na Mitra de Braga, notificada ao seu Arcebispo Dom Frei Aleixo, em Março de 615, e confirmada por Paulo V-
CAPITULO II
Impetra-se licença do Geral : escol he-se sitio : dá- se principio ao novo Mosteiro. .
Via-se já o Mestre Fr. João desassombrado dos impossíveis, que tan- to ameaçarão os progressos da empreza; queria dispor os meios para a' felicidade da conservação delia. Media com largas experiências os cami- nlios, por onde pouco a pouco se arruinava a observância; tinha enten- dido que o humor, e variedade das cabeças afrouxava, ou reprimia a que devia haver nas leis; almas, com que vivião as MonarchiaSj assim seculares, como ecclesiasticas; e resolveo, que o Mosteiro que tinha en- tre mãos, passasse immediatamente ás do Geral da Ordem, ^em subor- dinação alguma aos Prelados da Província; ou porque aquelle (sem o risco de variar a lei com o governo) he entre nós perpetuo, ou porque' nestes he talvez conveniente deputar Vigários, antes da devoção própria, que da utilidade da Casa; accrescentando, que as Religiosas desta fos- sem as que, examinados os talentos da Província, propuzessem ao Reve- rendíssimo os que escolhião para o cargo, altendendo a que n'elle devião preceder os mais reformados, e os mais doutos, assim para auctoridade da Casa, como para zelo da observância.
Era Mestre Geral da Ordem Frei Jeronymo Xavier, natural de Çara- goça (que despoís foi Cardeal): achava-se a este tempo no Convento áa S. Paulo de Valhadolid; representou-lhe o Padre Mestre Frei João, em nome dos Condes, com carta sua, os intentos de dar hum novo Mostei- ro á Província (Casa de total reforma, e só a elle subordinada); o dote, que offerecião; a resolução, que tomavão de recolher-se (feito volunta-
i% LIVRO TTI DA IIÍSTORIA DK S. DOMINGOS
rio, c santo divorcio) nos mesmos Claustros Dominicanos; noticias todas (ic estima para Deos, pai'a a Ordem, e para o Mundo. Passou logo o Re- verendíssimo patente ao Mestre Frei João, com a comitiva do que lhe propunha, inteirado de sua auctoridade, zelo, e prudência. Assim veio a ser o primeiro Vigário, que teve a Casa. Traduzida do Latim em For- tugucz, diz assim a patente:
«Ao Reverendo Padre Mestre Frei João de Portugal, da nossa Pro- víncia de Portugal, da Ordem dos Pregadores, Frei Jeronymo Xavier de Çaragoça, humilde Mestre Geral de toda a mesma Ordem, e servo em Christo, saúde. Como nenhuma cousa possa ser para nós mais agradá- vel, que experimentar diante de Deos, e dos homens, que a nossa Reli- gião, que foi instituida, e fundada para a salvação das almas, florece, e faz frutos suavíssimos de virtude; estende, e dilata seus ramos no cami- nho do Ceo, pelos ministros, e fieis dispensadores da mesma Religião; de boa vontade, quando se olferecer occasião de dilatar nossa Religião, favoreceremos tudo quanto pudermos. Por esta razão, entendendo n{')S que os muito illustres Condes de Vimioso desejão muito fundar Mostei- ro da nossa Ordem, dentro nos limites da dita nossa Província, dando- Ihe bens próprios, que bastem para sua sustentação; por tanto, por au- ctoridade desta patente, e de nosso officio, damos licença a vós, Reve- rendo Padre Frei João de Portugal, para levantar, edificar, e instituir o dito Mosteiro de Freiras, como agradar ao zelo, e providencia dos ditos Senhores Condes; querendo, todavia, que nenhuma cousa se estabeleça nesta fundação deste Mosteiro contra as sagradas Constituições da nossa Ordem, nem fora delia, nem que se introduza novidade alguma no ha- bito, ou ceremonias. Mas declaramos somente, que o dito Mosteiro se funde, levante, e institua com a observância, e pura guarda de nossas sagradas Constituições, guardando-se inteiramente; advertindo-vos, que procureis que seja fundado o dito Mosteiro com bastante renda, para se sustentar sem pobreza, e falta das cousas necessárias, não encontran- do a isto cousa alguma; para fé do que me assinei aqui ao pé d^esta, sellada com nosso sello. Dada no nosso Convento de S. Paulo de Valha- dolid, aos oito dias do mez de Julho, de mil e seiscentos c cinco.»
Fr. Jerorif/mo Xavier.
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 15
Supposta esta licença, anplicou o i\iestre Frei João as mãos, e os desve- |.)S á obra: mas rei)iv<(Mtl;,ivãii-<e-liie (e bem; os vagarei, com que ca- luinlia a que para huma grande duração se levanta dos primeiros funda- mentos, ainda com promptidão de cabedaes. Via, que desejos de buscar a Deos não sabem esperai', porque se apagão tudo o que se não adian- tão; que os da Condessa, sendo (como erão) verdadeiros, não saberião ser soílVidos; que huma resolução contra o voto de todos, tudo o que tivesse de suspensão, se ajuizaria arrependimento. Estas razoes Uie acon- selharão a promptidão, como ahcerce, sobre que crescem bem afortuna- dos todos os edifícios, fabricados para agasalhar desejos: não reparou assim, que fossem os principios antes imperfeitos, que retardados, sen. do a humildade delles mais própria de gente, que vinha a professal-a, e que antes vinha a edificar com exemplos, que com artifícios.
Arrendou humas casas, que abaixo do Convento de S. Vicente de fora íicão junto ao postigo do Arcebispo, propriedade do Morgado dos Campos, Álvaro de Andrade, de que estava então de posse Ruy Vaz do Sequeira. Erão as casas a propósito para o que se pertendia, por des- pejos, e largueza: com que a pouca despeza se accommodarão de Ermi- da; repartirão-se as casas maiores em estreitas cellas; a este estyio as ofíicinas. O enxoval para as primeiras povoadoras não deu muito em que entender, mais que no cuidado de se cercear ainda o preciso, como aciuel- le, que havia de ficar por molde ás professoras da pobreza, e estreiteza religiosa. Huma barra de taboas, enxergão, e cliumaço, mantas de lã, o grosseiro cobertor, huma cruz de páo á cabeceira, cortiça, ou esteirão para assento; hum banquinho tosco de obra, e matéria, para accommo- dar dous livrinhos devotos. Estas as alfaias de huma casa, antes sepul- tura, que vivenda. Este o ornato, que hoje com o mesmo rigor se con- tinua.
Preparada assim a hospedagem (para quem não queria achar nella cousa, que divertisse, ou não apressasse a jornada, que se fazia para me- lhor vivenda) reparou o Mestre Fr. João os inconvenientes, que linha o conformarem-se as novas Religiosas com o canto da Ordem, porque nem seria fácil entre poucas o juntarem-se vozes capazes, e scientes, e con- vinha menos o facilitar o trato com Mestres. Impetrou dispensação do Geral, para que podessem usar o canto da Capucha, fácil, e devoto (como sem regras, ou artificio) usado commummente nas Recoletas dò Reino. Foi passada a patente em 3 de Maio de 1G20.
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CAPITULO III
Referem-se alguns vaticínios de pessoas de reputação em virtude, sobre w fundação d' esta Casa: dá-se a razão de intitular-se do Santíssimo Sa- cramento.
Sâo os vatícinos, e os presagios aquelles prólogos, ou prelúdios, com que começão a dar-se a conhecer os effeitos, que o Geo destinou para privilegiados; ou as primeiras luzes, com que costumâo madrugar as fu- turas, e grandes singularidades; e aquelles talvez forâo os primeiros tro- peços da Gentilidade cega, e mal aconselhada ás vozes dos oráculos, em que o pai da mentira lhes auctorisava os enganos. Assim venerava Di- vindades a seus Monarchas,- e Emperadores, anticipadamente prometti- dos pela boca dos fados, como venerou a Alexandre, vaticinado no ven- tre de Olympia, em a figura de huma affouta, e destemida fera (1). As- sim se jactava Virgílio da guerreira, e victoriosa gente Romana, augurada em a cabeça de hum bellicoso bruto, casualmente achada nas entranhas da terra.
Mas não nos detenhamos na supersticiosa observação gentiUca; pas- semos á Galholica, donde verdadeiros vaticínios, e mysteriosos presagios começarão a fazer lugar no assombro, e estimação dos homens áquellas cousas, que por grandes ficão sempre fora da disposição d'elles; dispon- do muitas vezes o Geo o anticipar-lhe a veneração na figura, ou dando a entender no desvelo a valia, a que sobem no seu conceito, ou doutri- nando os homens, para que o não facão tão leve, do que talvez não sen- tem mais que. humanamente. Precederão assim aquelles mais que ho- mens (ou elegantes ou mudos) os brados da Providencia, abrindo-lhe ca- minho entre as estimações da terra. A Samuel, e ao grande Precursor nas vozes de hum Anjo: a Golumbano, Santo Abbade, na figura de hum Sol, que illustrava o Mundo: a Villebrordo, Bispo, e Santo, na forma de huma Lua, que entre sombras resplandecia: a S. Domingos, antes de nascido, na forma de hum rafeiro (jerogtifico ApostoHco) com huma lo- eha na boca, que accendida abrazava a terra; despois de nascido na bri- lhante estampa de huma estrella, norte para buscar o Sol, ou escondido ás sombras da culpa, ou perdido aos desatinos da cegueira.
Estes os desvelos do Geo em dar a conhecer, ç a venerar os seu^
(I) Quinto Curòio, Ur. í.
PAUTICULAU DO REINO DE PORTUGAL 17
mimosos, e os seus privilegiados ao Mundo; não faltando com os mes- mos presagios á futura producção, e propagação de Religiosas Famílias, como admirou o Mundo nas duas Imagens de animosos Atiilantes (estes forão Francisco, e Domingos) applicando os hombros a todo o pezo da Igreja, inclinada a falai ruina; visão permittida pelo Ceo a Innocencio líí, Pontífice Máximo, dando-lhe a conhecer, que serião duas illustres Famí- lias o duplicado arrimo, em que o mystico corpo da Militante Igreja des- cançasse, e se refizesse das forças enfraquecidas no combate das here- sias, dos peccados, e dos tempos. Não menos cuidado parece, que cus- tão á Providencia de Deos as fabricas sagradas, como berços, e como aulas em que se crião, e adestrão os espíritos seus mimosos, e triun- fadores do Mundo. Com slmilhantes prerogativas havia este de admi- rar a nova Casa do Sacramento; e dispoz a Providencia, que começassem os vaticínios a ser recommendações para a veneração da terra, como tes- lemunhos do que a estimava o Ceo. Foi hum delles o seguinte.
Ficara viuva do Conde de Atouguia Dom Luiz de Ataíde (o grande, o temido, o sempre victorioso com a espada, e bastão, que duas vezes empunhou no Império do Oriente) a Condessa sua mulher Dona Isabel da Silva, moça rica, e tão mimosa do Ceo, como desenganada de que valia mais huma mortalha voluntariamente escolhida, que toda, e a maior riqueza; e que huma voluntária sepultura era a verdadeira urna do Fé- nix, em que só se consumia a idade para melhor vida. Hum, e outro interesse, o da sepultura, e o da mortalha, pertendeo, e conseguio, en- trando no Mosteiro da Madre de Deos, bem celebre cora o nome de ob- servante; mas ao tempo que esta senhora dispunha a sua entrada, ou praticava a resolução delia, teve aviso de huma pessoa de grande espi- rito, que se dlspuzesse a hum certo lucro de sua alma, esperando por huma nova fortuna, porque tinha Deos revelado a certa pessoa mimosa sua, que n'esíes Heinos de Portugal se havia de levantar cedo hum Mos- teiro do Paíri arclia S, Domingos em forma de recolela, e que as três primeiras pessoas, que fossem auctoras da fundação, terião três coroas no Ceo. Não tardou muito a fundação desta Casa em auctorizar a profe- cia. A mesma Condessa a tinha communicado; testemunharão as Religio- sas do Mosteiro que assim lho tinhão ouvido; guarda-se o testemunho delias (como de pessoas de tanta reputação) no deposito da Casa. ainda que stm r:oticia da pcssca, que mercceo ao Ceo aquella anlicipada; por
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que secretários de similhanles segredos fazem tanto pelos merecer, como por se não descobrir.
Achava-se em Madrid o Mestre Frei João de Portugal, no Convento de Nossa Senhora de Atocha; era já a tempo, que tinha commissão do Reverendissimo para a fundação doeste Mosteiro particular, que commu- nicava com algumas pessoas de espirito; foi huma d'ellas o Mestre Frei Melchior Cano, Rehgioso da Ordem, de grande reputação em letras, e virtude (de cuja vida, milagres, e profecias, ha já historia impressa). Ale- grou-se o servo de Deos, e com singulares demonstraçcies de alvoroço disse ao Mestre Fi"ei .loão que nada lhe podia dizer de maior consolação, porque estas fundações novas erão como huns jardins de flores de inex- timavel fragrância. Não sahirião da boca de tão grande espirito simi- Ihantes palavras (e com taes circumstancias) só como conjectura; parece que as podião ter de profecia.
Caso de igual ponderação succedeo ao Padre Mestre com hum Reli- gioso da Ordem Seráfica, na sua recoleta de Villa Franca, na mesma Província de Castella. Via-se aílligido com alguns embaraços, que pro- mettendo dilações, parece que davão lugar á contingência na importân- cia da fundação, não perdoando elle a desvelo para destruil-as; e com- municando-o com o Religioso, elle lhe respondeo de sorte, que o Mes- tre Fr. João houve de entender mais da reposta; porque com resolução lhe afllrmou que não haveria embaraço, que impedisse a fundação do Mosteiro; passando a tocar algumas cousas futuras, que depois mostrou o successo o conhecimento, com que forão ditas: tudo pesou, e soube pesar o Mestre Frei João, assim pela destreza de saber avaliar espirites, como porque o deste Religioso lhe tinha grangeado naquellas partes a reputação de Santo; chamava-se Fr, Francisco Malion. Assim parece que se agradava Deos daquelle pequeno rebanho, a que tinha promettido o Reino, dispondo também que cá na terra tivesse, como de casa, aquclle milagre, que he o penhor d'elle, como se vio no brazão titular, que teve o Mosteiro, chamando-se Casa do Saiitissimo Sacramento, com circums- lancia não para esquecida.
Resolvia-se o Conde de Vimioso Dom Luiz a esta fundação a tempo que Dona Filippa sua irmã (que se recolhera em Santa Catharina de Se- na em Évora) intentava (levada de interior impulso) passar-se á recole- ta da Madre de Deos em Lisboa. Advertia-lhe o Conde seu irmão, que visto se resolver a abraçar vida austera, e morliíicada, tinha de casa o
PARTICLXAR DO REINO DF. PORTUGAL iO
que podia desejar no novo Mosteiro, de que elle era fundador, e bre- vemente intentava pôr em execução: ao que respondeo Dona Filippa, que ella lhe dava palavra de não fazer outra escoliia, se entrevisse huma circumslancia (para ella de maior estima) que era o intítular-se o Mos- teiro do Santíssimo Sacramento. Esteve pela condição o Conde, não obstan- te o estar já divulgado o titulo de Santa Catharina de Lisboa, em reco- nhecimento de lhe dar aquella Santa para fundadoras as fdhas da sua Casa de Évora.
Era Dona Filippa de Portugal (mostrou-o melhor depois no novo Mosteiro, para que veio logo) devotíssima daquelle maior compendio dos milagres, pão dos anjos, e dos homens; e dispoz o Ceo pagar-ihe aquel- le affecto, trazendo-a ao rebanho, a que com a singularidade do titulo parece que permittia, como mais próprio, aquelle soberano pasto para ahmento de melhor vida, e singular patrocínio d'aquella Casa; como se desempenhara agora n"ella o que por boca de seus Profetas promette- ra ao seu povo mimoso (não já o Israelitíco, mas o Catholico, e em todo elle a esta pequena parte da fomiha de Domingos) que o que fugisse dos grilhões do Mundo, vi vi ria na Casa do trigo sagrado, crescendo como fecunda vinha, e derramando por todos os séculos as fragrâncias de sua memoria: Vimnt tritico, et germinahnnt quasi vinea^ memoria ejiis, sicut vinum Libani (1). Parece que este foi também hum dos vaticínios, que quizerão auctorizar esta Casa, dcscuberto no título, que lhe dispoz a Divi- na Providencia.
CAPITULO IV
Vem fará primeiras fundadoras do Mosteiro, e entrão nelle Religiosas do de Santa Catharina de Sena de Évora; dá-sc noticia de quem forão.
Achava-se o Mestre Frei João de Portugal sem mais embaraço para liospedar n^aquella pobre clausura os espíritos, que se sacrificarão a ella, que a escolha de primeiras Mestras d'aquella nova vida. Tinha já do Re- verendíssimo Frei Jeronymo Xavier outra patente para poder tirar de qualquer Mosteiro d'esta Província aquellas Religiosas, que livre, e es- pontaneamente se oíTerecessem para a nova recoleta, e para poder pôr preceitos, e censuras a toda, e qualquer pessoa da Ordem, que lh'o
(1) Oseae cao. 14. v. 8.— Da Eiicliarislia c das almas, que buscão a Dcos deixando os laços do mutilo. Ilc commum nos Ex]»0!?'.toics.
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embaraçasse, ou impedisse, ecom commissão para eleger primeira Prela- da. Com esta aulhoridade tirou do religioso, e reformado Mosteiro de Santa Catharina de Sena de Évora três Religiosas, e liiima Noviça, de tanta capacidade, que criadas n'aquelle berço da observância se achavão com espirito para estreital-a. Erão Soror Isabel de Jesus, não só liuma das mais reformadas, mas tida por mulher de vida inculpável, e santa ; Soror Joanna Bautista, com tâo bom nome de virtude, e zelo, que cor- rendo o tempo, foi Pnoresa ; e Soror Filippa de Jesus, sua irmâa, de não inferiores prendas, íillias ambas de x\ndré Bugalho Sodrinho, e de Dona Damiana Pereira de Savedo; era a Noviça Filippa do Santíssimo Sacramento, natural de Lisboa, fiili^ de João Vaz Rebello, e de Maria de Lemos, tudo gente conhecida, e nobre. x\companharão a estas Leonor Pires Rosada, já viuva, filha de António Rosado, e Cecilia de Soure, la- vradores honrados, e ricos em S. Miguel de Machede, no termo de Évo- ra, e huma filha sua, Cecilia de Soure, assim mãi, como filha, para se- rem Conversas.
De Évora até Lisboa as acompanhou o IMestre Frei João, e outros Religiosos graves ; as duas, que havião de ser Conversas, se recolherão logo na Casa nova para preparação, e aceio d'ella. As Religiosas ficarão no Mosteiro do Salvador, assim por mais visinho ao novo, como por Casa da Ordem, e merecedora de taes hospedas, por reformada, rnda que já enfraquecido o primeiro vigor, em que tiverão poder os annos, grandes arruinadbres de santos edifícios. Alli estiverâo o dia, que che- garão da jornada, ale á tarde do seguinte, em que se recolherão ao novo Mosteirinho, deixando aquella Casa edificada, como saudosa ; tal era o seu exemplo, tal o seu trato ! He verdadeiro iman a virtude, attrahe com brandura, sem ainda lhe repugnar a dureza. Quanto mais, que não acha- va n'esta Casa estranhezas a primeira reforma, como a que já fôi'a cen- tro d'ella ; antes erão aquelles encontros poderosos fuzis, que ferião frias pederneiras a tirar faiscas de santa inveja. Foi o dia em que se reco- lherão, o nono de Julho de IG07, e oitavo da Visitação.
Ao sahir do Salvador as Religiosas, deixados os hábitos, que trazião de Évora (como mais mimosos, por serem de estamenha) e amortalha- das em hum burel branco, ou grosseira grizé, toalhas de linlio estiradas, e sem artificio, lançarão compridos, e tapados veos sobre o rosto, com que não só servirão de novo espectáculo ao povo (que concorreo a vêl-as) mas forão poucos os olhos, que lhe não pagarão em lagrimas aqueile
PAíiTlCULATl DO IlKíNO DE PORTUfiAL 21
dcseDgano, tine lhe liiao dando mudas. Com a Gommimidade de S. Do- mingos concorreo muita nobreza a acompanhal-as, assim em obsequio do Conde, como em veneração de taes hospedas. Recolhidas ao Mostei- ro, foi a primeira acção lançar o Vi^^ario o habito ás duas Conversas. Chamou-se a mãi Soror Leonarda da Assumpção, a filha Soror Ceciha dos Anjos, gente singela, e criada no campo, que despois se fez lugar no das virtudes, e agora o merecerá particular n'estes escritos. Assim principiou a nova recoleta com três Professas, e três Noviças.
Mas não deixe de entrar nas memorias d'este dia hum successo, que sem duvida o deixou mais glorioso, e o apadrinha mais lembrado. Como ioda a anciã d'aque{la santa famiha era vêr-se sepultada, nenhum cui- dado lhe levou o tratar-se como viva. Assim se recolherão sem provi- mento para a mais limitada colação d^aquella noite ; em casa não houve quem o dispuzesse, menos de fora quem o advertisse, porque o Mestre l<rei João se tinha recolhido ao Convento com a Communidade. Mas já erão aquelles espíritos os castos lírios do monte do Sacramento, que crescião, e se alimentavão sem cuidado próprio, porque o Ceo era o que se havia de desvelar no seu sustento (1). Parece que assim o mostrou o successo. Não as assaltou aquelle, porque não tinha mais que ser anti- cipado aos que todas vinhão buscando ; forão-se ao coro a dar graças ao Senhor por aquelle primeiro mimo ; e contlnuarão-nas por outro ; porque ao mesmo tempo acodlndo ao sinal, com que chamavão á por- taria, acharão a huma mulher de estado humilde, que vlslnha ao Mos- teiro, e affeiçoada á nova visinhança (tal era seu bom coração, e singe- leza) vinha saber se necessltavão de alguma cousa. Soube da falta, e com boa diligencia lhe trouxe algum pão, acompanhado de cousa tão li- geira, eomo buscada áquella hora.
Assim hospedou Deos aquella noite as novas esposas em sua Casa, como dando-lhes a entender que já começavão a gastar do dote da po- breza. Chamava-se a m.ulher Domingas Francisca, que (como se a penú- ria soubesse ser negaça) não sahlo mais da portaria, deixando sua casa pelo Interesse de servir nesta; o que fez em quanto lhe durou a vida, deixando ao Mosteiro por sua morte huma herança tão pobre, que s(') lhe deu aquelle nome a vontade. No dia seguinte á entrada se expoz o Santíssimo na sua Ermida com Missa cantada, e Sermão, que sérvio as-
(1) Accrvus trilici vallatus liliiis. Cant. 72.— Considcratc lilia quomodo crescunl, non labo- lant. Liic. li. '11.
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sim de edificar os ouvintes, como de accender os corações das novas ob- servantes, para dar graças ao Ceo de se verem no centro d'aquelles es- pinhos, que elle sabe trocar em flores, para immortaes grinaldas de es- [iritos penitentes.
Estes forâo os pequenos alicerces, de que começou a crescer o gran- de edificio, que tâo brevemente se avisinhou ao Ceo; este o mysterioso, e apoucado grão de mostarda, semeado naquelle cantinho da terra, de que brotou a fermosa arvore da observância Dominicana, em cujos ra- mos começarão a hzev voluntária habitação tantas aves celestes, ou tan- tos espiritos obedientes. Finalmente este, o pequeno, mas Real cubiculo em que o Esposo Rei introduzio as almas justas, banqueteando-as com a mais suave das iguarias, dando-lhes seu Corpo para sustento, e a Casa da Eucharistia para domicilio, de que pôde jactar-se entre perennes jú- bilos este Sagrado Coro de esposas, lembrando-Ihes este dia, como o em que receberão da liberalidade do Esposo tão sinalada fineza: Intro- duxit me Rex in cellaria sua: exuUabimus, et Icetabimur in te, memores nberum liiorum (I).
CAPITULO V
Elege-se a primeira Prioreza do Mosteiro-, acodem Religiosas de outros, tomão o habito Dona Fiiíppa de Portugal, e a Condessa fundadora.
Era tempo de dar cabeça áquelle corpo mystico (ainda que pequeno) para que começasse a respirar nelle a nova vida da observância nos exer- cícios da obediência. Havia de ser a primeira Prioreza creação do Padre Mestre Frei João, como verdadeiro, e absoluto Vigário da Casa n'esta Província; não lhe dava cuidado o buscar, senão o escolher: assim erão iguaes as virtudes, e as capacidades das novas súbditas para a prelazia, que só a humildade religiosa, e observante, emmudeceria a queixa ao merecimento das deixadas, e só a ol)ediencia levantaria a maior lugar a preferida. Foi esta a Madre Sor Isabel de Jesus, não só por mais anti- ga, mas por dotada de huma singular singeleza, e brandura, partes gran- des fomentadoras de novas reformas, o muito a propósito para levar adiante o rigor delias, suavizado no génio tralavel de quem mandando para desempenhar o cargo, acompanha para facilitar com o exemplo.
Já começavão de levantar-se as vozes do (pie davão as novas obser-
(1) Cant. I.
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vantes, nlío só espalhadas pelos ouvidos da Corte, mas recebidas, e bem aceitas nos dos outros Mosteiros, soando mais persuasivas nos corações das mais reformadas nelles. Virão-se notáveis eíTeitos; do da Annuncia- da (também da Religião, e hum dos mais graves, e reformados delia) sahio Soror Victoria da Cruz, trazida de santa emulação de querer tam- bém pizar aquello novo atalho, que na terra se linha descuberlo para o Ceo. Do de Aveiro trouxe a mesma resolução a Madre Sor Catharina dos Martyres; e não sendo menos eííicaz nos pertos, que nos longes aquelle mudo pregão da virtude, apressou a Dona Filippa de Portugal, irmã do Conde fundador Dom Luiz, para entrar por aquelias pobres, mas ven- turosas portas, tão despida do que lhe podia olferecer, e tinha offereci- do o Mundo, como acompanhada do muito que lhe dera o Ceo, não sen- do o de menos valor hum claro, e comprehensivo entendimento, com bastante noticia da Latinidade, de que se valeo para a das Escrituras, de que tirou o thema, que nesta occasião deu ao Mestre Vigário para a pratica, que lhe fez na entrada. Foi o verso 13 do Psalmo 05. Introibo in domum tuam in holocaustis: reddam íibi vota mea, fjiue distinxerunt lábia mea. Como se dissera: Entrarei, Senhor, a ser vidima nos Altares de vossa Casa, e desempenharei comvosco a minha promessa. A que tinha feito (atraz fica dito) de entrar nesta Casa, vinha cumiprir agora com tan- to alvoroço, como quem assim estendia os olhos á paga, que esperava, como os passos á que fazia.
Não soffrião os Condes fundadores ver que se lhe fossem adiantan- do aquelles espíritos, a que talvez a sua resolução dera exemplo; já lhes parecia omissão o não tomal-o, sem se quererem valor para a desculpa de detidos, da de irem rompendo o caminho por entre embaraços. Pa- recia-lhes contemporizar com o Mundo, o escutar aquelles, ainda as mais reconhecidas difficuldades; romperão hum dia com todas, e mandando levantar antemanhã toda a famiha, recolhidos com elia a hum Oratório, e feila oração, abraçada a Condessa com huma Cruz, e nas mãos hum Hosario, voltando-se aos filhos com hum animo varonil, e espirito abra- zado (de que parecião faiscas as palavras) lhes disse as similhantes pa- lavras:
«Bem sei que o mundo chamará a esta resolução despego; e não deixara eu de consentir na opinião do Mundo, se as luzes de Catholica me não ensinarão, que sendo Deos o centro das creaturas, nunca obrão
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ellas com mais razão, que quando huscao este centro. Sei qne vós ou- tros sois pedaços da alma; e querer salvar este todo, nunca pôde ser vio- lência para as partes d'el!e. Deixar- vos, por buscar a Deos, he pòr-vos nas nriãos de Deos; e melliorar-vos de pai, não he privar-vos de mãi. Em não teres na mãi a assistência, tendes no pai o remédio; e não Ili- des a perder nada, se lie á custa de ^rangear tanto. Deos, que vos tira dos meus braços, he para vos não tirar dos seus olhos; vede lá quanto mais valem os seus olhos que os meus braços. Não podeis duvidar aquel- le mimo, se olhais para a minha resolução; porque, sendo Deos tão jus- to, e tão igual, nada perderei por amor delle, que elle não conserve por amor de mim. Lembre- vos que vos criei com todos os desvelos de mãi; só o vosso procedimento quero por paga deste trabalho; e se o vosso nascimento, e o vosso ensino vos executão a ser bem procedidos para o Mundo, hoje, para que o sejais para Deos, vos dá o meu exemplo me- lhor ensino. Não podia eu fazer mais com assistir-vos, do que o que faço em deixar-vos; que o que vai de ensinar-vos a agradar ao Mundo a ser- vir a Deos, he o que vai do ensino, que já vos dei, ao exemplo, que hoje vos dou: e se vos deixo melhor ensino neste exemplo, muito melhor mãi vos escolho quando vos deixo. A Virgem do Rosário he vossa mãi; isto quero que vos lembre desta despedida: que com o Rosário na mão vos lancei a ultima benção Faça-vos a minha lembrança devotos; que a sua devoção vos hvà seus filhos. Lembre-vos que sois irmãos, e Catholicos. para que vos ameis huns aos outros, e todos a Deos. Elle, que me leva dos vossos olhos, permitíirá que os meus vos vejão em sua presença. Espero que façais por merecel-a, e que este sacrifício me facilite o ca- minho, por que a busco. Filhos, ficai, a DeosI»
Assim callou, que já os olhos se lhe começavão a humedecer aos gri- tos do sangue, escutados com estranheza da resolução, e da constância. Com a mesma voltou ao Conde (que também a escutava) e despedindo- se delle com huma inclinação, passou a metter-se em hum coche com seus dous cunhados o Mestre Frei João, e Dom Nuno Alvares de Por- tugal. Era o caminho, que levavão, de Sacavém, para Lisboa: e queren- do o Mestre Frei João passal-o, confirmando a acção da Condessa, adver- tindo-lhe que parentes do Mundo (dizia-o especialmente por seu pai, e seu tio) sobejavão a quem hia buscar a fraternidade religiosa, onde se não reconhecia mais pai, que Deos, que o era verdadeiro, accendida ella em hum novo fervor, roínpeo assim o silencio:
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kQuc me querem meus parentes? Satisfazel-os hei a ellcs, desobecle- ceiído a Deos? A Deos, que me chama, e obriga com tanta efficacia, que sempre conhecia que era impossivel a resistência; e nâo cuidei alguma hora em fazel-a, que me não assaUasse a medonha representarão de lium grande, e escuro poço, que diante dos olhos se me abria com hum amea- çador, e profundo Inferno. Pois se a disposição he Divina, como chamâo a isto culpa, e minlia? Custe-me embora o passar a vida em desconso- lações, e em lagrimas a representação inculpável, e natural (que bem sei que sou humana) de deixar o Conde, e meus íilhos (que emfim são pe- daços do coração). Deos, que o está vendo, me dará constância, e esta a coroa. Se viver chorando, morrerei rindo.»
Com similhantes praticas, fomentadas do grande espirito do Mestre Frei João, chegarão a Lisboa, buscarão o Mosteiro, e entrou a Condes- sa recebida nos braços, e alvoroços daquella santa companhia, sendo mais poderosa a edificação de a ver, e a ouvir, para lhe soltar as lagrimas, que a dor, com que a natureza liavia tão pouco a convidou a ellas. Mas antes que vejamos a Condessa abraçando esta suspirada mortalha, não he para esquecida a advertência de que fundado, e dotado este Mostei- ro pelos Condes, e pertencendo-lhes o titulo de Padroeiros, e a Capella mór delle, entendendo que esta superioridade seria embaraço para que algumas famílias nobres se não recolhessem no Mosteiro, fizerão gene- rosamente desistência de tudo, como consta de hnma escritura (que por dilatada a escusamos desta) feita aos 18 dias de Julho de 1G07, e se guarda no Mosteiro; em que explicão que a nenhuma pessoa, de qual- quer qualidade, se dé o dito titulo, ou Capella mór, e sepultura nella; o que feito, tornará á Casa dos Condes o padroado.
Dilatou-se por alguns dias que a Condessa tomasse o habito (erão esperanças de que se reduzisse ao consentimento o Conde seu pai, e o Arcebispo de Lisboa seu tio): mas, ainda que sem elle, começou logo a provar a mão nos empregos da humildade, servindo na cosinha, e mais officinas do Mosteiro com tanto gosto, como se andara merecendo o exe- cutal-o por preceito. Não llie tardou muito: tomou o habito em 23 de Agosto de 16í)7. Chamou-se Soror Joanna do Rosário, e começou logo a tratar-se como escrava na mesma Casa, em que era Senhora; mas tão contente, e satisfeita, como quem alcançava que naquella mortalha, que a cingia, estavão as mantilhas em qiíe começava felizmente a respirar
2G LIVRO ni DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
para a immor tal idade. Já conhecia berço o que lavrara sepultura; por- que já fora do Mundo entendia ás vessas do que elle ensina. Como diria que fabricava berço para melhor vida quem visse a Fénix ajuntando os materiaes odoríferos para a fogueira? Aos raios do Sol fabrica este al- tar, como se feridos dos seus raios, se lhe abrissem os olhos, para co- nhecer, e diligenciar aquelle venturoso futuro. Sobre o altar, que Sor Joanna levantara ao Sol Eucliaristico, se começava a abrazar Fénix entre as lavaredas, que o mesmo Sol lhe ateara no peito; e já parece que di- 7ia illustrada, que no ninho, que edificara, acabaria a vida para mullipli- cal-a discreta, e venturosa Fénix (1). Permitta-se-me esta breve reflexão, onde o grande da matéria podia dispensar com o despido da Historia, o raro suspender a velocidade da penna.
Não foi menos prompto, e exacto o Conde (já neste particular fica nestes escritos noticia delle) porque sem liberdade para pôr em execu- ção o seu voto, como bgado á satisfação de algumas dividas, se retirou â recoleta de Bemfica. Compostas ellas, tomou o habito em Almada. As- sim ficarão estes Senhores offerecendo a Deos hum Templo, e dous sa- crificios. Aquelle de suas fazendas, estes de suas pessoas.
CAPITULO VI
Mostra-se a separação^ que este Mosteiro tem da Provinda, com sujeição immediata ao Geral da Ordem.
Supposto vermos já o Mosteiro não só povoado, mas correndo com toda a observância, e a maior da Província, não parecerá escusada noti- cia (como circumstancia conservadora daquella observância) o mostrar como he sujeito immediatamente ao Geral, com Vigário dado por elle, e independente dos Provinciaes da Provinda; esta singularidade, e pri- vilegio lhe alcançou o Mestre Frei João seu fundador, em nome dos Con- des, sendo elle o primeiro Vigário, que reconheceo a Casa, com pode- res para fundação, e administração delia, como consta da patente do Re- verendissimo Xavier.
Assim começou o Mestre Fr. João a executar o oíTicio de indepen- dente. Escolheo para Confessor das Religiosas o Mestre Frei Aleixo de Setuval (Religioso exemplar de conhecidas letras, e opinião de virtude)
(1) In nidulo mco moriur: et sicut Thcnix multiiilicabo dics mcos. Job. 29. 11.
PAUTICULAIl DO REINO DE PORTUGAL 27
que depois de servir a Deos, e a Religião na conversão das almas na índia, voltou para a Provincia, como benemérito filho d'ella. Fez Gapel- lão ; e como Prelado de todos, visitava assim Frades, como Freiras, pu- nha preceitos, e censuras, ministrava todos os Sacramentos, recebia ao habito, fazia profissões, confirmava Preladas, e delegava poderes, como lhe succedeo em três, annos, que foi Prior de Bemfica, e dous, que gas- tou na Corte de Madrid (a que foi a importâncias maiores) deixando em seu lugar ao Confessor, com algumas limitações no poder, como nâo fa- zer outro Confessor ordinário, nâo visitar, nâo pôr preceitos, nâo rece- ber ao habito ; nâo fazer proíissões.
Mas nada bastava a callar os escrúpulos (guiados diíTicilmente de bom zelo, onde a matéria trazia comsigo, quando nâo lucro, ao menos respei- to) que instavâo em que já se devia entregar a administração do Mostei- ro aos Provinciaes da Provincia, como fundado nos districtos d'ella ; ex- plicavâo, que a patente do Vigário espirara com a fundação; que nâo ti- nha aquelle tantos poderes como exercitava, porque nem os Provinciaes os tinhâo tâo amplos, e absolutos.
Estas as instancias ; mas erâo tâo claras as repostas, que bem mos- travâo, que o escrúpulo tinlia mais de inveja, que de duvida, e o abra- çar-se com ella, menos de zelo, que de teima. Quanto a que o Mosteiro pertencia ao Prelado da Provincia, por fundado nos districtos d'ella, era falso, porque Prelados de Religiões nâo tem districtos como Bispos, e estes muitas vezes sâo nacionaes, e nâo locaes. Mas melhor exemplo em Nápoles, onde a Provincia de Lombardia tem Conventos, que governa. Espirarem os poderes da patente com a fundação, fora a declarar-se as- sim n'aquella, e nâo vindo absoluta, quando nâo quizesse recorrer o Vi- gário a que ainda restava a fundação do Mosteiro, porque até alli era huma Casa de empréstimo. Aos poderes amplos pode dal-os o Geral, e aos delegados costuma dar todos os que pertencem á fundação, que se intenta, exceptuando os que expressamente limita.
Mas como o Padre Mestre Frei João nâo queria, que a virtude andas- se em opiniões, e disputas, onde cada hum havia de sustentar a sua du- vida, ou por capriclio, ou por respeito, recorreo ao Geral (era o Mestre Frei Agostinho Galatino, successor do Xavier) que por patente sua, ex- pedida em 29 de Dezembro de 1009, confirmou a passada, mandando, que continuasse com o mesmo estylo de governo até alli. Iluma, e outra
28 LIVRO III DA líISTOBlA Di: S. DOMINr.OS
patente confirmou o Colloitor por hnma provisão, que para maior prova vai aqui lançada, e traduzida vem a dizer :
«Octávio Accorombono, por mercê de Deos, e da Santa Sé Apostó- lica, Bispo de Fossombruno, Colleitor Geral, e Apostólico, com poderes de Núncio nestes Reinos, e Sentiorios de Portugal. A quantos esta Pro- visão virem, fazemos a saber, que liavendo respeito ao que a Madre Prio- reza, e as Religiosas do Mosteiro do Santíssimo Sacramento dizem, e ou- tro si, o que o Reverendo Padre Provincial da Ordem de S. Domingos, nesta Província de Portugal, dá em reposta, audoritate Aposiolica a nós concedida, e de que usamos nesta parte, confirmamos, e approvamos as patentes, que os Reverendíssimos Padres Geraes da dita Ordem, em fa- vor do Reverendo Padre Mestre Frei João de Portugal, sobre a funda- ção, inslrucção, administração, e governo do dito Mosteiro passarão ; e mandamos em virtude de santa obediência, e sob pena de excommunbão ipso facto incurrenda, aos inferiores dos ditos Padres Geraes, a que per- tencer, e a cada bum d'elles in solidam, não encontrem em modo algum as ditas patentes, por si, ou por outrem, directc, rdindirede; antes em tudo as cumprão, e guardem, e facão inteiramente cumprir, e guardar, como n'ellas se contêm. O que também o dito Padre Mestre Frei João de Portugal, debaixo das mesmas censuras, cumprirá, e guardará, como fez até o presente. Dada em Lisboa sob nosso sinal e sello, aos 17 dias do mez de Dezembro de 161ò.
Odaúo Accorombono Bispo Fossombriuio.
Vindo depois o Reverendíssimo Frei Serafino Silo visitar esta Província de Portugal, e celebrar Capitulo geral no Convento de Lisboa em 1G18, tornarão alguns Religiosos a propor a« mesmas duvidas sobre esle Mos- teiro, e seu Vigário. Visítou-o o Geral, c tocando com a experiência a re- forma, e estylo de vida, e governo de seu Vigário, mandou pôr as du- vidas em perpetuo silencio, e que o governo fosse continuando, accres- centando por nova patente, que succedendo falecer o Vigário, ou tirar-se por algum incidente, o Confessor continuasse no governo, até o Geral prover de Prelado novo. O Geral Marinis concedeo, e ordenou despois o mesmo.
Correndo o tempo, eleito Bispo de Viseu o Mestre Frei João, e sue-
PAIITICULAR DO IlElNO DK POUTLGAL 29
cedeiulo-llic na Vigairaria o Mestre Frei André de Santo Thomás, nâo bastarão todas suas letras (que erâo grandes, e bem conhecidas) a res- gatal-o dos antigos escrúpulos na administração do Mosteiro, indepen- dente da Província : ou porque olhava menos para o que sabia, que para sua consciência, ou porque a pouca anciã de governar o levava a reco- nhecer embaraços d"onde os não havia. Recorreo ao Colleitor (era neste tempo João Bautista Paloto, que depois foi Cardeal) que satisfazendo- Ihe ao escrúpulo, o mandou continuar no governo. D'elle o tirarão para Lente de Prima da Universidade de Coimbra, c em seu lugar foi eleito- o Venerável Padre Mestre Frei João de Vasconcellos, por patente do Re- verendíssimo Hodulfo, em 27 de Março de 1G35, estendendo-lhe o poder a reformar o Mot^teiro, se fosse necessário, e a fazer (sendo assim con- veniente) Visitadores alguns Religiosos graves.
D^estas resoluções, e patentes consta bem, como a eleição de Vigá- rio, com poder amplo, isenção, e governo de Mosteiro, he tudo firme^ como reconhecido, e confirmado por quatro Geraes, mostrando bem o acerto de se conservar neste privilegio a continuada reforma, e obser- vância, sem afrouxar por espaço de quasi hum século até o tempo, que escrevemos, antes avultando e florecendo como Seminário de virtudes, e fecundo campo de castíssimas flores, leito em que descançava o Sa ^rado Esposo das Virgens, horto fechado, em que se apascenta o Cordeira Éucharistico, veneivido dos tempos, como eterno deposito da primeira graça.
CAPITULO VII
Da Madre Soror Isabel de Jesus, hnma das fundadoras^ e primeira Prioreza d'este Mosteiro.
Conhecida já a exacta observância d'esta Casa (restauradora n'estes últimos tempos d'aquella primeira, com que o grande Pairiarcha d'esta família deu principio á clausura de suas filhas de S. Xisto em Roma) segue-se a noticia das venturosas povoadoras d'ella, em quanto nos não chama a obrigação de descrever a em que se melhorarão de vivenda, por ser preciso o ir esta memoria no mesmo lugar, e anno, em que se lho acabou a vida. Foi a Madre Soror Isabel filha do Doutor Francisco No- gueira de Brito, e de Cecília de Soure Cogomínha, nascida e criada em Évora, berço não menos de sua vida.que de sua virtude. Assim madru-
30 LIVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
goii O Ceo a cncaminlial-a para si, e por hum tao novo caminho, que danclo-lhe hum génio brando, e affeiçoado áquellas cousas, em que elle costuma criar huma estampa sua (na natural perfeição da fermosura) esta a levou a saber estimar a verdadeira.
Sendo muito menina, e vendo em casa a imagem de hum Christo crucificado (e notável fermosura da imagem) assim se cativou d'aquclla fermosura, que nada llie levava mais os ollios, e os agrados, que ella. Seria herança d'aquelle grande íilho do mesmo pai, o Taumaturgo de Entre-Douro, e Minho, que dos braços da ama passava com anciã aos de hum Crucifixo, bebendo pelos olhos n^aquelle sagrado sangue melhor vida, que a que desprezíiva no leite. Gresceo com os annos em Soror Isabel o conhecimento.: entrou o da Fé no da doutrina christaa, e alcan- çou d"ella, que aquelle era o retrato do mais fermoso entre os filhos dos homens, e que aquella era a representação da forma, em que dera a vida por elles.
Passou-se a sympathia a razão^ o génio a agradecimento, com huma tão santa tenacidade de querer, e contemplar a sobrenatural fermosura, que alli se representava^ que fazia muito por estar só, ou em silencio <na occupação honesta da sua almofada) por se lhe representar, que alli merecia affagos., e favores d'aqueile esposo, que estava com os braços <nberios para elles (assim o contou com singular singeleza, sendo já Re- ligiosa., a huma de conhecido nome, com quem praticava cousas de seu espirito.) Não soílreo o de Soror Isabel o dilatar a mão de esposa a quem estendia o braço para lhe dar a sua, e n'ella a melhor coroa ; celebrou os desposorios, tomando o habito em Santa Catharina de Évora. Alli co- meçou a gostar com mais socego das suavidades da vida contemplati- va : achava-se no centro, porque assim começara a respirar a sua, e as- sim se lhe trocou n'ella a contemplação em natureza, porque tiradas as horas do coro, e precisas obrigações do Mosteiro, o mais do dia passava em oração, eslendendo-a á maior parte da noite.
Com o cargo, e obrigações de Prelada (passada a este Mosteiro novo) perdia com magoa sua muita parte d'esta delicia de seu espirito, e as- sim se deixava levar deste santo socego d'elle para o recolhimento, e pouco trato (inda do que tocava ao commodo humano da Casa) que ad- verlindo-lhe o seu Vigário o Mestre Frei João (que sabia muito de sua consciência): <(Que era necessário, que a Prelada fosse menos recolhida, Qssim para examinar, c remediar defeitos, como para ser exemplar de
PARTICULAU DO RELNO DE PORTUGAL 3i
perfeições, para que as Religiosas olhassem, não só como súbditas, mas como discípulas:» respondia ella com humildade, e singeleza : «Eu bem protestei á Vossa Paternidade, que era Iiuma bruta : e Vossa Paternida' de me disse, que á sua conta tomava o encaminhar-me ; veja como sou incapaz, que não sei aprender, quanto mais ensinar?» Assim mostrava moléstia, quando lhe lembravão o nome de Prelada, respondendo ás Freiras: «xVndai, andai, que eu nuo sou Prioreza; sou liuma brutinha.»
Raro sobre tudo era o seu silencio ; o amor d'estc lhe fazia ainda mais penoso o oífício, que não só a tirava muitas vezes da cella, mas a obrigava a fallar em cousas pertencentes á Casa. Como para ella não ha- via mais vida, que a do espirito, não reconhecia mais idioma, que o do silencio. Caritativa, não havia miséria, ou desamparo do próximo, que llie não ferisse o coração : assim parece, que lhe estalava este, ou lho não cabia no peito, com a anciã de pedir a Deos por alguma necessida- de, e muito mais de espirito, Dizia (e bem) que esta era maior impor- tância. Se da parte de Deos se lhe petjia, toda a sua aíllicção era o ima- ginar-se indigna de escutada, obrigada a não faltar ao respeito, porque se lhe pedia, Testemunhava o seu Confessor d'esta penosa batalha de sua alma.
Se compassiva, não escutava misérias sem lagrimas nos olhos, não 0$ punha nunca sem ellas nas pinturas, ou sagradas imagans da Paixão de Christo; mas comsigo tão esquiva, e austera, que costumava dizer, que não sabia como havia de morrer, porque não tinha necessidade al- guma, em que Deos lhe provasse a paciência; que o sustento era bom, e sem falta (este nome dava á pobre refeição religiosa de pescado, e her^ vas, aquelle commummente secco, estas poucas vezes mimosas) que an-^ dava contente, e abastada, que assim mal se podia consumir a vida, Era a sua anciã, que ella se llie acabasse, e julgava, que naquelle trato tinha largo arrimo,- como se ella com o jejum, a oração, e a disciplina, tudo continuado, se não fosse enfraquecendo; mas pagava-lhe Deos esta alegria, com que vivia rica na pobreza de sua casa, com as espirituaes consolações, de que sempre abundou esta.
Vivia ainda esta Madre na de Santa Calharina de Sena de Évora, onde também erão Religiosas as irmãs do Mestre Frei João de Portugal, que de huma grave enfermidade estava em Lisboa sem esperanças de vida. Choravão as desconsoladas irmãs, esperando cada hora a ultima noticia, ■quando entra por huma casa, em que estava huma delias (a Madre So-
32 LIVUO III DA HISTORIA DR S. DOMLNT.OS
ror Joanna BaiUista) a Madre Soror Isabel, que com extraordinária ale- gria repetia muitas vezes: Vida, vida, kn de viver, lia de viver. Tinha-lhe pedido muito a Madre Soror Joanna, que encommendasse a Deos a saú- de de seu irmão; parecia-lhe estylo de quem lhe metia animo de nâo es- perar más novas, mas instava com ella, que lhe explicasse a causa de tão alegre, e repentina promessa. «Sabei (lhe respondeo a Madre Soror Isabel mais de singela, que de importunada, ou porque permittio Deos, que se soubesse aquelle favor, que fizera á sua serva) que estando no (]oro só, e em oração, ouvi dizer claramente: Castignns castigavit me Do- mnus, et morti non tradidít me.)) (lie o verso 18 do Psalmo 117, e vai tanto como: «Castigou-me o Senhor, castigando-me; mas não me entre- gou nas mãos da morte»). Succedeo assim; melhorou o irmão Frei João desde aquelle dia, de que não tardou a nova.
Mas maior favor o que o Senhor lhe fez em outra occasião na mes- ma Casa. Achavão-se nella enfermas, e perigosas as duas irmãs do Mes- tre Frei João (que depois, como fica já advertido, vierão para Funda- doras deste Mosteiro) as Madres Soror Joanna Bautista, e Soror Filippa de Jesus; assistia-lhes na doença outra irmã, também Religiosa, a Ma- dre Soror Maria Pereira. Lastimava-se Soror Isabel, e sentia o prival-a Deos de duas amigas de grande espirito, e com quem aliviava o seu; assim pedia ao Senhor com lagrimas, e larga oração pela saúde de huma e outra, quando no maior fervor delia ouve em espirito, que morreria Soror Joanna. Entristeceo-se muito, e com grande aíílicção de sua alma instava com Deos, que o não permittisse; que lhe desse vida, allegando as grandes prendas de zelo, e Religião, de que era dotada. Respondeo- Ihe o Senhor: «Que se vivesse Soror Joanna, morreria a outra irmã So- ror Filippa.» «Não, Senhor (tornou Soror Isabel com anciosa efficacia) nem Soror Filippa ha de morrer, que com a sua voz (era fermosa, e sua- ve a desta Madre) vos louva no Coro, e faz devoção a quem a ouve nel- le.» «Morrerá logo Maria:» (tornou o Senhor). Era esta a outra irmã, que com boa saúde assistia então ás duas doentes. Eslava a Madre So- ror Isabel afílictissima, e confusa das replicas, que tinha posto, c como convencida de sua humildade, lançando-se por terra, e pondo n'ella a boca, poz na disposição do Senhor tudo o que pedia.
Gonvalecerão logo as duas irmãs, e cahio gravemente a outra Soror Maria, que dentro em quinze dias falleceo. Entristecião-se muito as con- valecidas, e praticando hum dia com a Madre Soror Isabel, lhes disse com
PARTICCLAU DO UEINO DH POUTUCAL 33
santa singeleza: «Andai, andai, não sejais simples (palavras suas) que vós ambas havieis de morrer; dui graças a Deos, que vos deu vida, só para o servir.» Assim lhes contou o que lhe succedera, para consolação sua. Tal era a candidez de seu coração, e tal a opinião, que lhe tinha grangeado, que já entendião, que o que revelava, era porque Deos lho permitlia, para gloria sua, e honra de sua serva.
Convalecia Dona Filippa de Portugal, irmã do Conde de Vimioso Dom Luiz (de que agora falíamos) ainda estava no século, e ao presente com o Conde seu irmão em huma quinta sua no termo de Évora. Fora arris- cada a doença, era a convalecença vagarosa; escreveo-lhe a Madre Soror Isabel (conhecião-se, e tratavão-sc com aquella grande sympathia de es- píritos, que não tem commercio, (juc não seja para mellioras dolle) que esperava em Deos, que lhe continuasse a melhora, e a vida, como quem lha guardava para huma Clausura da Ordem de S. Domingos. Teve Dona Filippa por graça a circunstancia da promessa, porque se achava ao mes- mo tempo com licença do Provincial de S. Francisco para tomar o habi- to no seu Mosteiro da .Madre de Deos, e não menos o consentimento do Conde seu irmão, a quem ainda não vinha á imaginação o fundar este Mosteiro: mas ao que crè a piedade, e despois favoreceo o successo, to- mando Dona Filippa nelle o habito, sem duvida illustrou Deos sua ser- va com este antecipado conhecimento.
Teve-o lambem de sua morte com não menos raras circunstancias: era já nesta Casa não só Religiosa, mas Mestra de Noviças a mesma Dona Filippa de Portugal, agora Soror Filippa de Jesus Maria, na segunda vez que a Madre Soror Isabel era Prioreza nella. Adoecerão ambas, e gra- vemente, quando amanhece hum dia a Madre Soror Isabel com huma desusada alegria, e chamando algumas Religiosas (erão as principaes as Madres Soror Joanna Bautista, e Soror Joanna do Rosário) lhes diz, que a Madre Soror Filippa ha de viver, porque ouvira claramente dizer aquel- la noite: «Filippa viva», a tempo que assim o pedia a Deos. O mesmo segurou ao Vigário o Mestre Frei João, que áquella hora entrava a con- fessal-a, e perguntando-lhe elle, se cila vi viria também, respondeo: «Que três vezes ouvira: «Tu has de morrer.» Pedia-lhe o Mestre Frei João, que não desamparasse tão depressa aquella Casa, que para seus augmeníos necessitava de sua vida, e que bem podia pedir a Deos com este fim a conservação delia. uFaça-se a vontade de Deos (respondeo) ainda que lie verdade, que não desejo vel-o.)^ E suspeudendo-se hum pouco, accres-
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centou: Per ignem, et aquam, como se quizera mostrar, que nao presu- mia de só passar áquelle gozo sem experimentar os rigores do Purgató- rio; sendo, que na esperança de vèr a Deos (assim o referia, e testemu- nhava o Mestre Frei João seu Confessor) estava como certa, e fallava como segura, como se l[i'o revelara.
Recebeo aquelle mesmo dia o Viatico com juizo perfeito, c demons- trações de grande jubilo. Pediao4he as Religiosas, que lhes dissesse al- guma cousa, com que as consolasse, já que as deixava. Uespondeo-lhes: «Que tinhâo grande causa de consolação, porque aquelle seu Mosteiro cresceria muito, e brevemente, assim no temporal, como no espiritual,» (e assim se vio). Ficou logo em hum socegado silencio, como se o Geo lhe quizesse pagar o que tanto guardara em sua vida, representando-lhe as suavidades daquella, a que passava. Assim esteve, como extática, dous dias, no cabo delles lhe derâo a Unção, o ella a alma a seu Creador pla- cidamente, em 21 de Dezembro de IGll, nâo tardando o Ceo em mos- trar, que lh'a dera, e o Senhor a ella, a melhor, e verdadeira vida, que já vivia.
Era a irmã Conversa Soror Leonor da Assumpção, sobrinha sua, e boa discípula de seu exemplo; as obrigações do sangue, e do habito, as saudades da companhia, e do ensino, a leva vão á sepultura da boa tia, pedindo a Deos, como podia, pelo descanço de sua alma, quando huma noite (poucos dias despois de sua morte) lhe apparece a mesma Madre, vestida não já em pano grosseiro, mas em hum habito branquissimo, lan- çado sobre a toalha, e escapulário hum Rosário, de que erão contas flo- res cheirosas, e exquisitas. Assustou-se Soror Leonor á primeira vista, mas cobrou animo com a grande claridade, e alegria da visão, escutan- do, que lhe dizia a venturosa Madre: «Dizei á vossa Mestra, que cave por onde eu cavei.? E suspendendo-se Soror Leonor, e perguntando-lhe o que vinha a dizer, porque como de singelo entendimento, não pene- trava o sentido, lhe respondeo: «Dizei-llie, que governe com brandura, como eu usei.» E desappareceo.
Era Mestra das Noviças sua grande amiga a Madre Soror Filippa de Jesus Maria, e assim a Soror Leonor, como ás mais, que estavão á sua obediência, tratava com aspereza, por ser naturalmente fogosa, e auste- ra. Servio-lhe este conselho para moderar ao diante os rigores de Mes- tra, e a visão ás Religiosas, para aliviar as saudades de tal Prelada. Duas vezes o foi nesta Casa, sendo de quatro annos o governo, conforme o
PARTICULAR DO RKIXO DE PORTUGAL 3o
Bicve de Júlio 11 (estylo, que durou até os annos de 1G29, em que o Mestre Geral Frei Nicolao Rodulfo determinou, que se reduzisse a trien- riio). Derão-llie sepuUuia em lugar separado; hoje a tem no Capitulo do Mosteiro novo, defronte do Altar.
CAPITULO Vilí
Da Madre Soror Filippa de Jems Maria^ segunda Vriorcza doesta Casa; e da Meslra Sor Victoria da Cruz.
No berço, escrcvião fabulosos os Antigos, que Hercules, hum dos Deoses a que levantarão altares, despedaçava serpentes, como em feliz annuncio dos trabalhos, que o esperavâo para a fadiga, e para a coroa, para o conflicto, e para o triunfo. Mas passou-se a verdade csle encare- cido fingimento no mais vigoroso, e invencível Alcides, que os olhos hu- manos virão no berço de humas palhas, batalhando com a inclemência dos elementos a poucas horas de nascido, como ensaio para os traba- lhos, que vinha abraçar, e vencer na campanha do Mundo, deixando esta demonstração, para que por ella se conhecessem despois por seus dis- cípulos, e mimosos, os que nascessem lutando com as misérias, e os in- fortúnios.
Assim deu o Ceo a conhecer a Madre Soror Filippa de Jesus Maria, (no século Dona Filippa de Portugal) que em poucos annos se vio assim rodeada de trabalhos, que já começavão a ser exames da constância, por não poderem ser castigos na suíi innocencia. Presa se vio com sua mãi, e mais seis irmãas, por decreto d'el-Rei Filippe II, que as mandou re- colher em Gastella em o Castello de Santo Torcaz, sem haver nestas se- nhoras a mais leve culpa, como a não podião ter as que no retiro de sua casa, e commercio de sua grande qualidade, nem havião de entrar nos desmanchos do povo, nem podião ter parte nas direções do gover- no. Mas pareceo a este, que era aquella injustiça razão de estado : o em que estiverão as cousas d'este Reino, foi o motivo da prisão; huma bre- ve noticia nos dará mais clareza.
Entre os pertendentes, que teve a Coroa Portugueza, por falecimento do Cardeal Dom Henrique (ultima cabeça, em que ella então descançou escassamente, como ameaçada das fatalidades, a que a destinava o Ceo, para castigo d'estes Reinos) foi hum, e que se fazia grande lugar n*elles,
36 LIVRO III DA inSTOUIA DE S. DOMINGOS
Dom António, fillio bastardo do Infante Dom Luiz, que vendo, que llie negavâo (a seu voto) os ouvidos d razão, que gritava sua justiça, remet- leo ás armas toda a negociação d'ella, como se nâo viera este estrondo a confundir maif aquelle grito. Favorecia, e sustentava este partido com mais calor, e desvelo Dom Francisco de Portugal, hum dos irmãos d(3 Dona Filippa, e era publico (com pacto feito entre elle, e Dom António) que chegando este a vèr-se com posse pacifica no Ueino, daria a mão do esposo a Dona Filippa, que ajuntando as qualidades do sangue ás de hu- ma fermosura rara, antes lhe vinha a parecer a coroa tributo, que ven- tura. Prevaleceo Filippe (Segundo de Castella) com os sopros d'esta, triunfando do partido contrario, que antes cedeo de desarmado, que do temeroso ; e ordenou que a Condessa Dona Luiza de Gusmão fosse com sete filhas desterrada para Castella ; assim postas em hum carro da Man- cha, c acompanhadas de dous alcaides, passavão ao desterro, tratadas com tanta indecencia, como a promettião Ministros de huma Coroa ty- ranizada.
Passados três annos, e examinada, e conhecida sua innocencia, forão restituídas a este Ueino, com attençôes reaes, desejosas de demonstra- ção poderosa a satisfazer queixas de nobreza, e fazenda. Com este res- peito a Dona Filippa, despois de estar n'este Mosteiro do Sacramento, se lhe fez a elle a mercê de hum juro de duzentos inil reis de pensão na Mitra de Braga, por tempo de vinte annos, que acabados, se lhe pro- rogou por mais quinze ; acabarão estes despois da felice acclamação del- Rei Dom João o IV. Restituídas ao Reino, e á Pátria, faleceo a Condessa em Santo António do Tojal; causa, porque Dona Filippa, e Dona Estefânia, irmãa sua, se recolherão ao Mosteiro de Santa Catharina de Sena de Évora.
Era venerada por milagre da Corte a fermosura de Dona Filippa, e avaliada assim pelo mais copioso dote, com a grande circunstiincia de sua qualidade, a que se ajuntavão partes, e prendas naturaes, como adqui- ridas, fazendo tudo junto tão grande harmonia nos ouvidos da mais qua- lificada nobreza, que muitas vezes foi buscada, e pertendida para esposa, com não menos padrinho, para facilitar o consentimento, que o Conde seu irmão, a que sempre deu por reposta aquelle illustrado génio, que dos primeiros annos a levava a mais superior estado.
Com esta resolução fez voto simples, entrando no Mosteiro de Santa Calhariua : e como se fora i)ura noviça, acodia desveladamcntc ás obri-
PARTICULAR DO RKINO DR POIlTUGAL 37
gaçoes (la Casa, como a mais obediente súbdita d^ella. Trazia estamenlia junto á carne, iisava-a na cama, que quasi sempre teve ociosa, porque 110 coro passava as noites, onde vencida do sono, lhe servia de leito o pavimento, e de travesseiro o dcgrâo de hum altar ; descommodo, que dissimulava mal a outro dia, divisando-se-lhe na face qual fora a almofa- da. Assistia, e rezava com edificação grande das Religiosas ao oflicio di- vino. Levava-lhe os cuidados, e o tempo a extremosissima devoção do Santíssimo, esmerando-se nas suas festas, até onde podião chegar as suas posses, e sú este emprego santo lhe ensinaria a desejal-as mais crescidas, a nâo entender, que na estimação do Ceo, as maiores são as vontades. Este aíTecto, o que a trouxe para esta Casa (já ílca apontado) porque cha- mando-a eflicazinente a anciã de viver em estreiteza de vida, e tendo já licença para passar paia a ^ladre de Deos (recoleta Franciscana) ao sa- ber, que esta Casa do Sacramento o tomava por seu Orago, veio a ella como a descançar no centro.
Vinha já destra nos estylos, e costumes da Religião; achou com todo o calor a nova reforma, em matéria dis[)Osta passou aquello a levantar-se lavareda. Ainda era noviça, e já a chamava o cargo de Mestra ; não me- nos outras occupaçôes de peso, que logo nos primeiros três annos con- firmarão o seu grande préstimo, não sendo ainda este (mas só a obe- diência) a que a introduzio n'elles. O zelo da observância (que começava a respirar n'aquelle berço d'ella) era o seu estudo, o seu cuidado, o seu desvelo. Convencia com as palavras, porque as ajudava com o exemplo. Nem os mais leves descuidos a achavão sofrida; nem as muitas obriga- ções cançada.
Elegerão-na Prioreza, e começou a ser por officio o que era por gé- nio, austera, e inílexivel zeladora da observância. Assim o era nos santos estatutos da Casa, que pedindo-lhe a irmãa Conversa da cosinha, que a dispensasse por aquelle dia da oração (que tem as Religiosas despois de Prima) porque o comer se perderia sem a sua assistência, lho não con- sentio, accrescentindo, que melhor lhe seria a todas ficarem hum dia sem sustento, que sem oração. Tinha muita authoridade, ainda que des- I)ida das humanas attençôes do sangue ; via-se que era zelo do cargo, cm que, no que não tocava nos respeitos d'elle, era meiga, humana, tra- tavel, e sobre tudo compassiva. Na oração era continua, e no dom do lagrimas, que tinha nella, se mostravuo as suavidades com que Deos enriquecia sua alma.
38 LIYHO IIÍ DA mSTOniA DE S. DOMINGOS
Tinlia siifficierite noticia da Grammalica, o. Lat.inidado, e liçlío provei- tosa, da Escritura; assim applicava muitas vezes as palavras d'ella com o sentido genuino, e verdadeiro. Tivera grande amizade em Santa Ca- tharina de Sena eom a Madre Soror Filippa de Jesus, que veio para esta Casa por fundadora, mas no ofíicio de I^relada nem esta estava para ella primeira (grande maxin]a para conservar súbditas sem queixa). Disse-lhe esta Madre alguns dias antes de falecer: «Nossa Madre, assim se acabou, o acaba amizade de tantos annos?» Uespondeo com inteireza, e seguran- ça : (íÇqiwersaiio nostra in Cwlis est. Acaba na vida, mas espero na mi- sericórdia de Deos, que a continuemos na gloria.»
So era austera no cargo, não o era menos comsigo (boa licâo de Pre- lada, entender de si, quehe a primeira súbdita.) Assim estreitou o débil de suas forças com jejum, cilícios, e disciplinas, e sobre tiulo, por se roubar o sustento do sono, que veio a romper o excesso em buma longa enfer- midade, que não bastou a fazer-lbe levantar a mão do rigoroso trato, que a foi cbegando ás portas da naorte. Parece que teve anticipada cer- teza d'eila, porque estando ainda nos princípios da doença, e festejando as Religiosas a noticia de que já junto a Alcântara se abrião os alicerces para o novo MDsteiro, ella se alegrou muito com ellas, mas suspenden- do-se, disse logo: «Vossas Raverencias o bão de lograr; que eu não.» K assim fqi, porque n'aquella doença faleceo.
Aggravou-se-lbe esta sem esperança de vida, mas já a acbou desen- ganada ; pcdio, e reçebeo os sacramentos com piedade, e inteireza : e chamando algumas Religiosas, primeiro particularmente, e despois todas, lhes fez santas advertências sobre a charidade fraternal, e pa?; religiosa, sobre q temor de Deos, e incerteza da formidável bora de seu juizo, preparação antecipada para ella: e accrescentou : «E se Vossas Reveren- cias me vem tão socegada, sendo em toda a minlia vida atormentada de escrúpulos (assin^ o tinha sido) não entendão, que nesta bora deixâo de perseguir escrúpulos da vida ; mas be misericórdia de Deos, qqe por sua bondade usa com quem tão pouco a merece.»
,Dous dias antes de sua morte, reparavão as Religiosas, que o Ceo a consolava com sagradas visitas, e assistências, porque algumas vezes lhe ouvião dizer: «Anjos, e Santos», inclinando a vista, e a cabeça para parte determinada da cella. Pedio a Unção, e acabado o ofíicio, dando- Ihe bum Crucifixo a beijar, o tomou, e pondo três vezes com suavidade a boca nos pés do Senhor, com hum longo, e enternecido suspiro, disse:
PARTICULAU DO REINO DE PORTUGAL 39
Domine memento mei, dum veneris in regnum ttmm. E expirou nos braços (las súbditas saudosas, e compungidas.
Mas nao deixou o Ceo de acreditar sua serva, e enxugar as lagrimas áquella santa companliia com sinais da que ella já para sempre lograva; porque estando a Madre Soror Filippa de Jesus no coro guardando o Senhor, e enconiendando-lhe a moribunda, ouvio distinctas, e concerta- das vozes (e ao que percebia, era o Oííicio de defuntos, e na enferma- ria), estranhou a novidade, e sahindo a examinal-a, e dizendo a algumas Religiosas, que encontrou, como cantavão sem ella (era sua voz a alma do coro) lhe segurarão, que ninguém cantara, mas que expirara a Madre Soror Filippa. Não se duvidou, que fosse a musica daquellas aves do Ceo, que lhe tinhão feito assistência.
Poucos dias despois de sua morte, estando huma noite as Religiosas no coro em oração, e entre ellas a irmãa Soror Leonor da Assumpção (mimosa do Ceo em similhantes visões, como já vimos no ca[)itulo pas- sado, por sua grande singeleza, c candidez de espirito) vio esta que a mesma Madre Soror Fihppa com alegre rosto, e em habito puríssimo andava por todo o coro chegando-se aíTavel ás Religiosas, como reconhe- cendo e reparando no rosto de cada huma; e assim desapparecèra. Fa- leceo esta Madre em huma quinta feira 23 de Dezembro (dia sempre festivo na Casa, como consagrado ao Santissimo Sacramento, de que era devotíssima) no anno de 1014.
Dous annos antes que a Madre Soror Filippa de Jesu Maria, faleceo a Madre Soror Victoria da Cruz; mas respeitando a precedência das duas Preladas, e ser esta a única súbdita, que as acompanhou, falecendo nesta primeira Casa, a guardámos para os últimos dias d'ella. Foi a Madre So- ror Victoria huma das primeiras Religiosas, que convidadas da nova re- forma, trocarão por este Mosteiro os em que tinhão professado, em vir- tude da patente, que o Mestre Frei João tinha para tirar das Casas da Ordem as Religiosas, que quizessem nesta abraçar todo o rigor da ob- servância. Professara esta Madre no Mosteiro da Annunciada, mas com espirito tão ancioso de maior estreiteza de vida, que sendo muito refor- mada aquella Casa, pedia a Deos que dispuzesse a fundação de alguma de maior, e total reforma. N^estes desejos passava muitas vezes largas praticas com as Religiosas (assim o affirmarão estas ao Mestre Frei João) até que o Ceo lhe poz nas mãos o que pedia, podendo clwmar-se fruto
40 LIVRO III DA HISTORIA DK S. DOMlNfiOÍ',
(le suas oraçoos a esta Casa, ou entender, que aqnelles desejos ti verão alguma cousa de profecia.
Alegre se passou á nova sepnllura, c assim o andava com a expe- riência d'aqnellcs rigores, e austeridades, que costumava dizer, que fora favor do Ceo iiâo enlouquecer de alegria de vôr satisfeita a sua anciã ii'aquella Casa, e n'aquella vida. Era a sua huma oração, e meditação continuada, ou estivesse no coro, ou fora d'elle, porque não havia occu- pação, que lhe embaraçasse o subir por esta escada a buscar a presença de Deos. e o commercio dos bemaventurados. Esta era a sua mais com- mua doutrina, e esta praticava ás noviças, sendo Sub-[)rioresa, e sua Mestra, lombrando-lhes que erão Serafins, que andavão diante de Deos, porque acudindo ás funções, a que as chamava a obediência (ainda que estivessem no coro, e ellas fossem do Mosteiro) sempre hião de Deos para Deos ; porque Deos obedecido, também era Deos buscado ; e tão destra andava n'este santo commercio, que bastava a ejeval-a á contem- plação do Ceo todo o aceio, que via no culto divino, e concerto do Mos- teiro. Assim er.-f notável a sua anciã, para que o houvesse em huma cou- sa, e outra.
Era a Madre Soror Yictoria huma estampa viva da exacta observân- cia das Constituições, que como estão escritas, se guai'davão, e guardão n'esta Casa; mas em algumas cousas parece que ainda as excedia. Na charidade, e no silencio mais que em tudo. O silencio tão raro, que ainda nas horas, que o dispensava a Prelada, era rara a palavra, que se lhe ouvia, valendo-se talvez de acenos, se a obrigavão a reposta : só huma industria havia para a facilitar na pratica. Grande discipula de seu Pa- triarcha, que só com Deos, ou de Deos faltava. No mais só o preciso, e esse raro. Grande confusão para a soltura das línguas, despois de co- nhecer, que he verdade irrefragavel, que até liuma palavra ociosa ha de ser julgada ; e onde hão de vir a juizo as ociosas, que será das pesadas! Não se admire quem vio aquelles grandes espirites, retirando-se, e es- condendo-se pelas covas da Thebaida, e da Palestina, antes como feras, que como homens ; que quando não fugissem mais que ás liberdades da lingoa, não era pequeno triunfo ler desarmado tão inevitável inimigo.
Na charidade era tal o seu excesso, que sendo pobre por profissão, e em sua pessoa, ainda no Mosteiro da Annunciada (onde podia ler al- guma cousa como em deposito na cella), o mesmo era chegar-lhe á mão, que andar examinando a necessidade para empregal-a n'ella. O mesmo
PARTiCrrAU IK) TIRINO DE PORTIGAl. 4Í
lhe succedia com a mesma roupa do sou uso, ficando muitas vezes sem ella até na cama, e sofrendo, e expondo-se aos incommodos do inverno, com o interesse de que alguma Religiosa nâo sentisse falta. A sua só a remediava a Prelada (ctiegando-lhe já tarde estes excessos á noticia) mas a poderes da obediência, ou obrigando-a a que não desse o preciso, ou acudindo-llie com elle, pelo ter dado.
Era devotissima de Nossa Senhora, e com singular aíTecto do mys- terio de sua Assumpção; assim pedia a Deos a levasse neste dia, fallan- do muitas vezes nisso, já com tanta certeza, como se tivera ouvido a reposta da sua supplica. Parece que mostrou o successo que assim fora. Chegava-se a festa de nosso Padre S. Domingos ; resolveo-se a fazer hu- ma confissão geral, com hum tal aparelho, e hum tal retiro, que causou reparo, ainda vendo-se-lhe cada dia em outras o mesmo. Á véspera a acabou, e logo se sentio tão mal, que a passarão á enfermaria, mas com huma alegria tão desusada, que nem lh"a moderavão as dores da molés- tia, repetindo muitas vezes com socego de espírito: «Seja Deos bemdi- to ; que já não tenho mais que ftizer.»
Parece que entendia fora aquella a preparação ultima para esperar confiada o esposo, e passar venturosa ao thalamo. Descubrio-se-lhe pou- co despois huma febre, que a privou do juízo, durando assim até o dia da Assumpção, em que acabou como sempre suspirara, permittindo Deos por seus juizos occultos o estylo d\iquella morte, ou por não per- mittir que a sua serva sentisse os horrores d'ella, ou para confundir o descuido dos peccadores, quando se vêem aquelles assaltos ainda nos in- culpáveis. Faleceo em linma Sexta feira lo de Agosto de 1()12.
GAPITUÍ.O IX
Fundação do novo Mosleiro, entrada das fíelifjiosas neUe,
Por estarmos já no anno de iGlíí, em que se lançou a primeira pe- dra para a nova Casa do Sacramento, e por não havermos já de dar no- ticia das Religiosas do antigo, senão no de seu í;decimento, he tempo de passarmos ás memorias do que precedeo á fundação, e da solemnidade delia, apontando primeiro a Prelada, que se seguio na serie das que teve esta Recoleta. Falecida a Madre Soror Filippa de Jesu iMaria, segunda Prioreza, começarão a correr voluntários os votos para onde vião mais
42 LlVnO 111 DA mSTOIUA DE S. DOMINGOS
merecimentos (assim se procede nas eleições, onde os respeitos particu- lares não conhecem mais centro, que o l)em commum). Fazião-se grande lugar os da Condessa fundadora, a Madre Soror Joanna do Rosário, que pizando o Mundo, avultava tanto com elle debaixo dos pés, que apezar de sua modéstia, e humildade, se não podião esconder as vantagens de sua virtude. Com a mesma velocidade, com quB fugira ao Mundo, se avi- sinhara a Deos; e a quem assim tinha sol)ido, ainda lhe ficava inferior o lugar mais alto.
Assim interessado a buscava o de Prelada. Já resistira outra vez a esta bateria. Não a achava agora com menos constância, reforçada com razões, que entendia bastantes para a resistência. Propunha, «que o seu retiro deixara domínios por abraçar sujeições ; e que era género de ar- rependimento deixar estas, por abraçar aquelles; que escandalizaria ao Mundo, ver que deixando o governo de sua Casa, acceitava o da de Deos, como se as razões de fundadora forão a valia para esta melhora ; que a não podia ter a Casa com huma Prelada, que passava a sel-o sem mui- tas experiências de súbdita. Finalmente, que era sem razão edificar a Deos a Casa, e deixar-se ficar com o dominio delia.»
Mas erão facilissimas de soltar as objecções; porque o ser Prelada, antes era ser escrava, que senhora, porque esse lie o estylo no gover- no, que desconhece o Mundo. Nem este, quando se conhecesse, deixaria de alcançar, que similhante dominio nem era herança, nem escolha, an- tes todo sujeição, abraçado com as da obediência. Quanto â experiên- cia, ainda bastavão menos de súbdita, porque nunca erão poucos os em que se contavão grangearias de muitos; que sacrificar a Deos a Casa, não era tanto, como sacriíicar-lhe a pessoa, e agora em melhorada vi- ctima, exposta aos golpes das opiniões da terra. Accrescentavão, que dando-se principio ao novo Mosteiro, necessitava de huma Prelada, que com o seu respeito fomentasse aquelle principio, inclinando os ânimos da nobreza a favorecer a obra. Mas não havendo razão, que convences- se sua humildade, recorreo o Vigário ás armas da obediência, que são as de Prelado, com que facilmente se triunfa da legitima. Náo houve mais contenda; calou, c sujeitou-se Soror Joanna, com a consolação, de que não se resolvia ao cargo de Prelada, senão acceitando-o como súb- dita.
Elegida em Prelada, succedeo o que se tinha vaticinado; começarão as maiores qualidades do Reino a bater naquella pobre porta, a buscar
PARTICUI.An DO RFÍNO DE PORTUGAL 43
aqiiella humilde familia, ou já a acudir com o dispêndio, ou ja a ac- crescentar o numero (chegava já este a vinte e três Rehgiosas) grande para arjuella estreiteza, ainda accommodando-sc com muita. Este des- commodo deu calor á ohra começada; mas vamos ao que precedeo a ella.
Como erão alugadas as casas, em que se principiou a reforma, e o Mestre Frei João (como podo crer-se de seu espirito) lançava os olhos a dilatados augmentos d'ella, creada a primeira Prioreza, os poz logo no lugar, em que hoje se vè a nova fundação, que he hum pedaço de ter- ra espaçoso, e desafogado, que fica entre a Pampulha. e Alcântara, jun- to á estrada frequentadissima, que vai de Cascaes a Lisboa (rascunhado ficou já no fim da terceira Parto da Chronica) com todas as circunstan- cias, que podem desejar-se para noticia, assim do sitio, como de ares. Aquelle o mais alegre, porque alteado, senhorea o rio, em que se alar- ga a vista até a fermosa perspectiva da barra, ou dá de rosto com os montes de Almada, que defronte a boa distancia sobem desde a praia, povoados de boas quintas, e continua verdura ; agora defendidos de for- tes reductos, e bons muros, com que no anno de 1704 se fortificou, e ennobreceo a marinha de huma, e outra banda. Não lie menos deliciosa vista a que se offerece da parte da terra, fresca, e viçosa das aguas sa- borosas, e cristalinas de dous celebres regatos (tem por berço, e nome os sitios da Pimenteira, e da Horta Navia) que juntos, e engrossados em pouco rio, correm entre Alcântara, e o Mosteiro, a buscar o mar peque- no tributo.
Este o sítio, que o Mestre Frei João, e pessoas de boa escolha des- tinarão para a nova fabrica; era Senhor delle Lourenço de Sousa, Apo- sentador mòr do Reino; ofi^ereceo-o ás Religiosas, celebrando contrato com ellas, assim de que alcançassem licença de Malta, a que era foreiro, como de que pagassem o foro, e se obrigassem a dar por huma vez qua- tro lugares na nova Casa a filhas, ou descendentes suas, com algumas condições, que constão da escritura, que em nome do Mosteiro fez o Mestre Frei João em 23 de Fevereiro de 161 i. Alcançou-se a licença do Príncipe do Piemonte Victorio Amadeo, Gommendatario, e perpetuo admi' nistrador do Priorado de Malta. Passou-se o foro a hum casal, que com^ prou o Mosteiro; consta tudo de escrituras, que estão no Cartório, o não lançamos aqui, porque não escrevemos a alargar escritura, mas a dar noticia.
Feitas estas diligencias, determinou- se o dia de applicar a primeira
44 LIVRO III DA HISTOniA DE S. DOMINfiOS
mão A o])ra, qno foi a 7 de Jnnoiro do mesmo anno de 1012. Assistia na Corte Dom Frei Aleixo de Menezes, da Ordem dos Eremitas de San- to Agostinho, Arcebispo de Braga, Primaz das llespanlias, despois de o ter sido da Igreja de Goa, também Primacial da índia, sujeito benemé- rito de hum, e outro cargo, pelas cxcellentes qualidades de virtude, e zelo, hombros, com que só pôde ser Atlante de sua Igreja o Prelado. Pedirão-lho as Religiosas, que auctorizasse a função, lançando por suas mãos a primeira pedra daquelle santo edifício; o que aceitou, e poz em execução, com demonstrações de gosto. Foi geral o de numerosos, e gra- ves assistentes, assim das Religiões, como da Nobreza, c Fidalguia da Corte. Levou a pedra gravada as letras seguintes:
Jesn Domini rerè Filii Dei, in bonce graíiw Sacramento, vivo Pani im- mortalitalis alimonio!^ vitahs mortis si/mboJo^ Divinifjue amoris monu- mento: fmnperes Sorores Dominicana! primilivce observantiw voto, do- miim in solo puro sacrant, et nuncnpant, devotorum Comitum de Vi- mioso ftindatam redilibns, Adsit qua; Dcum cnpit, Virgoque edidit Âl- trix Rosarii, et mundi iitriusque Domina, ter Beata Maria^ una cum Sponso Joseph, et toei Patronis, servo Dominico, Virgineque Senensi, et cum tota ca^lituni aula numine propllio. Sacrat Illustríssinius Do- minus D. Alexius Menesius^ Orientis olim Ecclesio', et nunc líispa- niarum Primas^ anno Domini milésimo^ sexcentesimo^ decimosecun- do, Januarii die septimo.
No nosso idioma valem o seguinte:
«À Divindade do Senhor Jesus, verdadeiro Filho de Dcos, Divinda- de encuberta, e encerrada no Sacramento de boa graça; ao Pão vivo, que lie mantimento de immortalidade, symbolo da morte vital, penhor, c lembrança do Divino amor, as pobres Freiras de S. Domingos dedicão, e consagrão esta Casa (com voto da primitiva observância) em terra pu- ra, e nova, de (jue são fundadores com sua fazenda, e rendas os devo- tos Condes do Vimioso. Acuda-lhe com seu favor, c ajuda aquella Se- nhora, que em si reccbeo a Deos, c o pario, ficando Virgem, Mãi do Ro- sário, Senhora de hum, e outro Mundo, mil vezes bemaventurada Ma- ria. E acompanhcm-n'a seu Esposo Joseph, e os Padroeiros naturaes da Ordem, seu servo Domingos, c a Virgem Sanla Catharina de Sena, com
rARTlCUI.AK DO HKÍNO DIC PORTrOAL 45
toda a Corte Celestial. Faz o voto da Sagração o Illusliissimo Senhor D. Aleixo de Menezes, Primaz que foi da índia Oriental, e agora o he das llespanhas, em 7 dias de Janeiro, anno de IGliá.»
Lançada a primeira pedra, comerou a crescer o edifício, e foi-se lançan- do hum dormitório de Nascente a Poente, em parallelo do rio, e boa distancia da praia, como ficou toda a obra, que correndo quadrada, dá lugar no meio a bastante claustro ; só soljre o rio, e para a banda da barra, se abrirão janellas. Da parte da estrada, em que se levantou em igual proporção Casa de Noviças, altas, e pequenas frestas, ficando assim desafogo algum para a banda da terra, como hospedagem de quem fu- gia aos seus commercios até com a vista. São capazes todas as oflicinas, airosas, e alegres as varandas, que cabem sobre o claustro (nellas, como nelle, se abrem devotas, e aceadas capellas) sendo centro doeste bum cu- rioso jardim de artificiosas murtas, que cercão buma pequena, mas bem lavrada fonte de branco mármore.
Coro proporcionado ao numero das Religiosas ; sobre a porta, que entra para elle, se vê em bum nicho a imagem do divino Esposo, que com a mão levantada lança a benção a suas esposas, que entrão a louval-o ; e ao pé se vê a letra : Sub umbra alarum tuanim protege nos, como se ellas lhe esliverão dizendo: «Defendei-nos, soberano Esposo, com vossa protecção.» Sobre o ante-coro se levantou buma casa, a que sobe buma escada, que tem a indulgência da santa de Uoma ; sobe-se de joelhos para ganhal-a. lie a casa capaz de cinco cubículos, que lavrados ao Nas- cente, não tem mais luz, que a da casa, em que ha buma janella para o mar, e a própria de pequenas frestas, que se abrem sobre a porta do coro, de que se descobrem as duas capellas, que são collateraes á grade d*elle, %/) sacrário, que sobre ella guarda o Santíssimo, exposto por singular indulto para as Religiosas em alguns dias festivos, e com tal disposição, que os Religiosos, que soliem ou para expol-o, ou para re- noval-o, nem podem vér, nem serem vistos do coro. Edificou-se então a Igreja de buma só nave, levantada também ao nascente ; cobrio-se de madeira ; e com três pequenos altares, que se levantarão n'ella, íicou até o tempo da Yigairaria do venerável Padre Mestre Frei João de Vas- concellos, que a reedificou, e reduzio, com bem meditada idéa, á nova, e engraçada architectura, que hoje se vé, e se festeja entre as singulares de Lisboa. Não faltaremos a seu tempo á descripção delia.
46 LIVRO 111 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
Disposto já o Mosteiro em forma que podesse recollier as Religio- sas, trasladarão a clle os ossos das que tinhão falecido na primeira Ca- sa, dando-lhes jazigo na do Capitulo. Seguio-se a esta diligencia a mu- dança. Erão 5 de Setembro de i6..., quando as Religiosas, deixando com saudades aquelle sitio, e aos visinlios d^elle, metidas em coches (pela grande distancia do caminho, e debilidade, e descostume das que o havião de pizar) s« recolherão ao Mosteiro de Santo Alberto de Reli- giosas Carmelitas da primeira observância, por ser o mais visinho á fun- dação nova. ForSo recebidas as hospedas com Te Denm laudamus ao en- trar da Igreja, e logo na casa da portaria, com santo e caritativo alvo- roço, e desculpas da Prelada, que as quizera hospedar na clausura, a ser-lhe fácil a licença do Prelado em tao breve tempo. Não se esqueciâo estas Madres da liberal hospedagem, que vindo de Castella, tinhao acha- do na Annunciada de Lisboa, Mosteiro Dominicano, em que estiverâo até ter Mosteiro.
Nâo liião as nossas peregrinas com curiosidade de ver outros, mas com anciã de sepultar-se no seu : aceitarão agradecidas a desculpa, e huma refeição mais limpa, que larga, mais bem servida, que preparada, porque á contenda servião as de dentro, querendo supprir nas vontades o que talvez faltaria nos pratos.
De tarde se ajuntarão as Communidades de S. Domingos de Lisboa, Bemfica, e Almada, e as dos Religiosos de S. Francisco de Lisboa, Xa- bregas, e dos Terceiros ; o Arcebispo Dom Miguel de Castro (era então Yice-Rei) cçm o seu Cabido ; convidou-o não só o ser tio da fundadora, e de mais quatro Religiosas, mas o zelo de grande pastor, e gosto de ver recolher áquelle estreito aprisco tão santo rebanho. Ordenou-se a procissão. Precedião ás Communidades os Religiosos de huma, e outra banda igualmente sem precedências, fraternidade herdada de seus Pa- triarchas. Seguia-se o Cabido, logo o Arcebispo com o Sacramento de- baixo de rico palio. Seguião-se a elle de duas em duas as Religiosas, lançados grossos, e tapados veos sobre os rostos, amortalhadas, antes que vestidas, em tosco burel. Fazião*lhc lados os Religiosos mais graves de S. Domingos, defendidos hum, e outro de duas fileiras do melhor da nobreza ; não obrigava o tumulto a menos cautela.
Tinha a novidade abalado a Corte (que amiga de novidades, com me- nos motivo rompe em maior abalo) estreitou-sc o mais escolhido d'ella no caminho, que vai de Santo Alberto ao Mosteiro novo. O ornato das
PAllTICULAR DO REINO DE PORTCtíAL 47
jaiiellas, a innumeravel copia das melhores qualidades, de que estavao po- voadas, erâo digna demonstração d'aquelle espectáculo (e poucas vezes visto) de Immas mulheres, que pizando as maiores estimações da terra, hiâo fugindo ao mundo, sem lhe levarem mais alfaia, que huma morta- lha, nem lhe pedirem mais vivenda, que huma sepultura. Assim erão pobres, e estreitas as das cellas do novo Mosteiro, que não servirão de menos edificação n'este dia ao mais escolhido do povo, a que estiuerão patentes, trocando-lhe em confusão a curiosidade.
Recolhidas as Religiosas, experimentarão similhante falta á com que se virão ao entrar na primeira clausura ; sendo agora na segunda assaz miúda a providencia de quem lhes fez os provimentos do preciso para a Casa: porque ainda que a liberahdade, e devoção de muitas Senhoras lhes tinha preparado o prato da cea, achavão-se sem luz alguma, e sem poder appellar se quer á pequena de hum rolo ; assim se recolherão to- das ao coro, a dar graças ao Senhor, e consolar-se com a vista da luz distante, e escassa de huma alampada, que allumiava ao Santíssimo. Com esta desconsolação se vião já entrada a noite, quando ouvem tocar á por- taria, e vêem despois entrar a porteira com vinte e três rolos (era o nu- mero das Religiosas) esmola, que lhes fazia a Condessa do Basto. A fal- ta, e o impossível reparo d'ella, deu valor ao presente, e motivo a ajui- zar mais que humana a providencia, que a deixou remediada.
Assim parece que o conhecerão as novas habitadoras, que agradeci- das a este favor, como ao de se verem em Casa própria, assim come- çarão a estreitar as obrigações da observância, como se a primeira Casa deixara que emendar na segunda. A oração mais continua, as disciplinas mais amiudadas, o jejum mais estreito, o silencio mais austero, como se na nova clausura se lavrasse mais fácil escada para subir aos braços do seu esposo ;#entura, que muitas merecerão, apoucando a industrias ri- gorosas de penitencia os dias da vida. Mas não malquistando a esta os extremos de penitente '(com que se divulgava na Còi"te) assim era appe- lecida, e finalmente abraçada, que em breve tempo cresceo o numero de Religiosas a trinta e cinco. Não podia receber mais a Casa ; taxou-o o Colleitor Octávio Áccorombono. Assim persiste até o presente, desde o primeiro de Julho de 4 620, em que foi taxado. Mas ficando ainda ir- resoluto, que Religiosas serião conversas, e que Religiosas do coro, de- terminou o Mestre Geral Frei Serafino Silo, que as sinco fossem conver- sas, e as trinta de vêo preto.
48 U\m 111 DA IIISTOHIA Dl-: S. DO-MI.NGOS
CAPITULO X
Da Madre Soror Filippa do Saniisyimo Sacramento.
Comerando a respirar na nova vida da clausura os espíritos, que só para o Ceo liverão vida, íica sendo nesta Casa a morgada a Madre Soror Filippa, conrio a que primeiro passou a lograr aijuella immortal vida, que parecia herança n'esta Casa. Chamava-se esta Madre no século Filippa de Lemos ; foi natural de Lisboa; seus pais João Vaz Hebello, e Maria de Lemos, gente nobre, e tão desvelada na boa criação de sua familia, que recollieo em Santa Calharina de Sena de Évora três filhas, que an- tes lhe pedirão este estado, que lhe obedecerão, tomando-o. Era huma d'ellas a Madre Soror Filippa, a quem n'aquella entrada parece que ad- vertira o Ceo, que ainda que a destinara para aquelle habito, não o li- zera para aquelle Mosteiro; antes mostrando-lhe (como em enigma) este da nova reforma, lhe deu por sobrenome o do Santissimo Sacramento, brazão, e titulo d'ella.
Achava-se já (quando se recolherão as três irmãas) em Santa Catha- rina a Madre Soror Filippa de Jesu Maria, e ainda secular; e contendendo as duas irmãas de Soror Filippa por se cíiamarcm do Sacramento, aco- dio esta Madre, resolvendo com a sua authoridade, que só Soror Filippa tivesse aquelle nome, ou fosse aífciçoar-se-lhe por sua humildade, c na- tiva singeleza (em que ás duas excedia) ou por se chamar também Fi- lippa como ella, e querer n'aquelle nome, de que era devotíssima, vel-a aventajada ; ou (o que parece mais pio) como pessoa de tanto espirito (assim o era Soror Filippa de Jesu Maria) permittir o Ceo que com aquelle nome vaticinasse, ou dispuzesse como instrumento de superior providencia huma das grandes fundadoras d'esta reforma.*
Parece que se não escondia o myslerio a Soror Filippa, porque este soberano nome lhe começou assim a aíTeiçoar a vontade, que levada das suavidades d'elle, suspirava (ao ouvir fallar na fundação da nova recoleta) o vêr-se assim como mimosa do nome, filha da Casa delle. Mas era ainda noviça, naturalmente encolhida, e acanhada, escondia no coração este desejo, como indigna na sua estimação de o ver cumprido ; só na oração larga, e repetida, o propunha com lagrimas a seu esposo, eífica- zes lingoas, com que fallava seu espirito: não o erão menos as do seu procedimento, escutadas n'aquclla Casa, em que agora se examinavão
PARTICULAn DO REINO DE PORTUGAL 49
fiinilndoros para a nova reforma. Ouvio o Senhor liiimas, fazendo qiio ye attendcsso ás outras ; porque pesando os Prelados os aventajados es- píritos, que havião de abrir caminho pelas asperezas da nova observân- cia, e tendo tantas experiências da de Soror Filippa, ordenarão que acom- panhasse as fundadoras, como os que entendião que na classe da refor- ma, onde o exemplo he doutrina muda, já são grandes mestras as que sabem ser fn^andes discipulas. Assim passou Soror Filippa á nova reco- lela, e levando-lhe em conta os mezcs do noviciado de Évora, foi a pri- meira, que professou n*esta Casa.
Parece que se lhe seguío novo espirito ao novo estado, e huma tão segura resolução de a não atemorizarem as grandes pensões d'e.lle, que o primeiro de que fez sacrifício, foi o entendimento, porque ás luzes d'elle não parecessem disformes os dictames dos que na sua obediência tinhão tomado posse da sua vontade. Assim se vio. Succedeo mandar- Ihe hum Prelado cousa repugnante á razão, e que as circunstancias fa- zião de todo impraticável. Suspendeo-se Soror Filippa, advertindo algu- mas; mas voltando logo com animo socegado, accrescentou : «Padre, nada he o que disse; farei o que se me manda; e esteja Vossa Patemi- dade certo, que se me mandar lançar no mar, não haverá razão alguma, que me sns{)enda.í)
O aceio do culto Divino era seu quotidiano desvelo; com este em- prego a achavão nas mãos o tempo, que lhe sobejava das obrigações do Mosteiro, l^-a extremosa, mas geral a sua devoção aos Santos; grande exemplo pai-a convencer os abusos das que reduzem a devoção a argu- mentos, disputando com estylo humano maiorias nos justos, e abatendo huns para exaltar outros; indecencia não só praticada entre Religiosas, indignas d*este nome, mas introduzida temerária, e nesciamente nos púl- pitos, dos que sobem a elle sem mais capacidade, que a confiança. Era Soror Filipj)a devota de todos os Santos, porque olhava para todos co- mo triunfantes, e advogados ; e sem se meter temerariamente em avaliar prémios, lá deixava a decisão aos raios do Sol de jusliça, que commu- nicando sua luz soberana, faz diííerir huma de outra esti'ella.
Em o dia de cada hum dos Santos punha em hum dos altares do Coro a sua imagem, ou suppiia hum resisto a falta delia, e com flores, e perfumes lhe assistia, e o venei'ava alegre, devota, compungida. As- sim a occupavão as festividades da Rainha dos Anjos, de que era devo- tissima. Roubavão-lhe os olhos, e os affectos as suas Imagens. Era So-
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50 LIVRO III DA HISTORIA DK S. DOMINGOS
ror Filippa mui humilde; assim lhe arrebatava mais o coração aquella Senhora, que fez timbre de ser escrava, publicando que essa escravidão humilde a sobira ao throno de mais que humana magestade. Esta pie- dosa propensão lhe poz diante dos olhos huma imagem da mesma Se- nhora, de pequena estatura, antiga, e quasi desfigurada com o tempo, tendo devido pouco ao artificio. Era a matéria marfim, e tradição que a mandara a esta Casa Dom Fiei xMiguel Rangel, sendo Vigário geral na nossa Congregação da índia.
Estava então esta imagem no Capitulo, como esquecida da devoção das Religiosas, occupadas em assistir a outras, que tinhão em bem or- 1 adas Capellas. Aquelle desamparo, como a pequenez da imagem, fez grande harmonia nu coração da devota; oíTereceo -se-lhe por escrava. Alli erão os seus desvelos, alli todos seus cuidados, alli gastava o tempo, que roubava ao seu descanço em viva, e fervorosa oração; merecendo esta, como aquelle cuidado, singulares mercês, que (he tradição) recebera esta Madre da devota imagem. Não se singularizão, porque ao tempo, que se examinava, e inquiria a vida da Madre Soror Filippa, erão já fa- lecidas algumas Religiosas de grande opinião, que o dizião, e testemu- nha vão.
Na oração era esta Madre continua: e o perpetuo silencio, em que andava sepultada, era bom indicio de que nem as occupaçôes do Mos- teiro lhe embaraçavão aquelle exercício angélico. Daqui lhe nascião fer- vorosos desejos de dar a vida por seu Esposo, comprando com seu san- gue a coroa do martyrio. Assim se alegrava nas occasiôes, que ou acha- que, ou doença a obrigavão a sangria, ao ver correr o sangue, lembra- da do que seu Esposo derramara, e do com que os Martyres responde- rão a essa fineza. Succedeo avisinharem-se á barra de Lisboa alguns na- vios de Turcos; assustou-se o Povo com a noticia; só Soror Filippa pa- rece que se alvoroçou com ella. Estranhava-lh o outra Religiosa; e ella trocando-se-lhe o rosto de penitente, e pálido em huma ascua de fogo, lespondeo: «Madre, não hei de alegrar-me? Não vô que podem estes ini- migos entrar para dentro, e nós, que somos aqui as primeiras, lograre- mos a felicidade do martyrio?') «A morte, e o martyrio, sempre atemo- rizão» (tornou a outra Religiosa). «Pois Vossa Reverencia (continuou So- lor Filippa) não havia de ter mais gosto que temor? Digo-lhe que aju- dando-me Deos, se eu merecera o martyrio, havia de olhar com grande alvoroço para o cutelo.»
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 51
Estas as lavaredas, que rompião daquelle coração, mas não ficavão só os desafogos em palavras, recorria ás penitencias, a rigorosas disci- plinas, achando no seu braço não menos cruel verdugo, nos seus golpes mais tyranno martyrio, quanto mais o he, o que conservando a vida, dei- xa em que continuar a pena. Abraçava gostosa as da penitencia regular; mas nas da voluntária era tão excessiva, que pareceo aos Confessores, e Prelados que entrasse a obediência a tirar-lhe da mão a disciplina. Gran- de prudência pede similhante resolução, porque nem sempre são acer- tados similhantes preceitos, devendo attender-se á capacidade dos espí- ritos, havendo talvez alguns, que já como livres das jurisdições da car- ne, nao escutão mais documentos, que os da vontade Divina, que parece os tem elevado a outra esfera! Se não, que rigor mais impio na avaliação dos homens, que ferir-se S. Domingos três vezes em cada noite com hu- ma cadea de ferro, onde se podia admirar, não a aspereza, e constân- cia dos golpes, mas que naquelle atenuado corpo houvesse sangue para elles! Iluma Santa Galharina de Sena, huma Santa Rosa, sem largarem da mão a disciplina, ou fazerem acção, que a industrias da penitencia não fosse verdugo da vidai Conselho, e permissões erão estas do Ceo, e daquelle Esposo, que as tratava domesticas, e as queria mais ajusta- das. Não he logo sempre acertado o prohibir penitencias. Meção-se pri- meiro as capacidades do espirito, que podem, ou não abraçal-as; e evi- tem-se só as indiscretas.
Não o podião ser nunca as da Madre Sor Filippa ; dava-lhe pena ver- se com as mãos atadas, e as azas soltas. Soltas as azas do coração para buscar a Deos todas as horas como esposa; presas as mãos para não poder buscal-o com os abrazados desafogos de mortificada. Mas rc- mediou-o o Ceo. Veio a esta Província o Mestre Geral da Ordem, Frei Serafino Silo ao Capitulo geral, que celebrou em S. Domingos de Lis- boa; e visitando (como seu Prelado) este Mosteiro do Sacramento, achou Soror Filippa caminho para o seu socego, e desafogo, pedindo-lhe dis- pensação dos preceitos, que lhe tinhão posto Prelados inferiores; e im- petrando licença (pertendida com repetida, e empenhada eíTicacia) para continuar as suas penitencias. Âdmirou-se o grande Prelado de tão per- tendido indulto, quando são só favoráveis os que se pertendem de simi- lhante Prelado: e licou Soror Filippa com penitencia dobrada; porque, sendo esta licença concedida só de palavra, e públicos os preceitos, que tinha, para não alargar a penitencia, assim se andava furtando aos olhos
52 UVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
de todas, como quem temia escandalizal-as. Apertou o escrúpulo com ella, declarou a licença.
A este rigor usado comsigo unia liuma viva cliaridade, com que s(^ havia com o próximo. A salvação das almas era o continuo emprego de sua oração; aqui encaminhava todas as acções meritórias de sua vida. A huma tão pura não havião de faltar mimos do Ceo. Assim parece lh'os concedeo o Senhor, também por aquelle estylo, com que os faz aos mais mimosos, dispensando com elles o conhecimento de futuros. A[)ontare- mos hum caso; e foi, que estando esta Madre em oração ík) Capitulo (era este o lugar, em que a costumava ter) vio entrar j)ar elle a Con- dessa do Basto com duas filhas nos braços, e chegando a certo lugar, desappareceo. Assustou-se com a vista, porque com os olhos vio aquella novidade, não como representação ; mas continuou no santo exercido, nttribuindo aquella vista á fraqueza d^ella, e contando-o ás Religiosas com a mesma singeleza; mas veio tempo, em que pareceo profecia.
Passado hum anno, faleceo a Condessa do Basio, mulher de Dom Diogo de Castro ; e mandando-se sepultar no Capitulo d'este Mosteiro, se lhe abrio a cova no lugar em que tinha desapparecido. Passou mais tempo, e faleceo sua fdha Dona Paula Margarida de Távora em Madrid, onde era Dama do Paço ; e mandando que trouxessem seu corpo «i este lleino, e se depositasse no Capitulo d^este Mosteiro, se poz o caixão so- bre a sepultura da Condessa sua mãi. Correo menos de hum anno. e faleceo n'esta Casa sua irmãa Soror Francisca da Encarnação. Mandou- se abrir a cova junto da mesma sepultura, e correo a terra de sorte, que de duas se fez huma, verificando-se a visão de Soror Filippn.
Favores de mais estima communicou o Senhor á sua serva. Soube- lão-se algufts, praticados por ella a seu Confessor (era este o Padre Frei João da Piedade, Religioso devoto, e reformado, que despois foi BisfX) da China). Perseguia-a o escrúpulo de que serião illusões do demónio, e não favores do Ceo: tão abatido era o conceito, que formava do pouco, que merecia! Achava-se esta Madre gravemente enferma, pedio ás Reli- giosas que lhe trouxessem para junto â cabeceira a imagerh de hum Cru- cifixo, e alli lira deixassem para alivio, e companhia. Erão as dores in- toleráveis: voltarão despois as Religiosas; e cuidando achar a doente af- llicta, como a tinhão deixado, a virão alegre, e contente, confessando que era tal a suavidade, que recebera da vista, e visinliança d'aquelle Se- nhor, que as anciãs lhe estavão pai-ecendo delicias, as dores doçuras.
PARTICULAn DO RKINO DE PORTUGxVL 53
sem mais desojo, que o de padecer mais; porque, ílgurando-se-llie que aquellas dores tiiihão sahido do sacrosanto Lado daquelle Senhor, esta- va com huma anciã de padecer tão acceza, como o que abrazado da se- de suspira iium copo de agua fria. Era esta imagem aquella, que a Ma- di'e Soror Isabel de Jesus, fundadora, e primeira Prioreza d'esta Casa, trouxe de Santa Caiharina de Sena, e de quem recebeo aqueile extraor- dinário favor, que escrevemos em sua vida.
Recebido já oViatico, instava com grande anciã pela Santa Unção, a noite precedente á sua morte. Nao era esse o voto dos Médicos, que lho alargavão mais a vida; mas ella tinha do melhor Medico noticia mais se- gura. Assim o devia de entender o venerável Padre Mestre Frei João de Portugal, então Vigário, que entrou a satisfazer-llío aqueile desejo; e per- guntando-lhe antes de a ungir, se sentia de que se reconciliar, respon- doo segura: «Que nenhuma outra cousa sentia mais, que hum intensíssi- mo desejo de ver a Deos, sendo tão indigna de tão único bem. xMasquo era tal esta anciã, que parece que a instantes a acabava.» Ditosa alma lu- tando com os desejos <le Paulo, de desatar-se, e estar com Clnisto I (1) Mas parece que adiantando-sea Paulo em lhe apressar a morte esse desejo. No dia seguinte (foi em hum Domingo 13 de Dezembro de lG20j pas- sou a vêl-o premiado, deixando as Religiosas com tantas saudades, como invejas.
CAPITULO XI
Das Madres Soror Magdalcnu das Chagas, e Soror Barbara da Trindade.,
Grandes indicies do que seria a Madre Soror Magdalena, se podião tirar dos pais. que lhe deu o (^eo, sendo doutrina do mais verdadeiro Mestre, que de raízes santas são sa.ntos os ramos (á). Foi Soror Magdalena das Chagas (no século Dona Magdalena de Vilhena) filha de Francisco de Sousa Tavares, e de Dona Maria da Silva, illustrissimos em sangue, igual- mente cm virtude. Não degenerou a boa filha do bom génio dos pais. Fermosa he a virtude, mas junta com a nobreza não ha igual harmonia. Esta bemquistou a Dona Magdalena para esposa pertendida. Casou pri- meiro com Dom João de Portugal, neto de Dom Francisco de Portug,^.'. primeiro Conde de Vimioso. Passara Dom João á infelice campanha de
(1) Deíiiinriíini Imbcns dissolvi, ol cíísp curn Clirif^to Ail rbilip. i. Ji. 23, [i] Bi udix. éíiiícta, et rami. Paul. ii. ad Koia. IC.
M LIVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
Africa, onde conforme as noticias, qne então vierâo a Dona Magdalena, morreo, acompanhando a El-Rei D. Sebastião, como grande vassallo, e peleijando como soldado valoroso.
Esta noticia deixou desembaraçada a Dona Magdalena para segundas bodas com Manoel de Sousa Coutinho, Fidalgo iflustre, e dos bemquis- tos entendimentos d'aquella idade [qm ainda n"aqueUa parece que nâo era odioso este nome.) Viveo com elle alguns annos, até que se resol- verão a fazer divorcio, tomando ambos o habito de S. Domingos ; ella n'esta Casa do Sacramento, elle na recoleta de Bemfica; resolução que abraçarão tão despidos do mundo, que nunca mais se virão em quanto viverão. Chamou-se ella Soror Magdalena das Chagas, elle Frei Luiz de Sousa, tão celebre pelos acertos d'esta resolução, como pelos de sua penna, acredora de toda esta Província. Dos motivos d'esíe divorcio dei- xamos já escrito em sua vida, no primeiro livro desta quarta Parte.
Recolhida Soror iMagdalena á clausura, nada lhe pareceo novo, mais que a exterioridade do habito, e o obrar por preceito os mais dos santos exercícios, que em sua casa frequentava iivre. Entre as noviças fazia nu- mero, tão igual com eilas, que só a differençava a madureza, dizendo tal- vez no coro os versos com Soror Barbara sua nela. Não podia parecer noviça, mas já veterana n'aquella vida, quem entrara aquellas portas com tanto gosto, e tanto desengano ; quem occupara o tempo em sua casa, furtando-se á assistência de sua ílimilia, para as escondidas paredes de hum oratório ; quem tinha aberta a porta á necessidade do próximo, os ouvidos ás supplicas, e a mão ás esmolas. Já livre (antes agora debaixo de lei) para os actos da contemplação, e da charidade, não esperou tempo para ganliar em ambas grande nome. Assim era continua na oração, as- sim continua em servir, sendo a primeira occupação, que lhe poz nas mãos a obediência, o ser enfermeira; passou-a o seu gosto, e o seu gé- nio a escrava ; tal era o fervor, e desvelo com que exercitava o oíTicio. A igualdade, com que a achavão todas as doentes, lhe deu entre ellas o nome de mãi. Com este a chamavão, a este correspondia.
No trato, nas palavras tão humilde, como se lhe esquecera, não só o domínio de sua casa, c família, mas todo o commercio, e parentesco, que tivera, e tinha com o melhor da nobreza. Assim sujeita, assim so- frida, que nenhuma reprehensão, por áspera, ou palavra, por desarre- zoada, lhe pode nunca alterar a brandura. Grangeou-lhe algumas doen- ças a mudança de estado, acharão-na com invencível sofrimento, mais
PAnTICULAR DO REINO DK PORTUGAL Úô
que tudo raro, o com que se accommotlava á extrema pobreza religiosa, abraçando com igual constância as obrigações, e os descommodos d"aquella vida. Não llie durou ella na clausura mais que oito annos ; mas lambem aproveitados, como o deu a conhecer a conformidade, com que recebeo o desengano da sua morte, tão plácida, como ensaiada naijuella vida. Recebidos com pias demonstrações os saci-amentos, passou a lograr a eterna, em dia de Santo Thomaz, 7 de Março de 1621.
Ainda que a Madre Sor Barbara da Trindade faleceo muitos annos depois, não parecerá desarrezoado admittirmos ao parentesco o privile- gio de anticipar a noticia de sua vida, acompanhando-a de buma tão grande parenta. Ei'a a Madre Sor Barbara lillia de Dom Lopo de Almei- da, e de Dona Joanna de Portugal. Foi esta íillia de Dona Magdalena, de que acabamos de escrever, e passamos á vida de Sor Barbara como nela sua. De pequena começou a pizar o caminho da virtude, tendo por ensino, e por exemplo a piedade dos pais, que entendendo o bem que lhe negoceavão a melhor vida, a recolheião por pupila n'esta Casa. De sete annos entrou n'ella, acompanhando a Sor Magdalena sua avô, eem breve desmentio os poucos annos com a muita cai)acidade. Já lhe não sabião o non^ie de pupila, vendo-a occupada nas obrigações de Freira.
Tinha boa voz, e natural viveza, com que se capacitou em pouco tempo nas cej-emonias do ordinário, e cousas pertencentes ao Officio di- vino. Já as Noviças a reconhecião Mestra ; como tal governou depois al- guns annos o coro. Cresceo com ella hum piedoso alTecto, e devoção ao Bosario, que com grandes lucros de sua alma conservou toda a vida. Nos mais exercícios imitava, e talvez excedia as mesmas Religiosas. Exa- cta na observância do silencio, ninguém, especialmente de manliãa, lhe I)ode ouvir palavra sem licença de sua mestra. Dava-se á liCão de livros devotos, e com rnnior applicação aos que tratavão da Paixão de Christo, que ella suspirava esposo, contemplando já n^aquelles verdes annos com tanta madureza as cirçumstancias, com (|ue crucificarão ao Senhor no lenho, as dores, que sentiria, arvorando-se este no Calvário, que com compassiva ternura desfazia o coração em lagrimas, e tão sequiosa d'el- las, como se via na continuação com que meditava.
Não se contentava com sentir, quizera lambem padecer; assim appli- cava a esta contemplação muitas mortificações, e pedia á sua mestra azevre, e fel, que trazia na boca á sexta feira. Fm algumas era servido o Senhor de a illustrar, e parecia-llie que via tudo o que passou n*aqi:clle
'>6 LIVIIO III DA HISTOniA DE S. DOMINf.OS
lastimoso acto ; que via o Senhor banhado em san*:íue, cuberto de aí^o- fiias, rodeado de anciãs, levantando a enfraquecida voz ao Pai, e enlriv í.:ando-lhe linabnente nas mãos o es|)irilo; a ma*Toa da Mâi afíligida ; a (U')r do Discipuío amante ; as vozes áo povo impio, e i'e!)ekle, tudo re- ]ireseníado com tanta viveza, que banhada em lagiimas compassivas, fi- cava como amorlecida. Coníissão foi de pessoa fidedigna, com quem fal- sava em malei'ias de espirito com confiança, n'aquena idade, e despois de crescida.
Já professa, parecia-Iiie que lhe accrescia nova obrigaçíío á observân- cia das asperezas da Casa ; enlregou-se a novas penitencias, jejuns, cilí- cios, e discii)linas; tudo lhe parecia nada com as penalidades, que trazia C4)nl,inuamente no pensamento, vendo a seu esposo cravado em hum le- nho; espectáculo de que toda sua vida nâo tirou os olb.os da alma, o com que não enxugou mmca os do corpo. De poucos annos a elegerão Mestra de Noviças, e grande mestra, porque ensinava o que seguia. Adian- tava-se o exemplo á palavra, minorava-sc o preceito na companhia, e assiiu a ol)edecião Prelada, como as que a experimentavão companheira; assim as ti'azia fervorosas, assim consoladas.
O rigor das penitencias a pi-ostrou muitas vezes, e tão sofrida era nas doenças, como austera em não temei' causal-as. Repartia o lemí)o de orar entre a oração mental, e vocal, poríjue todos os dias entoava o Rosário, furtando-se muitas vezes a hora (do pouco, que tomara {vavà descanço) por não faltar a esto provei loso exercício, quando as ol)riga- rões da Communidade lhe estreitavão o tempo; (jue assim lhe succedia sempre, por seu grande [)restimo. Poucos dias antes de sua morte, es- tando já prostrada, pedia a fiunia Religiosa que a acompanhasse, e que ambas rezarem o Rosário ; e dizendo-lhe a Religiosa que socegasse, «pie. já não podia com aquelle trabalho, respondeo : «Antes. Madre, este lie o único arrimo, que tenho pai-a a hora de min!ia morte;» e logo o rezou.
Para a certeza d^ella teve dous avisos. Entrava huma vez, antes da ultima doença, no coro ; vio n^elle huma Religiosa ; desconheceo-a ; che- gou-se a ella, desapareceo-lhe, c o mesmo foi desaparecer-lhe, que en- tender, que eslava visinha sua morte. Com esta certeza, de que eslava convencida, começou de preparar-se, confessando-se geralmente. Passou- se logo a huma vida totalmente retirada, até d*esse pouco commercio das Religiosas. Accrescerâo-lhc achaques; entendeo-se que de novas i^e-
' partícula» do reino de PORTUGAL 0/
niíoncias; mas andava de pó, acodindo a todas as Comiminidados. Eii- tjava huma vez com olla para o coro, a caiilar a Ladainha de nossa Se- n'u)íM, quando onvio clara, e dislincla luima voz, que lhe dizia : «D"esta has de morrcc.» Com esta noticia foi maior o fervor de sua ahna ; com mais suavidade cantou a Ladainha, aííinando como cisne os últimos ac- centos, não em saudosas despedidas da vida, mas em vivos alvoroços de melhoral-a.
No dia seguinte cahio enferma, o de doença Ião penosa, que movia juntamente a lastima vel-a sentir, como aediíicação vel-a sofrer. Ueceboí^ os sacramentos com juizo inteiro, ò suavidade de espirito ; e sem fazei' acção, (jue parecesse t(írm(j de morte, passou a mellior vi(Ja, íicando-lhe. hum rosto bem assombrado, e !'isonho, (]ue enxugando as lagrimiís á l)ena, as trocava em oulras de alegiia. Com ellas nos ollios levanlavão as Religiosas as mãos ;h) Ceo, sentindo piamente que de lá descião os ivílexos da bemaventurança a ferir nas pallidezes d"aquella sombra. Fa- leceo em hmma quarta feira li) de Novembro de 1042, de idade de trinta e seis annos.
CAPITULO Xll
I)(i Madre Soror Margarida do Sanlissimo Sacramcnlo.
Parece que competião n'esta venturosa Casa a graça, e a natureza, povoando-a huma, e outra de sujeitos heróicos em virtude, c qualificados em nobreza ; reflexão, (jue fez algum bom juizo, olhando para os claus- tios dominicanos, onde escassameJite se achava gigante na virtude, que o nâo fosse lambem nas prendas do sangue. Assim {)rovou sempre este bem, quando buscou hum pai, que unio em si excellentemente huma o outra (jualidade. Seja agora boa prova (ou continuada) Sor Margarida, onde se achou huma e outra. No século se chamou Dona Margaiida de Menezes, lilha de Dom Fradique de Menezes (da casa ílos Condes de Cantanhede, e Marqiiezos de Marialva, illustre, como venerada em Vov- tugal, e Castellaj e de Dona Isabel Ilenrlíjues, senhora em que se virão competir as prendas naturaes com a qualidade do nascimento ; assim ei'ão aquellas grandes, assim este illustre. Com este parece que herdou lambem aquellas sua filha Dona Margarida, nascendo com tanto extremo fermosa, que entre as [)rimeiras mantilhas não íoi só o emprego da ad- miração, mas de piedosos vaticínios, que a deslÍ5iavão toda ao Ceo, como
í>8 LIVRO líl DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
peregrina na terra; nâo sendo de menos ponderação o do Padre Frei €aspar do Rosário, Religioso de S. Domingos, pessoa de grande repu- tação em virtude, e confessor de Dona Isabel, que vendo a menina a poucas horas de nascida, pedio a sua mãi Hic puzesse por nome Inno- tencia, para indicio da muita, que haveria em sua ahna ; e ainda que então o não indicou o nome, disse-o despois a experiência.
Cresceo ; e já nos primeiros annos o hia coníirmando na devota in- clinação ás cousas de Deos, com tanta, c tão continua applicação a cilas, e esquecimento de tudo o mais, como se renunciara a propensão dos poucos annos. Continua na oração, na veneração, e particulares devoçíjes das imagens ; mas no meio d estes santos exeiticios com huma notável esquivança ao dizerem-lhe que se criava para Freira; e assim foi maior caso, que contando já dez annos, e succedendo ouvir praticar a sua ir- mãa mais velha a resolução, que tomava de ser Freira na Wadre de Deos om Lisboa, sentio em si hum abalo tão veliemente, que (segurava-o ella mesma já Religiosa) lhe ferira o coração, inclinando-a com hum vivo ilesassocego áciuelle estado, e com tão seguros propósitos, que costuuia- va dizer: «Que aquella fora a hora da sua conversão.» D'cste dia fez sempre singular memoria, dando lielie a Deos graças com demonstra- çijes alegres, e agradecidas.
Já crescia com elía a estimação do tosco saial Capucho, de que tinha noticia, assí'ntando comsigo, e praticando publicamente, que não abi'a- çaria outra vida mais que a clausura da mais estreita recoleta. Com esta resolução lhe crescia fervorosamente o amor á pobreza, sem haver cousa que chegasse ás mãos da sua diligencia, e da sua industria, que não pas- sasse logo ás dos pobres- Pareceo-lhe [)Ouco o que lhe não custava mais que diligencias; meteo os pobres de partilhas na porção, que na mesa linha nome de sua, e sempre era menor a que deixava, que a que re- partia. Porém não podendo ser grande ainda toda, sem duvida a multi- plicava o Cco, [)or(|uc com aquelle pouco soccorria a muitos.
Foi cousa notável, que assistindo commumente com algumas criadas em huma torre alta, que havia nas casas, lá ouvia a voz do pobre, que pedia em baixo na sala, não succedendo o mesmo a quem estava com ella, e i)arecendo impossível pela distancia. Então descia ligeira, e alvo- roçada, e lhe dava esmola. Havia em casa huma criada (com o achaque, de que adoecem todas, e convalecem raras) que em sabendo que I>;i::\ Margarida tinha provisão para os pobres, fingida, e dissimuiada, i ,
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na sala, chorando huma mãi velha, entrevada, e faníínta : com este en- gano roubava á innocente caritativa o que f^rangeara para a verdadeira pobreza ; e repetindo-o muitas vezes, não cahio n'elle nenhuma a verda- deira esmoler, porque não costumava olhar para os rostos envergonha- dos, mas para as mãos vasias dos pobres ; senão era, que corria cega áquelle santo exercício, porque lhe davão nos olhos os resplandores da cliaridade, que lhe sahião do peito.
Não lançavão de si menos luzes as lavaredas, que se ateavão n'elle, de se ver esposa d'aquelle Deos, qne he fogo que suavemente consome. Já começava de alvoroçar-se para esta felicidade, porque passava com sua mãi para a cidade de Lisboa, e tinha havia tempos os olhos na re- coleta da Madre de Deos, em que contava amigas, e parentas, que a suspiravão companheira; mas seu grande espirito, e partes já davão maior brado, acompanhada da resolução, com que vinha de sepultar-se em hu- ma recoleta. Em todas as que havia na Corte, começarão a avivar-se os desejos de a recolher nos seus claustros ; mas era maior o santo com- mercio que tinha com a do Sacramento, como Casa Dominicana, por ter Dona xAlargarida já dous irmãos com o habito desta familia.
Resolveo-se em acompanhal-os na escolha, por mais que a fizera (estando ainda no Porto) do iMosteiro da Madre de Deos. Mas estava nelle cheio o numero das Religiosas; e ainda que em Roma se perten- dia já a dispensa para a receberem extranumeraria, não admittia dila- ções hum desejo, que era fogo, e havia de consumir a constância, em quanto senão desafogasse na resolução. Âchava-se já com dezasete annos, e entendia que em vida tão breve, onde se não segura hum instante, já serião menos os que desse ao Ceo, que os que tinha gasto com o mundo; como se fora gastal-os com o mundo, ter-se servido d'elle só no domi- cilio. Assentou em vestir a mortalha Dominicana n"esta Casa; mas sendo seus parentes os que tinhão impugnado a fundação d'ella, começarão os embaraços a assustar-lhe os alvoroços ; mas não os desejos ; porque apezar das grandes batarias do inimigo commum, já do desgosto dos parentes, já dos rigores da Casa, já do desamparo de sua mãi (que não tinha mais que a ella) assentou comsigo que nas difíiculdades lhe queria o Ceo accrescentar o triunfo, e que seria ingratidão não agradecer ao Ceo nas resoluções o que lhe grangeava nos embaraços.
Tinha vindo algumas vezes a esta Casa do Sacramento, como aquclla
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a que linha, e em qne achava o maior agrado, sendo o reformado d'eihi o maior para o seu génio; mandou pedir grade, em que queria falhir á Prelada, e pedio-a com tanta instancia, que suspeitarão as Religiosas que sem duvida era mais que visita. Pedia a licença para huma véspera do Kosario. Acompanhou-a a mãi, vencida de rogos, e da devoção, que li- nha ao Mosteiro ; mas bom fí)ra da magoa de tornar para casa sem com- panfiia. Dispoz Dona Margarida tudo de sorte, que estando na Igreja com sua mãi, acabadas vésperas, lhe desappareceo de diante dos olhos ; e abrindo-se a portaria, se passou aos braços d'aquei[a alvoroçada, e santa companhia, com tanto gosto, que por ser o maior de sua vida, \\\o quiz o Ceo contrapezar com o sentimento de ver a sua mãi entrada em hum desmaio, e logo cuberta de lagrimas, e formando queixas, nascidas estas do engano, que se lhe íizera, aqucilas do desamparo em que ficava. Quiz a filha enxugar humas, e satisfazer outras; esteve com a mãi no locu- tório; seguirão-se ás meiguices muitas razões clieas de grande espirito; mas nem a mãi se consolava, nem a filha se movia; poripiea filha olhava para o seu acerto, a mãi para o seu desamparo, ou porque esta obede- cia á natureza, aquella ao Oo.
Oito dias retardou Dona Margarida o noviciado, dando â mãi o alivio de a ver em hum locutório, e deixando ao costumo do tempo o ve!-a com mais alivio : mas não estava então ociosa, por mostrar que não era irresolução a detença. No coro acompanhava as Ueiigiosas. Na oi'ação e contemplação parece (jue as excedia, porque ainda gastava com Deos o que ellasnas occupaçí3es da Casa. De noite contrapezava o não hir a Mati- nas, com disciplinas rigorosas. Assim, ainda secular, era já noviça; ainda noviça, huma das Religiosas mais cons'ummaíías da Casa. Parece que o prova o que diremos. Krão passados dez mezes de noviciado, chamarão as vogaes. para a porem a votos, como he costume. Era pratica sua confessar-se indigna de companhia tão santa ; assim deu a entender o abalo, e susto com que ouvio chamar a conselho. Retira-so a huma ca- ])e!la, lança-se por teira, ergue os olhos, c as mãos ao Ceo, pedindo a Deos que a não exclua d'aquelie ditoso rebanho, como incapaz de fazer n'elle numero. Atraz das vozes do coração, subio o espirito; assim íicou e.Ktatica, não só o tempo, que durou a função dos votos, mas ainda des- pois de chegarem a ella as Religiosas, a segurar-l!»e, que eslava aceita. Ju!í,Mrão o silencio, e immobiiidade por encolliimento natural, como sa-
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bião o como era callada, c humilde ; mas sonbe-se d"ahi a dias, qne era mais mysterioso o silencio, quando inconsideradamente confessou, que iiâo ouvira cousa alguma do que se lhe dissera. Sem duvida se applíca- rão os sentidos de sua alma a escutar de mais superior esfera as noti- cias da sua ventura. Esta era Sor Margarida, quando noviça.
Alas não permiliio o divino Esposo, a que esperava dar a mão, que fosse só o noviciado da Religião, o que a dispuzesse para aquella felici- dade; em outro noviciado a (juiz aj)provar o Geo no sofiimento, e pa- ciência com que abraçou huma cruel doença, entendendo, que era muno (raquella mão, que lhe prornettia o Esposo. Assim não só sofria, mas festejava as dores, sem que o rigor d*ellas lhe embaraçasse as horas de oração, em que sentia tal suavidade, que não havia moléstia, que lhe não esquecesse. Apertavão-na rigorosas sedes; e recorrendo á oração, em que se suspendia, parecia-lhe muiías vezes que o Senhor a recreava com sua presença, permittindo (pie com os sequiosos beiços chegasse ao sacrosanto lado, e com tanta consolação, e doçura de espirito, que no mesmo instante lhe passava a sede, ficando-lhe só a de repetir aqueliu su3vidade.
Continuava o embaraço da doença (erão humas cruéis quartans) e prendia-a no leito em cei'toMia, que commimgavão as noviças. Entrou-se de huma vehemente magoa, ou santo ciúme, e inveja daquelle único iumi, que se lhe dilficultava; e disse ao Senhor com lium suspiro sabido da alma: <r\h Senhor, que ahi vos estais regalando com essas vossas servas; e só a mim, como indigna, me repudiais, pois aqui me prendeis ])aralylica, para que vos não receba!» Logo lhe pareceo, que escutava ao Seniior, que bi'andameníe lhe dizia: «Para que dizes isso, se sabes que te amo?» Seguio-se-ihe lumia doçura de espirito, que (derretendo-lhe o coração em lagrimas) lhe parecia que era a com que sempre commun- gava.
Em huma terceira Dominga (em que se costumava expor o Senhor n'esta Casa) durava-lhe ainda a prisão da doença, e n'aquelle dia com huma accendida febre, que a tinha í)rostrada. Aggravava-se-lhe com a dor de não poder se quer ter socego para contemplar n*aquella soberana iguaria, já que com os olhos morlaes não podia vel-a. Pedio ao Senhor, ípie já que lhe não permittia aquella vista, lhe reservasse o desassocego da febre para outra hora, porque o queria contemplar n'aquella. SenAio logo em si hum tão grande socego de espirito, como se forão alheas aa
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afílicçoes do corpo. Levantou-se-lhe; e com admiração das que sabiâo o estado, em que havia pouco a deixavâo, assistio no coro á Missa, e ser- mão, até se recolher o Senhor.
Chegava o dia de sua profissão ; determinou a Prelada que fosse n'aquelle, em que o achaque a deixava Hvre, sem que mais se lhe dila- tasse, porque era tal a sua anciã, que entendiâo que a convaleceria o gosto de professa. O conceito, que Sor Margarida se tinha grangeado, encheo todo o Mosteiro de alvoroço, armando-se as capellas com devotas figuras, em que se representavâo alguns passos dos Cantares, em que melhor se exprimem os divinos desposorios. Tudo convidava a devoção, e santa e espiritual alegria. Mostravão-lhe tudo; e a nada do que se liie dizia, ou se lhe mostrava, dava acordo; assim estava [absorta n'aquelle bem, que via jã próximo, e a que sempre levantou medrosa os olhos do merecimento humano. Assim suspendida, e como alliea (como a que em nada era já sua por aquella ditosa entrega) chegou aos pés da Prelada: e ao pôr as mãos no livro das profissões, lhe pareceo que alli estavâo as de seu Esposo, e que como tal lira dava, e ao inclinar-se, hum amo- roso abraço; tudo tão vivamente, que nunca mais lhe sahio da memoria, e menos do entendimento, hum conceito firme, e seguro de que aquelle acto fora a Deos aceito, e lium real. e legitimo desposorio.
D'esta viva, e continuada contemplação lhe nascia hum tal despego da materialidade do corpo, que vivia como esquecida de que ainda era peregrina na terra, levando-lhe o mais do tempo a doce lembrança d'aquella hora em que se desposara, ainda que lhe contrapezava o Se- nhor estas consolações com a continuação de achaques, repetidas dores, e pezar vivo de se vér sem saúde, e forças para servir, e se atormentar. Mas antes que passemos a maiores noticias, ou para que melhor demos todas doesta verdadeiramente extática Madre, recopilaremos sua vida (co- mo nol-a deixou expressa da sua mesma penna, tanto para edificação, como para doutrina, não fiando o Ceo tanto vôo de oulra, qu(* não fosse a sua.) Achou-se em hum papel de sua letra, fizera-o sendo noviça, com documentos para occupar com lucros, e melhoras de sua alma todas as horas do dia. Como os escreveo, os observava, e observou toda sua vi- da. Dizia assim fallando comsigo :
«Pela manhãa em acordando, lembrar-me, que começa o dia, e de- sejar gastal-o todo em serviço de Deos ; e para bom principio procuro fazer as cousas melhor, que até alli. Até Prima gasto n'estes propósitos,
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pedindo a Deos graça para os pôr por obra. Depois de Prima, procuro aproveitar o tempo da oração, representando a Deos diante. Quando sahir do coro, pedindo licença, e favor a Deos, e procurando chegar até casa de Noviças, occupar o tempo em saudades suas; e para as aliviar, nâo saiiir nunca de sua divina presença, imaginando no passo em que aquelle dia tive oração; e para tudo o que me mandarem, estar mui prompta. Se ensinar as outras Noviças, lembrar-me, quanto mais neces- sidade tenho eu de aprender, e assim fazel-o com humildade, e charida- <le. Se aprender, hir com gosto para louvar a Deos. Sc fòr para o ora- tório, agradecer a nosso Senhor, querer que esteja diante d'elle. Tan- gendo o sino para as horas, alvoroçar a alma para hir louvar a Deos, indo até o coro, dando-lhe graças por este soberano oílicio, que me deu. Em entrando no coro, pedir devoção para estar n'elle. Na Missa ter con- sideração dos pcccados passados, pedir misericórdia, dar graças por be- nefícios recebidos, encommendar a nosso Senhor a sua Igreja, renovar os bons propósitos, e oíFereci mentos. Quando fòr â mesa, queixar-me a Deos de ser forçado sustentar o corpo ; desejar ter muita morliíicação, e escusar tudo o que não fòr necessário. Na mesa cuidar no fel, e vina- gre, ou no dia em que se deu. Em acabando dar graças, e hir logo aju- dar a lavar a louça, com contentamento de servir. Depois hir para casa de Noviças, faltar com as companheiras, porque m'o mandão; pedindo a Deos seu favor, para o não oíTender em alguma palavra, procurando que a pratica seja d elle ; as palavras poucas, sem porfia, e baixas, e menos diante da Madre mestra, desejando sempre o recolhimento. Tangendo, hir para a cella preparar-me para a oração de Noa, com o exame de consciência, lição para a oração, meditação, o Passo do dia, peccados passados, e ruim vida presente, procurando até Véspera conservar a de- voção, sentindo muito n'este tempo ter alivio em alguma cousa, pois he tão próprio para sentir os trabalhos de Ghristo. Depois de Véspera tor- nar para casa, procurando não sahir nunca da presença de Deos, e para isso usar muitas jaculatórias. Á cea, ou colação as considerações do jan- tar, desejando, que se acabe, para hir para o coro, e procurar de estar então com devoção, por ser a derradeira hora do dia. Recolher-me fa- zendo primeiro exame, e sentindo haver de gastar o tempo em dormir sem louvar a Deos. Pedir ao Anjo da Guarda, que o faça por mim. Pedir perdão, licença, e favor a Deos. Xo despir lembrar-me, que em casa de Pilatos tirarão seus vestidos ao Senhor, e depois de ]\lalin>ís, quando com
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maior áòv no monte Calvário lho fizcrão o mesmo. Dciíar-me conside- rando como cstenrlerrio o Senhor na Cruz, e ao levantar, quando o le- vantarão n"clia. Dormir com as mãos cruzadas.»
A esta repartição de dia, que trazia decorada, e cumpria â risca, nâo deixando instante livre ao pensamento, para poder deter os voos do es- l)irilo, ou tropeçar nas fraquezas de humano, ajuntou outro papel, es- crito também de sua letra que se lhe achou, a que chamava Frofiosiios, e se soube, que escritos, c exercitados com resolução de os não quebnir em sua vida. Dizia assim o ])apel:
«Pro[]ositos, que determino cumprir com o favor de Deos. Lel-os todas as semanas. Rezar todos os dias pelo menos hum terço do Uosa- i'io com devação, e de joelhos. Fazer todos os dias exame do consciên- cia. Não passar nenhum, em que me não mortiílque em alguma cousa. Quando me recolher, ler a meditação do outro dia, e ter alguma consi- deração quando me deitar, lembrando-me logo pela manhãa de Deos. ISão dizer palavras em meu louvor, nem de queixa, nem de desconfian- ça. Trazer os olhos sempre baixos; não fazer nada sem conselho. Nem fallando, nem escrevendo, dizer palavras, que mostrem curiosidade. Eu- commendar todas as semanas a Nosso Senlior todas as cousas, que nos mandão em Capitulo, e as pessoas, que me reprehenderem, ou aggra- varem. Não me desculpar. Fazer o que me pedirem com miJto boa von- tade. Não fallar com minha Mestra por gosto próprio, senão por neces- sidade, e pertender na pratica só o maior serviço de Deos, c aproveila- menlo de minha alma. Não me rir das faltas alheias. Gastar bem o tem- po, (pie leva o Ofiicio Divino, procurando estar nelle com attenção, e re- colhimento interior.»
Estes os propósitos, que inviolavelmente observava Sor Margarida: aquel- la a repartição de tempo, com que o aproveitava todo; e assim se dei- xa ver, que era sua vida huma oração continuada, pois não havia ins- tante, que não occupasse contemplativa. Não foi esta a sua maior occu- j)ação recolhida nos Claustros; já o tinha sido, vivendo ainda em sua casa, onde madrugava para o Oratório, e nelle gastava (juasi todo o dia. Pas- sando sua mãi a viver em Lisboa (como depois dizia, e chorava) não foi algum tempo n'este exercido tão continua por l)uscada, e tratada de al- gumas senhoras parentas; mas tanto do génio, o criação de Soror .^íar- garida, que bem podia nâo lamentar de mal gasto aquelle tempo, cm
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que só se tratava de como se havia de occiípar bem, seguindo-se a este santo commercio o povoarem-se algumas recoletas dos espíritos, que o fomenta vão.
Abrazava-se no amor daquelle mysterio, que he por antonomásia de amor. Já em os primeir.»s annos erão fervorosos os mesmos desejos; porque subindo-se a hum logar alto de sua casa, corria com os olhos, « com o coração as Igrejas, que dalii descobria, venerando-as como sa- grados celeiros, que guarda vão o Pão dos Anjos. Diante delle exposh* ficava tão alienada, e esquecida, que era necessário adsertil-a, e com- por-!he o manto, quem estivesse com ella. Em levantando os olhos, o os pensamentos para o adorar, seguia-se lhe á suspensão o atear-se-lhe o coração em vivas lavaredas, a eslas o desafogo das lagrimas, e tão ar- dentes, como faíscas do coração; testemunha vão-no seus olhos nunca enr xutos, por mais que sempre abrazados. Já no Mosteiro (onde para estes santos empregos tinha liberdade, e commodo) não lhe parecia, que des- canrava, senão no coro, e á vista do Sacrário, continuando este exercí- cio com tanto lucro, que o mesmo era por-se de joelhos, que esquecer- se de todas as pensões do corpo, sem mais memoria, que aquella em que seu Esposo se deixara.
No meio destas contemplações pagava-lhe o Senhor aquelle fervor, com que toda a hora se queria transfoi'mar n'elle, íllustrando-a com so- berana luz. liuma noite de Natal, ouvindo cantar na Missa o Gloria in cvcclsi^i Di'o, e contemplando, que os Anjos entoarão aquelle cântico a hum Menino Deos, que por sua vontade vinha á terra a trazer a verda- deira paz á sua ahna, assim se elevou, que não soube, nem deu acor- do se se cantarão Laudes, parecendo-lhe só, que tinha dentro em si nquelie Deos, que para não estranhar a sua visinhança, tomara sua mes- ma natun-za.
Cantava Completas em huma Dominga de Ramos, quando levantan- do a Deos o [)ensamenlo, se sentio interiormente levantar sobre si, pon- do-se diante da Santíssima Trindade, recebendo hum raio de luz, que lhe dava conhecimento do muito, que Deos era. Parecia-lhe hum mar immeíiso, que por todas as partes a tinha cercado, e como sepultada nelie, sentio perder todas as operações naturaes, como se n'ella vivera os[)irilo líiais soberano. Chamou-a huma Religiosa, que a vio transpor- tada, e tornou em si com huma suspensão, e hum pasmo, como se se
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lhe fizera novo o ver-se entre as baixezas, e debilidades do corpo Lu- mano.
Esta suave experiência dos mimos do Ceo a trazia retirada de tudo o que não era a meditação delle, suspirando sempre a soledade para se transformar em Deos. Este mimo lograva especialmente nos dias de fommunliâo, parecendo-lhe, despois de commungar, que dentro em si tinha aquelle Senhor, em que divisava huma alvura, e claridade nunca vista, nem comparável com as fia terra; a esta luz lhe parecia, que se lhe abriâo os olhos do entendimento, e alcançava mais, que o que po- dia o humano no mysterio profundo da união do Verbo: mas nada aílii*- mava, sepultada logo em huma escuridade impenetrável. O que só se- gurava, era contemplar vivamente aquelle sustento das almas na sua, que com huma incomparável belleza desterrava delia toda a sombra do agonia; representação, que lhe ficava tanto na memoria, como se dos olhos corporaes lhe nascera aquella saudosa lembrança.
Igualmente viva era a representação dos mais mysterios, e passos sagrados, e tanto, que fatiando ás vezes nelles repetia, e individuava os cii'cunstancias com huma tal miudeza, como se a seus olhos passara o que repetia. Esta suavidade, em que trazia como encantado o espirito, a retirava de tudo, e em tudo a trazia como estranha, e molestada, co- mo se lhe tirara as forças, e lhe enfraquecera o coração qualquer occu- pação, que não fosse estar contemplando; succedendo-lhe muitas vezes, que indo a ler na Communidade, não podesse mover os beiços, como se com violência lhe taparão a boca ; assim estranhava as acções do cor- po, como se alli não houvera já mais que espirito.
Mas porque este gemia ainda nas prisões da carne, sentia rauilo o haver de accommodai'-se ás del)ilidades delia, sendo-lhe preciso o tomar algum descanço. Succedia-lhe assim depois de Matinas, recolhendo-se hu- ma hora antes de Prima, perseguida de insupportaveis dores de cal)e- ça, que a privavão do alivio de licar assistindo ao Santíssimo Sacramen- to. Pedio, e tornou a pedir aquelle Senhor, que lhe tirasse aquelle em- l)araço; e assim ficou sem elle, de sorte que antes de Prima só se re- coUiia meia íiora.
Na obediência desempenhou os propósitos, que linha escrito, e de- corado. Nem no justificado da acção lhe ficava voluntária a escolha; suas Mestras, e Preladas lhe determinavão tudo o que obrava, tão despida de voutade própria, como se se lhe trocara em obediência. Mas assim se
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contentava o Ceo da sua, que o quiz mostrar para premial-a. Era ainda Noviça, acliava-se a Madre Soror Jeronyma de Jesus muito afíligida com huma cólica, e dores insupportaveis de cabeça (achaque, que muitas ve- zes a perseguia) e havia cinco dias, que não socegava. Chegou-se a ella a Mestra das Noviças, e levando comsigo, como de acaso, a Soror Mar- garida, lhe disse, que puzesse a mâo na cabeça á enferma. Bem enten- (ieo a boa Noviça (por mais que interiormente o estranhava) que era es- perar daquelle toque a mesinha; mas obedeceo mandada; applicou a mão, e no mesmo instante cessou toda a queixa, ficando a enferma como se até alli o não estivera. Isto achamos apontado por huma Religiosa de boa opinião, que o presenciou.
Era extremosa sua humildade, nada estimava menos que a si mes- ma. Todas lhe parecião capazes de mais respeito que ella. O conceito de que era a mais indigna creatura, a obrigava a hum rigoroso exame, que precedia á communhão, não o dando por suíTiciente, em quanto as lagrimas lhe não seguravão, que estava ferido o coração. Assim se sen- tenceava a si mesma, não achando em si venialidade, que lhe não pare- cesse crime, sendo tão humana com as acções alheias, que sempre che- gavão a seus olhos com desculpa, se erão menos justificadas, e com con- fusão sua, se erão puras, sentindo bem de todas. As aíílicçôes, e traba- lhos alheios lhe pare:ião próprios: tal era a ambição de sentil-os; pas- sava â de querer remedial-os; recorria á oração; e pagava-se Deos tan- to deste desvelo, que a illustrava com o conhecimento de successos fu- turos: succedeo algumas vezes assim.
Tiverão humas Religiosas noticia, que em Castella estava enferma, e perigosa huma irmãa sua, Dama da Rainha, pessoa de tantas prendas, que ainda fazião maior a perda. Desconsoladas, recorrião a Soror Mar- garida; instava ella na oração, compadecida das irmãas, como da enfer- ma. Foi servido o Senhor de lhe dar a entender, que não viviria. Con- forme com a vontade Divina, e magoada da dor das irmãas, lhes pedio, que se puzessem nas mãos de Deos, porque terião noticia de huma gran- de perda. Tomarão o conselho, ainda que com o alivio de nova espalha- da, que se achava melhor a enfermfl. Mas Soror Margarida estava mai^ segura no que se lhe tinha mostrado, que no que estava ouvindo. Suc- cedeo assim, que veio brevemente noticia, que a enferma falecera. Fa- zia a mesma supplica na oração pela vida de Dom Miguel de Castro, Ar- cebispo de Lisboa, que estava perigoso, e impor Iunavão-n'a parentas
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suas, a que esta noticia trazia desconsoladas. Nâo tardou a que Soror Margarida teve de que faleceiia o Arcebispo; mas occuUou-a; e falecido clle, se entendeo que antes a tivera.
No sofrimento, e na paciência, parece que desconliecia as pensões de humana, nâo conjecturad>is, nem ainda no semblante. Assim se es- cutava reprebendida, como se se conhecera culpada. Lamentava o ver- se sem saúde para maiores empregos de penitente. Erão tão ásperos os das disciplinas, que tomava com cadeas de ferro, que seus (>onfessores lhe puzerâo preceito, para que não fossem tão continuadas, e tão rigo- losas. Ol)edeceo; mas com tanta dor das que llie embaraçavão, que veio a igualar as que lhe impedião. Só nas sextas feiras não podia exercitar ])enitencias, porque a atormentava huma rigorosa dor de costas, e cabe- ça, que a deixava sem alento para outra. Durava-lhe de pela manliã até iis três da tarde. Mimo parecia de seu Esposo, que repartia com ella das delicias, que naquelle dia, e naquellas horas gostara no paraiso do madeiro.
Assim queria viver só com elle no da Religião, que o que lhe pedia no tempo, em que ainda não podia fallar a sua mãi, e irmãos (porque ainda estava com a sujeição de Noviça) era, que os fizesse santos, mas que lhe embaraçasse o alivio de communical-os. Assim lh"o permittio Deos, porque a sua mãi só huma vez fallou, c a alguns de seus irmãos, iienliuma, prendendo-a huma grave enfermidade na enfermaria, de don- de passou a melhor morada. Ameaçada do achaque, fi)i ao coro despe- dir-se do Senhor, e pedir-lhe, que se aqiiella era a ultima doença, a dei- xasse padecer nella; som duvida entendeo que sim o seria, porque logo disso palavras, que o derão a entender, por mais que os Médicos facili- lavâo a doença, não na opinião das Religiosas, pela muita que tinlião da iínferma, e dos fundamentos com que sempre fidlava.
Aggravou-se o achaque, crescerão as dores (erão já insupportaveis) mas igual a constância de quem as sofria; sabia que erão mimos, por- que como taes os pertendera. Gommetteo-lhe a cabeça hum humor gros- so, deu-lhe hum sono pesado. Não havia industria, nem medicamento, que a divertisse delle. Inventou hum quem a conhecia; fallavão-lhe em Deos, logo a linhão esperta. X maior dor, que padecia, era no peito; c sendo fácil a mesinha para alivial-a, ella lh'a não applicava, sem que a Prelada não só liro pedisse, mas lh'o mandasse.
Fizera Sor Margarida hum conceito com huma Religiosa, que a que
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primeiro chegnsse ao ultimo perigo da vida, desenganasse a outra. Não SC esqueceo a boa amiga. Escutou-a Sor Margarida, respondendo-llie com socego, que de parte mais certa tinha havia muito o desengano. Algii- mas vezes commungou, dilalando-se a doença; e algumas pedio a Ua- ção; mas o dia em que falleceo, com tanta anciã, e tão repetida, que en- tenderão não devião dilatar-lh*a. Recebeo-a com paz, e consolação de es- pirito, e com ellas o deu ao Senhor, em huma segunda feira, 1 1 de Maio de G:2G, tendo de idade vinte e dous annos. Ficou com hum semblante alegre, e desassombrado da morte, que bastara a enxugar as lagrimas das Religiosas, se a saudade (ainda com os olhos naquelles bosquejos da sua gloria) não suspirara como humana a sua companhia.
CAPITULO XIII
Da Madre Sor Calharina dos Marlijres.
Entremos a ver o espectáculo, que a gentilidade cega achou digiio das attençôes de Deos; hum coração abraçado com as misérias da \\&^, sem ceder na tolerância. E que dirá o conhecimento Gatholico, encami- nhado da luz da razão, e da Fó, entendendo, que similhantes lutas s^o a oílicina de venturosas coroas; não aquelias, (pie fingia a vaidade nas immortalidades da fama; mas as verdadeiras, (pie no Templo triunfante de Deos hão de durar incorruptas?
Bem conheceo esta verdade a Madre Sor Catharina, como se estuda- ra com S. Paulo aquelle tão claro, e importante conselho de se adiantar 110 trabalhoso estado desta vida, para conseguir huma immortal coroa (I) com muita mais razão, cjue os Athletas corrião com anciã para alcançar huma caduca. Nasceo Sor Gatliarina de pais nobres, mas tão queixosos da fortuna, que não alcançavão suas posses a inteirar hum dote á filíia, para se recolher em o Mosteiro de Jesu de Avcíiyj, este pátria sua, e aquella a resolução, com (jue se criava desde menina. Assim houve do aiTommodar-se (pois não havia reduzil-a a outra vida) entrando em o lugar de Freira Conversa, em que deu tal conta de si, que não só ser- via ás Preladas, e Religiosas antigas de gosto, mas a todas de exemplo. Professou; mas vivendo sem[)re com a mesma sujeição de Noviça, não
(1) Omiiií, qiii in a^ro n«^ csntenJit. ai) omnibiis; se abálinot: illi ut corrujtlibilem coionam acfipiunt, u.;s auleia incorru|<tain. i. ad Cor. U. ii. iy.
70 LIVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGO»
SÓ no serviço, e obrigações da Casa, mas na aspereza da vida, que via, e imitava nas mais reformadas delia.
Neste tempo hum irmão seu. Religioso Dominico, que assistia no Convento da villa (eleito Bispo de Cabo- Verde) quiz augmentar o dote á irmâa, que a estimava muito, e fazel-a Freira do Coro; mas foi cousa rara, que sendo Sor Catharina tâo bemquista, se oppoz a isso toda a Casa, sem valer industria, nem valia, antes algumas pouco consideradas (que a virtude sempre tem emulos) começarão a tratar a Sor Catharina com desprezos, accrescentando aíTrontas, e injurias, como a incapaz do lugar, por que seu irmão fazia as dihgencias. Era Sor Catharina bem nascida, criada com estimação, ainda que não com grandeza; escutava agora aquella repulsa, via-se desprezada, e perseguida; mas como se des- conhecera as paixões de humana, estava immovel, sem que os vitupé- rios, que lhe chegavão aos ouvidos, tivessem mais resposta que a mu- da, que costumavão dar os olhos. Este o espectáculo, em que se vio ven- cida a natureza das firmezas da tolerância. Seguião-se ás injurias as fal- sidades, que lhe impunhão, e com que a desauthorizavâo; e Sor Callia- rina emmudecida, recorria ao sagrado da oração, como se dissera com o Profeta: «Senhor, o ódio se empenha em me perseguir: eu volto-ihe as costas, ponho-me a orar (1).»
Este era o alivio, e o remédio, a que recorria o seu desamparo; bus- cava os pés de hum Crucifixo; banhava-os com lagrimas, dizião ellas o que callava a boca, e souberão dizer tanto, que vio em huma occasião> que despregando o Senhor o braço da Cruz, a estreitou com elle, dei- xando-a tão fora de si o extraordinário do favor, que cahindo por terra, esteve muitas horas, fiando a sua confusão o saber agradecel-o, ficando de então com hum coração tão inteiro para as perseguições, que não só lhe parecião toleráveis, mas as julgava interesses. Neste estylo de vida sacrificada passou Sor Catharina alguns annos, anciosa sempre de se adiantar em padecer, [mrque tudo lhe parecia pouco para servir hum Senhor, que sabia dar tanto. Abrio-lhe o Coo caminho na noticia desta nova Casa do Sacramento, e da grande observância, com que se vivia ii'ella. Pedio ao irmão Bispo, que lhe alcançasse licença para passar a viver n'aquella Clausura, não por fugir na de Aveiro ás perseguições, que já o tempo diminuirá; mas porque desejava ver- se om maior estrei- teza.
[l] Pro CO ut (Iíii;;crcnt dctruhebunt mibi: ego aulcin oralMiu. Psulin. 108.
PARTICULAR DO REÍNO DK PORTUGAL 7 1
Foi facil ao irmâo a licença; passou Sor Catharina para esta Casa do Sacramento por Freira do Coro, deixando saudosas, e arrependidas as que lhe tinhão embaraçado o mesmo. Via-se agora seu espirito em cam- po aberto para lançar mão das armas da penitencia, como a convida vâo os exercicios da Casa, e o exemplo daquelles espiritos, que voavão na reforma. Mas o que mais avultava n'ella era huma viva, e desvelada cha- ridade com os próximos, em que não podia ver miséria, que não reme- diasse, ainda que fosse á custa de ficar com ella, remediando-a. Assim era tão pobre, que não conseguia o gosto de dar, sem o sacrificio de pedir primeiro. Humilde, e obediente, não houve oecupação de traba- lho, a que não satisfizesse; mas o gosto, e alegria ainda excedião a pon- tualidade.
Achava-se já carregada de annos, que lhe grangearão huma cruel en- fermidade, que cinco mezes lhe exercitou a paciência, edificando a quem a via padecer emmudecida. Amanheceo hum dia com rosto alegre (foi o ultimo de sua vida) e perguntando-lhe huma Religiosa de toda sua con- fiança se se achava aliviada, porque o semblante o dizia, respondeo: «Não só aliviada, mas favorecida; porque a sua Senhora do Rosário a visitara.» Era devotíssima da Senhora, e ao seu Rosário ajuntava todos os dias o seu Officio menor, por mais que viveo sempre occupada sua muita ca- pacidade nos officios de mais trabalho, que havia no Mosteiro; mas, se lhe faltava o tempo, suppria o que se havia de dar ao descanço. Foi crescendo a doença, e ella entendendo, que chegava o do seu raartyrio. Hum continuado fora toda sua vida; e quem também entendia, que não podia haver n^ella outra cousa, e que tudo o que tivesse de breve, te- ria de apressar a ultima felicidade, como não trocaria os receios em al- voroços?
Com muito pedio, e recebeo os Sacramentos: e depois de demons- trações penitentes, acompanhadas das lagrimas das Religiosas, que per- dião n'ella hum daquelles primeiros espelhos da observância, e hum ar- rimo para a Casa, acabou com hum socego, e serenidade, que ainda de- pois lhe durou no semblante, admirando-se as Religiosas, que a escuta- vão sempre tão temerosa da morte. Mas essa he a importância de mor- rer sempre na vida, seguir-se-lhe o socego de viver na morte. Desenga- no, e conselho bem importante, que deixou escrito o exemplar dos mor- tificados S. Paulo, que dizendo, que morria cada dia, dií3se depois, que
/Z LIVRO III DA niSTOniA DE S. DOMINGOS
a Tíiorte eslava tão fóra de lhe dar susto, que antes era o seu desejo (I). Só quem sabe entender, que a vida lie morte, sabe alegrar-se com a morte, como principio da vida. Faleceo esta Madre em li de Setembro de IGiíG.
CAPITULO XIV
Das Madres Sor Maria Mngdalena do iSantissimo Sacramento, e Sor Tkeresa de Jesus, ambas irmãas.
Sendo todas as Virgens esposas d'aquelle Cordeiro, que se apacenta cnlre as fragrantes, e intactas assucenas da castidade, parece, que as (jue do jardim Dominicano passão ao Celeste thalamo. são mais propria- mente esposas do Cordeiro, porque o nome de Dominicas. que as dá a conhecer todas suas, as segura mais mimosas. Ivsse o ênfase no nome de nosso Patriarcha, Domiincus, como se dissera Todo do Senhor; essa a maior preciosidade, com que este grande Pai as dota filhas, essa a cir- cunstancia gloriosa, com que o Esposo as estima mais suas. Assim pa- rece, que se desempenhou na Madre Sor Maria, mostrando-se não só no nome, que escolheo, do Siuitissimo Sacramento; mas m^ que lhe succe- deo (vindo a ser Dominica) na resolução de tomar estado.
Foi a xMadre Sor Maria (que no século, e até sua í)rorissão se cha- mou Anna de Jesus Maria) filha de António de Sampaio, e de Anna de Sampaio (da mesma fíimilia deviâo ser os dous casados, como o mostra o appellido) gente nobre, e rica;* duas fortunas, a que só [)odia avanla- jar-se a de terem huma filha, que logo nos primeiros annos mostrou o Ceo, que lh'a emprestái'a, e não lha dera. Assim começou a reparar- se 11 aquella idade (onde ainda preso o discurso, parece instincto) a devota l)ropensão, com que abraçava tudo o que era de Deos; servindo muitas vezes de divertimento aos pais a anciã, com que se esquivava aos que lhe falia vão em estado, que não fosse de Freira, seguindo com tão notá- vel tenacidade as disposições para elle, que nunca acal)arão com ella, ()ue atasse huma fita, ou vestisse gala, contftntando-a com a de hum hr,- bitosinho, que (pedido com lagrimas) chamava só a sua.
Crescerão os annos, e com a razão os desejos, e começarão aquellas meninices a conhecer-se como ensaios dos que agora já erão propósitos. .Assim se vio o que levava nas suas resoluções, pedindo a seus pais o
(1) QuotiJie aaorior. !. ai. Cor. — Deáidcriuiu habens dissol\i. Ad l*hilii». i. 23.
PAnTíci:LAn do heino de portugal 7*5
exorclcio de esmoler, repartindo d^aqnelles bens, que só passados pelas mrios ÚÀ charidade podem tei' esse nome. Queria ver bem empregado o íjiie líie cabia d'elles, e alargando a mão, mais com os olhos no remé- dio da miséria alheia, (jue nos augmentos de sua casa, escutava com ma- goa, e paciência as reprííhensões de liuma parenta, que a criminava com ívs pais de esperdiçada-. Tornava-se ao que tinha nome de seu, e era de liuma {)olíre (que todos os dias para isso convidava) ou tudo, ou quasi tudo o que se lhe punha na mesa.
Mas criava forças com aquelle exercício o fogo da charidade, e erao sopros, com que se augmentava aquellas impossibilidades, ou escacezes, com que despendia. Tudo ihe pai-ecia pouco para sacrilicio d'aquelle de- sejo. Queria passar ao (|ue ultimamente podia, que era dar-se a si mesma. Encontrava embaraços : porque, ainda que tinha outra irmãa, só de sua prudência liavão os pais o governo de sua casa. Queixava-se como Martha, Maria, porque Mai-ia era aqui a occupada. Deixava-a a irmãa com todo o peso da familia, e ella passava ao oratório sem res- l)irar da maior lida, ponpie aqueila era a melhor parte, que escolhera.
Neste exercício era continua, e já n'elle tão ditosa, que gostando do suas suavidades, se deixava levar de hum novo género de desmaios, ou de hum leve roubo <ie sentidos, em que adormecia, e de (jue nenhuma industria, mas só ella mesma se acordava. IVão lhe embaraçava, antes lhe favorecia este suave sono, o continuo despertador do cilicio, o san- gue, que saltando ao golpe da disciplin^a, enfraquecia, e debilitava af> forças, que os jejuns tinhão já cançadas. N'eslas penitentes batarias, ainda queria desaíial-as para mais largo campo, como se ainda duvidasse (lo triunfo; só no da clausura lhe parecia que o tinha certo. Esta incan- sável anciã a obrigava a descobrir caminhos para conquistar a vontade dos pais, que com o interesse ou de a não desterrarem de seus olhos, ou de descançarem com ella os cuidados caseiros, resistião áquelles san- tos propósitos, mais fervorosos, quanto mais rebatidos. Buscava pessoas de espirito, instava, pedia a seus Confessores que apadrinhassem o justo daijuella supplíca, que nem o ser justa deixava descançar o escrúpulo, ái' que o absoluto da escolha pareceria ilesobediencía.
Tirou-lhe finalmente o Ceo os embaraços na vida dos pais; bem en- tendeo, que assim, o dispunha, para que com os sentimentos de íilha, Com[)rasse os alvoroços de esposa; não podia custar menos, o quo valia lai.to! Ficou em poder de seus irmãos, que com o Interesse da se verem
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absolutos senhores da casa, e da fazenda, começarão a escutar gostoso? os intentos, que a traziâo desvelada. Soavão por este tempo nos ouvidoíi piedosos as noticias da reforma, com que as discípulas do espirito de Santa Theresa liião restaurando as antigas austeridades do Carmelo; ac- cendeo-se em vivos desejos de escutar aquella divina mestra na aula de seus claustros. Agradavão-lhe as noticias, que tJnha da Casa de Santo Alberto, Mosteiro de grande reputação.
Concertou-se com ellas o dote, e a legitima; e a promessa de grossas esmolas, parece que facilitavão a pertenção em huma Casa, costumada a respirar d'ellas ; mas sendo grande o desejo das lieligiosas, a falta de lugar, começou a dal-o ás esperanças. Tinha Sor Maria hum claro en- tendimento, não se lhe escondia, que resoluções acertadas arriscão esto nome, sem a industria de promptas. Vagares ao applicar da matéria, perdem a chamma ; antes he querer ver-lhe as cinzas, que as brazas. liem conhecia Sor Maria, que o abrazado espirito, que a guiava, era íiquelle, que sendo todo fervores, desconhece vagares. Determinou-se a obedecer-Ihe, recolhendo-se logo ao Mosteiro de Corpus Christi da Gr- elem de S. Domingos, que na mesma cidade do Porto era classe de grandes espiritos.
Mas Deos, que sobre lhe embaraçar os outros caminhos, abrindo lhe só o de lhe chamar mais sua (sondo Dominica) ainda a guardava para liie premiar aquella anciã, com que o costumava buscar na mesa sacra- mentado, lhe trouxe por via de hum irmão seu, a noticia de como em Lisboa florecia já com grande nome huma Casa, que tinha aquelle, que ella escutava, e venerava com tanta suavidade.
Não houve detença, consultou a resolução com huma irmãa, que a acompanhava não menos na casa, que no género de vida. (Era a mais moça, chamava-se Theresa de Jesus). Achou-a não só prompta, mas al- voroçada. Dispuzerão-se com brevidade as circunstancias de hum, e ou- tro dote, e no mesmo instante a jornada ; nada valia a detel-as. Sabião os parentes, que era o Mosteiro do Sacramento, antes sepultura de vi- vas, que vivenda de mortiíicadas ; era a ultima lisonja, que havião de fazer a seus olhos, e com o desengano de ultimas querião dilatar asdes- jíedidas. Mas nada valia, nem nos irmãos caricias, nem na familia lagri- mas, nem na terra longes, nem no natural saudades. Assim corrião ao desterro de sua pátria, como quem conhecia que não ha na terra ne- ííhuma, que o seja como lugar, em que sempre se peregrina.
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 75
Em hiima quinta feira fizerâo a jornada cora o feliz anniincio, em (jiie a sua devoção fez reparo, encontrando ao saliir de casa o Santíssimo Sacramento, que hia a hum enfermo por vialico. Lanço pareceo, de quem lhe sahia ao encontro, como pagando-lhe n'elle o desvelo de busr cado. Assim deixarão as contentes irmãas a casa, a família, os parentes, a pátria, e em íim a si mesmas, passando a sepultar-se na ditosa clau- sura d'esta Casa. iMas dividamos as irmãas, que ajuntou o habito, a Casa, e o dia, e fallemos primeiro de Sor Maria, como mais velha.
Em huma quinta feira entrou esta Madre estas ditosas paredes, em outra professou, não servindo o nome do noviciado mais que de se conhecer o excesso, que fazia ás antigas no habito. Sempre foi Noviça na estreiteza da observância, e mais que veterana no eslylo, com que se portava noviça. Sobre as constituições, guardadas como estão escritas, tem aquella Casa para mais individual exercício, e bom governo d'ella, luimas ordenações, dispostas pela prudência, e espírito de seu primeiro Vigário o Padre Mestre Frei João de Portugal ; e não só era exacta em ludo a Madre Sor Maria, mas ainda inventora de novos artifícios de iiiortificar-se, não havia instante, em que se não andasse exercitando pe- nitente.
Sobre os jejuns de pão, e agua, estreitos cilícios, e quotidianas dis- ciplinas, sahia melhor huma notável humildade, hum profundo juízo do ])Ouco que era, que lembrando-lhe algumas faltas (na verdade veniali- dades) da vida passada, chegava pedir ás irmãas noviças que escutassem o abysmo de suas culpas, onde verião como não as merecia por com- j^anheiras ; antes que por incapaz de habitar aquella santa clausura, lhes pedia que a desprezassem, e tivessem pela mais inútil, e vil crealura, que permittia n'ella o Divino sofrimento.
N'estes, e outros actos de fervoroso, e verdadeiro espirito, a come- çarão a conhecer, e respeitar as mestras d^elle. Professou em huma quinta feira por devoção do Santíssimo, a qne este dia he consagrado, e n esta sua Casa singularmente festivo, sendo o acto da renova celebrado nella em cada hum d'elles com o maior aceio, a que pode chegar o desvelo da terra, exercitado por espíritos, que ainda n'ella parecem d) (;eo. Pedio, que em reverencia do mesmo augustissimo mysterio, se lhe trocasse o nome, que tinha de x\nna de Jesus, em o de Maria Magdalena do Santíssimo Sacramento.
He uso do Mosteiro ficarem as professas no noviciado, depois d'elle
7G LIVRO 111 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
acabado, mais dous annns. lie alli maior o trabalho, porque descançao as íleligiosas de mais aimos, e menos forças, no que ainda podem, aquelles alentos novos, e menos cancados. Mas Sor .Maria, que nâo bus- cava outra cousa mais, que ter novos empregos a que sacriíicar a pa- ciência, fez voto sobre os dous, de estar mais quatro. Communicou-o €om o Vigaiio (era então o Mestre Frei João de Portugal) que liro con- lirmou, sendo favor, que negara a muitas, como (piem sabia conhecer a.juelle espirito adiantado a todas.
Assim começou Sor Maria com os alvoroços de ter passado na nova sujeição de noviça a escrava ; assim começarão a ser mais desvelados, mais fervorosos todos seus exercícios; nos do coro mais prompta, mais continua, mais empenhada, porque tendo huma voz alta, e sonora, assim a esforçava, como se fora a alma de toda aquella sagrada melodia. Assim a imaginava em huma occasião (que arrebatada em espirito, lhe parecia, que tinha motivos para esforçar mais os júbilos, que do coração lhe pas- savão á lingua) e foi tanta a vehemência, que sentio abrir-se-lhe huma intolerável dor no peito, e tão aguda, que não deixou de entender qu(3 bastaria a lirar-lhe a vida.
Venturosas contingências (a que enganado o mundo costumava cha- mar desastres) tão achadas no espirito fervoroso dos filhos de Domin- gos, que ou reprehendendo vicios, ou repetindo a Deos júbilos, passão a tirar a vida nos excessos. Agora em Sor Maria no coro, como no Apos- tolo de Germânia, o nosso S. Jacobo Sancedonio no púlpito, quando ins- tando em convencer os usurários, lhe estalou huma veia no peito. Não são menos poderosas as vehemencias do espirito, agitadas daquelle su- perior fogo ! A huma Santa Theresa tirão a vida a intoleráveis ardores de charidade. A huma Santa Catharina de Sena (azem adoecer febrici- tante. A hum S. Filippe Neri fazem estalar hum osso, como alargando a espreita região do peito. A hum S. Pedro de Alcântara tirão a respirar no ar livre das angustias do cubículo. Mas como nâo arriscará a vida bum fogo (não como os pintados, e fabulosos dos amantes da terra) tão Yí'hemente, que não tem mais forças a morte í
Á dor do peito sobreveio febre aci^eza, e cruel fastio; não havia re- duzil-a a que levasse nada; deu a Prelada em huma santa industria, que foi mandar-lhe que comesse por obediência. Aqui foi o tiiar forças d'oride já não as havia, e vencer com as lagrimas nos olhos a natureza. Esta custosa traça lhe sustentou três mezes a vida, ou lhe dilatou o martyrio
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 77
'de sns(cntal-a. Poucos dias lhe rcstavâo já d'ella, quando chegava ás l)orlas da morle outra Rehgiosa irmâa da Mestra de noviças. Fora con- sellio dos médicos, que levassem esta Heligiosa para a casa grande (assim chamavão a hiima da Communidade) quando Sor Maria, mandando cliamar a Mestra, e pedindo que a deixassem só com ella, lhe disse : «Madre Mestra, em huma casa grande me disserâo, que a irmãa de Vossa Re- verencia ficava, e que eu morria?» — «Assim he verdade (lhe tornou a Mes- tra) que vós morreis.» — «Pois Madre (tornou Sor Maria revestida de huma nova e desusada alegria) que fazem as Religiosas, que me não vem dar o parabém d'esta ventura?»
Foi notável, e pia conjectura que a doente teve revelação de que morria, e que nâo menos a teria a Mestra, pois \\\o confirmava com tanta segurança. Assim succedeo, que a desconíiada moribunda da casa grande escapou, e Sor Maria em breves dias acabou os de sua vida, sem ter mais qne dous annos da que escolhera n'aquella Casa. Não sirva de reparo o falecer tão moça, e o darmos-lhe o nome de Madre; que se o levão de justiça as veteranas para merecer respeitos, não tem menor valor a prudência, que os dias. Em prendas religiosas igualou, se não excedeo, Sor Maria os de todas.
Chegava dia da Ascensão, e não sofria o deixar de acompanhar seu Esposo, agora com o coração, e as vozes, como em breve tempo com o t^spirito. Pedia, suspirava ás Religiosas, ás irmãas, ás amigas, que a le- vassem ao coro; mas já n"aquelle attenuado corpo não havia mais alen- tos, que para aquelle desejo. Grandes, e incançaveis forão os que teve de que n"aquelle dia fosse a sua ultima hora. l^obre a tarde pedio o Via- lico; foi a circunstancia, que lhe fez o dia festivo; já que não podia se- guir a seu Esposo, não lhe esqueceo a forma em que ainda lhe ficara no mundo.
Já com todos os sacramentos, não só não temia, mas suspirava a morte, como quem alcançava o que lhe embaraçava a vida: assim entre os desejos de a deixar se lhe escutavão jaculatórias abrazadas em supe- rior fogo, actos de constante Fé, e crescida confiança ; siispendia-sc n'elles, e logo esforçando a voz, se lhe ouvia dizer claramente: «Vai-te, vai-te dahi tinhoso.» Assistia-lhe á cabeceira huma Religiosa amiga; perguntava-lhe se via alguma cousa? «Nâo, Madre (respondia Sor Maria) nada vejo, mas tenta-me o demónio com vangloria, cousa, que em toda a vida não tive por misericórdia de Deos.:
'O'
7S' LIVRO 111 DA HISTORIA DE S. DOMLNT.OS
Chegou bum sabbado, dia da trasladarão de nosso Padre, estimou a circunslancia, entendendo que também teria a de ultimo para sua vida; íez chamar as Religiosas, e rendendo-lhes as graças de a terem em sua <;ompanhia, pedindo-lhe perdão do mào exemplo, que lhes dera, lhes rogava que pelo amor de Deos esquecessem o detrimento, que tinbâo tido com sua doença, pois elle era já servido de a livrar das angustias d'ella, e a ellas de tâo penosa assistência. Pedia que lhe repetissem a miúdo o nome de Jesu, e accrescentava : Nazarenus miserere mei.
Com estas palavras jamais no coração, que nos beiços, deo plácida- menle a alma a seu Esposo em 24 de Maio de 1G26, ficando com hum ar no rosto tão bem assombrada, c sereno, que (na suspensão, e reparo das que a cercavão) antes parecia gesto da que passava a eternos mimos de esposa, que de cadáver, que esperava os horrores da sepultura. Pas- sando a esta o corpo, foi tal a suavidade, e cheiro, que ficou na celln, percebido, e admirado de todas, queaccendeo mais as saudades das boas irmâas, como as que olhavão com santa inveja para assombras d'aquelle |)remio, a que as levava o mesmo caminho.
Parece que se copiarão as santas irmãas, excedendo aMadreTheresa de Jesus (que era a mais moça) a Madre Sor Maria só nos annos de Re- ligiosa, porque forâo muitos os que contou na clausura, de que sua ir- mâa em tão poucos passos passou a melhor vida. Tinhão professado íimbas em o notável (para a devoção de huma, e outra) dia da quinta leira, dia em que falleceo a Madre Sor Theresa, de que escrevemos agora. Assim cresceo com esta Madre o zelo, e o desvelo grande d'aquella primeira observância, que cada acção sua era huma regra viva; assim (em ijuanto ella o foi) poucas vezes conhecerão as noviças outra mestra; exer- dcio, em que se pesavão os maiores espíritos d'esta Casa; porque sendo verdadeiras, e exactas Religiosas as discípulas, quepoderião ser as mes- tras? Sendo sempre oprolotypo aquella idéa, a que as copias agradecem a singularidade de melhoradas.
Já queriâo, que aquellas prendas, que ornavão sua alma, ou servião de mais perto de espelho ás novi(;as, passassem a scl-o de todas as Re- ligiosas no lugar de Prioreza ; atalhou-a huma longa enfermidade, que passando se-lhe a achaque, a acompanhou alguns annos até a morte, privando as Religiosas de esperanças, como a ella de forcas. Mas eifio laes as de seu espirito, que nunca as achou menos para continuar o coro; primeiro hia a todo, depois só ao de dia. Chegou finalmente o de
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 79
sua morto. Precedeo-lhc liuma aguda febre, entendeo que seria a ultima, pedio os sacramentos recebidos com grande consolação de sua alma.
Assim esperou aquelle golpe naturalmente medonho, como violento, tão desassombrada, e segura, que abraçando-se com a devota imagem de hum Christo crucificado, depois de colloquios penitentes, o enterne- cidos, em que já fallava só o coração pelas enfraquecidas iinguas dos olhos, chegando mais a elles a sagrada imagem, antes pareceo que ador- mecera, do que espir-ara, em huma quinta feira 10 de Fevereiro de IGOG. Assim levantavão compungidas as Religiosas as mãos ao Ceo, vendo o socego com que aquella alma se desatara das estreitas prisões do corpo, como mostrando que só o Ceo era o seu verdadeiro centro : e porque não fosse só piedosa conjectui*a, permittio Deos para sua gloria, que se íhe nâo dilatasse maior noticia.
Entrara no ultimo a moribunda, quando huma das Religiosas, que via que não faria falta onde concorrião todas, recolhendo-se a ajudal-íí, antes com orações, que com assistências (assim era fácil em levantar a Deos o espirito) vio que se lhe representava huma luzida escada, o que por ella sobia a Madre Sor Theresa com hum habito como a neve, não já de grizé grosseiro, mas íino, e apurado; não cuberta com manto pre- to, mas trocado este em hum vivo resplandor, em que se hia accendendo o ar, até que apagando-o huma nuvem, desapparecco a visão. Levantou- se, e banhada em esi)iritual gozo a Religiosa chegou onde Sor Theresa acabava de espirar, consolando as saudades de a não achar, com a ven- turosa certeza de a ter visto partir. Não íicou noticia de quem fosse esta Religiosa; nem as que tem sirnilhantes successos n'esta Casa, permiltcm de si outra.
Mas ainda o Ceo a quiz repetir cm segundo testemunho da felicidade de Sor Theresa. Era esta Madre dotada de grandes prendas naturaes, como adquiridas, hum gonio dócil, e focil para aprender tudo o a que se quiz applicar. Tocara no século alguns instrumentos com destreza, íjuiz melhorar a habilidade na clausura, servindo a Deos com ella, e foi a primeira, que n'aquelle coro ajudou o devoto de sua musica com o fundamento da viola de arco, como a que escutara o conselho, e imitara o exercício d'aquelle Hei (tão acceito a Deos) que ao seu Psalterio lhe entoava aquella discreta melodia, que hoje se escutava na Igreja, convi- dando aos justos, que o louvassem em variedade de instrumentos (1).,
Cl) í.audate eum in tympano ol choro, laudale eum in hordis et organo, Psalm. cxliv.
8^ LIVRO III DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
Assim querem nflirmnr que estimou o Senhor aquelle sincero, e re- ligioso obsequio d'esía Madre, porque falecida ao levarem seu corpo para a sepultura, e detendo-se a Communidade no Oííicio d"ella no ante-coro, cantando como he cl)stume, as vozes singelas, c tristes, foi ouvido entro elias o instrumento, que tocara em vida. com clara, e distmcta consonân- cia de três Uelgiosas, que estavão na enfermaria. Parece, que assistiâo os Anjos, ou a pagar-ilie na mesma moeda o que merecera, ou a su|)prir a sua falta. Não se conlieceo i^n"este parlicular) depois de sua morte, ne- nhuma no coro, porque esta Madre deixara discípulas já destras para acompanlial-o.
CAPITULO XV
I)its Madres Sor Jeronijma de Jesus, c Sor Maria da Piedade.
Allegorizou sabiamente Santo Ambrósio, chamando â Igreja ferlil cam- po, onde não só se acliâo as flores das sagradas virgens, mas também as plantas das santas viuvas, sendo aquellas victimas ao Ceo de intaclas ])urezas, e espirituaes fragrâncias, como estas com os frutos, que Deos l»ara seu serviço quer multiplicados (í). Enão menos afermoseão, oador- iião o campo da Igreja estas arvores, que aquellas flores, por isso se não estreitou só a jai'dim, alargou -se a campo, em que dando lugar ao fra- grante de bumas, e ao fructifero de outras, isirvão ambas a bimi, e ou- tro estado de sempre verde, e immarcescivel esperança, assistidas, e fe- cundadas do copioso orvalho da graça.
Assim o mostrou o Ceo no sagrado campo d'este Mosteiro, ou n*es- ta estampa sua, como campo sagrado, onde não só se virão as mimosas, e intactas flores da virgindade; mas também as fructiferas plantas de es- tado conjugal, e^íi que primeiro viverão exemplar, e sanctamenle as Ma- dres, de que agora faltaremos. Huma (Fellas foi a Madre Sor Jei*onyma de Jesus, no século Dona Jeronyma Ferr-az, fdha de André Machado da Silveira, e de Jeronyma Ferraz. Teve nos primeiros annos o estado de casada, buscada como nobre, e como rica; prendas, (pie ella soube a{)ío- veilar para servir a Deos em estado, em que parece o faria só ao Mun- do;, porque a nobreza a aconselhou modesta, e a riqueza caritativa. Mãi dos jiobres, não só lhe achavão a toda a hora as mãos abertas para a esmola, mas também o coração para a lastima.
(1) A{;riim bunc Fcc!o?ia» forlilom corno, nur.c inlPgrit.lis ílorc vcmaulem, nunc viduitatis gravitate {solltMilei!!. D. Ambr. de Nirluis.
PARTICLXAR DO RELXO DE POHrLT.AL 81
Na piedade christã com que doutrinava, e compunha sua família, antes parecia sua casa hum concertado Mosteiro, que vivenda de ricos da terra. Assim passou em paz, e socego conjugal muitos annos; já en- trada n'ellos, foi Deos servido de a soltar d'aquella prisão, deixando-a viuva; hberdade, que ella estimou, para melhorar de cadea, buscando-a (para esperar a morte) na ditosa mortalha dominicana. Não a atemori- zava o entrar na vinha já na undécima hora, porque intentava supprir o tempo com a diligencia, ou não ignorava, que o prémio não respeitava o tempo, senão o serviço. Conhecia, que costumando n'aqueila idade con- vidar o descanço, não era menos natural o escutar o desengano de o não poder lograr muito. Nada lhe parecia mais a propósito para aquelles úl- timos annos, que fazel-os primeiros, servindo, já que não podia viven- do; não se lhe representando muito caducos para trabalho, em que tam- bém havião de entrar os desejos.
Com os mais vivos de merecer, começou a pizar o caminho da ob- servância, tomando o habito n'esta Casa, e correndo o anno de appro- vação, com espirito, e com forças mais nascidas d'elle, que esperadas d'aquella idade. Parece, que escutara esta Madre, que erão os justos o Feniz da graça, em que ateado o fogo do amor de Deos, sabe trocar as cinzas em novas forças; e como se a charidade a remoçara, assim se acha- va já com tantas, que a nenhuma Religiosa queria ser segunda, inda no mais custoso serviço da casa. Assim esquecida da que tivera, e d^aquel- les annos, que agora linha, se achava entre os poucos das que a cerca- vão, tão naturalizada, que pouco tinha que vencer n'ella a charidade fi'a- ternal, para a igualdade, que só desmentia em querer ser mais que to- das humilde.
Era a Madre Sor Jeronyma destra no Latim, que pronunciava, e cons- truía, como quem o estudara pela devoção de entender o que lia: em- prego que devião tomar todas as Religiosas, por se não privarem das suavidades, e recreio de espirito que continuamente se offerecem na in- lelligencia da reza. Grande lucro, para tão pequeno trabalho! Assim erão as suas praticas com as noviças, antes classe espiritual, que conversa- gão domestica. Assim as ensinava, assim as accendia em amor de Deos com aquellas palavras, que sahindo-lhe do coração, havião de vir acce- zas; e sendo elfeitos da meditação continua das festividades, e mysterios, que propõe a Igreja, havião de confirmar a reforma das consciências, o provocar a repetidas acções de graças.
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Nas mais obrigações do Religiosa, e craqiiella Casa, nas disciplinas, nos jejiins, no recolhimento, na assistência do coro, e mais exercidos tão desvelada, como quem vinha a vingar-se do tempo, qne os não ti- vera. Assim, nem apertada de acliaques, nem carregada de annos, deu ouvidos aos Médicos, que lhe aconselhavão opedir, ou acceitar dispensa- ções. Entendia, que não servião estas de mais que retardar na carreira da virtude, e receava bem, que assim retardada, antes que chegasse ao fim da perfeição, se lhe chegasse o da vida. A constância, com que con- tinuava os trabalhos delia, lhe apressou mais huma larga doença, e Ião penosa, que bem conheceo, que lhe queria, o Geo exercitar a paciência; assim se lhe nab ouvia huma queixa, antes pondo-se da parte das do- res, as fomentava com os descommodos, pedindo á enfermeira, que nos remédios, e alivios fosse ella a ultima, antes talvez escusando-a das di- ligencias de enfermeira, como cousa, de que já se não devia fazer caso na vida.
Só huma cousa a tinha desconsolada, que era não poder commun- gar as vezes, que quizera; ardentíssima devoção a levava áquella mara- vilha dos mysterios, insaciável a ancía de gostar a miúdo aquella suave ambrósia da Eucharistia. Assim presa, e como entrevada, pedia ás Re- ligiosas, que hião para o coro, que da sua parte dissessem a seu Senhor, e Deos Sacramentado, que a sua escrava se lhe fazia lembrada: e que lhe trouxessem reposta. Conhecião as lleligiosas, que não tinha Sor Jerony- ma outra consolação na vida; cada huma lhe levava por reposta seu ra- mo de Psalmo do Oíllcio do Sacramento; alegrava-se com elle, e expli- cava-o a todas com humas razões tão vivas, e genuínas, que parecião il- lustradas.
Não ficou sem premio conhecido este fervoroso, e ardente aíTecto. Aggravando-se-lhe a doença, e disparando em violentos vómitos, man- darão os Médicos sacramental-a; alíligião-se as Religiosas, vendo a im- possibilidade do receber aquelle soberano bocado, de que só se mostra- va faminta, e que n'aquella hora lhe desejavão todas como a Catholica. Mas ella respondia a todas segura, que não partiria sua alma sem gos- tar aquella delicia. Nem bastava para desdizer-se, o ver aggravar o acha- que, e tel-a a violenta continuação dos vómitos ás portas da morte; e já ungida, continuava na mesma esperança.
Veio oA'iatico a outra Religiosa, pedio que o queria ver, e adorar, o que fez com grande suavidade de espirito, segurando- a todas, que ain-
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da que a viao tao atribulada, nao desconfiassem, que ella esperava n'aquel- le Senhor, que ainda lhe havia de fazer outra visita, e ella ainda em vida hospedal-o em sua alma. Assim foi, porque ao seguinte dia cessarão de todo os vómitos, recebeo o Senhor como esperava, e logo lhe entregou a alma em que o recebera, em. huma sexta feira 15 de Setembro de 1628. Ficarão as Religiosas trocando a lastima em inveja, porque do es- lylo de receber aquelle santo Viatico, bem se inferia o caminho, que le- vava seu e^irito.
Suspendida também com o estado de casada, viveo a Madre Sor Ma- ria da Piedade alguns annos no século, suspirando deixal-o. A obediên- cia dos pais lhe prendeo as mãos para aquelle laço. A nobreza, e o dote o fizerão mais appetecido. D^^ão-lhe em Balthasar de Sá hum nobre es- poso. Pouco lhe parecia a ella o nobre, só o suspirava celeste. Não po- de a resistência sustentar a escolha; entrarão os pais a dispor da von- tade, que não era sua. Ella na sujeição mostrou, que era filha; elles mal, que erão pais, na violência. Grande desatino d'estesl Como se podessem adquirir mais dominio nos que gerão fdhos, que o mesmo Deos nos que anima creaturas I A quantos desmanchos tem auctorisado este engano, sem nenhum d'elles passar a exemplo 1 Olhem os pais, que n'isso os dão aos filhos; porque de fazerem aquelles o que não podem, vem estes de- pois a fazer o que não devem,
Sujeitou-se em fim- Dona Maria da Costa (que este foi no século o nome da Madre Sor Maria); mas conhecendo, que a cruz dos que seguião o verdadeiro Mestre da vida, não tinha matéria determinada, d'aquelio estado fez a sua com taes circunstancias de catholica, caritativa, peniten- te, e reformada, que o mesmo Christo em huma occasião lhe appareceo com huma em os hombros, e tão pesada, que qualquer outra lhe pare- ceo leve d'ain em diante. Estava Sor Maria em oração, exercido que com suavidade grande de sua alma lhe levava o mais do tempo, furtado ao preciso, em que dispunha, e governava sua familia. Bem entendeo, que o Senhor a convidava para a cruz da Religião; favor, que ella sabia merecer na continua dor de o não poder executar.
Assim era sua vida hum quotidiano suspiro da melhor, que espera- va, occupando esta em tão fervorosos, e repetidos actos de charidade, que o mesmo Christo lhe mostrou muitas vezes, que lhe não desagra- dava n^ella, succedendo-lbe algumas (ao acabar de fazer esmolas) achar em os braços da imagem de hum Crucifixo huma rosa, cm tempo em
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que não as havia. Aquella era a nova rubrica, em que acabava de en- tender o enigma da sua cruz, abraçada pelos meios de morlificada, e charitativa ; isso lhe parecia, que indicavão os espinhos, e côr d'aquella rosa.
Por esle esíyío a exercitou o Ceo alguns annos, c sendo estes os em que se fundou, e povoou esta Casa, conhecida, e admirada de todos a reforma d'ella, logo Sor Maria resolveo comsigo, que não escolheria ou- tra; assim já com amor de filha, lhe acodia com grossas esmolas; chegou íinahnènte a colher o fruto d'ellas, vendo-se livre d'aquella cadea, de que o Ceo a aliviou por morte do marido, ede hum filho (tinha já outro de annos antes tomado estado): restava huma neta, que amava com ter- nura de duas vezes mãi, coníentou-se co|> lhe deixar parte do que ti- nha, e [)assou a esta Casa com huma tal resolução de espirito, que nem annos, nem achaqnes, nem asperezas, a suspenderão nas do noviciado, passando a professar tão alegre, como senão reduzira a lei os empregos de penitente.
Nenhum tinha Sor Maria, que com mais gosto seu a convidasse, achando só no áspero d'aquella vida huma falta, que era a liberalidade de dar huma esmola. Mas o que faltava no exercido das mãos, sobrava no dos olhos : com as lagrimas n'elles a acha vão os pobres, e só Ufas enxugava o poder passar aquella anciã á assistência dos doentes. Era Sor Maria commumente huma d'ellas, que os annos perseguidos de mor- tificação continua, podião mais que a sua resistência : mas nada liavia, que Ufa íjzcsse ao costume de gastar a maior parte do dia, e noite no coro ; já a contemplação parecia natureza, porque desde menina a exer- citara, e com tão vivo interior gozo de sua alma, que rebentava fora em huma desusada alegria ; assim saliia sempre do coro ; e suspeitando as Religiosas o que seria, nenhuma hf o perguntava, porque na sua candi- dez, e singeleza, mais se esperava o merecer favoi'es, que a explicíção d'elles.
I\ão a podia-haver mais clara, que a de suas lagrimas, quando che- gava á mesa da sagrada Communhão, tão copiosas estas primeiro, como despois abrasados os suspiros, e mal reprimidos os soluços, que pare- cia, que lhe não cabia o coração no peito, ou que lhe não cabia no peito aquelle suspirado bem, que iiospedara em seu coração. Observantissima do silencio em toda sua vida, fora das horas da licença se lhe não ou- vio, nem por descuido, huma palavra, menos queixosa, não tendo parte
PAHTlcrL.\I\ DO UEIíNO DE POUTUCAL 8Í*
no corpo, a que os achaques lhe nâo tivessem repartido hum marlyrio; assim podia dizer, que aníes que vida achaquosa, era a sua huma doença continuada.
Mas aggravaríio-se com a continuação os males; cahio de todo en- ferma; nem os annos, nem a casta da doença perraittíâo esperanças de vida; pedio, e recebeo os Sacramentos com mostras, e misturas de con- trição, e delicia de compunção, e suavidade. Com as mesmas repetia (não sendo de antes poHda na pronnncia do latim) alguns versos de Psalmos com boa, e limada expressiva, e melhor accommodação para aquella hora. Particularmente: Illumina oculus meos, ne nnqnam obdor- miam in morte, ne quando dicat inimictis meus, proevaiui ad versus enm. E talvez rompendo em demonstrações de sagrada, e desmedida alegria, levantava a voz, acompanhada com os meneios dos dedos, como se to- cara órgão (n'elle tinha sido destra) e repetia com accento musico: Post tenebras spero Incem. Venturoso espirito, que imitando na vida a candi- dez do cisne, passava a seguil-o nos privilégios da morte ! Assim cantava n'ella alegre, e festiva, sem que lhe entristecesse, e nevoasse os olhos o anoitecer-lhe o dia da vida ; antes como se já n'elles lhe ferirão os raios da immortal aurora.
Entendeo-se, que teve esta Madre revelação do dia, em que havia de passar a lograr as luzes d"ella, porque sahindo de hum termo, disse com voz percebida de todas: ff Sexta feira corpo á terra.» Pareceo então delirio, pelo tempo que hia da segunda, que então era, á sexta feira, de que parece fallava, quando já se llie cc^atava por horas a vida. Mas o successo fez despois pesar mais o. dito. N^aquelle estado foi durando, sendo raras as horas, que se apartava da imagem de hum Cruciflxo, e algumas vezes dando a entender, que a provocava o demónio (ou para lhe estorvar a devoção, ou para lhe enfraquecer a Fé) forcejava com a mão algumas acções, encaminhadas aos pês da cama, como em castigo de quem alli estava, e despreso do que lhe fazia. Assim chegou até a quinta feira, em que com as ultimas demonstrações de estreita união, e conformidade com Deos, lhe entregou a alma em 7 de. Dezembro de 033, vindo a enterrar-se á sexta feira, c a julgar-;:e por ditosa a singeleza, com que o segurava.
SQ MVnO IH DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
CAPÍTULO XVÍ
Da Madre Sor Francisca da Encarnação.
Esíá-se-me figurando ao lançar os olhos para a muita nobreza, que começou a povoar esta casa (e ainda hoje a povoa) que a escolheo Deos ))ara seu palácio na terra; seria, a nosso modo de fallar, como obrigado do titulo de Monarcha, com que no Sacramento quiz que o reconhecesse o mundo, sendo áquelle homem Rei, que celebrando as bodas do filho, poz aos convidados hum banquete esplendido. Assim corria a nobreza a qualificar-se n'esta casa, sendo sem duvida a do espirito a verdadeira nobreza. Foi venturosa a dos Condes de Basto Dom Diogo de Castro, e Dona Joanna de xMeadonça, que tendo seis filhas, só duas lhe roubou o raundo, passando-se as quatro a este santo palácio. Entre estas era a de menos idade a Madre Sor Francisca da Encarnação, que logo nos primeiros annos começou a pizar as esperanças, com que a lisongeava o mundo (em estado devido á sua qualidade, e ás suas prendas) suspi- rando só as estreitas, e pobres paredes de huma recoleta, a que convi- dando as irmâas, aíTirmava, que não querendo acompanhal-a, ella só abraçaria esta vida.
Á segurança de o propor se seguio a resolução de o abraçar com animo tão inílexivel, que nem a debilidade de suas forças, nem o con- tinuo ameaço de seus achaques bastarão a suspendel-a, ou retardal-a, entrando pelas portas d'esta santa clausura, com tanto gosto de sua al- ma, que o dia de sua profissão teve pelo mais ditoso de sua vida. Co- meçou a fazel-a tão rigorosa, e austera, que excedendo as custosas obri- gações, não só da Uegra, mas da Casa, na oração, nos cilícios, nas dis- ciphnas, era outro novo martyrio a diligencia de occultal-as. Via que não chegavão a tanto suas forças, temia o preceito da Prelada, ou para melhor, os assaltos da vangloria, ladrão, com quem no caminho da vida se arriscão públicos os thesouros da alma.
Padecia rigorosíssimas febres, sem que os incêndios, que lhe troca- vão a boca em huma chaga, lh'a abrissem para a queixa. Assim a tra- zia fechada no meio de grandes, e continuas moléstias, que sem que estas lhe servissem de escusas, aceitou o oflicio de Enfermeira, de que antes podia ser servida, que occupada. Mas dobravão-ihe os espíritos os alentos da charidade, que podião diminuir-lh'os, sendo a cliaridade a que
PARTICULAU DO REINO DK POnTUGÂI. 87
faz os males alheios próprios, porque na sua debilidade vinhâo a ser insuportáveis unidos os próprios, e os alheios. Doia-se assim d'elles, que tendo n'esta casa as Enfermeiras por companheir;i JRima irmãa Con- versa, ella se desvelava de sorte para o maior, ou todo o trabalho, co- mo se antes lhe derão a irmãa para testemunha, que para companheira. Ella era a que se adiantava a fazer as curas, mais ligeira para as mais asquerosas; ella a que tomava á sua conta a limpeza das enfermas, como se o delicado das mãos, e do estômago, não soubesse estranhar immun- dicias.
Mas agradava-se assim Deos das occupaçõesde Sor Francisca n"esta officina, que sem duvida a acompanhava n'ella com huma singular pro- videncia. Foi reparo, que fizerão algumas Religiosas bem intencionadas; porque lançando conta ao que se dava a Sor Francisca para o gasto de sua enfermaria em toda a semana, e sendo tão pouco, que não era bas- tante para acabal-a, havia continua experiência, que as suas doentes não só não experimentavão faltas, mas ainda lhes sobejavão mimos. Assim crescia o sustento nas mãos d*esta- mulher forte, desvelada, e charitativa dispenseira com aquella família necessitada.
Exacta no silencio, nem nos exercícios de Procuradeira, em que he preciso o trato com toda a casa» se lhe ouvia palavra, que não fosse precisa ; nem a occupação Hie embaraçava tomar os seus dias de retiro (sempre exercitados n'este Mosteiro) e costumava dizer, que entre as occasiões, que parece o destroem, se conservava mais meritório; tal era a paz, e socego interior de- seu espirito, ou tão pouco o que a apartava de Deos nenhum commercio. Fizerão-na Sacristãa, occupação, que aceitou mais gostosa, e com o alvoroço de assistir ao culto divino; mas segurou logo, que aquelle suave trabalho lhe não duraria hum anno, porqwe pri- meiro acabaria a vida, que o oííicio. O effeito mostrou de d\)nde lhe viera similhante noticia. Não lhe tardou huma doença tão perigosa, que se lhe gerou no peito huma posthema ; mas os desejos de servir na sua ofQcina a enganarão, que convalecia d'ella. Era pela Paschoa, assim che- gou ao Oitavario de Corpus, em que cahio de huma febre aguda.
Desenganarão-na logo os médicos, que se dispozesse para morrer. Respondeo segura: «Que nunca tratara de outra cousa.» Muito antes, andando mal convalecida, sonhou, que se via no Tribunal da verdade, e que lhe seguravão^ que Deos tinha já dado a sentença de que morresse brevemente. Ao principio olhou pai^a a imaginação como sonho; desí)ois
SO LIVRO ITI DA HISTORIA BE .S. DOMÍNaOS
enlrarido em algum reparo, disse-o ao Confessor (era o ^íesíre Frei An- dré de Santo Thomaz, então Vigário n"esta Casa): respondeo-lhe : «Que similhantes sonhos, era prudência christãa lomal-os como avisos.» De então nâo fez acção Sor Francisca, que não fosse dispor-se para a ulti- ma hora. Assim a achava agora o desengano d^elia; escutou-a antes ale- gre, que assustada; e dizendo-lhe huma Religiosa, que era te::npo de to- mar o Viatico, e a Unção, levantou ao Ceo as mãos, e olhos, e enchen- do-se-lhe estes de lagrimas, disse, como se lhe chegara a noticia do seu resgate: In te, Domine, speravi, non confimdar in wtenium : «Senhor, sempre esperei em vós, que não hei de ver-me em eterna confusão.» E voltando para *suas irmãas, que lhe assistião, e ainda lhe propunhão es- perança de vida, respondeo : «Que ella sabia muito bem, que se não levantaria d'aquella cama, porque se não enganava quem lh'o dissera.» Mas tornando em si com dissimulação, deu a entender, que fora huma Religiosa de bom nome n'esta casa.
Recebeo os sacramentos, estando tanto em si, e tão confiada em Deos, que não havia n'ella demonstração, que não parecesse alvoroço. Crescia a febre, e vencia-a o sono; pedio, que a despertassem, e lhe lessem a Paixão do Senhor, e que n'aquella cella se não fallasse mais, que em Deos; e esforçando a voz, como que sem reparo se valia d'aquelle desafogo, disse: «Ai meu Senhor Jesus, como pode ser, que devendo estar cheia de alvoroço para vos ver, esteja dormindo como se fora hum bruto ? Em vossas divinas chagas confio que as portas do inferno estão cerradas para mim; e que sò o Purgatório será estalagem, por onde hei de passar.» Ficou socegada, c voltando ás irmãas, lhes advertio, que na sacristia ficava hum vestido do menino Jesus, que não poderá acabar, e algumas cousas de aceio dos altares ; que lhes pedia acabassem tudo, porque queria dizer ao Senhor nas ultimas contas, que o vira nú, e que o vestira.
Era notável a advertência, e o acordo com que eslava. Despois de pedir perdão á Communidade, voltou á Prelada, e com muita humildade lhe pedio, que feitos os officios da sepultura, desse huma recreação ás Religiosas, pelo muito trabalho, que tinhão tido com ella n'aquella doen- ça. Assistia-lho huma Religiosa muito medrosa, a quem havia tempos dissera que lhe havia de apparecer despois de morta : vollou-se a ella, e disse-lhe: «Madre, não se assuste; que eu não hei de apparecer-lhe. »
Era morta Dona Paula, sua irmãa mais moça (que falecera Dama da
PAUTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 8d
Rainha em Castella) e como na morte se lhe seguia ella, que era a mais moça, reparou que estava mais suspensa Sor Fiiippa, que era das Ires, que ficavâo, a irmã mais moça, e disse-lhe: «Minha irmãa, não cuideis, que me haveis de seguir a mim; que agora ha de começar a morte pelas- mais velhas.» Vio-se despois a segurança com que o dissera, porque a primeira, que faleceo, foi Sor Marianna, que das três era a mais velha; despois Sor Catharina ; e Sor Fiiippa, que era a mais moça, faleceo a ultima.
Pedio logo a huma das irmãas, que rezasse com ella o nome de Nossa Senhora, que são cinco Psalmos, e cinco Antífonas, que principião conforme as letras, que no nome de Maria se vão seguimfo. lie devoção usada nas casas de mais reforma n*esta Província, quando á noite se toca a silencio; reza-se na casa, que commummente chamão das Horas, altar consagrado á Uainha dos Anjos, em que se lhe reza o Ofllcio menor. Mas já se lhe hião quebrando os olhos, e enfiando o rosto. Entrarão os Padres para o Officio da agonia. Levantou os olhos, e disse segura: «So- mos entradas na ultima batalha. Dominus incepit, ipse perficiet: O Senhor, que o principiou, esse mesmo o acabe.» Assim esteve com socego, ou- vindo, e ajudando o officio, com perfeito e desembaraçado conhecimen- to. Acabado elle, poz os olhos no Ceo, e cerrando-os brandamente, pas- sou a lograr n'elle a eterna felicidade. Ficou tão composta, e com tão boa côr no rosto, como se vivendo descançara em suave sono. Faleceo em huma terça feira, 9 de Julho de 1630.
CAPITULO XVIÍ
Da irmãa Conversa Soror Victoria da Cruz.
Grandes segredos os da Providencia Divina, expostos antes ao nosso assombro, que ao nosso conhecimento I Admiração, em que despois de extático, e absorto, rompia aquelle grande argumento d'ella, S. Paulo, levantando os olhos aos desusados, e escondidos caminhos da misericór- dia. Grande sacramento d'esta, que huma creatura sem idade, e conhe- cimento para merecer, comece a pizar as estradas do mundo, já acon- selhada do Ceo. Vio-se, e admirou-se em Sor Victoria.
Nasceo fdha de pais humildes, e tão pobres, que para não deixarem o quotidiano trabalho, de que vivião,' se valião da industria da filha (não
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permittida ainda de seus annos) mandando-a á cidade, a comprar, e a vender o de que necessitava, ou adquiria seu trabalho, e sua pobreza. Viviâo em Bemfica, d'onde erâo naturaes; passava continuamente a filha a Lisboa; e com ser o trabalho como a distancia, assim negociava Victo- ria, que lhe sobejava tempo para o continuo exercicio da oração. Nem lhe servião as estradas de embaraço para elle, menos o trafego, e tu- multo da cidade, a que absorta na contemplação de Deos, tinha pela mesma Jerusalém triunfante, vivenda da gloria, e a gente, que via, e tratava por Anjos cidadãos d'ella.
Não se admirem os crédulos das aéreas, e industriosas transforma- ções da Magiaí das Circes, das Medeas, de supersticiosas hervas, de pe- dras encantadoras, trocando os homens em brutos, os montes em cas- tellos, o dia em sombras, a serenidade em tormentas, e as mais meta- morphoses, com que o artificio diabólico, ou fabuloso enganou a cegueira dos homens, ou bárbaros, ou estultos ; que maior poder, e verdadeira transformação he a que o amor de Deos sabe exercitar nas cousas crea- das, e caducas, trocando em nada o tudo d'ellas, ou levando a ser tudo do Ceo o nada da terra, como usava com a singeleza santa d'aquelles poucos annos, e inculpável oração de Victoria, transformando-lhe a ci- dade da terra em a de Sião, estável, e venturosa, o tumulto em sono* ros hymnos, e acção de graças, os homens, e creaturas humanas em angélicas.
Caso novo, mas referido, e testemunhado pelo seu Confessor, Reli- gioso Carmelita descalço, sujeito de letras, e espirito, chegando a dizer, que aquella alma por singular mimo de Deos, andava sempre em sua presença. Já Victoria parece que gostava neste valle de misérias aquella ditosa segurança do monte das eternidades; elevada vivenda, a que não chegão as perturbações da terra. Assim se podia affirmar, vendo a fa- miliaridade, que tinhão com ella os domésticos de Deos.
Passava hum dia á cidade, encontrou-a acaso hum homen» (desco- nhecido seria, pelo que mostrou o successo, d "estes que o são no mun- do, mas não nos olhos do Senhor d'el[e). Reparou n'ella, e chegando-se com assombro a saudal-a, lhe perguntou quem era? Não eslava Victoria costumada a deter-se com praticas, nem a escutar perguntas; pareceo- Ihe aquella demasiada de curiosa ; respondeo que lhe não importava. Continuou seu caminho cuidadosa mais no pensamento, que sempre tra- zia, que na importância que a levava : não reparou que o bom homem
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a seguia : recolheo-se a Berafica ; soube elle a casa, inquirio sua vida, achou as noticias, que suppunha, e buscando maior clareza, alcançou, que em Carnide, lugar visinho, vivia o Religioso, que a confessava; esta era sua maior importância; parte sem detença, procura o Religioso, lan- ^a-se-lhe aos pés, pede-lhe que o escute; e entre alvoroços, e submissões de compungido, e admirado, lhe diz assim :
«Padre, sei que tendes a vosso cargo huma alma mimosa de Deos : e porque elle sem duvida he servido de que se conheça o quanto o he sua, vos busco para dar-vos esta noticia. Seu nome he Victoria, sua vi- venda Bemfica: basta para inteirar-vos de quem seja. No caminho da ci- dade a encontrei hoje, em campo só, e desembaraçado; aê longe me fez novidade vêr huma mulher entre dous mancebos com traje desconheci- do, e pouco usado, túnicas brancas, e cabeças descuberta«. Apressei-me assustado,