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A ACADEMIA DE S. PAULO

FRADIÇÕES E

REMINISCÊNCIAS

Typ. uA Editora» Largo do Conde Darão, 50 Lisboa

I

AL/AEIDA NOGUEIRA

' A ACADEMIA DE S. PADLO '

TRADIÇÕES

E

REMINISCÊNCIAS

ESTUDANTES

ESTUDANTÕES

ESTUDANTADAS

SEGUNDA SÉRIE

S. PAULO -1907

3/

Prefacio

LJamos no presente livro a Segunda Série das nossas rRADiçÕES E Reminiscências da Academia de S. Paulo. Esta )ublicaçào será seguida de uma Terceira Série, e a ter- ceira, de uma Quarta, esta de uma Quinta, etc, até que se complete o plano delineado no nosso prefacio da Pri- neira Série, a saber, que tenhamos concluido, se Deus los der vida e saúde, todo o histórico das gerações aca- lemicas, desde 1831 até ao anno de 1890.

Não visávamos, certamente, a tão vasto projecto, ao raçarmos, em Março do anno passado, a primeira cliro- lica sobre a Academia de S. Paulo em 1862. Era apenas losso fito, apesar do titulo emphatico da secção que ha- '■iamos creado no Correio Paulistano, dar-lhe com aquelle iscripto uma despretenciosa contribuição á Great Attra- tion daquella folha.

Entretanto, a excessiva benevolência com que o pu- ilico acolheu aquelle trabalho trouxe-nos a idéa de es- rever um segundo, depois um terceiro ; d'ahi por diante, imo-nos, sem inicialmente querer e sem plano precon- ebido, como que na obrigação de proseguir. . . E' como emos feito e ainda estamos fazendo.

A não havermos sido desta arte colhidos de surpresa )elos acontecimentos, provavelmente não estaríamos em- )enhados neste momento em tarefa de tão penosa exe- lução ; porque, como Si.JjBÍonidÀiiQ^ les gr ands ouvr ages nous 'ont peur.

II PREFACIO

Mas, agora, que fazermos, se não proseguir?

Auxilie-nos, ao menos, o apoio do publico, acolhendo com favor os nossos livros e enviando-nos o precioso subsidio de suas informações a respeito das turmas aca- démicas ainda não editadas.

S. Paulo, Junho de 1907.

J. L. DE ALMEIDA NOGUEIRA.

CAPITULO 1

A primeira turma académica de 1831

Os primeiros matriculados. Estudantes emigrados de Coimbra. A Bahia na ponta. Morosa organização do Curso O absolu- tismo de D. Miguel e a Universidade de Coimbra. Documento interessante. Os lentes de S. Paulo em 1831.— O director da Academia, suas luctas e dissabores. Attritos entre Arouche e Brotero. Officio curioso. Insistência no pedido de demis- sílo. Historia de um compendio. Apreciação desapiedada na Camará dos Deputados. Parecer da Commissílo de Instrucção Publica. Digressão opportuna. Seis fugitivos de Coimbra. Cerqueira Carvalho. António Joaquim de Siqueira. Simões da Silva. Alves de Britto. Tosta. Paulino de Souza. Menu pesado : vejamos o dessert. A eloquência do dr. Brotero. Sua Índole brigosa. Implicância com o Quieto. Ou bem con- tinuo ou bem musico. Resposta ingénua do Mendonça. As hroteradas. Algumas que se tornaram clássicas. Broterada re- ferida pelo Imperador. As mendoncinhas na parede. Trocadi- lho jocoso. Por consequência: de Moraes. Respeitoso protesto de um genro.

N.

o 1.° de março de 1828, como vimos an- beriormente, inaugurava-so com extraordinária solennidade a Academia de S. Paulo. Grandes festejos populares, que se prolongaram durante três dias, trouxeram em alvoroçado regosijo a pequena e pittoresca Paulicéa.

Dias depois, exactamente a 10 do mesmo

A ACADEMIA DE S. PAULO

mez, abria o dr. Brotero a primeira e única aula do 1.° anno.

A sua cadeira era de «Direito Natural, Pu- blico, Analyse da Constituição do Império, Di- reito das Gentes e Diplomacia», e devia-se des- envolver no 1.° e 2.° annos do curso.

Até ao dia do cavaco estavam matriculados vinte e seis estudantes. A matricula, porém, continuou aberta até ao fim do mez, elevando-se aquelle numero a trinta e três.

Não foi, entretanto, esta a primeira turma que se bacharelou em S. Paulo.

Iniciando o curso em 1828, deveria ella ter- minar o quinquennio em 1832. E foi o que acon- teceu.

Houve, todavia, em 1831, collação de grau a seis bacharéis que então se formaram.

E é destes que, como se da nossa epi- graphe, nos vamos agora occupar.

Não tendo sido até então inventada a marcha accelerada dos galgos^ que tanto prosperou no decennio de 1880 a 1890, é intuitivo que aquella turma que terminou os estudos em 1831, de al- gures trazia feito o principio do curso de direito.

De onde, senão de Coimbra?

E assim era, com effeito.

Não excedia de seis, como ficou dicto, a turma dos quinto-annistas de 1831, dos quaes dois flu- minenses o seis bahianos.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 3

Esta proporção estava na razão directa da upremacia intellectual da Bahia, naquelle tem- )0, sobre as outras provincias do Brasil.

Este facto foi opposto por Montezuma, na Lssembléa Constituinte, a António Carlos, que se inha referido, em termos deprimentes, aos cos- umes da população baliiana, quando alguém na- uella Camará aventou a idéa de se fundar na ca- fital da Bahia um dos cursos jurídicos projectados.

Insistente nesta idéa, assim a fundamen- ou Montezuma na sessão de 27 de outubro de 823:

«O SR. Montezuma Entre as razões que avorecem a minha opinião, é uma delias a de er a Bahia sem duvida nenhuma a província lais culta do Império, permitta-se-me a expres- ão ; e para o mostrar não quero senão lembrar ue quando estive na Universidade de Coimbra, avia cento e vinte estudantes brasileiros, dos uaes sessenta e tantos eram bahianos ; e o que uccedia então, succedeu sempre. A Bahia foi empre a que teve mais elementos de instrucção lublica, é a que tem mais relações com os extran- ;eiros, por causa do seu grande commercio, e ó lor isso a mais culta do Império.

Ainda mais, senhores, a província da Bahia, omo não contente com sessenta e tantos estu- iantes que tinha na Universidade de Coimbra, inha um quasi egual numero em outras univer- idades extrangeiras : o que prova que o numero

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dos seus filhos, que procuravam as letras, era egual ao numero dos de todas as outras provín- cias.»

Se, como foi allegado por Fernandes Pinhei- ro, na Assembléa Constituinte, eram mal vistos em Coimbra os estudantes brasileiros; se mesmo, por vezes, soífriam desacato do populacho, alli, como em toda a parte, eivado de nativismo, uma pergunta nos acode ao espirito: Como é que, fundados no Brasil em 1827 os cursos juridicos de S. Paulo e de Olinda, e installados desde 1828 ainda permaneceram em Coimbra muitos estu- dantes brasileiros, entre os quaes este sexteto, que somente em 1831 veiu a S. Paulo?

E' legitima a extranheza, mas fácil a expli- cação do facto.

E' que até 1830 não estava completa a or- ganização dos cursos do Brasil, nem nomeados os lentes que deveriam reger as cadeiras do 4.° e do 5.° annos.

Como se dos officios do director da Aca- demia ao ministro do Império, datados de 11 a 29 de junho de 1831, somente neste anno se com- pletou ò provimento das nove cadeiras do curso, continuando ainda vagos os logares de cinco sub- stitutos.

Mesmo assim, no anno anterior, três desses estudantes empregavam esforços para alcançar a conclusão dos seus estudos na Academia de

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS

5. Paulo. E' O que consta do aviso de 27 de de- zembro daquelle anno, cujo teor ó o seguinte:

((Ill."»<* e ex."^° sr. :

Tendo Paulino José Soares de Souza, Ma- mei Vieira Tosta e António José Simões repre- lentado que estavam nos termos de matricular-se 10 5.° anno do curso juridico dessa cidade e asse- verando que, na falta dos respectivos lentes do licto anno, não duvidavam os do 2.° e 3.°, Tho- naz José Pinto Cerqueira e José Joaquim Fer- landes da Silva Torres, reger as cadeiras do 5.° mno, sem faltar ás obrigações das suas :

Ha por bem S. M. o Imperador que V. Ex.^ aça todas as diligencias que estiverem ao seu dcance para que no próximo anno lectivo se abram Ls aulas do 5.° anno, aproveitando o mencionado )fferecimento, se for verdadeiro e a congregação ) julgar admissivel sem prejuizo das licções das ladeiras de que são proprietários os dictos lentes, imquanto se não nomeiam os mencionados sub- ititutos.

Deus guarde a V. Ex.^

Palácio do Rio de Janeiro, em 27 de dezem- 3ro de 1830. José António da Silva Maia.

Sr. José Arouche de Toledo Eendon».

Outra duvida, em sentido inverso, pode ser suscitada, a saber: se estes estudantes brasilei- ros puderam conservar-se em Coimbra até 1829, porque não terminaram o curso naquella Uni-

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versidade, e, ao contrario, voltaram ao Brasil, na incerteza, como se vê, de poderem aqui, na- quella época, fazer acto das disciplinas do 4.° anno e cursar as aulas do 5.°?

Poderiam ter tido estes estudantes e as suas famílias, para assim procederem, diversas razões que nos escapam; bastaria, porém, esta de cara- cter peremptório : é que em 1829 foi fechada por ordem do governo a Universidade de Coimbra, e delia expulsos, na sua maioria, os estudantes brasileiros.

Sob o regimen absolutista de D. Miguel, impunha-se como necessária aquella medida, por ser a Universidade um foco de liberalismo, sym- pathico, por conseguinte, á causa constitucional, então representada por D. Maria II, e, depois de 1831, pelo próprio D. Pedro, nosso ex-imperador, pae delia, que se proclamou rei de Portugal, sob o titulo de D. Pedro IV.

E' interessante, como documento histórico, este outro officio archivado na Secretaria da Fa- culdade de S. Paulo :

«Ill/"° e ex.-^o sr.

Aqui se apresentaram ha poucos dias três estudantes naturaes dessa cidade e regressados de Coimbra.

António Joaquim do Siqueira e Francisco Alves de Britto provam, pela lista geral, impressa em Coimbra, dos estudantes matriculados no anno

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS

ectivo de 1827 para 1828, que elles se achavam iiatriculados no 4.° anno de leis, e José Joaquim lo Siqueira, irmão do primeiro, prova pela mesma ista que elle se achava matriculado no 1.° anno. Todos os três provam plenamente com ou- tros contemporâneos, e entre elles um lente, que não se acharam matriculados no referido anno de 1828, mas que se achavam habilitados pela respectiva congregação para fazerem acto, os dois primeiros do 4.^ anno, e o 3.° do l.*'

Em consequência da lei de 26 de agosto do anno próximo passado, art. 2.°, admitti-os a exa- mes de francez, e depois a exames dos referidos annos, para serem matriculados, os dos primeiros no 5.'' anno, e o terceiro no 2.° E no meu des- })acho declarei que a validade do meu procedi- mento ficava dependendo da imperial appro- vação.

A minha única razão de duvidar é o elles não apresentarem certidões de suas habilitações, porque, supposto a lei, no citado art. 2.°, não fale nisso, é, comtudo, certo que a certidão é o documento legal.

Porém, sendo certo que então a Universidade se fechou e os brasileiros leaes á Augusta Filha do seu monarcha foram riscados daquella Aca- demia, e por isso impedidos de tirarem certidões, julguei que lhes faria justiça em os admittir com as provas que tenho apontado. V. Ex.^, levando tudo á Augusta presença de Sua Majestade Im-

8 A ACADEMIA DE S. PAULO

perial, me communicará a sua resolução e suas Imperiaes ordens a esse respeito.

Deus guarde a V. Ex.^ muitos annos.

S. Paulo, 9 de março de 1831.

111."^° e ex."^° sr. Visconde de Alcântara. José Arouche de Toledo Rendou, director do Curso Jurídico » .

No anno de 1831, estavam assim preenchi- das as diversas cadeiras do Curso Jurídico de S. Paulo:

1.° ANNO. Direito Natural e Direito Pu- blico : padre dr. António Maria de Moura.

2.° ANNO. 1.^ cadeira, continuação da ca- deira do 1.° anno: Direito das Gentes e Diplo- macia: dr. Brotero.

2.* cadeira. Direito Publico Ecclesiastico : dr. Pinto Cerqueira.

3.'^ ANNO. 1.^ cadeira, Direito Civil: dr. Veiga Cabral.

2.* cadeira, Direito Criminal: dr. Fernandes Torres.

4.° ANNO. 1.* cadeira. Direito Civil (conti- nuação da 1.* do 3.° anno): dr. João Cândido de Deus e Silva; Direito Commercial: dr. Falcão.

5.° ANNO. 1.* cadeira. Economia Politica: dr. Carneiro de Campos.

2.^ cadeira. Processo Civil, Commercial e Criminal: dr. Fagundes Varella.

Era director da Academia o teuente-general

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS

Vrouche E-endon, que serviu desde 23 de agosto 1.' 1827 até 19 de agosto de 1833.

Muitas vezes pediu elle demissão, ora por ;entir-se edoso e fatigado, ora desgostoso por ittritos com o lente Brotero.

Apreciando no devido valor o préstimo do .'t^lho servidor do Estado e, ao mesmo tempo, o ilto merecimento do dr. Brotero, tratava o go- verno de contemporizar, ora deixando de respon- Icr aos officios do director, ora dando-lhe satis- tacção em pontos accessorios.

Em certa occasião, sendo muito acerbos os termos de um dos taes officios do tenente-gene- ral Arouche, respondeu-lhe o governo, em nome do Imperador, que os seus serviços se faziam in- dispensáveis ao Estado, e por isso S. M. havia por bem negar-lhe a solicitada demissão.

Após esta resposta acompanhada, poucos dias depois, da sua condecoração com a digni- taria da Ordem do Cruzeiro, accommodou-se o queixoso e, assim sem maior novidade, correram as coisas por mais quatro annos.

Alguns desses officios são interessantes, um delles principalmente, por trazer dados biogra- phicos a respeito do conselheiro Brotero.

O de 28 de fevereiro de 1828, que occupa nada menos de quinze laudas de papel, termina assim :

«Por fim, ex.'^^ sr., em conclusão de tudo,

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um dos dois (eu e Brotero) é criminoso; um dos dois deve deixar o logar, que é a menor pena. Eu quero ser o réo. Para o que, levo submis- samente ao conhecimento de v. ex.^ que me fará um grande favor em fazer subir á augusta pre- sença de S. M. o Imperador que eu, desde a flor da minha edade, tenho fielmente servido ao Es- tado e a S. M. I., bem como ao seu augusto pae, o sr. D. João VI, que muito me estimou e hon-j rou; que tenho arruinado a minha fortuna no serviço do Estado, que estou na edade de 73 an- nos, edade em que não faltam as forças do corpo, como do espirito ; que me não acho com forças de poder aturar e sofírer a um homem que, se não é mais alguma coisa, é de certo um louco, capaz de atacar moinhos; e que, portanto, em premio dos meus serviços, me conceda a demis- são de director, para viver em paz os poucos dias que me restam.»

O mesmo pedido e as mesmas queixas, em termos ainda mais vehementes, foram repetidos em officio de 20 de setembro de 1829, e no de 11 de dezembro do mesmo anno.

Este ultimo, ao qual acima fizemos allusão, contém algumas curiosas informações.

Eil-o na sua integra, sublinhados por nós alguns trechos dignos de reparo maior:

«111.'"" e ex.'"" sr.

Julgo do mou dever ])ôr doante dos olhos

TBADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 11

1(^ V. ex.^ O impresso incluso, que hontem foi nsta cidade distribuido com o periódico Farol l\tidistano.

Não ó preciso que eu o analyse; deixo tudo l consideração profunda de v. ex.^ E, além do •eferido, queira v. ex.^por sua bondade permittir jue eu accrescente o seguinte :

A Congregação nomeou uma commissão para ipresentar o projecto de estatutos, que lhe ó )rdenado pela lei; esta apresentou-o, e assenta- •(im que fosse publicamente discutido^ não obstante 'sta corporação não ser de eleição popular.

No dia 9 deste mez, principiavam as discus- ões, a que tenho presidido diariamente, e nas res que tem havido tenho constantemente soffrido . grosseria de este falador (*) dar-me as costas e ,)rar para o povo com declamações : em todas lias tenho ouvido chufas^ introduzidas de propo- ito contra mim e contra v. ex.*

No dia 1.° falou do «celebre aviso» que dis- '>ensava por esta vez a apresentação de attesta- ões para exames de preparatórios ; accrescentou [ue eu «merecia graças por ter achado um Santo António de quem me vali, para o alcançar por ias incompetentes.» (^)

O Refere-se o director, neste officio, como é patente, ao conse- leiro Brotero, mas sem reparar que lhe nfto tinha ainda mencionado nome. E' provável que este figurasse no artigo do Farol, cujo semplar acompanhava o ofiBcio.

(') Será. o padre, dr. António Maria de Moura, lente da Facul- ade, deputado geral por Minas e muito amigo do Director ?

2

12 A ACADEMIA DE S. PAULO

No 2.° falou mal de si, porque contou os meios de que se valeu nos seus exames de Coim- bra, concluindo que alli estivera preso 50 dias.

No 3.^ (hoj©) contou que esteve desterrado ou fugitivo (palavras delle) na Ilha da Madeira (*) por 2 annos ; falou no seu compendio e quei- xou-se amargamente do ministério, dizendo coi- sas bem pesadas, etc.

Levo o referido ao conhecimento de v. ex.*, não tanto para acabar de conhecer quem é este extrangeirOf pois para isso basta o impresso in- cluso, mas sim e principalmente para que v. ex.^ avalie o estado critico em que me vejo, pois deve V. ex.^ julgar que, se não sou insensivel, deve existir em um imminente perigo de perder a cabeço e fazer quanto a cólera me obrigar.

E' verdade que quando vou encontrar-me com aquelle homem, vou disposto a soffrel-o, e que o sangue me circula nas veias vagarosamente, mas nem jDor isso deixa de ser certo que sou ho mem e qixe j^odem chegar as coisas a um ponto qui eu perca o tino.

Portanto, torno novamente a levar a minhí supplica ao do throno de S. M. I., a quen submissamente peço que mesmo por humanidad» me aparte deste perigo, dando-me a demissão pe

(') A tradivílo da lamilia diz cFayal». Ha Faynl, froguezia n. Madeira, e Fayal, ilha dos Açoros. Qual será? Afflrmam nos ser segunda.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 13

dida, e em v. ex.* confio que a minha supplica suba á augusta presença de S. M. I.

Deus guarde a v. ex.^ muitos annos.

S. Paulo, 11 de dezembro de 1829

111.°'° ex."'° sr. José Clemente Pereira.

José Arouche de Toledo Rendon Director do Curso Jurídico.»

Tendo sido substituído no governo José Cle- inente pelo Marquez de Caravellas, a este apres- sou-se em officiar Arouche, repetindo as suas (jueixas e o pedido de demissão.

Depois de mencionar o estado dos serviços lia Faculdade, conclue elle:

« . . .Comtudo, eu e eu, vivo no maior It^sgosto e continuamente insultado por um ex- tiangeiro, o dr. Brotero, que aqui é lente do 1.*^ anno, por contracto.

Não quero cançar a v. ex.* com a narração dos factos praticados por este homem, que, na opinião da maior parte da gente sensata, é tido por louco, e na de outros por mais alguma coisa.

Eu tenho pedido demissão a S. M. I., por- que não me é possível soffrer mais. O sr. José Clemente Pereira, respondendo a bagatellas, não me deu resposta sobre este ponto capital, con- tentando-se de mandar reprehender por uma carta desattenciosa que me escreveu, reprehensão esta que produziu atacar-me pela imprensa e atacar ao mesmo ministro do Estado, a quem era obrigado.

14 A ACADEMIA DE S. PAULO

Devendo, pois, terminar-se esta questão, eu peço a V. ex.* queira, por me fazer justiça, por bem da ordem e do interesse publico, man- dar ir á sua presença os meus officios apontados na relação inclusa e, depois de os ler e levar tudo ao conhecimento de S. M. o Imperador, partici- par-me as suas respeitáveis ordens.

Estimarei que a decisão seja a minha demis- são, porque não é possivel soffrer mais. Ficarei livre de commetter um de dois erros, pois estou na alternativa ou de ir ás mãos deste extrangeiro, ou de desamparar o posto que S. M. I. foi ser- vido conferir-me. Ambos são dolorosos, e eu es- pero da honra e integridade de v. ex.* |que me salvará deste embaraço.»

Como dissemos, não foi nessa occasião, e sim somente três annos mais tarde, concedida a demissão tão reiteradamente pedida pelo director Arouche Rendon.

Fala-se, como vimos, num desses officios, de um compendio do dr. Brotero.

E' toda uma historia. . .

Desde os primeiros dias da inauguração do Curso Juridico, insistia o director, em cumpri- mento do art. 7.^ da lei de 11 de agosto de 1827, |)ela organização de um compendio, no qual pu|| dessem os alumnos acompanhar as explicações do lente. X

Esta matéria é objecto de muitos officioff

I

tradiçSes e reminiscências 15

.endereçados ao governo e de vários avisos do p:overno ao director da Academia.

Afinal, por occasião da abertura da Assem- bléa Geral, na sessão legislativa de 1830, o (Ir. Brotero remette ao ministro do Império o seu compendio, para que fosse approvado pela iissembléa geral.

E' assaz conhecida a sorte desastrada desse primeiro livro do illustre e erudito lente.

Não somente a Camará dos Deputados o não approvou, como a elle se referiu em termos os mais severos.

Não nos foi possivel, por falta de elementos, apreciar da justiça desse julgamento, pois teem sido vãos até ao presente os esforços por nós tíiipregados para conhecer o texto desse tra- l)alho.

Quer-nos parecer, todavia, que para tão rigo- rosa condemnação muito contribuiu o atrazo men- tal da época, em contraste com o espirito adean- tado que o dr. Brotero sempre revelou.

Eis, em todo o caso, o pequeno debate que aijuelle compendio suscitou na Assembléade 1830 c' o parecer sobre elle emittido e approvado.

Na sessão de 8 de junho de 1830 :

O SR. Lino Coutinho Tinha pedido a pa- lavra para fazer um requerimento que é consen- tâneo com este caso.

Foi offerecido aqui á Camará um compendio

16 A ACADEMIA DE S. PAULO

de direito natural, feito por um lente da escola de direito de S. Paulo, compendio este que é vergonha das vergonhas pelas suas imbecilidades, e mesmo compendio prejudicial pelas más dou- trinas que nelle se encerram, e que eu não sei como o sr. ex-ministro do Império, sem examinar este compendio, sem coisa nenhuma, mandasse ou decretasse que se ensinasse á mocidade bra- sileira por tão infame compendio.

Este compendio foi ofíerecido á Camará e, diz-se, recebido com geral agrado. Isto, appare- cendo nas nações extrangeiras, é vergonha para a Camará dos Deputados e para o Brasil inteiro, pelas imbecilidades que contém.

Eu apontarei uma:

Num artigo em que este compendio trata da existência de Deus, diz que é um ponto duvidoso para muitos grandes espirites, e para muitos grandes philosophos. Ora, isto num compendio para se ensinar direito !

E, então, a definição do homem? Faz rir. Um catecismo que aqui appareceu, que era um catecismo de asneiras, não sei se trazia tantas imbecilidades no artigo homem; entretanto, o nosso ex-ministro do ImjDerio, que puniu tanto pela instrucção publica, como aqui se disse, man- dou que se ensinasse nas escolas de direito por este catecismo que parece ser feito por um ho- mem tresloucado. Não sei se o sr. ex-ministro do Império o leu ; mas se o leu, muito mau conceit<

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 17

íico fazendo do sr. ex-ministro do Império e dos us talentos.

E-equeiro, portanto, que o compendio seja remettido a uma commissão.

O SR. Clemente Pereira Eu queria que o sr. deputado dissesse quem foi que disse que eu mandei se ensinasse por este compendio.

O SR. Lino Coutinho Até posso attestar j)elo sr. presidente de S. Paulo, que se acha pre- sente.

O SR. Almeida Torres Eu digo uma ver- dade, não vi tal ordem do governo, mas diz-se que o governo mandara ordem para se ensinar por aquelle compendio.

O SR. Paula Souza Parece-me que o re- querimento do sr. deputado é determinar que losse á commissão, no que o sr. deputado é muito louvável; porque, sr. presidente, verda- deiramente o compendio não merece servir de compendio da escola de direito, e o sr. ministro do Império em uma portaria mandou que se en- sinasse por este compendio, em uma portaria, (]ue ó artigo official, e tanto assim que eu falei com um dos lentes de S. Paulo e disse que era vergonha que elles obedecessem a esta portaria.

Vejam-se os diários de setembro e ver-se-á se vem a tal portaria.

O SR. Moura A portaria foi do sr. ex-mi- nistro do Império, que foi logo muito censurada, e por isso clamaram contra a portaria, dizendo

18 A ACADEMIA DE S. PAULO

que se ensinasse pelo compendio no caso de ser approvado pela Congregação dos lentes: eu de- claro que, se estivesse na minha cadeira, não obedeceria a esta portaria, porque nisto obede- cia á lei.

Foi por isso que eu clamei tanto contra o compendio e falei contra elle.

O SR. Paula Souza O lente de que falei, não sendo o illustre deputado, nem se dizendo quem é todos o sabem.

O SR. Vasconcellos O sr. ex-ministro do Império mandou ou não mandou ?

O SR. Lino Coutinho Mandou, mandou; ha uma portaria.

O SR. Vasconcellos Então, como diz que não?

(Muitas risadas.)

Remettido o compendio á commissão de instrucção publica esta o estudou durante mais de vinte longos dias, e, por fim, na sessão de 1 de julho, apresentou á mesa o seguinte parecer, em forma synthetica :

«A commissão de instrucção publica exami- nou o compendio de direito natural, composto e offerecido a esta augusta Camará pelo lento do 1.° anno juridico de S. Paulo, e observando que não tom ligação e harmonia nas matérias, nem uniformidade no ostylo, sendo uma verdadeira compilação de differentes auctores, que não se-

(II

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 19

j,uiram os mesmos princípios nem se exprimiram 110 mesmo estylo ; que os raciocinios não teem íbrça de convicção, nem os termos clareza e pre- isão; que comprehende matérias heterogéneas IO direito natural, e notas repetidas e mui ex- tensas: é, portanto, de parecer que não seja ad- iu ittido no curso juridico, devendo-se ensinar o reito natural por outro compendio que melhor sempenhe a matéria. Paço da Camará dos Deputados, 30 de ju- iilio de 1830. J. R. Soares da Rocha, A. J. do Amaral, A. Ferreira Fr anca. y)

Este parecer foi approvado sem discussão.

Sendo reduzida em numero a turma acadé- mica que ora nos occupa, era intenção nossa additar ao estudo da mesma algumas referencias aos lentes mais antigos.

Não poderemos, todavia, executar senão j)arte minima desse programma, limitando-nos, por agora, a mais algumas notas complementa- res em relação ao conselheiro Brotero.

Ficam, porém, mesmo estas, para a parte final da presente chronica, pois urgente se faz (|ue não sacrifiquemos o objecto principal deste estudo, a saber os bacharéis de 1831.

Não passavam elles, como declarámos, de seis, emigrados todos da Universidade de Coim- bra, talvez apressadamente, se é que de facto se

20 A ACADEMIA DE S. PAULO

immiscuiram no pronunciamento, á mão armada, contra o absolutismo miguelista.

Deste diminuto grupo, dois notabilizaram-se como vultos de primeira grandeza no vasto sce- nario da politica nacional ; e dos outros quatro, que seguiram a magistratura, um attingiu ao pi- náculo na nossa organização judiciaria.

Mas, deixemos as generalidades e entremos no estudo analytico de cada um desses jovens estudantes de 1831, transformados depois em ve- nerandos personagens, cujos nomes a sociedade contemporânea relembra com respeito.

António de Cerqueira Carvalho da Cunha Pinto Júnior Baliiano, filho de outro de egual nome.

O Memorial Paulistano, para o anno de 1863, traz a respeito delle a seguinte nota : «... tinha quatro annos da Universidade de Coimbra. Ouvi- dor da comarca do E-io Grande do Norte. Juiz de direito na mesma província e na de Pernambu* CO. Falleceu assassinado em dezembro de 1836.»

Recebeu o grau no dia 24 de março de 1832.

António Joaquim de Siqueira Fluminen- se. Filho de José Joaquim de Siqueira. Tinha 31 aimos de edade. Juntamente com Paulino de Souza e Vieira Tosta luctou com difficuldades para alcançar a matricula no 5.° anno. Primeira- mente, não estavam ainda, ató meados de 1830,

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ovidas as cadeiras do 5.° anno do Curso ; em imundo logar, não tinha esse estudante, nem tão uco os seus collegaSj certidões em forma legal [ue provassem haver cursado em Coimbra as mias do 4.° anno.

Esta prova legal foi-lhes dispensada, visto IS difficuldades quasi insuperáveis, por elles com andamento allegadas. Limitou-se, por isso, a (jrova á exhibição da lista impressa dos estudan- ;<'s matriculados na Universidade de Coimbra, no anno lectivo de 1828-29, e mais o testemunho lo lente dr. Fernandes Torres, que os conhecera iiaquella Universidade.

Fizeram o acto do 4.° anno em 1830 e ma- hicularam-se em 1831 no 5.°

António de Siqueira foi approvado plena- nionte, como também com a mesma nota o foram us seus cinco companheiros. Recebeu o grau de bacharel a 3 de novembro desse anno, juntamente ( om o seu collega Francisco Alves de Britto, pre- sidindo o acto o lente Carneiro Campos, mais larde Visconde de Caravellas.

Depois de formado, António de Siqueira se- guiu a magistratura, occupando também, paral- lelamente, cargos de representação popular e da publica administração.

Assim, foi elle juiz de direito da comarca do norte de Santa Catharina; deputado provincial e vice-presidente da mesma provincia em 1837; pre- sidente do Rio Grande do Norte, de 29 de abril

22 A ACADEMIA DE S. PAULO

a 25 de novembro de 1848, e do Espirito Santo, de 7 de março a 2 de agosto de 1849. Fallecido em março de 1854.

António Simões da Silva Bahiano. Filho de outro de egual nome. Contava 27 annos de edade.

Cursara até o 4.° anno, inclusive, a Univer- sidade de Coimbra, mas não havia feito acto se- não dos três primeiros.

Seguiu, na Academia de S. Paulo, a sorte de Paulino e de Vieira Tosta, dos quaes sempre foi amigo, e com os quaes recebeu o grau de ba- charel, sendo a turma de três, no dia 27 de Ou- tubro de 1831.

Eis aqui os principaes estádios da sua longa carreira publica:

Juiz de direito da capital da Bahia;

Desembargador, em 1839;

Vice-presidente da provincia da Bahia;

Deputado geral pela Bahia na 5.* legisla- tura (1843-44) ;

Chefe da policia da Corte, em 1848;

Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, em 18G1.

Francisco Alves de Buitto. Baliiano. (*) Filho de António Alves de Britto.

O Na roliK/íVo oílifiiil dos bachareiu íormailos, existento na

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 23

Trazia, como o precedente, três annos de Coimbra.

Seguiu sempre a carreira da magistratura, tf^ndo começado como juiz de fora em Parana- •2;uá, pertencente então á provincia de S. Paulo, pois que a do Paraná nondum nata erat.

Exerceu cargos judiciários noutras provin- ( ias, e foi deputado provincial na de Sergipe.

Manuel Vieira Tosta. Bahiano, filho de outro de egual nome.

Faculdade de S. Paulo, consta essa naturalidade; entretanto, de um ilistincto magistrado federal residente no Rio,e que nos tem coadju- \ iulo com preciosas informações, o Dr. Armindo Guaraná, recebemos os seg^uintes reparos, de toda a procedência: «...Relativamente ao liacharel Francisco Alves de Britto, vacillo em asseverar ter sido (Ih; carioca, e não bahiano, como aliás se na lista dos formados (MU S. Paulo. Não me aventuro, no momento, a affirmar com segu- r inça (pois que é passado bastante tempo) ter ouvido de um íillio .^(11, o desembargador Francisco Alves da Silveira Britto, hoje apo- sentado e residente na capital de Sergipe, haver o pae nascido nesta ( ilade; mas estou bem certo de ter-me dicto elle descender da famí- lia Xavier de Britto, muito conhecida no Estado do Rio e aqui. En- tic>lanto, o que supponho ter ouvido do filho daquelle bacharel, \ (jo repetido no começo do oíficio do general Arouche, nas seguin- t( s palavras: «...aqui se apresentaram, ha poucos dias, três estu- ilantes, iiaturaes desna cidade e regressados de Coimbra», incluindo no numero dos três o quarto-annista Francisco Alves de Britto. No ar- I hivo da Faculdade talvez seja possível deparar a solvição desta duvida, que me permitti levantar no interesse da verdade.»

o archivo da Faculdade ardeu quasi todo no incêndio, alli ateado por mão criminosa, em 1880, Entre os documentos restaura- dos, após o incêndio, ha um livro de «Registro das cartas de bacha- réis». Delle consta, a copia da carta de Francisco Alves de Britto, com a declaração wnascido na provmcia do Rio de Janeiro.»

A' vista disto e do que expõe o Dr. Guaraná (releve-nos eUe a indiscreção) acreditamos ser esta a melhor versão.

24 A ACADEMIA DE S. PAULO

Chamou-se, depois, Barão, Visconde, e, por fim, Marquez de Muritiba, e, sob esses nomes, exerceu os mais elevados cargos da politica e da administração no Brasil.

E' desnecessário, tal a notoriedade do seu nome, darmos aqui, ainda que em traços largos, a sua vida publica, e bem assim o simples esboço da sua tempera romana.

Paulino José Soares de Souza. Nascido a 4 de outubro de 1807, em França, onde seu pae se casara, quando estudante de medicina. Filho do dr. José António Soares de Souza, mineiro, natural de Paracatú, e que exerceu clinica medica em S. Luiz do Maranhão, onde residiu até á morte.

Basta lembrarmos que elle veiu a chamar-se Visconde de Uruguay, para que, como em rela- ção a Muritiba, e ainda com razão maior talvez, seja dispensável registrarmos aqui quaesquer no- tas biographicas a seu respeito.

Como politico, diplomata, estadista e publi- cista, o Visconde de Uruguay é um vulto his- tórico e uma gloria nacional.

Nenhum brasileiro lhe ignora o nome e os relevantes serviços.

Dir-nos-á, talvez, o leitor, que lhe vamos servindo esta chronica por um memi algum tanto pesado . . .

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 25

E' força convir que, com efíeito, quasi lhe lemos dado somente pratos de resistência.

A vêr se nos desforramos com o dessert.

E quem nos vae valer nesta tarefa de maitre (1'hotel. . .

! exclamará o leitor. Basta de imagens ( nlinarias . . . Bem se que o auctor é um f/ourmet.

Pois bem, seja. íamos dizendo que quem nos ha de soccorrer neste aperto é o nosso vene- rando mestre, de saudosa memoria, o illustre conselheiro Brotero.

Vamos pedir-lhe, com a devida reverencia, a nota faceta desta chronica.

Era o Dr. Avellar Brotero mais do que elo- quente, era eloquentíssimo. Todos os documen- tos da época confirmam esta asserção, e repetem frequentemente aquelle epitheto, na mesma forma superlativa que ora lhe damos.

Auxiliado por vasta erudição, tinha, por vezes, na sua cathedra, verdadeiros arroubos de eloquen- ( ia que provocavam os enthusiasticos applausos da mocidade.

Nessas occasiões, temperamento impressio- nista, era feliz com aquellas manifestações dos seus discípulos. Não obstante, reprehendia-os fingidamente, dizendo-lhes jpro formula :

Não, meus m'ninos, não, nada de applau- sos; isto não ó perm'ttido pelos Estatutos.

26 A ACADEMIA DE S. PAULO

Mas, logo depois, para que o não tomassem ao da letra, accrescentava indulgente:

Mas, quem é que pode dominar a emoção? Ora! applaudam, meus m'ninos, applaudam quanto quizerem ao seu velho mestre ! . . .

Espirito alevantado, estava quasi sempre em opposição ao director da Academia e em attritos com os collegas.

Mas não era isto, somente. Quando secreta- rio da Faculdade ou no exercicio interino da di- rectoria, constituia-se oppressor dos empregados. E neste afían era meticuloso. Occupava-se até das mais iníimas creaturas.

Assim, havia entre os serventes um preto, de nome José Alves Fernandes, vulgo Quieto, alcunha que bem lhe quadrava, porque, effecti- vamente, elle era muito socegado, um ente bom e inoíFensivo.

Pois bem, o Quieto, findo o serviço, gos- tava de postar-se humilde, quasi occulto, a um canto da bibliotheca, e alii lêr alguns dos jomaes do dia.

O conselheiro Brotero irritava-se com isto, e, logo que percebia o Quieto com uma folha nas mãos, dava-lhe immediatamente algum sei- viço a fazer.

Uma vez viu elle o continuo Siqueira, vulgo

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS ' 27

'hico Guaiaca, tocando opliicleide numa banda musica.

Que mal fazia isto a quem quer que fosse? IwQ mal também advinha ao mundo do facto de ar lendo jornal o Quieto?

Assim, porém, não pensava o conselheiro íiotero.

E a tal ponto chegava esta sua birra que, ompre que ouvia musica na cidade, mandava 11 arcar ponto no Chico Guaiaca.

Mas, sr. conselheiro, eu estou aqui.

Ah! o sr. está aqui?! Mas ha de estar izendo falta fora. Pois o sr. não é musico?

Mas, sr. conselheiro. . .

Cada qual no seu logar. Ou o sr. é empre- lo da Academia ou pertence á banda de musica !

Para com o continuo Mendonça não era mais ndulgente o conselheiro Brotero.

Uma vez, exasperado pela excessiva severi- lade do seu superior, chegou a dizer-lhe o Men- lonça :

Sr. conselheiro, eu supplico a v. ex.* que ião me persiga, não ; porque eu também sou iialuco.

Estava de bom humor nesse dia o velho ionselheiro, e deu para rir desse (ítamhemy> io seu clássico Mendonça.

O conselheiro Brotero, quando orava (as

3

28 A ACADEMIA DE S. PAULO

suas prelecções eram sempre em forma oratória) sahiam-lhe as palavi^as aos borbotões. Era uma catadupa de eloquência.

Uma vez explicou elle porque não podia ex- primir-se vagarosamente. E que as idéas lhe acu- diam com precipitação e não podia elle então, sem lhes prejudicar o enunciado, disciplinar as palavras e proferil-as pausadamente. As idéas fugiriam e completa seria a perturbação do dis- curso.

Esta irremediável despreoccupação da forma, produzia ás vezes inconscientes transposições de syllabas, que davam resultados engraçados.

Estes trocadilhos chegaram a constituir, no género, espécie característica. Baptisadas com uma derivação do nome do seu auctor são as hroteradas.

Conserva-se nas rodas académicas a tradi- ção de copiosas hroteradas , algumas delias quasi se podem considerar clássicas, e não ha quem não as conheça. Estão neste caso cidadeiro bra- zilão vidrada quebraça limenta com jpimão palavras moucas ouvidos loucos Sayato Lobão, por Sayão Lobato C. Mastro^ por Magalhães Castro Mouto . . . galhães, por Couto Maga- lhães.

Quando elle dava pelo equivoco e queria corrigil-o, equivocava-se de novo, dizendo :

Ora! meus m'ninos, bolei as trocas, bolei as trocas!

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 29

Uma dessas hroteradas foi registrada pelo im- urador, que a referiu a pessoa da nossa amizade. 'ui esta a Imperial constitucionadory).

E não eram somente estas transposições de etras e de syllabas ; produziam-se por vezes análo- gas transposições de palavras e mesmo de idéas.

Neste género é muito conhecida a seguinte, )()r occasião da visita do imperador a S. Paulo, 'in 1847 :

Apresento a V. M. o sr. cónego Retliori- a, professor de Fidelis.

E esta outra, da mesma época, quando se )roparava o edifício para a visita imperial. Disse lille, dirigindo-se ao bedel Mendonça e mostran- lo-lhe umas garatujas na parede :

Sr. imperador, sr. imperador, apaga es- as Mendoncinhas que o Garatuja alii vem.

As transposições de phrases davam também ogar a surprehendentes effeitos.

Assim, fazendo a descripção de uma bella nanhã no campo, dizia o conselheiro Brotero :

«... o gado a saltar de galho em galho, os jassarinhos a pastarem pelo campo, etc.»

Tinha elle outro vezo na sua phrase, quer guando orava, quer mesmo na simples conversa. Consistia em intercalar, sem propósito algum, a locução por consequência.

30 A ACADEMIA DE S. PAULO

Dizia, por exemplo :

«Um milhão de factos, meus meninos ; meus meninos, um milhão de factos, não constitue. . . por consequência um direito.»

Outras vezes interpunha o seu estribilho como se fora uma these original, dentro de um nome próprio.

Assim, dizia:

«Cónego Fidelis Seringa Maringá por conse- quência de Moraes.

Não escapava a esta extranha desfiguração o nome do seu digno genro, o illustrado lente dr. e Benevides.

Apresentando-o a alguém, disse uma vez o conselheiro Brotero :

Apresento a v. ex.'*^ o meu genro dr, José Maria Corrêa po?' consequência de e Benevides.

Ao que observou entre dentes o dr. Bene- vides :

O que não posso comprehender é a razão de causalidade que o meu sogro descobriu entre a primeira e a segunda parte em que elle divide o meu nome ! . . .

CAPITULO 11

i turma académica de 1839-43

•eambulando. Os lentes dessa turma. Complemento do nosso plano. O conselheiro Veiga Cabral. Apreciação geral O seu casamento. To he or not to be. Ab-intestato. Suas cren- ças e idéas. O seu livro. Sua instrucçao literária. Como era susceptível! Entretanto, preguiçoso. Na presença do Imperador. Como elle explicava. Outras excentricidades.

Contra maluco, maluco e meio. Para provar a independên- cia. — Assiduidade. . . nos dias chuvosos. Falta por intenção.

Sua aversão aos nomes estúrdios. Aos estudantes de côr. O apreço ao vestuário apurado. E vice-versa. O requinte do chiquhmo ! O retrato do Cabral. Mudemos de assumpto. Agostinho Machado. Daniel Machado. Emygdio Ribeiro.

Flaminio Lessa. Bernardes de Gouvêa. Xavier de Barros.

Xavier de Britto. Jacintho Coelho. Carneiro Maia. Da- dos biographicos. Doente imaginário. Paixão cynegetica. Estou morto ! Venham amanhã ao meu enterro. Dados com- plementares. — Araújo Cintra. José Augusto Pereira. Gou- vêa e Horta. Rufino Segurado.

JLiXERCEU O cargo de director da Academia durante quasi todo o periodo que encima este capitulo o senador Nicolau Vergueiro, de quem com a devida amplitude nos occuparemos noutra occasião.

Pretendemos, com efíeito, consagrar o pream- bulo da nossa clironica de hoje ao estudo, ainda

32 A ACADEMIA DE S. PAULO

que ligeiro, de outro personagem da congrega- ção, figura, por mais de um titulo, curiosa e in- teressante— o conselheiro Cabral. Aproveitare- mos, para esse fim, um esboço por nós algures traçado. Convém, entretanto, procedermos com methodo.

Mencionemos primeiramente os lentes que preleccionaram as disciplinas do curso á turma que transitou pela Academia de 1839 a 1843.

São elles :

No 1.° ANNO: Direito Natural, Publico e das Gentes, o dr. Brotero.

2.° ANNO: Em continuação do programma iniciado no l.'' anno, o mesmo dr. Brotero;

Direito Ecclesiastico, o padre dr. Anacleto Coutinho.

3.° ANNO: Direito Civil, o dr. Veiga Cabral;

Direito Criminal, o dr. Manuel Dias de To- ledo.

4.° ANNO: Direito Civil, em continuação, o mesmo Veiga Cabral ;

Direito Commercial, o dr. Clemente Falcão (sénior).

5.° ANNO: Processo Civil, Commercial e Cri- minal, dr. Silveira da Motta;

Economia Politica, dr. Carneiro de Cam- pos.

Não havia ainda no curso jurídico as cadei- ras de Direito Romano e de Direito Administra-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 33

rivo, as quaes somente mais tarde foram creadas, [)ela reforma de 1854.

No plano destas Tradições e Reminiscências (la Academia de S. Paulo^ uma vez que o me- ihodo que temos adoptado ó o estudo biogra- pliico das turmas académicas, dar-se-ia grave la- ( i.na se, fugindo ao rigorismo deste systema, não nos prevalecêssemos da liberdade peculiar aos preâmbulos, para nelles, de tempo em tempo, in- troduzirmos digressões relativas aos lentes e di- rectores não formados na Faculdade, e alguns empregados cuja passagem pelo convento de S. Francisco deixou vestígios nas tradições aca- démicas.

Como, por exem2)lo, traçar-se a clironica da nossa velha Academia, sem se falar em Rendon, \ ergueiro, Brotero, Baltliazar Lisboa, Yarella, António Maria de Moura, Carneiro de Campos, Falcão Velho e tantos outros directores e lentes, que, por não se terem formado em S. Paulo, não figuram entre as turmas de bacharéis ou douto- res graduados nesta Faculdade?

Como também omittir-se, na parte anecdo- tica da vida académica, alguma referencia mais ou menos accentuada das velhas, e, por assim dizer, legendarias figuras dos bedéis Mendonça e Firmino Soares e dos porteiros Carlos Godi- nho, capitão Fortunato e major Fabiano?

Pois bem, entre o corpo docente da Faculda- de, occupa análoga posição de notabilidade, para

34 A ACADEMIA DE S. PAULO

k ' :

a chronica anecdotica da Academia de S. Paulo, o dr. Prudencio Geraldes Tavares da Veiga Ca- bral.

Nasceu elle, na Provincia de Matto Gros- so, a 22 de abril de 1800, quando, no dizer_ do poeta.

. . . Borne remplaçait Sparte Et déjà NapoUon perçait sous Bonaparte.

Era íillio de Joaquim Tavares da Veiga Caj bral e de D. Anna Thereza de Jesus.

Segundo refere Pinheiro Chagas, (*) começou a cursar os estudos de humanidades no Rio de Janeiro e foi concluil-os a Lisboa, seguindo de- pois o curso de direito na Universidade de Coim- bra, tomando o grau de bacharel em 1822.

Depois da proclamação da independência do Brasil, o dr. Veiga Cabral regressou ao Rio de Janeiro. Seguiu desde logo a carreira da magistratura, exercendo os respectivos cargos, desde o de juiz de fora no Rio Grande do Sul até ao de desembargador da Relação do Mara- nhão.

Inaugurado, em 1828, o Curso Juridico de S. Paulo, no anno seguinte, por decreto de 8 de

(') PiKUKiBo CuAOAB, BrasUeíros illustrcs, sec. XLY.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 35

abril de 1829, foi nomeado lente cathedratico do mesmo, e somente em 1834 lhe foi conferido o grau de doutor, em virtude do Dec. n.° 34, de 16 de Setembro do mesmo anno.

Nesta cidade, residia o dr. Cabral, na rua Ide S. Bento, em prédio, que hoje não existe, jcontiguo ao de propriedade do sr. major Domin- igos Sertório, quasi em frente ao da redacção do \Commercio de S. Paulo.

Ainda algumas notas biographicas. O conselheiro Cabral era dotado de grande iiitelligencia e vasta cultura jurídica; era, não ; obstante, um mau lente, pelas suas singulari- idades algum tanto ridículas, como, sobretudo, !pelo pouco caso que ligava aos seus deveres ca- thedraticos.

Não é justo accusal-o de explicar mal o Mello

! Freire; ha mais acerto em dizer-se que elle não

I se dava ao trabalho de explical-o, para não se

incommodar; mas. . . não antecipemos.

Qual o seu estado civil?

Delle póde-se dizer, sem trocadilho, que não

era casado, nem solteiro, nem viuvo ; porque,

realmente era casado e ao mesmo tempo o não

era, pois o seu matrimonio não foi seguido . . .

1 como diremos? Emfim, porque, depois de eíFe-

, ctuado o casamento, não fez elle a minima corte

á sua noiva, nem nada; ao contrario, arrepen-

deu-se desde logo do passo que havia dado, e.

86 A ACADEMIA DE S. PAULO

interpellando-se em voz alta, a si mesmo, passeou toda a noite em frente ao quarto nupcial, cujo limiar não transpoz :

Que fizeste, Cabral ! ? exclamava elle, desolado. Que loucura foi esta?!

Afinal, saltando j)©!^ janella (o prédio era assobradado), abandonou a casa e jamais convi- veu com mademoiselle Cabral, sa femme.

Esta senhora era filha do tenente general Rendon, e, pelas suas virtudes, certo não merecia tão aíFrontosa desattenção.

Referem, porém, as más linguas que, vindo a fallecer o sogro, pretendeu o conselheiro Ca- bral entrar na meação dos respectivos bens. Di- zem que a isto se oppoz madame ou mademoi- selle Cabral, fundada no direito então vigente e na verdade dos factos ; o requerente contestou então as allegações sobre a inexistência da so- ciedade conjugal ; porque, afíirmava elle, que sim, que não havia duvida, que elle tinha sido ver- dadeiro esposo.

E-eplicava ella que não, que muito ao con- trario.

Para verificar o caso, accrescentam, si vera est fama_, que elle requereu que se procedesse a exame. . .

Não foi este senão um ardil empregado para obrigar ao accôrdo. E assim aconteceu. Afim de evitar o vexame, consentiu a esposa platónica do

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 37

conselheiro Cabral em repartir com elle os bens que lhe cabiam.

Não sabemos se isto é verdade, ou uma sim- iples anecdota inventada. Alguém nol-a contestou como incompativel com o caracter brioso, posto que excêntrico, do conselheiro Cabral.

Vae o caso como veiu, sem endosso da nossa parte.

Se não teve sociedade conjugal, deixou prole, entretanto ; pois lhe advieram de enlaces naturaes dois filhos. Um delles, nascido no E-io Grande (lo Sul, bacharelou-se em 1850 e exerceu a ma- gistratura nesta Província.

O outro, muito mais moço, o sr. João da \'eiga Cabral, falleceu ha dois annos, e era muito conhecido e estimado nesta cidade. Nascido em 1853, muito luctou pela vida, e, por vezes, desde bem moço, contra fado adverso. Foi typographo, nas officinas do Ypiranga^ e tornou-se um habi- lissimo compositor. Passou a actor, depois offi- cial de policia, depois editor, proprietário e re- dactor de jornaes (a Gazeta do Povo e o Jornal 'hl Tarde), e depois livreiro, e, por fim empre- gado publico na Secretaria da Agricultura.

Não era destituído de certa cultura literária.

Deixou um filho, que está empregado na brigada policial.

Nada legou o conselheiro Cabral aos seus

88 A ACADEMIA DE S. PAULO

filhos, comquanto tivesse bens. A sua morte, so brevinda em 1862 foi súbita, surprehendendo- ab-intestato ; de modo que nem poude elle reco nhecer os filhos, nem ao menos instituil-os seui herdeiros.

E assim foram os seus haveres arrecadadoí pela Fazenda Nacional.

Em religião, era catholico, sem carolismo Em politica, propendeu sempre para o par tido conservador ; não era, porém, militante : o que explica, em períodos em que não superabun- davam homens da illustração do dr. Cabral, não ter elle sido investido de importantes cargos de eleição popular ou da publica administração.

Como posição official na politica, não teve outra a não ser a de deputado provincial, na 11.* legislatura, a saber, no biennio de 18Õ4-55.

E lamentável que muitos dos lentes mais ta- lentosos e eruditos jurisconsultos que teem ador- nado a Congregação da Faculdade de S. Paulo não tenham deixado obras didácticas reveladoras do seu merecimento intellectual e perpetuadoras dos nomes de seus auctores. Assim, nada nos le- garam, a não serem razões em autos, pareceres ou discursos, homens do valor mental de Chris- piniano, Carrão, José Bonifácio, Falcão Filho, Justino de Andrade, Dutra Rodrigues e Duarte de Azevedo.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 39

Este ultimo, por estar ainda vivo e robusto,

'taças a Deus, poderá em boa hora eliminar desta

relação o seu glorioso nome, condensando num

livro de direito duradoura emanação do seu muito

saber.

Falávamos do conselheiro Cabral, e iamos louval-o por ter enriquecido o património juri- dico da nossa Academia com uma obra didáctica de regular merecimento.

Deixou-nos com eíFeito o seu Direito Admi- nistrativo Brasileiro^ 1 volume in 8.°, editado em 1859 por Laemmert, Rio de Janeiro.

A grande evolução pela qual tem passado a nossa organização administrativa tornou, como ó natural, antiquada esta obra. Ella assignala, en- tretanto, um progresso relativo, attendendo-se á época da sua publicação, e, principalmente, o que é mais meritório, ao muito trabalho próprio, original do seu auctor, no estudo das instituições pátrias.

Além disso, o estylo é correcto e castigado, o que, por certo, em nada prejudica o valor scien- tiíico do livro.

Affirmam-nos, de mais, que effectivamente o conselheiro Cabral não descuidava da vema- culidade da forma, quer nas suas prelecções, quer nas licções, sabbatinas e actos dos estu- dantes, e até nas defesas de theses pelos douto- randos.

40 A ACADEMIA DE S. PAULO fl

Emendava, sem cerimonia, erros de dicção e de syntaxe.

Sabia também regularmente latim, e fazia timbre desse conhecimento, quer na traducção do compendio de Mello, quer na citação dos tex- tos do Direito E-omano.

Dissemos que é um bom livro o Direito Admi- nistrativo do conselheiro Cabral. É esta a ver- dade. Elle, porém, tinha o seu trabalho em muito mais alta conta; considerava-o verdadeira obra prima, e não admittia contra elle a minima im- pugnação, nenhuma critica, a não ser elogiativa.

Um dia, por instancias delle, publicou o con- selheiro Duarte de Azevedo uma apreciação sobre o livro. Está visto que o elevou ao septimo céo. Todavia, para que não ficasse insipido o juizo critico, entendeu, mesmo para realçar os elogios da apreciação, glosar sobre o contencioso admi- nistrativo, contrariando longinquamente a dou- trina do auctor.

Pois, senhores, o dr. Cabral não levou a bem o caso, e, ao encontrar-se com Duarte de Azevedo, íalou-lhe sobre o objecto da duvida aventada.

Mas, sr. conselheiro replicou o Duarte, V. ex.^ deve convir commigo que a minha opi- nião não é isolada. . .

Bem sei, bem sei ; não viu o sr. que numa nota eu digo quo alguns ignorantes contestam a legitimidade do contencioso administrativo?

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 41

Com todo o seu cabedal scientiíico e com

•ou] ar facilidade de elocução, tinha elle, entre-

anto, preguiça (não podemos dizer de outro modo)

inha preguiça de explicar as doutrinas da sua

•adeira.

Essa indolência levava-o a ponto de não ci- ar integralmente as datas e os números das leis decretos. Assim, por exemplo, a lei da hoa ra- :^io, de 1769, citava-a elle «mil setecentos. . . » e D mais traçava no ar, por mimica, com o dedo pollegar.

O conselheiro Brotero, por motivos que não jveem agora ao caso, andava de ponta com elle; Ide modo que, por occasião de uma das visitas imperiaes a S. Paulo, pediu ao imperador que tnão deixasse de assistir á aula do dr. Cabral, afim de ter a prova directa da sua desidia.

Assim fez o imperador.

Em vez, porém, daquelle resultado, assistiu a uma brilhante prelecção de Direito Civil e sa- hiu encantado pela vasta erudição do respectivo cathedratico.

Ao retirar-se o egrégio visitante, immediata- mente passou o conselheiro Cabral a explicar na forma ronceira do costume.

No dia seguinte declarou elle aos alu- mnos :

Estão vendo? Aquillo fiz eu para confun- dir (não estava ainda em voga a expressão

42 A ACADEMIA DE S. PAULO

moer ) para confundir o intrigante do Brotero Mas, porque incommodar-me com longas e des envolvidas explicações? E depois, se eu me fa tigasse em explanar todo o assumpto, os srs não teriam que estudar; bastaria ouvirem; salii riam da aula com a licção sabida. Isto não quer( eu. Estudem, esforcem-se, queimem as pestanas como eu fiz, para saber quanto sei.

Em geral, limitava-se a lêr em latim ou vema culo o paragrapbo do Compendio, accrescentando, como commentario, unicamente isto: «Como se vê, a doutrina é muito clara; passemos adiante.»

Noutras occasiões, ao abordar um assumpto importante, dizia elle: «Esta matéria presta-se a grande desenvoRâmento. Mas o anno passado explanei-a ex-professo ; portanto, para que vol- tar a um assumpto por mim exgottado?»

E fosse alguém fazer-lhe vêr que a turma académica era outra e que os alumnos presentes não tinham conhecimento da explicação ante- rior. . .

Apreciava muito, no trato com os estudan- tes, as blandicias de forma, quando se dirigiam á sua pessoa. Assim, era todo sorrisos, e ficava entregue, quando o abarrotavam de a Excellenciay) , (ipreclaro mestre)), (( erudito lentey>, a exímio civilis- ta r> ; ou, quando se referiam á sua aobra notahí- lissima de direito administrativo d.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 43

Não O chamassem, porém, «a Cadeiray) e inem mesmo «a illustrada Cadeira». Tel-o-iam en- tão pela proa.

Assim também quando algum estudante ci- tava Lobão. Estava perdido no conceito do con- Jselheiro Cabral, e (o que era mais serio) po- jderia contar certa a sua esphera preta no dia ido acto.

Mas, sr. conselheiro ponderasse embora lalgum outro lente v. ex.* attenda, que é um |bom estudante . . .

Não pôde ser !

... applicado, intelligente.

Não pôde ser, disse! EUe citou Lobão, está reprovado. Citou Lobão ! . . .

I E não havia como demovel-o. Não foi tão [rigoroso, em certa occasião, o conselheiro Cabral, em relação a um estudante que, sciente de que o esperava um infallivel e talvez justiceiro R^ foi ter com elle, na véspera do acto, e lhe falou Inestes termos :

Sr. conselheiro, v. ex.* conhece que eu sou doido. Sou doido mesmo e toda gente sabe disto. Pois, eu venho communicar a v. ex.* que tomei uma resolução. Se v. ex.^ me reprovar ,eu mato-o ! Eu mato-o ! . . .

' —Que?!

Mato-o, e suicido-me em seguida. Olhe aqui o revólver ! . . .

4

44 A ACADEMIA DE S. PAULO

Deixe-se disso. Pois eu havia de reprovar um bom estudante como o senhor ? socegado e conte com o seu ^plenamente.

O estudante, que era péssimo, fez mau acto. Os outros lentes da commissão examinadora qui- zeram-o reprovar; mas valeu-lhe a ardente pro- tecção do conselheiro Cabral. Dizem que este se promptificou a atirar-se pela janella a baixo (es- tavam no jDavimento superior) se o estudante fosse reprovado.

A' medida que, algumas vezes, se revelava assim timorato, noutras occasiões era de uma prepotência verdadeiramente provocadora.

E/cferiu-nos o seguinte caso um amigo nosso, pessoa respeitabilissima, que o ouvira do conse- lheiro Ribas.

Estava o conselheiro Cabral presidindo a uma mesa examinadora de preparatórios. Eram doze os examinandos. Correram os exames com altos e baixos, como sóe acontecer. No momento do julgamento, estando o dr. Ribas a pesar c merecimento relativo dos alumnos, sentenciou peremptoriamente o conselheiro Cabral :

Todos reprovados !

Mas o sr. conselheiro. . . ^

Não ha conselheiro nem meio conselheiro Todos reprovados ! à

O dr. Ribas insistiu, mas foram baldado} 08 seus esforços. Teve de conformar-se com degolação geral de culpados e innocontes.

ni

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 45

No dia seguinte, revelou-se muito inferior á _ rimeira a turma examinada.

Tomando por bitola o julgamento da vés- pera, propoz o dr. Ribas:

Bem ! Agora, á vista do resultado de hon- i«'m, não ha hesitar: todos reprovados.

Não, senhor! contestou o conselheiro Cabral. Ao contrario: todos approvados !

Como assim, sr. conselheiro ?

Sim, senhor^ todos approvados !

Com que justiça ? !

Qual justiça ! E' para mostrar que somos independentes !

Era muito pouco assiduo á Academia. En- tretanto, nos dias tempestuosos, comparecia infallivelmente.

E então, jactava-se de ser cumpridor dos seus deveres, tanto que, vencendo as intempéries, alli se achava. Onde estavam os outros lentes? Onde o Brotero, que tanto se implicava com as suas faltas? Vadios ! . . .

Ao contrario, quando fazia bom tempo, era muito problemática a sua vinda á Academia. Pre- feria dar um passeio, ás vezes rural.

Algumas vezes vinha-se encaminhando para I a Academia e, ao enfrentar o cruzeiro de pe- ' dra, deante das arcadas exteriores, deparando-se í avultado numero de discipulos seus que o espe- ravam, dobrava a esquina da rua do Ouvidor e. . . ia-se embora, a passeio, a rir-se com os seus

46 A ACADEMIA DE S. PAULO

botões pelo logro que havia pregado aos estu- dantes.

Numa feita, encontrou elle num desses pas seios um dos seus discípulos. No dia seguinte perguntou ao bedel Mendonça se tinha marcado ponto naquelle estudante.

Não, senhor, sr. conselheiro...

O estudante, que ouvira a pergunta, observa em tom muito respeitoso :

Mas, sr. conselheiro, pois se não houve aula. . .

Mas o sr. não sabia que eu não viria. A sua obrigação era estar aqui, e o sr. não veiu á Academia. Sr. Mendonça, marque ponto neste moço!

Mas, sr. conselheiro. . .

Se não está contente, leva uma falta in- justificável. Olhe !

Tinha quisilia a nomes longos ou esdrúxulos, 6 muitas vezes, por isso, victimava os seus donos.

Assim, nunca poude traçar, sem zanga e ás vezes sem brindal-o nos actos com o seu R, o nome de légua e meia do dr. Benedicto Aym beró.

Neste ponto, parece que elle tinha razão', por isso que realmente não ó nome de gente este: Bonodicto Fosculo Jovino de Almeida Aym- berú Militão de Souza Barué Tiquatira do Bor

I

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 47

Ao dr. António Carlos, então seu discípulo, (spondendo á chamada:

António Carlos Ribeiro de Andrada Ma- chado e Silva.

Presente !

Que é do outro?

Outro quem, sr. conselheiro ?

O outro. Isto não é nome de uma pessoa.

Tinha accentuado preconceito contra os es- tudantes de cor, e perseguia-os implacavelmente

Começava por não admittir que lhe exten- (lessem a mão.

Uma vez deu o a um delles, que o que- ria cumprimentar.

Desaforo! dizia. Negro não pôde ser doutor. Ha tantas profissões apropriadas : cozi- 'nheiro, cocheiro, sapateiro...

Nos dois annos do curso de Civil, levou de canto chorado um estudante de nome Fogaça, mulato feio e maltrapilho, pois o descuido na foilette era também, para o conselheiro Cabral, caso de forca!

As vezes, estando presente o Fogaça, o Ca- bral nem olhava para o lado delle, mas pergun- 1 tava ao bedel :

Sr. Mendonça, marcou ponto no negro ?

Mas, sr. conselheiro, protestava respeito- samente o Fogaça, eu estou presente ! . . .

48 A ACADEMIA DE S. PAULO

Quer o negro esteja ausente, quer o ne- gro esteja presente, marque ponto no negro !

Inversamente, tinlia particular estima aos estudantes que trajavam com apuro, cuidavam da toUette e se perfumavam.

Não lhe passava despercebido o corte ele- gante de uma casaca ou sobrecasaca.

Sim, porque naquelle tempo ninguém ousa- ria ir á aula trajando paletot. Seria um escân- dalo, e o conselheiro Cabral, pelo menos, man- daria que aquelle individuo fosse compor-se com decência.

Deu-se um episodio destes com o estudante E,amos Nogueira, conhecido pela antonomásia de Perereca^ o qual dahi por deante não veiu á Aca- demia senão casacalmente vestido.

Casaca e calças brancas eram o rigor da haute gomme daquelles tempos.

Era costume pedir-se por escripto a justifi- cação das faltas.

Receoso das excentricidades do conselheiro Cabral, um estudante mineiro, de nome Maga- lhães, intelligente mas algum tanto lambazão, fez-se acompanhar por um collega muito da sym- patliia do lente pelo seu apuro de trajar, cremo3 que um dos Andrades Pinto, o Caetano, talvez,

Magalhães entrou na primeira venda, e ai] mesmo, sobre o balcão, traçou com caractereí

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 49

indisciplinados, num papel barato que comprara, o requerimento destinado á justificação das fal- tas. Dirigiu-se, em seguida, com o seu elegante introductor, á casa do dr. Cabral.

Ahi recebidos, dispensou o conselheiro as mais delicadas attenções ao Andrade Pinto e nem olhava para Magalhães, até que, conhecido o objecto da visita, tomou o papel com mau hu- mor, leu-o rapidamente com ar desdenhoso e res- pondeu colérico :

Incorrecto na forma e no fundo. . . como o seu auctor!

Em certo dia apresentou-se o Andrade Pinto na Academia, trajando com a costumada elegân-

cia e trazendo sapatinhos de entrada baixa e meias de seda. . .

O conselheiro Cabral deteve-se a contem- plal-o e surpreso interpellou-o :

Que, sr. Andrade Pinto? Pois o senhor, um moço tão distincto, que traja com tanto gosto e faceirice, apresentar-se aqui sem meias ! . . .

Perdão, sr. conselheiro disse o estudante observe bem v. ex.* (l^eliscou para lhe mostrar a meia finíssima que trazia).

Bravo ! exclamou com sincero enthusias- mo o conselheiro Cabral meias cor de carne! E o requinte da distincção ! Venha este abraço.

São innumeras as anecdotas, authenticas ou

50 A ACADEMIA DE S. PAULO

apocryphas, referentes ao conselheiro Cabral. Este espaço, porém, é limitado, e não podemos sacrificar a segunda parte do presente capitulo.

Concluiremos, pois, este esboço, accrescen- tando-lhe tão somente, em duas linhas mais, o retrato physico do illustre conselheiro Cabral.

Era alto, magro, meio curvo, corpo mal de- lineado, cara completamente rapada, nariz gran- de, olhos negros, bocca regular e face pallida.

Corava facilmente, quando o punham fora do sério.

Compunha-se, apenas, de treze estudantes a turma académica que se formou em 1843.

Nenhum delles sobrevive na presente data.

Passemos em revista os treze nomes desse obituário.

Agostinho José de Oliveira Machado.

Paulista, natural de Santos.

Estudante regular.

Era professor publico de primeiras letras nesta capital.

Foi, depois, advogado e vereador em Santos.

Daniel Augusto Machado. Paulista, desta capital, filho de Joaquim José Machado.

Estudante regular.

Também foi, a principio, professor publico primário em S. Paulo ; depois, juiz municipal em

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 51

Ubatuba, e, successivamente, em Jacaréhy e Cury- tiba.

Abriu escriptorio de advocacia em Jaca- réhy.

Fallecido em dezembro de 1861.

E pae do dr. Daniel Augusto Machado, for- mado em 1682, e ex-secretario da Provincia de S. Paulo.

Emygdio José Ribeiro. Bahiano, filho de Simplício José Ribeiro.

Intelligencia regular e regular applicação.

Foi juiz municipal na Provincia do Espirito Santo, e depois na do Rio de Janeiro, do termo de Nova Friburgo.

Mudou-se depois, em 1849, para a comarca do Pirahy, onde exerceu a advocacia e foi verea- dor em 1853 ; dalli passou-se para a Barra Mansa, onde foi advogado e gosou de geral estima.

Flaminio António do Nascimento Lessa. Paulista, desta capital, filho do tenente de milí- cias Manuel Gonçalves Lessa.

Intelligente e regularmente applicado. Desde os bancos académicos, começou a luctarpelavida, pois a fim de 23rover-se dos necessários recursos, para os seus estudos, dava aulas de preparató- rios, na casa que ainda existe, n.° 32 ou 34 da rua da Boa Vista, chamada antigamente «Casa das Veigas».

52 A ACADEMIA DE S. PAULO

Foi juiz municipal em Guaratinguetá logo no anno immediato ao da sua formatura; depu- tado á Assembléa Provincial de S. Paulo nos biennios de 1848-49; 1858-59 e 1860-61; e á As- sembléa Geral no quatriennio de 1861-64.

Teve ardentes polemicas pela imprensa, e foi victima da musa humorística dos seus adver- sários.

O proj)rio dr. João Mendes de Almeida con- tra elle compoz uma versalhada satyrica, coisa então muito ao sabor da época, nas polemicas partidárias. Eis uma pequena amostra:

. . . Por achar a porta aberta Nas arcadas penetrou, A cata de um pergaminho Que humildemente impetrou.

Tantas vezes foi ao Curso, Tantas vezes entrou, Que um dia o Carlos Godinho Bacharel o despachou.

Foi assim que o tal pançudo. Tendo por sorte a tripeça, Por fado ou destino seu, Assignou-se Doutor Lessa.

Este Godinho a quem se refere o poeta era, então, o porteiro da Academia.

Não obstante a malevolencia destes epigram- mas exclusivamente inspirados pelo preconceito

TRADIÇÕES B REMINISCÊNCIAS 63

partidário, o dr. Flaminio Lessa assignalou-se não somente pelo seu merecimento intellectual, como pela nobreza dos seus sentimentos ; e sem- pre gosou da estima dos seus concidadãos.

Falleceu em Guaratinguetá no anno de 1877, mais ou menos, deixando regular fortuna. Legou por testamento ao governo provincial o prédio em que residia e onde está hoje installado o Grupo Escolar Flaminio Lessa, assim denominado, em justa homenagem ao generoso instituidor. E descendente em linha recta do dr. Flaminio ' Lessa o cónego António Augusto Lessa, thesou- reiro mór da Cathedral desta diocese.

Francisco Soares Bernardes de Gouvêa. Mineiro, filho de Luiz Soares Bernardes de Gouvêa. Estudante distincto pelo talento e pela applicação.

Foi promotor publico de Itaborahy, juiz de orphams em Campos em 1846, juiz de direito em 1850.

Teve também a investidura de mandatos políticos, quaes o de deputado á Assembléa Pro- vincial do Rio de Janeiro, no biennio de 1850-51, e o de deputado geral por Minas á 9.^ legisla- tura.

Da carreira judiciaria subiu ao pináculo, pois chegou á curúl de ministro do Supremo Tribunal de Justiça.

E auctor de apreciados trabalhos juridi-

54 A ACADEMIA DE S. PAULO

COS, especialmente sobre processo civil e crimi- nal.

Francisco Xavier de Barros. Goyano, fi- lho de outro de egual nome.

Foi juiz municipal do termo de Santos em 1845. Condecorado com o grau de cavalleiro da Ordem de Cliristo em 1846. Falleceu em 1849.

Frederico Augusto Xavier de Britto. Fluminense, filho de Henrique Isidro Xavier de Britto.

Alto, robusto, grande, hombros largos, claro, cabellos castanhos, barba rapada.

Chamavam-lhe o Bríttão^ e calhava bem o appellido.

Era bom estudante, dos primeiros do anno.

Seguiu a carreira da magistratura, com al- gumas interrupções motivadas pelo exercicio de cargos políticos ou administrativos.

Promotor publico de Nictheroy em 1848; deputado á Assembléa Provincial do Eio em 1850; juiz de direito em 1853; chefe de policia de Sergipe em 1854.

Em 1872 voltou á actividade politica, e, sus- tentado pelo conselheiro Sayão Lobato, foi eleito deputado á Assembléa Geral pelo 4.° districto do Rio de Janeiro.

Na eleição senatorial, que se realizou em fevereiro de 1873 na Provinda do Eio, em poriodo

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 55

de efíervescencia da questão do elemento servil, fez elle parte da lista triplice governista, que ficou assim organizada:

Teixeira Júnior 1.208 votos

Xavier de Britto 1.000 »

Diogo Teixeira de Macedo 868 »

Foi escolhido Teixeira Júnior.

Na carreira judiciaria, alcançou o dr. Xavier de Britto os logares de desembargador da Rela- ção de S. Paulo, da do E,io de Janeiro, e de ministro do Supremo Tribunal.

Jacintho José Coelho. Catharinense, filho de Joaquim José Coelho.

Exerceu primeiramente cargos de magistra- tura, como sejam os de promotor publico de Vassouras, juiz municipal de Pirahy, na Provin- cia do Rio de Janeiro ; e de Itape-mirim, na Pro- vincia do Espirito Santo. Mudou-se depois para Cabo Frio, onde foi vereador, e dedicou-se á advocacia.

Não temos sobre elle outras informações.

JoAO DE Azevedo Carneiro Maia. Flumi- nense, de Rezende; filho de Bento Carneiro Maia. Altura pouco superior á mediana, complei- ção regular, claro, louro, feições delicadas e phy- sionomia intelligente.

56 A ACADEMIA DE S. PAULO

E era, effectivamente, dotado de superior talento, extraordinariamente apto para todas as applicações intellectuaes, quer literárias, quer scientificas.

Todavia, certo acanhamento congénito não lhe permittia o exercicio da oratória.

Salvo esta excepção, em tudo o mais pri- mava, a saber, como jurisconsulto, sociólogo, jornalista, critico e poeta, poeta lyrico principal- mente.

Delle conhecemos producções poéticas d( subido valor, que sobretudo se recommendam pela originalidade da invenção, pela correcção da forma e pela delicadeza do sentimento.

Quanto sentimos não tel-as á mão, para que as pudesse o leitor apreciar.

Primava elle também no epigramma, género este que principalmente cultivou na sua quadra académica, segundo informa o Parnaso Acade* mico, do dr. Paulo do Valle.

Dessa collecção extrahimos o seguinte so neto, eivado de mordacidade, e cujo sal mais poderia apreciar quem conhecesse a victima da desapiedada satyra (lente, estudante ou futri ca'í):

SONETO

Haro aborto de horrenda catadura! Magriço, macambúzio e dereugado. Olhar sombrio, rosto dosí^arnado, Nojento corpo, exótica íigura.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 57

Enchafurdado em larga vestidura, Longo jaleco sujo, entabacado, Farfalhudo casaco esverdinhado Co'a enorme gola podre de gordura.

Tremendo béque em jorros destilando

O vil fermento de fétido esturro,

E o porco mel á bocca escorregando.

Ahi tens Burromeu, esse casmurro,

Philosophando só, ruminando

Em Kant, em Jouffroy, mas sempre burro.

S. Paulo, 1843.

A obra capital do dr. João Maia é uma no- tável e estimadíssima monograpliia sobre o Mu- nicipioy conscienciosamente estudada, e na qual, de principio a fim, domina um pensamento vigo- roso de são liberalismo.

Advogado em Rezende e por algum tempo fazendeiro no vizinbo município do Bananal, onde se casara com uma filha do commendador Lu- ciano de Almeida, o dr. João Maia foi eleito, em 1858, deputado á Assembléa Provincial de S. Paulo.

Não veiu, porém, tomar assento nem no I primeiro nem no segundo anno do biennio.

Teve, para isso, um obstáculo muito real a sua doença imaginaria.

Nada conhecemos de mais real que uma mo-

58 A ACADEMIA DE S. PAULO

lestia imaginaria. Quem se julga enfermo, está de facto enfermo.

Com o dr. Maia assim acontecia.

Pois se até chegava a medicar-se para. . . prevenir moléstias! Na sala em que estivesse haviam não somente de se conservar fechadas todas as janellas, como também cuidadosamente tapadas as menores frestas por onde pudesse pe- netrar o ar exterior. Extranha noção de hygiene !

Elle mesmo, além desse cuidado, ainda se agasalhava com sobretudo, foulards, cache-nez, sapatos com forro de lã, etc, etc.

As vezes, não obstante, esquecia-se de todas estas cautellas.

Dava-se isto quando se tratava de alguma caçada.

Pois, é verdade ! Esse íino literato e scien- tista, tão impressionado com a oppressão de mo- léstias que não tinha e o receio de outras de que não estava ameaçado . . . era falar-se-lhe em caçada, esquecia-se de todos esses males e pavo- res imaginários, e eil-o a cavallo ou a pé, de caminho para montes e valles, através de cam- pos e mattas, de espingarda ao liombro, polva- rinho e mais petrechos a tiracollo, a canzoada impaciente, a precedel-o, os companheiros a acom- panhal-o ... E ia a desfazer-se, insensivelmente, um a um, dos seus pannos de agasalho. Fazia então todas as extravagâncias, praticava todos

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 59

IS excessos habituaes ás diversões cynegeti- as.

Aconteceu, uma feita, que numa dessas ex- íursões foi surprehendido por uma tempestade, )m ponto em que não se encontrava abrigo.

Voltou á cidade, contrariado principalmente )eIo mallogro da caçada.

Uma idéa triste suggere outra. Lembrou-se, )or isso, do catalogo de moléstias que o acabru- ihavam, e então disse, ao despedir-se dos seus lompanheiros :

Não resisto aos desastres de hoje. Estou Qolhado até á medula dos ossos. Isto ó dizer [ue estou morto . . . Amanhã vocês venham ao aeu enterro.

Com tal convicção foram proferidas estas )alavras, que os companheiros se impressiona- am, e, de facto, voltaram no dia seguinte a inda- rar da saúde do dr. Maia.

Nunca tinha passado tão bem. Estava rijo e lao como um pêro.

Dotado de vasta e variada cultura literária, ) além d'isso de trato amabilissimo, o dr. João liíaia tinha uma conversa instructiva e attra- lente.

Falleceu ha quatro annos, na cidade de Re- zende.

Era pae dos drs. Adolpho Maia e João Maia, 3 sogro dos srs. Gustavo Pacca, Virgilio Bar-

60 A ACADEMIA DE S. PAULO

bosa, César Torres, Augusto Leite e do coronel Luiz Pereira Leite.

Joaquim Floriano de Araújo Cintra. Paulista, natural de Atibaia, filho de Jacintho José de Araújo Cintra.

Logo no anno subsequente ao da sua for- matura, foi nomeado juiz municipal de Atibaia.

Em 18-Í7 foi eleito deputado á Assembléa Provincial de S. Paulo para o biennio de 1848-49.

Mudou-se depois para a Penha de Mogy-I mirim (hoje Itapira), onde exerceu o cargo de delegado de policia e foi eleito vereador.

José Augusto Pereira. Paulista, de San- tos; filho de Salvador de Jesus Pereira.

Falleceu logo no anno posterior ao da sua formatura. '

Luiz Soares Gouvêa e Horta. Mineiro, fiiho de outro de egual nome. Era natural da ci- dade da Campanha.

Em 1846, foi nomeado juiz municipal desse] mesmo termo.

Condecorado com o grau de cavalleiro dai Ordem de Christo em 1849.

Foi eleito deputado á Assembléa Geral por Minas á 8.* o 9.^ legislaturas. ,

E' fallecido desde muito, na sua cidade na-l tal, deixando numerosa descendência.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 61

Rufino Theotonio Segurado. Goy ano, fi- lho de Joaquim Theotonio Segurado.

Pouco após a formatura, vencido apenas o prazo legal, foi nomeado juiz municipal na sua Provincia natal, e, findo o quatriennio, juiz de direito, na mesma.

Foi deputado á Assembléa Provincial de Goyaz.

Em 1848, viajou em commissão do governo pelos rios Araguaya e Tocantins, de Goyaz até ;io Pará, viagem essa que posteriormente repeti- ram em épocas diversas os presidentes Couto de Magalhães e Leite Moraes, e que ambos descre- veram com cores tão impressionistas e em pagi- inas palpitantes da mais intensa emoção.

i

CAPITULO III

í (urma^academíca de 184145

FARTE PRI/AEIRA

Feição revolucionaria da época. Atmosphera tempestuosa. Preponderância da mocidade académica. Um lente delegado de policia. Conflicto com o presidente da Província. A pro- hibiçao de tossir. Dois estudantes na enxovia. A Academia quasi toda na cadeia. O numero dos presos. Extranho la- conismo do director da Faculdade. Solidariedade académi- ca. — Adhesão de um lente. Ruidosa alegria dos encarcera- dos. — Os presos de baixo aos de cima. O hymno da prisão. Requerimento gaiato. Explicação de alguns pontos. O desenlace. Reacção projectada. Documentos públicos. Ofíicio ao presidente. Reparos que elle suggere. Ingénua informação do carcereiro. O processo. Nota da culpa. Auto de qualificação. Nomes omittidos. Planos do presi- dente. — Resposta do bispo. A do governador do bispado. A do vigário de Santa Iphigenia. A do do Braz. A do cura da Sé. Outras respostas ao inquérito presidencial. Feste- jos académicos pela demissão e partida do presidente. Ver- sos em moda, cantados ao violão. Perdeu-se a musica do acompanhamento.

A.

s datas extremas, que ahi ficam inscriptas, abrangem um período de convulsões politicas nesta provincia e na sua capital.

A effervescencia do ambiente social havia forçosamente de influenciar sobre o espirito da mocidade académica.

64

A ACADEMIA DE S. PAULO

As ondas encapelladas de 1842 não succedeu immediata calmaria ; a emoção, ao menos, pro- duzida pelos graves acontecimentos que a histo- ria pátria registra, perdurou ainda por algum tempo no animo popular.

Nada de admirar, portanto, em que, a exem- plo dos seus pães, dos seus mestres e dos seus concidadãos maiores, os estudantes de então fossem egualmente dominados pelas suggestões do espirito revolucionário, que pairava naquella época na atmospliera do Brasil.

Assim, os annos de 1842 e 1843 assignala- ram-se em S. Paulo por mais de uma contenda entre os académicos da nossa Faculdade e ora o presidente de Provincia, ora a policia, ora as auctoridades ecclesiasticas.

Nesses embates teriam os rapazes alguma parcella de razão? Ou é verdade, como preten- diam os seus antagonistas, que caminhava a ar- raigar-se e a tomar-se endémico na Academia o espirito de indisciplina?

Não diremos que assista á mocidade o di- reito de ser imprudente ; mas uma excusa, nesses casos, quem lhe poderá negar? Entretanto, aos depositários do poder, aos representantes de au- ctoridade civil ou ecclesiastica, a prudência, a moderação, a sabedoria, são mais do que virtu- des administrativas, são dever do cargo, consti- tuem mesmo impreterível obrigação.

E' provável, pois, que nos conflictos, então

thadiçSes e reminiscências 65

jliavidos, a nenhuma das partes contendoras cou- besse toda a razão ou exclusivamente fossem im- putáveis todos os desacertos. Culpados, sobre- tudo, foram os tempos, e o factor principal daquelias agitações era o espirito de revolta que ^tava no ambiente moral e impregnava o ar que so respirava.

S. Paulo era ainda uma pequena cidade, na- quella época; a sua população não excedia de 15.000 almas. Nella, portanto, deveriam avultar consideravelmente as oito ou dez dezenas de aca- démicos que então aqui existiam. Se não era

i avultado este contingente, não deixava, ainda as- sim, de constituir intenso foco de intellectuali-

I dade naquelle meio atrazado, e poderoso ele- mento de acção, de impulso, e de agitação, numa sociedade em que se approximava dos nove de- ( imos da população o numero dos analphabetos, ou quasi analphabetos.

Preponderava, por isso, e durante longos an-

i nos continuou a preponderar no movimento in-

i tellectual e a influenciar na vida económica da

] Paulicéa a mocidade da Academia.

I Aquella preponderância e este influxo fo-

; ram sempre benéficos á evolução progressiva da nossa Paulicéa; e somente, de longe em longe, no tempo, trouxeram momentâneas e superfi-

i ciaes perturbações que interromperam a norma- lidade monótona da cidade, com escândalo, se-

66 A ACADEMIA DE S. PAULO

gundo o prisma policial, mas mera diversão para o povo.

Para o eíFeito de prevenir incidentes dessa natureza, e confiando antes na força moral da auctoridade que nos meios repressivos, aliás de- :ficientissimos, de que dispunha, o governo da Provincia investiu por muito tempo das funcções de delegado de policia desta capital um lente da Academia, o conselheiro Furtado.

Amigo dos rapazes, dispensando-lhes atten- ções e trato affavel, fechando os olhos ante as estroinices mais ou menos veniaes de um ou de outro, foi elle durante largos annos o delegado que convinha a esta cidade. Contava como infal- livel ponto de apoio o auxilio incondicional do 5.° anno ; e dispunha, consequentemente, de um iactor quasi decisivo em todas as deliberações académicas.

Foi por essa consideração que o conselheiro Furtado se manteve por longo periodo na dele- gacia de policia de S. Paulo. A despeito das al- ternações dos partidos no governo, era elle, por assim dizer, o delegado de policia de todas as situações, auctoridade perpetua, e considerada a única possivel, indispensável para manter a or- dem na antiga Paulicéa.

Traz-nos á memoria as considerações que ahi ficam um episodio occorrido no anno de 184h3, o do (jual Ibram protagonistas alguns es-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 67

tudantes da turma a que se refere a nossa epi- graphe.

Teve origem o facto no velho theatrinho en- tão existente no Páteo do Collegio (hoje largo do Palácio), na noite de 15 de junho do anno supra referido.

Estava presente ao espectáculo, no cama- rote de honra, o presidente da Província.

Representava-se um drama da escola antiga, intitulado a Os salteadores da Saxonia». Ignora- mos o auctor, e bem assim o infallivel siih-titído, pois não se conhece dramalhão sem sub-titulo.

Em certo ponto da representação deram-se tiros no fundo do scenario (socegue o leitor. . . isto era da peça), por detraz dos bastidores, íi- gurando-se um assalto aos viandantes.

A fumaça da pólvora veiu até á platéa, repleta de espectadores ; e um destes, ou por movimento natural, ou por espirito de gracejo, tossiu, um outro também tossiu, e mais outro, o mais outro ... A tosse tornou-se communi- cativa e foi quasi geral, perturbando o espe- ctáculo.

Suggestão, contagio, impressão nervosa ou troça de estudantes?

r

E provável que um pouco de cada coisa.

O presidente da Província, coronel Joaquim José Luiz de Souza, chegando á frente do seu camarote, começou a advertir o publico a que se aquietasse, a fim de poder o espectáculo prose-

68 A ACADEMIA DE S. PAULO

giiir. Da platéa levantou-se então um estudante, emquanto falava o presidente, e. . . tossiu.

Num Ímpeto de cólera, ordenou o presidente á guarda do theatro que prendesse o imprudente tossidor; e foi mais imprudente ainda, pois per- deu a compostura do cargo, ao ponto de enun- ciar-se nestes termos triviaes :

Prendam esse patife que está tossindo !

O delegado de policia em exercicio, dr. João Carlos da Silva Telles, que chegava então ao theatro, mandou de prompto eífectuar a prisão ordenada pelo presidente.

Quem havia tossido . . . contra o presidente fora o José Caetano de Andrade Pinto, mas quem se apresentou como responsável e se poz a tossir mais forte, desde a ameaça presidencial, passou a ser o estudante Martim Francisco, en- tão terceiro-annista.

Penetraram os soldados na platéa e a este ultimo se dirigiram, attrahidos pela pertinácia da sua tosse provocadora.

Nessa occasião, outro estudante, Tristão da Cunha Menezes (*), collocou-se ao lado do Martim Francisco e oppoz-se materialmente á prisão do collega. Produziu-se grande alvoroço e vieram á

(') Natural <la Bahia, filho do VÍBcondo ilo Rio Vermelho. Nfto ■o formou em S. Paulo.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 69

platéa o presidente, o delegado de policia e nu- merosos guardas, retirando-se, ao contrario, do theatro, vários espectadores da platéa e todas as familias que occupavam os camarotes.

Foram presos, por fim, os dois estudantes Martim e Tristão, e conduzidos á cadeia.

Espalhando-se logo a noticia de terem sido aquelles moços recolhidos á enxovia, os estu- dantes, que em grande numero assistiam ao es- pectáculo, reuniram-se no saguão do theatro e em frente ao mesmo, no largo, e ahi, em altas vozes, e em termos violentamente aggressivos ao presidente e ao delegado de policia, protes- tavam contra as prisões effectuadas e reclamavam a immediata soltura dos seus collegas.

Não foram attendidos. Redobraram então as reclamações, cada vez mais enérgicas e insul- tuosas, até que o delegado de policia intimou a dispersão do grupo, sob pena de serem presos como sediciosos todos os reclamantes.

A esta intimação responderam os estudantes que era aquillo mesmo o que desejavam; que, não sendo postos em liberdade os seus collegas, queriam ir-lhes fazer companhia na prisão.

Sentenciou então o delegado :

Quem quizer, para a cadeia !

E os estudantes, com o alvoroço próprio da edade, bradaram em coro:

Pois vamos ! Vamos todos para a cadeia !

70 A ACADEMIA DE S. PAULO

Em acto continuo, seguiram em desfilada, entoando a Marselheza^, e apresentaram-se no edi- ficio da Camará Municipal, em cujo pavimento inferior estava a cadeia. (*)

AUi chegados, foram recolhidos á sala su- perior do mesmo edifício e fechada logo a porta de entrada.

Pela manhã seguinte, diz o nosso respeitável informante, (^) contaram-se na dieta sala 72 estu- dantes alli recolhidos.

Temos sobre estes algarismos as seguintes duvidas :

Em primeiro logar, um officio do carcereiro ao delegado de policia, que adeante daremos, declara que eram 39 os estudantes presos, em- bora accrescente : «é o que se poude contar».

Em segundo logar, estavam em 1843 matri- culados na Academia apenas cerca de 80 estu- dantes. E' inverosímil, portanto, que somente pouco mais de meia dúzia tivesse deixado de comparecer ao theatro na noite de 15 de junho, e, assim, somente este reduzido numero conser- vasse a liberdade. Poder-se-á responder que dos

(') É o actual edifício do CongreBso do Esfado. Foi adaptado Bob a presidência do dr. Sebastião Josó Pereira para o paço da As- semblóa Provincial, em 1876.

(*) Supponios iiílo haver indiscrevflo em declarar que quem nos minÍHtrou tilo interessantes informações foi o nosso respeitável amigo, ex."'° conselheiro Trisifto de Alencar Ararepe.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 71

72 recolhidos á prisão comprehendiam-se estu- dantes de preparatórios.

Dos autos de um processo de habeas-corpus , que consultámos, pertencente ao archivo particu- lar do dr. Leão Bourroul, parece que o numero dos detidos foi apenas 28.

Nesta confusão, suppomos que, de facto, aquelle numero variou do primeiro ao ultimo dia, ou pela soltura, sem forma legal, de alguns, ou pela evasão, tolerada pelo carcereiro, por instrucções talvez do próprio delegado de poli- cia. A respeito da difficuldade de organizar a relação dos presos, diz o carcereiro numa con- sulta que dirige ao delegado e consta dos autos :

« . . .Não fiz os assentos necessários porque, indagando dos dictos estudantes que se acham presos, nem um quiz contar o seu nome pró- prio ; unicamente pude contar quantos se acha- vam presos, e, como elles não quizeram decla- rar os seus nomes próprios, eu logo participei a V. S.^ para que me determinasse o que fosse ser- vido e de direito, o que até ao presente não sei o que deva fazer e como não se pode tirar os nomes delles por motivo que os barulhos são muitos e que não se pode chegar ao xadrez : ó o que tenho a informar, etc.»

Em confirmação desses algarismos, encontrá- mos no archivo da Faculdade o seguinte officio, curioso por seu laconismo :

«111.'"^ Ex.'"^ Sr. Tenho o prazer e a honra

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A ACADEMIA DE S. PAULO

de levar ao conhecimento de S. M. I., por inter- médio de V. ex.*, que os trabalhos da Academia nào teem soffrido a menor alteração; e que nella reina a melhor ordem possível. Na noite de 15 do corrente mez, foram presos no theatro desta cidade trinta e tantos estudantes. Segundo as informações que tenho tirado, nada mais houve do que objecto de policia.

Aproveito esta occasião para participar a V. ex.^ que o meu estado de saúde me obriga a largar a directoria no dia 1.° do próximo mez; vou principiar a gosar de uma licença que tenho de três mezes.

Deus Guarde, etc. S. Paulo, 20 de Junho de 1843. ni.'"^ Ex.'"« Sr. José António da Silva Maia, Ministro e Secretario de Estado dos Ne- gócios do Império. José Maria de Avellar Bro- tero. Director Interino.»

Reatemos, porém, o fio da narração, fiel ás preciosas notas que nos foram communicadas.

Logo pela manhã do dia 16, os estudantes que estavam na grande sala do pavimento supe- rior pediram que para alli também viessem os dois collegas mettidos na enxovia. Deferida esta reclamação, poucos minutos depois, foi aberta a porta da sala e nella penetraram o Martim Francisco e o Cunha Menezes, que tiveram dos collegas alegre e estrepitosa recepção.

Comparecendo pessoalmente o delegado de policia em exercicio o juiz municipal eífectivo,

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 73

declarou que os estudantes que alli haviam sido recolhidos na véspera á noite podiam livremente sahir, ficando, porém, detidos os dois presos na platéa do theatro.

Contra estas palavras protestaram todos os indultados, declarando que sahiriam com os seus dois collegas que acabavam de vir da en- xovia.

Pois neste caso replicou o dr. João Tel- les — quem não sahir, será considerado como preso ; concedo-lhes uma hora para reflectirem.

A hora de reflexão não lhes alterou o firme propósito : ninguém sahiu.

Mais tarde, veiu visitar os estudantes o lente do 5.° anno, dr. Silveira da Motta. Depois de os ter ouvido, tomou o partido dos moços, consti- tniu-se advogado delles e tratou de requerer hábeas-corpus .

Este foi propositalmente protellado, até que, por fim, ao cabo de onze dias, teve de ser con- cedida a impetrada ordem de soltura.

O juiz de direito, que tomou conhecimento da petição de haheas-corpus e concedeu afinal a impetrada ordem, foi o dr. Carlos António de Bulhões Ribeiro, formado em 1833.

Perceberam os rapazes que toda aquella demora outro intuito não tinha a não ser o de vexal-os com prolongamento da reclusão. Esfor-

74 A ACADEMIA DE S. PAULO

çaram-se, por isso, em não dar o braço a torcer, 6, assim, manifestaram sempre, durante todo o tempo da prisão, muito e ruidoso regosijo ; du- rante o dia assobiavam, declamavam, cantavam, dançavam, faziam gymnastica, exercicios milita- res, etc, e, á noite, além dos mesmos exercicios, soltavam bichas, rodinhas e pistolões.

Era tal a algazarra que, em certa occasião, os presos existentes no pavimento térreo do edi- fício mandaram aos estudantes, em meia folha de papel, esta engraçada missiva:

«Os presos de baixo pedem aos presos de cima moderação na sua alegria, pois a bulha os incommoda bastante. E. E. D. da sua humilde supplica. »

O requerimento foi deferido, e o barulho diminuiu.

Imaginaram os estudantes manifestações de outra ordem para convencerem ao presidente da Província e ao delegado de policia de que os não apoquentava a prisão, e que alli mesmo se divertiam.

Assim, um poeta compoz logo um espiri- tuoso hymno, cujo estribilho era este:

Debalde feroz vingança Caprichosa quiz mandar, Estudantes nào stí curviím, Sabem honra conaervar !

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 75

Este hymno era cantado, mas, como não liavia na prisão instrumentos musicaes para o acompanhamento, foi endereçado ao delegado de policia um requerimento assim concebido :

«Sr. delegado de policia: Os estudantes pre- sos na cadeia desta cidade, para maior diverti- mento seu, pedem permissão para receber vio- lões, rabecas, guitarras e outros instrumentos musicaes. Nestes termos E. E. E». M.»

Deste jaez faziam-se repetidos requerimen- tos, todos collectivos e anonymos, e cujo des- pacho não era procurado, sendo, porém, o teor delles assas divulgado pela cidade, que ge- ralmente sympathisava com a causa dos estu- dantes.

Era esta a summa de um dos taes requeri- mentos :

IHustre heróe de Panellas ! Diz o João Alma de Gato, Qu'indo caçar pelo matto, Em procura das gazellas, No tijuco se atolou ; E deste passo galante Ao pobre do supplicante Um grande mal resultou ; Pois, ficando indefluxado E não podendo tossir Sem que logo cahir Em o vosso desagrado, Humilde vos vem pedir Que, attenta a constipação, A licença se lhe dê. E receberá mercê.

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A ACADEMIA DE S. PAULO

DESPACHO

Pode tossir, Mas com cuidado; Quando eu falar, Grite : apoiado !

Joaquim José Lviz, Senhor do seu nariz.

Este requerimento, escripto por um estu- dante, foi remettido ao presidente da Provinda com segurança de entrega.

Algumas notas sobre diversos pontos destes versos :

O presidente, coronel Joaquim José Luiz de Souza, tinha por alcunha O heroe de Paiiellas --porque, como militar, servira na guerra qu( em Panellas teve a sua terminação.

Pelo appellido de Alma de Gato, era co aihecido o então delegado de policia e juiz muni- cipal, dr. João Carlos da Silva Telles, formadc cm 1834 e que por longos annos foi secretarie (la Provincia.

«E não podendo tossir» allude ao comece do barulho no theatro, na occasião em que c j residente, do seu camarote, gritou :

«Prendam esse patife, que está tossindo!»

«Grite: apoiado!» O poeta faz allusão aos apoiados que da platéa davam ao presidente, (juando falava para os espectadores, apoiadoR iro nicos que pareciam exaltar o orador, a quem c

I

TRADIÇÕES E BEMINT8CENCIA8 77

publico assim debicava sem que elle se aperce- besse.

A ordem de soltura, como dissemos, foi re- tardada pelo processo do haheas-corpus , e os es- tudantes, ao sahirem da prisão, desfilaram pela rua de S. Gonçalo (mais tarde do Imperador, hoje do Marechal Deodoro), onde, e nas outras do seu trajecto, foram cobertos de flores, sobre elles atiradas das janellas por damas e senhori- tas das mais distinctas famílias.

Tal foi o êxito dessa estudantada na cidade de S. Paulo, em 1843.

Termina assim a narração, que quasi literal- mente reproduzimos de graciosa missiva com que fomos obsequiado.

Consultando sobre o mesmo objecto velhos documentos de repartições publicas, encontrámos no Archivo do Estado e no cartório do tenente- coronel Ludgero de Castro alguns esclarecimen- tos mais sobre o interessante episodio.

Suppomos que os nossos leitores terão, como tivemos, certo prazer com a leitura dessas peças officiaes. Vamos, nessa persuasão, reprodu- zir textualmente algumas delias.

Comecemos por um officio do dr. Silva Tel- les ao presidente da Província:

«Iil.'"° Ex.'"° Sr. Tendo recebido a portaria

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A ACADEMIA DE S. PAULO

de V. ex.^ em data de 17 do corrente, em que me ordena informe os excessos commettidos poi alguns estudantes no Theatro Publico desta ci- dade em a noite de 15 deste mez, ao mesmo tempo remetta uma lista dos que por tal motivo foram presos, cumpre-me responder a v. ex.' que motivos particulares tendo-me impedido de comparecer no theatro cedo, como era do meu dever, não presenciei os primeiros excessos com- mettidos por alguns estudantes naquelle recinto ; mas, sendo informado de que a platéa se achava tumultuosa, descommedida e turbulenta, imme- diatamente segui para o theatro, e íiz entrar para a platéa quatro soldados, com ordem de fa- zer retirar os que se comportassem menos com- medidamente.

Com esta providencia restabeleceu-se a or- dem na platéa, mas por pouco tempo, e não tar- dou muito que não começassem os amotinadores a perturbar o socego e a ordem, que alli devia reinar, com novos excessos.

Então, vendo eu que o principal causador delles era o estudante Martim Francisco Ribeiro de Andrada Júnior, ordenei a um dos guardas que alli se achava, que o fizesse retirar da pla- téa e como recusasse obstinadamente cumprir esta minha determinação, mandei-o prender e remettel-o íi cadeia. Immediatamente prorompe- ram muitos estudantes em insultos directos ás auctoridades, retiraiido-se da platéa cm acom2)a-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 79

nhamento ao estudante preso e tentando directa- mente tiral-o da escolta, que o conduzia á cadeia, sendo-me ainda necessário fazer prender ao estu- dante Tristão de tal Menezes, que naquella occa- sião mais se distinguiu por suas invectivas contra as mesmas auctoridades. Julgando então haver-se restabelecido o socego e a ordem, voltei para o theatro e ordenei que se continuasse o espectá- culo ; mas sendo logo informado de que no pateo do mesmo theatro achava-se um grupo consi- derável de estudantes que descommedidamente reclamavam a soltura dos dois presos, e conti- nuavam nos mesmos, senão maiores, insultos, mandei-os por três vezes intimar que se disper- sassem, e como sempre obstinadamente o recu- sassem, fiz cbegar a elles a força que alli tinha á minha disposição, e os mandei conduzir presos, com o que ficou perfeitamente restabelecida a ordem no theatro.

Devo ainda dizer a v. ex.^ que, comquanto eu não presenciasse os primeiros excessos com- mettidos na platéa, fui informado de que foram extraordinários, e que até algumas familias re- commendaveis foram alli insultadas.

Sobre os nomes dos estudantes, que mandei prender, remetto por cópia o officio que dirigiu-me o carcereiro sobre esse assumpto ; delle verá V. ex.* que, ainda depois de presos e recolhidos á cadeia, mostraram-se desobedientes.

Finalmente, cumpre-me communicar a v. ex.^

A ACADEMIA DE S. PAULO

que ordenei a formação do processo relativo aos mesmos estudantes pelos factos occorridos. Deus guarde a V. Ex.*. S. Paulo, 20 de ju- nho de 1843.-111."'° e Ex."'° Sr. coronel Joaquim José Luiz de Souza, presidente e commandante das armas desta Província. João Carlos da Silva Telles, juiz municipal e delegado supplente.

A narração constante da petição de haheas- corpus é algo diíferente da versão official, pois naquelle documento lê-se o seguinte:

«Os supplicantes acham-se presos por causa dos acontecimentos que tiveram logar no theatro desta cidade, na noite de 15. O que ahi occorreu V. S.^ viu, e por isso não será preciso fazer uma exposição muito circumstanciada. Tudo se reduz a que os supplicantes se achavam numa platéa que dava pateada por causa da demora do espectá- culo, e á qual o Ex."'° Presidente desta proviucia dirigiu algumas palavras taes que alguns dos sup- plicantes repelliram por sua dignidade, resultando d'ahi que o mesmo Ex."'° Presidente prendeu al- guns dos supplicantes e mandou prender a outros ; e alguns que não estiveram no theatro acham-se presos por visitarem aquelles. Sejam porém quaes- quer que forem os crimes que se tenham empres- tado aos supplicantes para justificar o que nesse acto fez o Ex."'° Presidente, entretanto os sup- plicantes até agora ainda não sabem os motivos de sua jirisão ...»

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 81

Eis agora a informação, assas interessante, do carcereiro, que acompanha o officio supra, o ao qual nos referimos. Vae com a orthogra- phia e a pontuação do original :

«111.""^ sr. Partecipo a v. s.* que são 39 os estudantes, é o que se pode contar, e bem assim nem um delles não querem dar os seus nomes, estão dando errados, e tomando por mangação ; eu com toda a moderação estou procurando saber os nomes delles, porque está um barulho e motim que não se pôde aturar, eu tenho procurado meios de apaziguar a elles. E o que tenho a informar av. s.^, que mandará o que for servido.

Deus guarde av. s.* por muitos annos.

Cadeia em S. Paulo, 16 de junho de 1<S43. 111."**' sr. dr. juiz municipal e delegado de policia. Benedicto António Eloy, carcereiro.

O summario do processo começa por uma portaria do juiz municipal e delegado de policia, cujo teor é, em substancia, o mesmo do seu offi- cio ao presidente da Província, mas termina assim :

«Achando-se, portanto, os estudantes, que á minha ordem foram presos, incursos, além dos arts. 121, 128, 236, 280 e outros do Cod. Penal e art. 7.° da lei de 26 de outubro de 1831, o es- crivão, autuada esta, notifique testemunhas que tenham conhecimento dos factos mencionados, para serem sobre elles inquiridas, notificando

82 A ACADEMIA DE S. PAULO

egualmente o dr. promotor publico para assistir á inquirição das testemunhas do processo. S. Paulo, 19 de junlio de 1843, etc.»

Apresentada no dia 16 a nota constitucional da prisão, os estudantes recusaram-na por ser collectiva, e exigiram que fosse individual, em tantos exemplares quantos eram os presos.

Somente no dia 23, uma semana depois da prisão, começou a formação da culpa, que não seguiu além do auto de qualificação de doze dos indiciados.

Foram estes, nomes todos conhecidos e que posteriormente se assignalaram na vida publica:

Tristão da Cunha Menezes, filho do barão do Rio Vermelho, com 21 annos de edade, na- tural da Bahia;

Francisco Aurélio de Souza Carvalho, filho de Luiz de Souza Carvalho, 21 annos, natural de Paracatú, Minas ;

José de Araújo Brusque, filho do coronel Francisco Vicente Brusque, 17 annos, Rio Grande do Sul;

António da Costa Pinto, fillio de António da Costa Pinto e Silva, 17 annos. Rio de Ja- neiro ;

João Ignacio Silveira da Motta, filho do conselheiro Joaquim Ignacio Silveira da Motta, 19 annos, Bahia ;

TRADIÇÕKS E REMINISCÊNCIAS 83

Ignacio Joaquim Barbosa Filho, filho de outro de egual nome, 20 annos, Rio de Janeiro ;

José Rodrigues Jardim, íilho do finado senador José Rodrigues Jardim, 20 annos, Goyaz ;

Francisco Carlos de Araújo Brusque, filho do coronel Francisco Vicente de Araújo Brusque, 21 annos, Rio Grande do Sul ;

Francisco Soares Bernardes de Gouvêa, filho do finado senador Lúcio Soares Teixeira de Gouvêa, 21 annos, Paracatú;

Martim Francisco Ribeiro de Andrada Júnior, filho do conselheiro Martim Francisco Ribeiro de Andrada, 18 annos, França;

Francisco Octaviano de Almeida Rosa, filho do finado dr. Octaviano Maria da Rosa, 18 annos. Rio de Janeiro ;

Joaquim Augusto do Livramento, filho do capitão Joaquim Luiz do Livramento, 23 annos,

! Desterro.

Alem desses 12 nomes, excluído o de Fran- cisco Brusque, que foi posto em liberdade antes ! dos demais, a petição de habeas-corpus traz as

a sísign aturas destes outros estudantes: 1 João José de Andrade Pinto Júnior

José Caetano de Andrade Pinto

Domingos de Oliveira Maia

Francisco Xavier da Costa Aguiar de An- , drada

António Gonçalves Barbosa da Cunha

84 A ACADEMIA DE S. PAULO

Caetano José de Souza

Francisco Alvares da Silva Campos

Joaquim Floriano de Godoy Júnior

João Guilherme Whibaker

Tristão de Alencar Araripe

Eduardo Olympio Machado

José Pedro Pereira

António Pereira Prestes

Cândido Xavier de Almeida e Souza

Isidro Borges Monteiro

João Silveira de Souza

João da Costa Franco.

O despacho final, concedendo o haheas-corjms^ é do teor seguinte:

«Vistos estes autos, etc. Julgo illegal a de- tenção dos pacientes : porquanto, não mostrando o juiz municipal e delegado de policia desta cidade, em a sua informação a íl. 13, quaes os factos pelos quaes elle considera ter havido ten- tativa de tirada de presos do poder da justiça, o que aliás não declara em a nota de prisão a ii. 9 V. ; consistindo os mais crimes imputados em desobediência e injurias, aos quaes são im- postas penas menores de seis mezes de prisão, segundo os arts. 128, 237 § 2.«, e 238, do Código Penal : estão os pacientes nas circumstancias de se livrarem soltos, na conformidade do art. 179 § 9 da Constituição do Império e leis do processo criminal. Passe-se, portanto, mandado de soltura a favor dos mesmos ; paguem as custas ; e recorro

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 85

para o Tribunal da Relação. S. Paulo, 26 de Junho de 1843. Carlos António de Bulhões Ribeiro. y>

Não podemos conjecturar quaes fossem os planos ulteriores do presidente da Provincia em relação aos estudantes ; mas que elle os tinha, e sinistros, talvez induz a crer um inquérito a que elle mandou proceder sobre os costumes da mo- cidade académica de então e do qual são peças constitutivas as respostas de algumas auctorida- des ecclesiasticas sobre o procedimento dos aca- démicos nas egrejas, por occasião das festividades religiosas.

Eis, primeiramente sobre este ponto, o ofíi- cio do bispo diocesano D. Manuel Joaquim Gon- çalves de Andrade :

111."^° e Ex.'"^ Sr. Para com mais conheci- mento de causa poder responder ao officio de V. ex.^, de 16 deste corrente mez, mandei por intermédio do Pro visor e Vigário Geral informar o Arcediago os Parochos das Freguezias desta Cidade e outras pessoas que estavam, em razão de suas occupações ecclesiasticas, em circumstan- cias de poder saber do comportamento dos estu- dantes por occasião de festividades, e obtive as informações que junto tenho a honra de passar ás mãos de v. ex.*

Eu de minha parte posso asseverar a v. ex.'"^ que, não obstante ficar nas egrejas, quando assisto

86 A ACADEMIA DE S. PAULO

ás festividades, em logar que impossivel he pre- senciar o que se passa no corpo da egreja, tenho observado, ao tempo que por ella passo, que elles mui pouca decência guardam, a pontos de os ter reprehendido por varias vezes, e em diíFerentes épocas, lembrando-me ser a mais próxima Quinta- Feira Santa deste anno, quando dava a Commu- nlião Geral, ao passar o Sacramento por onde estavam, ficaram de e na mesma posição em que antes se achavam, obrigando-me a mandal-os ajoelhar, ou sahir para fora do templo, e assim mesmo não fizeram caso.

E este comportamento he publico, notório nesta cidade, e confio agora, mais do que nunca, em que handem fsícj cessar tantos abusos com- mettidos nos templos por esses indiscretos moços, com o que v. ex.* fará um grande serviço á Religião.

He o que em verdade posso informar a V. ex.^ em resposta ao supracitado ofificio.

Deus Guarde a V. Ex.^ S. Paulo, 20 de Junho de 1843. 111."'^ e Ex.'"^ Sr. Coronel Joa- quim José Luiz de Souza. Presidente desta Provincia. Manoel^ Bispo diocesano.

Resposta do cura da Sé:

«Ex."'° Rev."'° Sr. Ordena-me v. ex.*^ que eu informe sobre o comportamento que, nas solen- nidades religiosas, teem tido alguns estudantes da Academia desta cidade, e para cumprir tal

a

TRADIÇÔKS E REMINISCÊNCIAS 87

dever respondo que a conducta da actual moci- dade nas egrejas he tão escandalosa que afflige ainda aquelles que são indifíerentes á religião.

Factos constantes provam esta verdade.

Não designo estes factos, porque não sei designar as pessoas, porem invoco a v. ex. mesmo, que em todas as vezes que teve occasião de passar por entre os grupos desta mocidade, na cathedral, tem achado, tem tido motivos dignos de reprehensão, e os tem reprehendido ; e se na cathedral e na presença de v. ex.* assim se por- tam, qual será a conducta nas egrejas menores?

He tão sabida, he tão conhecida por todos que com justiça bem se pôde dizer quid adhuc agemus testibus.

He o que posso informar a v. ex.*

Deus Guarde a V. Ex.* por muitos annos.

S. Paulo, 19 de junho de 1843.

Exmo. e Revmo. Sr. Bispo D. Manoel Joa- quim Gonçalves de Andrade. O cura, Manoel da Costa e Almeida, "b

Segue agora a resposta do Chantre, Provi- sor e Vigário Geral do Bispado.

«111.'"° e E,ev."'° Sr. Recebi o ofíicio de v. s.* com data de 17 do coiTcnte, em que me commu- nica de ordem do ex."'° e rev.'"° sr. bispo dioce- sano que informe acerca do officio do ex.°*° sr. presidente da Provincia em data de 16 deste mez, em que exige saber qual o comportamento que

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A ACADEMIA DE S. PAULO

nas solennidades religiosas teem tido alguns in- discretos e dissolutos estudantes da Academia Jurídica desta cidade.

Ao que me cumpre responder que, com bas- tante magua, se observa quasi geralmente pouca decência nos templos e mui pouca attenção ás solennidades religiosas ; todavia, da minha parte não me julgo habilitado para dizer que taes fal- tas de respeito sejam commettidas exclusiva- mente pelos estudantes, que mui poucos conheço, pois que, occupado de ordinário nas funcções a meu cargo, pouco posso applicar-me a distinguir quaes são aquelles que menos attentos se por- tam no templo, podendo comtudo affirmar que, pela desgraça da época em que vivemos, essa falta de respeito aífecta a diversas classes da so- ciedade.

Deus guarde a V. S.^ S. Paulo, 18 de junho de 1843.-111."^° e Eev.'"° Sr. Chantre Lourenço Justiniano Ferreira, Pro visor e Vigário Geral do Bispado. José Gomes d' Almeida, arcediago da da Cathedral.»

Resposta do capellão da egreja da Boa Morte :

«111."'° e Rev.""' Sr. Chantre Provedor do Bis- pado. Cumprindo com a ordem de v. s.*, tenho a informar que, sendo eu capellão da egreja da Boa Morte desta cidade, tão somente para dizer as missas conventuaes, sendo estas ás sete ho-

TRAniçSlCS E REMINISCÊNCIAS 89

ras da manhã, e não concorrendo para ellas es- í udantes da Academia desta cidade, e não sendo eu que assisto ás festividades que alli se fazem, por isso que ellas pertencem ao rev."^° Parocho da Freguezia da ; e nestes termos não posso in- formar coisa alguma em abono ou desabono dos mesmos estudantes. Sobre a notoriedade dos fa- ctos praticados pelos dictos estudantes nos tem- plos, tenho a informar que tenho ouvido dizer que alguns delles não se portam com aquella decência devida, porém, quaes sejam elles não os conheço.

He o que tenho a informar av. s.*

Deus guarde a V. S.^ por muitos annos.

S. Paulo, 19 de junho de 1843.

Ill.'"o e Eev.'"° Sr. Chantre Provedor do Bis- pado, Lourenço Justiniano Ferreira. O padre Joaquim José da Silva.»

Foi a seguinte a informação do vigário do Braz:

«111."^** e E-ev.'"^ Sr. Em cumprimento da portaria de v. ex.^, datada de 17 de junho, para (jue eu informasse sobre o comportamento dos estudantes da Academia desta cidade, tenho a informar a v. ex.* que, não residindo nesta fre- guezia estudante algum, somente por aqui appa- recem nas occasiões das festas parochiaes ; e en- tão seu comportamento he pouco mais ou menos o mesmo da cidade. Comtudo, nada tem aconte- cido de notável ou escandaloso.

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A ACADEMIA DE S. PAi;LO

I

He o que posso informar a v. ex.*, a quem Deus guarde por muitos annos.

Freguezia do Senhor Bom Jesus de Mat- tozinho do Braz, 18 de junho de 1843.

Ex."^° e Rev."^° Sr. O vigário, Joaquim José Rodrigues. y>

Alguns parochos e capellães responderam directamente ao presidente da Provincia, que aos mesmos se dirigira.

Vão em seguida alguns desses officios, infen- sos todos ao procedimento dos estudantes.

Do padre Luiz de Alvarenga:

«111."^° e Ex.'"^ Sr. Tive a honra de receber a portaria de v. ex.^ em data de hoje, em que me ordena informe circumstanciadamente sobre os revoltantes e immoraes successos que foram commettidos na egreja de Santa Iphigenia por alguns estudantes na solennidade do Espirito Santo, que alli teve logar no dia 11 do corrente mez.

Obedecendo á ordem de v. ex.*, passo a in- formar que na véspera da festa, á noite, havendo matinas solennes, um grupo de pessoas na egreja, onde na verdade existiam estudantes, mas total mente ignoro seus nomes, começaram a fazer in decencias conversas e até apresentaram pouc caso á solennidade do templo e á presença do Deus Sacramentado; o que obrigou ao Rev.

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TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 91

Vigário a ir exliortar e pedir toda a decência de- vida. A' vista disto, o mesmo E-ev.'"^ Vigário pe- diu-me requisitasse guardas de policia para no dia seguinte ir conter qualquer outra indecencia ; e isso cumpri.

Mas, em obsequio á verdade, no dia seguinte tudo se conservou em ordem e com todo o res- peito devido.

E' o que posso informar a v. ex.^, a quem Deus guarde por muitos annos. S. Paulo, 16 de junho de 1843.-111."™° e Ex."^° Sr. Joaquim José Luiz de Souza, presidente desta Provincia. O P. Luiz António de Alvarenga. y>

Do vigário de Santa Iphigenia :

«111.'"'^ e Ex.'"° Sr. Em cumprimento á muito respeitável portaria de v. ex.^, de 16 do corrente mez, informo que na occasião de se solennisarem as matinas da festividade do Espirito Santo nesta matriz, alguns jovens que me disseram serem estudantes do Curso Jurídico desta Cidade, cujos nomes ignoro, se encontraram ás grades debaixo do arco cruzeiro sem respeito algum aos actos de nossa santa religião, e com bastante escân- dalo da moral publica, tratando de resto as advertências que eu e mais alguns ecclesiasticos, que se achavam no coro, lhes faziamos.

Isto é o que posso informar a v. ex.^ com aquella verdade que é do nosso dever.

Deus Guarde a V. Ex.*

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A ACADEMIA DE S. PAULO

Freguezia de Santa Ipliigenia, 17 de Junho de 1843. 111."^° e Ex;"« Sr. Coronel Joaquim José Luiz de Souza. D. Presidente desta Província. A^itonio Joaquim da Silva. y)

Não deixa de ser curioso, pelo facto nelle relatado, o seguinte officio, que se encontra por copia, como os precedentes, no Archivo do Estado :

«Em obediência da ordem de v. s.*, tenho a dizer que, no tempo em que existi de vigário na Ordem 3.* de S. Francisco, em 1833 achei dois indivíduos jogando a bola com uma caveira no jazigo da Ordem, em que me distractaram. Não sei se eram estudantes, se não.

Em 1834, entraram alguns moços pela egreja com os chapéos nas mãos e outros na cabeça, mas não posso jurar se eram ou se não eram, pois os não conheci.

He o que se me oíFerece dizer av. s.*

S. Paulo, 19 de junho de 1843.

Francisco José Abranches . y)

A presidência do coronel Joaquim José Luiz de Souza durou de 27 de janeiro a 24 de novem- bro de 1843.

Os estudantes celebraram com festejos < grande foguetaria a data de sua demissão e íize ram conocar cruzes á margem do caminho era toda a extensão da estrada que elle tinha de per

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 93

( orrer desta capital a Santos, quando de retirada (la Provinda.

Estavam então no auge da voga uns versos allusivos á vida académica e que se cantavam ' (»m acompanhamento de violão. (*)

Eram attribuidos, segundo nos informam, a António Augusto de Queiroga, formado em 1834, natural do Serro.

Na chronica relativa á turma académica gra- duada em 1834, daremos a integra dessa compo- sição, cujo titulo é ((A vida do Estudante^) e cuja auctoria tem sido objecto de controvérsia, preten- dendo alguns que taes versos são de Bernardo (íuimarães (o que é manifesto anaclironismo), ou- tios de um irmão do grande poeta mineiro.

A poesia é bastante longa. Damos, por isso, somente algumas estrophes :

A vida do estudante

Triste vida do estudante, Vida triste e desgraçada, Que com a reles mesada Passa misérias. (Ois)

Esperando pelas férias A vêr se pilha dinheiro, Assim passa o anuo inteiro Vida mofina, (his)

(') Sim, porque naquelle tempo nSlo havia de ser avultado na l'aulicéa o numero de pianos. Além disso, os poucos que haveria, nã,o estariam muito ao alcance ilos estudantes e ainda menos nas suas republicas.

94 A ACADEMIA DE S. PAULO

Pois a fome nos ensina A não soíFrer palanfrorio, Que é viver num purgatório, Não ter dinheiro, (bis)

Procura ter companheiro De casa, que vae morar, E então pôde formar

Bolsa minguada, (lis)

Começa pela maçada De aturar os veteranos Que nos tecem mil enganos, E nos desfructam. (bis)

As horas sete se escutam No triste sino tocar, Que nos faz alevantar

Da quente cama. (bis)

A' pressa grita-se á ama Que ponha agua no fogo, E ella vem dizer logo :

Chá 'stá na mesa ! (bis)

Então de gi-avata tesa. Enfiando casacão. No bucho damos co'um pão Mal mastigado, (bis)

Corremos ao mal fadado Convento de Sào Francisco, Ainda correndo risco Da Cciçoada. (bisj

Depois de mal amassada A desfructavel licção, Com os cadernos na mão Corre ás gcraes. (bis)

Então com alcgrcís signaes IiKjuire s(i ha feriado ; Jlcspoiídc o outro agastado : vem o lente ! (bis)

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 95

Elle entra eritrio descontente Para a classe nunca vista ; Puxa o lente pela lista

Oh ! que aperturas ! (bisj

Duram tão cruéis torturas Momentos em que suamos, Emquanto não escutamos : «Senhor fulano (bisj

Concluída a licção do anno, E dos bancos nos erguendo, Pensamos ir fazendo Boa figura. (bisJ

Em casa ninguém atura O modo por que contamos Que ao lente nos encovamos Em um momento. (bisJ

E' de suppôr que o encanto da musica desse a estes versos alguma graça, que a leitura delles mal deixa transparecer. A não ser assim, tivéra- mos que concluir que, para este género poético, as gerações passadas eram dotadas de estômago pouco exigente.

I

CAPITULO IV

& turma académica de 1841-45

SEGUNDA FARTE

Academia acephala.— Os lentes. Os estudantes. Leitão da Cunha.

Guimarães Azambuja. —Ferreira de Abreu. Cândido da Ro- cha. — Eduardo Machado. Francisco Brusque. As cavalhaflns. Apolítica na Academia. Indisposições contra Brusqxae.-Idyl- lio com desenlace trágico. Traços biographicos. Honorato Cidade. Francisco Octaviano. O nosso objectivo. As duas velas. O exame de philosophia. Sic vos non vohis . . . Sua vida publica. O romance de um soneto.— Jofto José Rodrigues. -- Espirito sereno deante da morte. O homem moral. Ribeiro da Luz. Moraes Vieira. Camará Leal. Martim Francisco. Apreciação geral. Dados biographicos. Admirável can.seur. Um peccado literário. Amplamente resgatado. O Martim intimo Precedência disputada. O novo methodo pedagógico.

Perigo da instrucção. Bem digerido. Abolicionista pre-his- torico. A carta a Loboulaye. Orador. Independência de es- pirito. Sempre tolerante e bondoso. Homenagens publicas.

Dictos chistosos.- Tristão Araripe.

Até 4 de fevereiro de 1842, a contar de 8 de março de 1837, foi director da Academia o senador Nicolau Vergueiro.

Daquella data até 1857 vaga se conservou a directoria, por não ter tomado posse o director nomeado, Visconde de Goyana,

98 A ACADEMIA DE S. PAULO

O intervallo quinquennal, portanto, que neste momento nos interessa, corresponde todo elle a um período de acephalia na Faculdade de S. Pau- lo, cuja directoria foi exercida ora por directores interinos de nomeação do presidente da Provin- cia, ora pelo conselheiro Brotero, como o decano da congregação.

Os lentes que preleccionaram para a turma bacharelada em 1845 foram os seguintes :

1.° e 2.^ annos: Direito Natural, Publico e das Gentes Padre Manuel Joaquim;

2.^ anno : Direito Ecclesiastico Padre Ana- cleto ;

3.° e 4.° annos: Direito Civil Padre Vi- cente Pires da Motta; Direito Criminal Dr. Manuel Dias ;

4.° anno: Direito Commercial Dr. Falcão Sénior ;

5.^ anno : Processo Civil, Commercial e Cri- minal— Dr. Silveira da Motta; Economia Poli- tica— Dr. Carneiro de Campos.

Eram lentes substitutos Chrispiniano, Rama- lho, Pedreira e Furtado.

No anno de 1845 (por decreto de 10 de ju- nho) foi também nomeado o dr. Carrão.

Compunha-se apenas do 15 estudantes o 5.« anno de 1845.

Destes, dois defenderam theses e obtiveram

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 99

D grau de doutor; e foram Eduardo Olympio Machado e Martim Francisco Ribeiro de Andrada Júnior.

Também defendeu theses Francisco Carlos de Araújo Brusque ; foi, porém, hlak bolado , se- gundo consta por ter sido um dos cabeças dos distúrbios de 1843, aos quaes nos referimos; mas, em nosso conceito, por outros motivos que adeante havemos de mencionar.

Diminuto embora, numericamente, era notá- vel, pelo talento e pela applicação, o punhado de moços que se bacharelaram em 1845 ; tanto as- sim que quasi todos muito se assignalaram na vida publica.

Passemol-os em resenha, observada a ordem alphabetica.

Ambrósio Leitão da Cunha. Paraense, fi- lho de Gaspar Leitão da Cunha e pae do dr. José Maria Leitão da Cunha, que se doutorou em 1877.

De estatura regular, moreno pallido, barba rapada em colleira. Era essa a moda do tempo, de rigor para os moços, a tal ponto que não ha- via entre os estudantes da Academia dez por cento que usassem o bigode e não fizessem a barba, quando a tivessem, desse feitio. E o mes- mo que hoje se com a vulgaridade dos bigo- dinhos, sem nada mais.

Que paginas interessantes se poderiam es-

100 A ACADEMIA DE 8. PAULO

crever sobre a evolução da barba. . . através dos séculos !

Deixemos, porém, na paz do Senhor as bar- bas e os cabellos, e voltemos ao quinto-annista Leitão da Cunha, de 1845, auspiciosa crysalida do Barão de Mamoré.

Havia feito na Academia de Olinda quasi todo o seu curso jurídico, que em S. Paulo ape- nas veiu completar. Não deixou, por isso, nas arcadas do convento de S. Francisco, nem nesta Paulicéa, tradições que se perpetuassem.

A sua vida publica é repleta de serviços, e numerosos se contam os cargos officiaes por elle desempenhados.

Começou como inspector da thesouraria do Pará, em 1849 ; em 1850 foi juiz municipal de Belém e em 1855 juiz de direito ; pouco depois, chefe de policia.

Teve longa, operosa e brilhante carreira no governo e na politica do paiz.

Alludindo ao numero de commissões admi- nistrativas por elle exercidas, escreve Timon (Eunapio Deiró) na sua 1.^ série dos Estadistas e Parlamentares : «Poucos brasileiros terão, como elle, recebido tantas cartas imperiaes.»

São effectivamente as seguintes as provin- cias que por elle foram administradas: a do Pará, como vice-presidente em exercicio, de 24 de maio a 8 de dezembro de 1858; a da Parahyba, de 4 de junho de 1859 a 14 de abril de 18G0; a de

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Pernambuco, de 23 de abril de 1860 a 29 de abril ie 1861; a do Maranhão, de 13 de junho de 1863 " 1 24 de abril de 1865, e com interrupção, por occasião da sessão legislativa; a da Bahia, de 25 ie novembro de 1866 a 21 de fevereiro de 1867.

Leitão da Cunha representou a sua Provín- cia natal como deputado á Assembléa Geral desde 1850 até 1868, data em que, na vaga de Hercu- lano Ferreira Penna, foi eleito e nomeado sena- dor pelo Amazonas. Com elle faziam parte da lista tríplice o contra-almirante Delamare e Epa- min ondas de Mello.

Esta eleição, porém, foi annullada pelo Se- nado em 3 de julho de 1869.

Em outubro do mesmo anno foi de novo eleito Leitão da Cunha (sendo seus companhei- ros de lista tríplice o cónego Siqueira Mendes e Angelo Thomaz do Amaral), e nomeado senador por carta imperial de 27 de abril de 1870.

De origem conservadora, o deputado Leitão da Cunha, durante o periodo da Liga que depois se transformou em partido progressista, dera o seu apoio politico ao gabinete Zacharias; entre- tanto, subsequentemente, por occasião da ascen- são do partido conservador em 1868, voltou aos antigos arraiaes e sustentou o ministério Itabo- rahy.

Em 1885 fez parte, como ministro do Impé- rio, do gabinete Cotegipe, de 20 de agosto. Gran- des serviços prestou nesse elevado posto, não

102 A ACADEMIA DE S. PAULO

sendo o menos importante o cordão sanitário que estabeleceu nas nossas fronteiras com o Uruguay, e com o qual preservou o Brasil da invasão do cólera morhus^ que assolava aquelle paiz.

Como parlamentar, eis o conceito que, em 1883, a respeito delle externava Timon, no opús- culo ha pouco citado e que nos parece justíssimo :

« Instruído e intelligente, o illustre senador é um espirito pratico, que todavia não desdenha as theorias.

O orador do Amazonas ostenta na tribuna um aspecto insinuante. Os seus gestos são livres ; a voz clara, o estylo dos seus discursos é natural e simples. Não é um rhetorico, ou um advogado a peor espécie de oradores, sempre escallados de longas periphrases. Elle diz o seu pensamento como um homem que tem conscienciosamente reflectido; discute sem declamar.»

António Alves Guimarães Azambuja. Eio- grandense, do E-io Pardo.

Alto, robusto, moreno, olhos e cabellos pre- tos, barba toda, aparada quasi rente, bem apes- soado, bonito moço.

Não tinha a intelligencia viva do seu con- terrâneo Brusque; era, entretanto, intelligente e de regular applicação. Assignalava-se sobretudo pela rectidão de espirito e inflexibilidade de cara- cter.

Foi deputado á Assembléa Provincial do B-io

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Grande e vice-presidente dessa Provinda em 1859.

E fallecido, ha para mais de trinta annos.

António Cândido Ferreira de Abreu.

Paulista, íilho de José Mathias Ferreira de Abreu e irmão do dr. Américo Ferreira de Abreu e do Faustino de Abreu, dos quaes nos temos occu- pado.

O Memorial Paulistano dá-o como deputado á Assembléa Provincial de S. Paulo em 1852 e deputado gerai pelo Paraná á nona legislatura.

Quanto á primeira parte, houve equivoco. O deputado provincial Ferreira de Abreu, do bien- nio de 1852-53, foi o dr. José Mathias Ferreira de Abreu Júnior, formado em 1835 e irmão de António Cândido. Elle foi, egualmente, deputado geral por S. Paulo na nona legislatura. António Cândido exerceu em 1861 o cargo de procurador fiscal da thesouraria do Paraná.

António Cândido da Rocha. Fluminense, de Rezende, filho do abastado commerciante Simão da Rocha Corrêa, por antonomásia Si- mão do Porto, por ter á margem do Parahyba, na cidade de Rezende, um grande armazém, vasto empório para a navegação fluvial então existente entre aquella e outras cidades marginaes do grande rio.

Simão da Rocha era primo -irmã o do sargento-

104 A ACADEMIA DE S. PAULO

mór José líamos Nogueira, fazendeiro no Bana- mal e nosso avô, e de Bento Carneiro Maia, pae do dr. João Maia, auctor do Municipio. Teve elle muitos filhos e filhas, dos qnaes mais se notabi- lizou na vida publica o dr. António Cândido da E/Ocha.

O estudante António Cândido era de esta- tura regular, claro, corado, louro, olhos azues, barba em projecto, quando elle caloiro, e depois, cuidadosamente rapada toda, como prescrevia a moda, com tolerância apenas para uma colleira a emmoldurar o rosto.

Casou-se, ainda quando estudante, na an- tiga e distincta familia paulistana Azevedo.

Intelligente e applicado, enumerava- se du- rante o curso académico entre os bons estudan- tes da sua turma.

Teve depois, na vida publica, uma carreira cheia de serviços, consagrada toda, com poucas interrupções, aos árduos misteres da magistra- tura.

Começou como promotor publico da comarca de Rezende, que comprehendia naquelle tempo os termos de E-ezende, Barra Mansa e Pirahy; foi depois, por muito tempo, juiz municipal em Baependy e Ayuruoca (termos reunidos, naquelle tempo), e depois juiz de direito em varias comar- cas de Minas, como sejam Jaguary, Sapucaliy, Camandocaia, Três Pontas, Alienas.

Nomeado pelo gabinete Itaborahy, occupou

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 105

i presidência da Provincia de S. Paulo, de 1 de ulho de 1869 a 28 de outubro de 1870, e nesse ilto posto deu provas de grande aptidão admi- [listrativa.

Tendo perdido a sua comarca, ficou em dis- ponibilidade por espaço de um anno, até que foi aomeado juiz de direito de Magé, e pouco de- 30Ís de Nictlieroy.

Em 1872, o 12.° districto da Provincia de Minas elegia-o deputado á Assembléa Geral.

Findo o mandato legislativo, o dr. António Cândido da Rocha foi nomeado juiz de direito desta capital, cargo este que deixou para occupar uma cadeira de desembargador da Relação de S. Paulo.

Grave moléstia que o acommetteu obrigou-o em 1880 a deixar o exercicio do cargo, indo pro- curar o restabelecimento da sua saúde no clima sêcco dos sertões do Ceará.

Debalde ! mesmo a morte inclemente o foi ferir no anno de 1882.

I E pae dos drs. Alfredo Rocha, director da Im- Tprensa Nacional, António Rocha, commerciante, e Eugénio Rocha, juiz de direito de Caçapava, e sogro dos drs. José Baptista Pereira e Portu- gal Freixo, e do sr. Ferreira Sampaio, commer- jciante em Sorocaba.

' Eduardo Olympio Machado. Baliiano, fi- lho de António do Rosário da Silva.

106 A ACADEMIA DE S. PAULO

Um estudantão, talvez o primeiro da plêiade, como estudante de Direito.

Depois de nm curso brilhante, propoz-se candidato ao grau de doutor. Defendeu tliese em 1846 e alcançou na defesa a approvação com o grau shnplicíter. Não sabemos a que attribuir esse relativo insuccesso. Faz-se tão rara e tão difficil a approvação plena em defesa de theses !

Teve por algum tempo escriptorio de advo- cacia na Corte, onde mereceu a distinccão de conselheiro do Instituto da Ordem dos Advo- gados.

Em 1848, foi secretario da Provincia do Rio, e pouco após nomeado presidente de Goyaz, cargo do qual tomou posse a 11 de junho de 1849.

No anno seguinte, foi eleito deputado á As- sembléa Geral por Goyaz.

Presidente do Maranhão, de 5 de junho de 1851 a 12 de agosto de 1855, excluidas as inter- rupções correspondentes ao período das sessões legislativas.

Falleceu em S. Luiz do Maranhão a 14 de agosto de 1855.

FiiANCisco Carlos de Araújo Brusque. Riograndense, filho de Francisco Vicente Brus- quo e cunhado do Barão de Jacuhy, o famoso Cliico Pedro, ou o 3Jorinfjiie, da guerra dos Far- rapos.

Era do pequena estatura, magro, moreno,

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 107

olhos pretos e vivos, cabellos pretos, a saber, em sou tempo de estudante; pois que, exactamente, (lie encaneceu depressa, a ponto de, aos quarenta ;innos apenas, estar com o tecto coberto de neve.

Sympathico, sociável, brincador, era em S. Paulo a alma de todas as festas.

Refere a tradição que numa feita, provavel- mente pelo carnaval, disfarçou-se em mulher, e, ( in trages de cigana, metteu-se de gon^a com os magnates da capital e. . . deu sorte!

No dia seguinte era uma boa e ingénua ve- lliinha da Cutia ou da Conceição dos Guarulhos, ((N'ha Tucay) que percorria as casas das principaes familias paulistanas, receitando mezinhas engraça- das para moléstias e achaques mais engraçados ainda.

Noutra occasião, tomou parte numas cavalha- (hiSy no campo dos Curros, divertimentos comme- morativos das guerras peninsulares entre mouros o christãos, e que por muito tempo se celebraram com extraordinário fausto em varias cidades e villas do Brasil. O simulacro das pelejas termi- nava, naturalmente, pela derrota dos mouros, s(>guindo-se então disputados torneios em que os cavalleiros patenteavam a sua elegância e des- treza e o adestramento dos seus corcéis, e execu- tavam evoluções difficeis, apanhando, montados, e a galope, objectos collocados no chão, dando tiros sobre cabeças de turcos e tirando argollinhas, etc, etc. Tudo isto, sob as vistas enthusiasticas de

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108 A ACADEMIA DE S. PAULO

um avultado publico e aos olhos enamorados de bellas e românticas donzellas. O vestuário era de setim azul para os cliristãos, róseo para os mouros, e todo elle bordado a ouro.

Destro cavalleiro, o Brusque fazia prodigios nessas cavalhadas. Todo o povo o admirava e o applaudia, os seus collegas faziam-lhe calorosas ovações, as damas atiravam-lhe flores . . . Era completo o seu triumplio.

Também, a politica, como, aliás, nesse tempo, a toda a Academia, prendia-lhe a attenção e inflammava-lhe os sentimentos civicos.

Basta que nos lembremos, para que nos pareça natural esse facto, que operiodo quinquen- nal que estamos estudando é o que medeia entre 1841 e 1845.

Não se imagine, todavia, que tantas diver- sões desviassem do estudo de Direito os acadé- micos daquelle tempo. Assim, com eífeito, não acontecia; elles eram, em geral, estudiosos, assi- duos ás aulas e dominados pelo nobilissimo esti- mulo de se distinguirem.

Francisco Brusque fez bom curso académico, era tido como estudante talentoso e applicado, mas... (infelizmente ha um mas) mas, iamos dizendo, havia contra elle a prevenção dos lentes carrancas (deixem passar o calão) que não sym- pathizavam com a desenvoltura dos seus modos, o a dos politicos adversos que não levavam a bem o seu exaltamento partidário.

TRADIÇÕRS E REMINISCÊNCIAS lOÍJ

Essa dupla indisposição concorreu, talvez, })ara o desastre da defesa de theses do Brusque.

Concorria talvez para aggravar estes moti- \ (^s outro facto de natureza mais delicada. Vivia (lie conjugalmente, sem a precedência das ben- (•ams da egreja, com uma senhorita filha de con- ceituada familia paulistana. Esta senhorita por lie se apaixonara e esperava, como também o Hrusque, legitimar aquella situação, logo que fosse vencida a opposição dos parentes delle.

O idyllio do estudante teve, porém, trágico desenlace. De regresso ao seu pátrio Rio Grande, o Brusque, fiel ao compromisso, mandou buscar a sua dilecta Olympia. Esta partiu contente, com o paraizo n'alma ! . . . Ia tornar a ver o namorado, ia desposal-o aos olhos de Deus e dos homens . . . Que mais poderia almejar?

Nem mesmo isto, porém, lhe foi concedido : um naufrágio mallogrou a doce esperança, e ella pereceu nas costas de Santa Catharina.

O dr. Francisco Brusque teve escriptorio de advocacia na cidade do Rio Grande e, depois, na de Pelotas, e uma pittoresca estancia no Qua- rahim.

Foi por diversas vezes deputado á Assem- bléa Provincial do Rio Grande do Sul, e depu- tado geral nas 9.% 10.^ 11.% 12.^ e 13.^ legisla- turas; presidente de Santa Catharina em 1859, e do Pará em 1861.

110 A ACADEMIA DE S. PAULO

No ministério Zacharias, do 15 de janeiro de 1864, coube-lhe a pasta da Marinha.

Embora liberal de principios e indefectivel partidário, todavia desde que começou na poli- tica riograndense a crescer o brilho da estrella de Gaspar Martins, que breve se tomou um sol, empallideceu successivamente a do conselheiro Brusque, até que, por íim, em dissidência com o novo chefe, foi por elle vencido e deixado á mar- gem do caminho.

Dispunha de dotes oratórios e era vigoroso jornalista politico.

Falleceu em Pelotas, no anno de 1881, dei- xando numerosa e distincta familia, que elle educara primorosamente.

Seu filho, dr. Francisco Brusque Júnior, foi deputado provincial em 1891, e, durante o go- verno da revolução federalista em 1891, exercia o cargo de juiz de direito em Pelotas.

Francisco Honorato Cidade. Catharinen- se, nascido em 1818, no Desterro, hoje Florianópo- lis; filho de João Francisco Cidade, «o velho Ci- dade r>, que exercia o cargo de thesoureiro da Al- fandega daquelle porto.

De estatura mediana, moreno, pouca barba, cabellos pretos e bastos, olhos pretos também, muito vivos e luzentes; typo acaboclado.

Fez com successo o seu curso de humani- dades no antigo collegio dos jesuitas, então si-

TRADIÇÕES E BEMINISCENCIAS 111

tuado 110 Maito Grosso, pittoresco arrabalde da formosa capital catharinense. Prestou exames de Dreparatorios perante a Directoria da Instrucção Publica, na Corte, e no anno de 1841 matricu- ou-se no curso jurídico em S. Paulo.

Brioso e intelligente, aferrava-se aos livros iurante o anno lectivo ; assim também, ainda se- cundo a boa regra, atirava-se aos folguedos em ma terra natal, no grato periodo das férias, sem- 3re ameno para os estudantes ... e para os entes.

Não faltavam então divertimentos, mormente Dará apaixonado valsista, num meio tradicional- mente sociável, que por derisão se podia de- Qominar Desterro.

Depois de formado, voltou á terra natal a bordo de um bergantim. Desembarcou trajando com apuro, á moda do tempo, casaca de panno, cor de azeitona, com botões amarellos, e calções de setim preto, e trazendo meias de seda pretas e sapatos de polimento, de entrada baixa com íi- vellas de ouro. Completavam o vestuário de gala chapéo armado e espadim. Em elegante latinlia tubular, presa a fitas de seda encarnada, pendia a tiracollo o pergaminho académico, motivo da festa que o aguardava.

Ao seu velho pae, pessoa muito estimada por toda a gente do logar, uniram-se numerosos amigos, quasi todo o povo desterrense, para fa- zer ao novo bacharel festiva recepção.

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A ACADEMIA DE S. PAULO

Accrescenta a chronica local, que nos foi graciosamente communicada, que figuraram no programma das ruidosas festas, como era de ri- gor, lauto banquete e sumptuoso baile no vasto palacete da Praça (nome hodierno) do Barão da Laguna, esquina da Rua João Pinto, vistosa- mente ornamentado para receber a multidão dos manifestantes. (*)

Menciona bisbilhoteira tradição que o lau- reado dançou todas as valsas . . . e mais que hou- vesse ! Foi seu par predilecto a sua gentilissima sobrinha D. Maria Carolina, eximia musicista.

(') Esta é, nos seus traços geraes, a mesma scena do estrepi- toso e ingénuo, mas sincero acolhimento que, em regra, encontram no torrão natal todos os estudantes brasileiros após a conclusflo do seu curso académico. Muita festa, muita musica, muitas flores, fo- guetes e mais foguetes a estrugirem, vivas e aoclamações, discursos, 6, por vezes, alguma lagrima de emoção; depois, banquete, baile e mais discursos, muitos e longos, estes com o competente acompa- nhamento de hips ehurrahs e de apropriadas canções bacliicas. Não fossemos nós latinos ! . . .

Agora, o contraste anglo-saxonico :

Referiu-nos parente nosso, formado nos Estados-Uuidos, que acompanhando em análoga situação um seu collega yankee, que laureado voltava aos pátrios lares, notou a singeleza, a frieza mesmo, do acolliimento por i)arto da fumilia. Nilo passou de um vi- goroso nhake hand do vollio pae, com a seguinte lacónica, ainda (jue expressiva saudação :

You are a gond hny t

Tliank yon resi)ondou lhe o íilbo.

E este breve dialogo su])])riu li't todos os gastos de rhetorica qn« em taes occasiòes sóom fazcsr os nossos patricios com desen- freada prodigalidade.

Em compensação, acerescentou o nosso communicante, jAno dia seguinte o jovon americano eslava lodo entregue ao exercício da ■ua proiiauão. Time. u moncy, pensava oUo.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 113

que mais tarde foi directora do afamado «Colle- gio Cidade».

O dr. Francisco Honorato exerceu cargos judiciaes e administrativos, quaes os de juiz mu- nicipal, em 1853, e mais tarde o de chefe de po- licia de Santa Catharina, e egualmente o man- dato de deputado provincial. Politico extremado e um dos principaes chefes do partido liberal, que se condecorava com a antonomásia de «partido christão» (acoimando os adversários de «judeus»), teve por competidor numa eleição geral o distincto Silveira de Souza, que depois . . . mas então simples bacharel novato.

Ardente foi a contenda, e as satyras do illus- tre poeta e jurisconsulto catharinense não pou- param ao seu digno competidor, que foi cantado em prosa e em verso.

A memoria da gente antiga do logar ainda retém a seguinte quadrinha, que deu no gotto do populacho :

Sabe letras, sabe tretas, E moço de clientella ; Tem suas ceroulas pretas E botões pela canella.

O dr. Francisco Honorato Cidade falleceu, abeirando aos setenta annos, em Pregibaé, mu- nicípio da Ilha do Desterro, vae para vinte annos.

114 A ACADEMIA DE S. PAULO

Francisco Octaviano de Almeida Eosa. Fluminense, nascido na Corte, a 26 de junlio de 1822; íilho de Octaviano Maria da E-osa.

Alto, magro, moreno pallido, quasi imberbe, testa descoberta, olhos grandes, expressão pby- sionomica intelligente e sympathica, muito sym- patbica, sem embargo de um sorriso fino entre zombeteiro e amável, que constantemente lhe enflorava os lábios.

Trazia, desde a quadra académica, os seus indefectiveis óculos com aros de ouro.

Isto quanto ao physico. Que dizermos agora do homem moral? Que dizermos que não seja conhecido e notório a respeito da sua prodigiosa e agudíssima intelligencia, do seu primoroso ta- lento de escriptor, da magia do seu estylo, da sua musa sentimental, da sua amável e encanta- dora causerie f

Por outro lado, também não é nenhum des- ses pontos o objecto especial das nossas preoc- cujjações neste momento.

Em relação a um homem publico, qual foi Octaviano (e daqui a pouco outro tanto nos oc- correrá em relação a Martim Francisco), fraca- mente nos seduz a velleidade de repetir o que outros teem dicto e publicado, revelando aos nos- sos leitores factos que lhes são familiares, des- vendando da carreira publica desses varões cir- cumstancias de ninguém ignoradas.

Imaginem (jue, ao contrario, consigamos co-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 115

- her em relação aos mesmos alguns pormenores de nteressantes da vida académica, ou algum facto nenos conhecido, desses, porém, que na sua ap- e, Darente insignificância dão todavia o traço mais \'. saliente do caracter pessoal. Não será muito j. tnais attrahente e mais novo este systema ? Pois e é essa a feição peculiar das nossas tradições e ^{Reminiscências da Academia de S. Paulo.

Francisco Octaviano, sobre ser dotado de pri- vilegiado talento, como dissemos, também se de- dicava com ardor ao estudo. Preferia, entretanto, que lhe admirassem o talento mais do que a ap- plicação. Desejava mesmo ser tido por vadio, para reverter exclusiva ou quasi exclusivamente ao seu poder intellectual quanto produzia nas aulas, nas discussões com os coUegas, na im- prensa e na tribuna.

Empregava elle, para esse fim, o seguinte ardil.

Tinha para o seu estudo nocturno duas ve- las. . . Que anachronismo, se falássemos, referin- do-nos áquelle periodo, não diremos na luz eléctrica, na do gaz, do álcool, ou mesmo nos simples lampeões de kerosene ! Tinha, pois, o estudante que se valer das velas, e, note-se, a vela de spermacete assignalava um progresso sobre a de cera, a de cebo ou a lúgubre candeia de azeite.

Voltemos, porém, ao que iamos referindo.

116 A ACADEMIA DE S. PAULO

Tinha Octaviano duas ou mais velas, a saber uma ostensiva, a sua vela official, por assim dizer ; e outra, ou outras clandestinas . . . que elle cuidadosamente occultava na gaveta.

Quando se recolhia ao seu quarto de estu- dante, para «apenas passar os olhos sobre as li- cções», como elle dizia, começava por accender a vela publica; apagava-a, porém, logo depois, e accendia a outra cuja luz era aproveitada até que elle estivesse perfeitamente senhor das licções, deixando-a, portanto, accesa emquanto precisasse de luz, ou substituindo-a, se se extinguisse.

Este artificio permittia-lhe allegar, no dia seguinte, que não tinha estudado nada, tanto assim que a sua vela estava quasi inteira, e, para prova, a exhibia.

Desvanecia-se muito, então, quando ouvia dizer algum collega:

Este Octaviano é extraordinário! Que in- telligencia assombrosa ! Não estuda e parece que adivinha o Direito : sabe mais que os collegas que levam horas e horas a queimar as pestanas sobre os livros !

Achando assombroso o facto e não acredi- tando em milagres, muito intrigado ficava o Mar- tim Francisco, colloga e amigo intimo do Octa- viano. IntoUigento era elle também, e nem um ápice menos; entretanto, nada adivinhava, tinha que estudar e estudar muito para acompanhar o collega: como era aquillo?!

THADIÇÔES E REMINISCÊNCIAS ll7

E tanto fez, tanto indagou, tanto pesquizou » Martim, até que afinal descobriu a chave do enigma.

O segundo facto anecdotico que vamos refe- rir em relação a Francisco Octaviano na Acade- mia é colhido de uma carta delle ao dr. Pinto Iiinior, inserta no Elogio Histórico de Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, pelo conselheiro Olegário.

O trecho menciona episodio interessante, sob mais de um ponto de vista, e ao mesmo tempo dii-nos noticia do systema de educação seguido por Octaviano, desde os seus primeiros estu- dos.

Escreve elle na alludida missiva:

«As minhas primeiras relações com. Amaral Gurgel deixaram-me viva impressão. As doutri- nas philosophicas, que dominavam nos estudos (Ic humanidades na Academia, eram as de Kant. Eu conhecia-as, embora superficialmente, porque lera como creança a Critica da razão pura , para poder acompanhar as licções que nos dava, a mim, a Martim e a José Bonifácio, o benemérito ancião Martim Francisco, digno pae daquelles meus companheiros de estudos e de jogos.

Era curioso espectáculo esse de um ministro de Estado, que depois de importantes trabalhos de gabinete se occupava com a educação de três meninos e despendia thesouros de saber e de eloquência para combater deante desse pequeno

118 A ACADEMIA DE S. PAULO

auditório as theorias utilitárias fazendo vingar o principio rigoroso do dever!

Procurando o Amaral Gurgel para lhe pedir que accelerasse o meu exame de philosopliia, perguntou-me elle:

E que philosopliia sabe?

A de Kant respondi-lhe com a intrepi- dez do pedantismo dos primeiros annos.

A de Kant! replicou elle, arregalando os olhos de admirado. Pois é mais feliz do que eu, que a estudei, mas não a apprendi.

Vendo-me um tanto enleado:

Vamos disse-me de novo não se por molestado com as minhas palavras. Eu não posso chamal-o a exame, se o Brotero, que está servindo de director, não despachar o seu reque- rimento. Procure-o. Naturalmente ha de ter tra- zido recommendações para elle. . .

Não, senhor atalhei-o. Meu pae não quiz que eu trouxesse recommendações . . .

Pois então será meu recommendado. Eu o vou apresentar.

E com uma bondade paternal tomou-mo da mão e levou-me á secretaria.

Sr. director disse elle a Brotero aqui lhe trago uma rara avis; é um examinando sem carta do recommendação para o director da Academia.

Brotero sorriu-se, inquiriu do meu nome, procurou o meu requerimento e deu-me logo despacho.»

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 119

Mais uma tradição académica a respeito de Francisco Octaviano.

No anno de 1870 apresentou-se em S. Pau- lo, a defender theses para obter o grau de dou- ini-, o bacharel José Júlio de Albuquerque Bar- ros, mais tarde Barão de Sobral.

O doutorando, que havia feito todo o seu curso juridico na Faculdade do Recife, vinha precedido da nomeada de jurisconsulto e armara grande espectativa.

Fora, pouco antes, deputado geral e occu- pava no Rio o cargo de director geral da Secre- taria da Justiça.

O conselheiro Octaviano, seu amigo e pro- tector, veiu assistir á sua defesa de theses.

Esta correu assim, assim. . . sem destaque do candidato, mas também sem desastre para elle na argumentação. Teve a fortuna de ser approvado plenamente.

A dissertação, porém, não n'a soube o dou- torando defender. Versava sobre um bellissimo uto de Direito Internacional, o seguinte: ' o Estado^ por cujo território jpassa um rio que j ojferece navegação de alto bordo e que tem mais Es- ( tados ribeirinhos f pôde chamar-se proprietário da- \ quella parte do rio que corre dentro de sua jurisdi- j cçào e império.

j Surprehendeu tanto mais a inhabilidade do

1 doutorando na defesa da dissertação, quanto es- 1 tava ella perfeitamente escripta e ponderada,

|)n]

120 A ACADEMIA DE S. PAULO

além de clara e resumida, em summa, um trabí lho de alto valor jurídico.

Octaviano teve impressão desagradabilií sima com as vacillações do defendente, e pareci" accompanhar com emoção as peripécias do de- bate. Por vezes não se continha e dizia a meia voz:

Não é isto! Não é o que está na disser- tação.

Elle parecia, et j^our cause . . . conhecer per- feitamente o que estava escripto na dissertação.

Sabia mais, sobre este ponto, que o auctor, ou antes que o signatário da dissertação.

Depois da sua formatura, regressou Octa- viano para a Corte, onde fez advocacia e jorna- lismo, mais jornalismo que advocacia.

Em 1848 foi nomeado director e redactor do Diário Official; pouco depois, secretario da Província do E,io de Janeiro.

Foi deputado á Assembléa Geral nas 9.^, 10.% 11.^ e 12.^ legislaturas, e redigia ao n^esmo tempo com excepcional brilhantismo o Correio Mercantil.

Por occasião da guerra com o Paraguay, foi-lhe confiada a delicada missão de celebrar com a Argentina e o Uruguay o tratado da trí- plice alliança.

Em 1866 a Província do Rio íncluiu-o em lista sextupla para senador, conjunctamente com

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 121

^(^dreira, Thomaz Gomes dos Santos, Macedo, -^;iyão Lobato e Valdetaro. Octaviano e Pedreira, .s mais votados, foram os escolhidos.

Uma vez na Camará vitalicia, retrahiu-se jctaviano, de algum modo, da actividade poli- ica, e com isto muito perdeu da sua influencia )artidaria, sem, comtudo, deixar de ser uma das liais sympatliicas personalidades do nosso sce- lario politico, uma das intelligencias mais finas e Ic mais cultura literária da sociedade brasileira.

Falleceu no Rio de Janeiro, em 1889.

Deixou ás letras pátrias legado não copioso, nas de alto valor quanto ao merecimento de suas omposições poéticas.

Damos em seguida um bellissimo soneto dos seus últimos dias, eivado de amargura mais do lixe do scepticismo que apparentam as suas queixas.

Morrer, dormir, não mais : termina a vida E com ella terminam nossas dores, Um punhado de terra, algumas flores, E, ás vezes, uma lagrima fingida !

Sim, minha morte não será sentida. Não deixo amigos e nem tive amores ! Ou se os tive, mostraram-se traidores, Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é pobre no mundo; que me importa Que elle amanhã se esb'roe o que desabe. Se a natureza para mim está morta !

E tempo que o meu exilio acabe;

Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta !

Morrer, dormir, talvez sonhar, quem sabe !

122 A ACADEMIA BE S. PAULO

Este soneto, assaz conliecido, chama-nos 5 memoria uns versos que suppomos inéditos, um; preciosidade da quadra académica de Octaviano E possivel que esta producção dos verdes anno facilite a decifração do terceiro verso da segundj estrophe acima reproduzida:

« e nem tive amores ;

Ou se os tive, mostraram-se traidores.

Reza indiscreta tradição que, de facto, ex perimentou Octaviano em sua mocidade uma ro mantica paixão amorosa, que o fez viver con muita intensidade, se é certo, como elle diz, qu(

Quem passou pela vida e não soffreu Foi espectro de homem, não foi homem passou pela vida, não viveu !

Mas, volvamos ao que iamos dizendo sobre aquelle amor da adolescência.

Parece que não foi, como sóe acontecer mero fogo de palha. Em confirmação desta con- jectura, depararam-se-nos na Revista Acadcmicc de 1859, as seguintes linhas de Couto Magalhães referentes a Francisco Octaviano:

«Numa casa da rua do Ouvidor, desta cidade existia, ainda o anno passado, escripta na parede, uma bella poesia deste escriptor, que começa assim:

TRADIÇÕES E RBiainSCENCIAS 123

Oh se te amei! Toda a inaiihà da vida Gastei em sonlius, que de ti falavam; Nas estrellas do céo lia o teu nome, Ouvia-te nas brizas que passavam.

Commentando estes versos, accrescenta ex- pressivamente o critico académico:

«Na collecção seguinte daremos ao leitor, por extenso, esta poesia tão bella e enérgica, que faz crer (o grypho é nosso) que ella é mais alguma coisa do que uma simples jícqão de poeta.))

O anjo dos devaneios. . . não dizemos bem, a deusa dos martyrios do talentoso estudante era uma poética senhorita íilha de um medico de bastante notoriedade, residente então no Rio de Janeiro, á rua da Ajuda. Vindo ella a contraliir esponsaes com abastado commerciante inglez, quanto não soffreu o seu enamorado trovador!

Todavia, por uma bravata assaz frequente em taes situações, tratou elle de abafar os ge- midos da sua alma e apparentar mentirosa indif- ferença. O joven Petrarcha fluminense levou a dissimulação ao auo-e de fazer uma visita de des- pedida, antes de seguir para S. Paulo, á familia da sua ingrata Laura. Esta, des^Deitada talvez com aquella ostentação de impassibilidade, pre- tendeu fazer o mesmo jogo, e convidou o poeta a inscrever num álbum, que lhe ofifereceu, alguma lembrança. . .

Octaviano, de improviso, escreveu estas en- dechas, que lhe irrompiam do coração:

9

124 A ACADEMIA DE S. PAULO

Cest fmi!

E' tão bella uma esperança! Que de gratas emoções Não produz nos corações Com seu brilhante fulgor I Aponta para o futuro, O presente faz risonho, Promette o iníinito em sonho, Fala de gloria e de amor.

Mas a gloria. . . onde está ella? Onde, após tanto tormento? Onde está? Num monumento, Depois que a vida passou ! E os lábios que nos sorriram, E os olhos que prometteram. . . Para outros se volveram. Quando a morte nos tocou!

Longe de mim, esperança! Não quero mais os teus sonhos; Ao começo são risonhos, Terminam sempre fataes. Despréso as glorias do mundo, Escarneço da paixão. Tenho livre o coração : Ir prendel-o. . . Nunca mais!

Sem fé, sem amor, sem gloria, Que direito posso ter Para meu nome inscrever Em tão formoso sacrário? Raspae, senhora, depressa, Esta pagina perdida: A historia de minha vida Não j)rofane um santuário.

A dona do álbum, para poupar talvez o zelo britanmco, julgou dever abrigar estes gemidos poéticos sob um chrômo . . . nada de anachronis-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIA» 125

nos, sob algumas figuras coloridas, que os )ccultassem de olhares não iniciados no segredo lo esconderijo.

Um amigo de Octaviano, que acompanhara íom interesse todo aquelle romance vivido, pra- icou o piedoso abuso de subtrahir o autogra- jho, rasgando uma pagina do álbum, a qual linda conserva com carinhoso cuidado, e a custo lOS concedeu a copia com que acima brindamos lOs nossos leitores.

JOAO José Rodrigues. Paulista, filho do enente Jesuino José Rodrigues e sua mulher 3. Beralda Francisca Rodrigues ; nascido nesta íapital a 21 de agosto de 1820.

Estudante do 4.^ anno, em 1844, casou-se jom sua prima D. Jesuina Ribeiro dos Santos Rodrigues, irmã do grande orador parlamentar 3-abriel José Rodrigues dos Santos.

Desse consorcio houve três filhos : João José iíodrigues, fallecido em 1887, como vigário de fundiahy; D. Maria Joanna Rodrigues de Alk- nim e o dr. António Cândido Rodrigues, enge- iheiro, ex-deputado federal, ex-secretario da ^.gricultura deste Estado e senador estadual.

Desde os bancos académicos foi o dr. João Fosé Rodrigues um assiduo e intelligente cultor lo lo Direito, e era, com justiça, enumerado entre )S melhores estudantes da sua turma.

Em 1847, foi juiz municipal em Taubaté,

126 A ACADEMIA DE S. PAULO

removido depois para Porto Feliz e successiva mente para Itajubá, Cliristina e Baependy. No meado jiiiz de direito, foi posteriormente remo vido para uma comarca longinqna. Com istt muito se maguou, a ponto de despir a toga di magistrado, dedicando-se dalli por deante a* exercicio da advocacia em diversas comarcas d< sul de Minas, onde gosava merecidamente do: foros de jurisconsulto.

Atacado de grave enfermidade em feverein de 1877, logo que se sentiu melhor, tratou (1< regularizar todos os seus negócios, certo de qu( seus dias estavam contados; vendeu o que tiniu em Minas, annunciou pelos jornaes da terra qu* nada devia a ninguém, escreveu seu bonito ( tocante testamento, deixou minutado em um li vro o requerimento que sua viuva deveria diri gir á Caixa de Amortização pedindo a transfe rencia para seu nome das apólices da divida pu blica, apenas 20, que adquiriu de 1872 a 1877 quando se convenceu da imminencia da sua mor te. JMinutou, egualmente, o termo de desistencii que seus filhos, todos maiores, deveriam faze: da legitima paterna em beneficio da viuva.

Feito isso, encaixotou sua grande e valiosi livraria, q, com toda a bagagem pesada, remetteu-i para a estação mais próxima da estrada de ferro com destino a S. Paulo, onde elle pretendia vi morrer. |

Com esse intuito, e buscando energias eu

TRADIÇÕES E BEMINISCENCIAS 127

lua admirável força de vontade, poz-se em via- gem para esta capital. Passou, porém, por casa le seu genro o dr. João Capistrano Ribeiro de ykmim, que, então, residia em Caxambu, afim le despedir-se da filha que amava em extremo, los netos e do genro, ao qual dedicava extremos le pae.

Chegando alli, aggravaram-se-lhe os incom- nodos e a morte arrebatou-o antes que pudesse ealizar o seu plano.

Coração aberto a todos os nobres sentimen- :os, caracter austero, leal e franco, fazendo do cumprimento do dever uma religião, o dr. João José Rodrigues gosava no sul de Minas de muita estima e influencia, e a sua opinião como advo- gado era acatada e respeitada como de juriscon- sulto notável.

Foi um trabalhador infatigável e um estu- dioso em sua profissão, tendo deixado attestados de seu labor nas duas obras que publicou: 3Iis- cellanea Jurídica e Consultas Jurídicas.

Foi deputado provincial, mas não se ageitou com a politica, preferindo a magistratura.

Joaquim AuCxUSto Ribeiro da Luz. Pau- lista, desta capital, filho de José Manuel da Luz, e pae do legendário Luz (dr. Joaquim Augusto Eibeiro da Luz), que se formou em 1874, e foi o chefe da bohemia académica do seu tempo.

Foi bom estudante, talentoso e applicado.

128 A ACADEMIA DE S. PAULO

Era casado no municipio de Angra dos Reis, onde exercera o cargo de juiz municipal.

Residiu por longos annos na cidade de Re- zende, onde advogou com muito êxito e veiu a fallecer, ha cerca de trinta e oito annos.

José Innocencio de Moraes Vieira. Pau- lista, natural de Porto Feliz, íillio de Joaquim Vieira de Moraes.

Não se assignalou como estudante.

Foi, a principio, ajudante de bibliothecario o por fim bibliothecario efíectivo da Faculdade de S. Paulo, desde 1859.

Nesse cargo veiu a fallecer ha mais de trinta annos.

Luiz Francisco da Camará Leal. Flumi- nense, da Corte, filho de Luiz Francisco Leal.

Bom estudante de Direito.

Seguiu a magistratura. Juiz municipal na Provincia do Rio em 1846; juiz de direito em 1853 ; vice-presidente do Paraná em 1857 ; chefe He policia da mesma Provincia em 1858.

E' auctor de alguns trabalhos juridicos, en- tre os quaes uma apreciada monographia sobre Suspeições e recusaçoes, editada em Curityba em 1863.

Martim Francisco Rireiro de Andrada. Nascido no Havre, filho do senador Martim Fran-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 129

3ÍSC0 Ribeiro de Andrada, e neto e sobrinho do conselheiro José Bonifácio.

Alto, magro (sim, magro e esbelto), moreno, )lhos grandes e á ílôr do rosto, e nenhuma barba, 30Ís que era extremamente joven, quando se matriculou na Faculdade.

Foi, durante todo o seu curso académico, iim bom estudante, intelligente, brioso, altivo 3omo todos os Andradas e por vezes de uma íxcessiva intrepidez, como vimos na secção pri- neira da presente chronica.

A vida de Martim Francisco é, no meio paulista, muito conhecida como exemplo de tra- Dalho triumphante pela energia.

Pobre em um meio politico bastante su- bordinado ao capitalismo, conseguiu chegar ás mais elevadas posições sociaes, e morreu sem deixar inimigos ; o segredo dessa vanta- gem existe na phrase com que o Barão de Pi- ratininga lhe exordiou bello artigo necrologico : mNínguem mais do que o conselheiro Martim menos se jpreoccupou dos interesses próprios e mais dos alheios.))

Bacharelou-se em direito em 1845 com pouco mais de vinte annos, tendo sido estudante rival de Francisco Octaviano, seu amigo e companheiro de estudos, como vimos ha pouco, desde prepa- ratórios sob a direcção do conselheiro Martim

130 A ACADEMIA DE S. PAULO

/

Francisco, cuja paixão pela pedagogia daiava dos dias coloniaes aqui em S. Paulo.

Defendeu theses, foi nomeado lente em 1854, e jubilou-se em 1881.

Foi juiz municipal em Santos, promotor publi- co em Ytú; deputado provincial e geral, conseguin- do varias vezes derrotar os adversários no poder.

Foi presidente da Camará dos Deputados, conselheiro de Estado, e candidato o mais vo- tado em lista sextupla, em 1879, para senador por S. Paulo, contribuindo para a sua não esco- lha a recusa de communicar ao Paço de S. Chris- tovam, como era de uso, a apresentação da sua candidatura.

Causevr agradabilíssimo (qualidade tão rara no brasileiro que esquece ter-lhe dado a natu- reza dois ouvidos e uma lingua, para ouvir mais e falar menos), com a memoria servida constan- temente por trechos de Camões e Garrett, ada- ptava-se, como poucos, ás modalidades sociaes. Conversava com um soldado como se tivesse ju- rado bandeira ; com uma moça no baile, como se fosse modista; com um chefe local, como se morasse na localidade!

InterpoUado, onde lera a opinião de auctoi que acabava de citar, o velho Cotegipe, sen amigo o insrparavel parceiro de voltarete, repH- cou sentenciosamente:

Li no Martira.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 131

Quando moço, compôz (1845) o drama Ja- nuário Garcia, ou O Setc-orelhafi, que fez successo aa época, e, a ultima vez que foi representado em Piracicaba, teve servindo de ponto o dr. Pru- dente de Moraes. (*)

Wolf e Taunay elogiam esse drama, que o conselheiro Martim tratava de fazer desappare- cer, rasgando os exemplares e qualiíicando-o de crime da mocidade. E assim explicava o conse- lheiro :

Wolf certamente não leu o drama e escre- veu sob a inspiração de Porto Alegre e Joaquim Norberto, que haviam sido amigos Íntimos de meu pae; e o Taunay tem a literatura muito grata á amizade que nos liga.

Num volume de poesias, Lagrimas e sorrisos, tem boas traducções de Lamartine e Musset. O soneto Dois Tempos muito conhecido e tra- duzido, composto poucos mezes antes de morrer, é producção algum tanto acima da normalidade.

E, senão, julgue o leitor:

Dois Tempos

(1885)

No deserto da vida o caminheiro Encontra dois oásis de bonança : Tem um as ledas cores da esperança, Outro lhe mostra o pouso derradeiro.

O Isso ha 30 aiinos. mais ou menos.

132

A ACADEMIA DE S. PAULO

Um deixa-lhe entrever no amor primeiro Todo o supremo bem que não se alcança; Outro lhe mostra o porto onde descança Do vae-vem da existência o marinheiro.

Feliz quem poude á luz da phantasia Demorado, escutar toda a harmonia Do poema febril da mocidade.

Prefiro-te, porém, ultimo abrigo, Espelho do passado, pouso amigo, Velhice companheira da saudade.

Vejamos, porém, o Martim intimo, ligeira- mente sarcástico, repentista nas réplicas como o era na tribuna quando respondia a Tavares Bastos:

O aparte é tão pequeno como o seu au- ctor.

Vejamos o Martim gordo, calmo, obsei'va- dor, indo para a mesa de jantar com um jornal francez ou um romance de Zola debaixo do braço, com a fama de comilão, adquirida quando moço e tinha solitária, mas de facto alimentan- do-se normalmente.

Em 1842, agente de E/aphael Tobias na re- volução, tentando revoltar os cadetes, um destes (o futuro general Argollo, que morreu Barão de Itaparica, e era um gaiatão), perguntava-lhe :

Se formos descobertos, que será de nós?

Nesse caso, para evitar duvidas replicou Martim, muito calmo eu mato-te e depois ma- to-me.

TRADIÇÕK8 E REMINISCÊNCIAS 133

Ao que Argollo replicou:

Acceito o plano, com uma pequena mo- dificação: primeiro mato-te, depois mato-me eu.

Dois ou três dias antes de morrer, respon- dendo a uma normalista espevitada, que lhe perguntava qual o melhor methodo pedagógico, se o synthetico, se o iianaléptico))^ o conselheiro, mal podendo articular a phrase, dizia:

O melhor é este segundo, porque é total- mente novo.

Ainda quando moribundo, observou a um dos filhos:

Vives a estudar, e isso na politica do Bra- sil é prejudicial. Olha como o Saraiva continua feliz na vida politica, e como o Chico Sodré e o Moura teem sempre escapado de ser presos por crime de imbecilidade!

Resposta ao conselheiro Pereira da Silva, que lhe perguntara, nos corredores da Camará, se almoçarára duas vezes nesse dia:

Nada de sustos, tranquilliza-te, João Ma- nuel: eu digiro tudo o que como. Não tens mo- tivos de queixa.

Em 1844, quando estudante do 4.** anno, em Santos, como advogado da diplomacia ingle- za, animou-se a accusar contrabandistas de es-

134 A ACADEMIA DK S. PAILO

cravos, e metteu-os na cadeia. A causa fora re- cusada por vários advogados. Cobrou de hono- rários 300^)000, pagamento então enorme.

Em 1866, como ministro dos extrangeiros, respondeu a uma carta de Laboulaye e outros, compromettendo o governo do Brasil a tratar da libertação dos escravos logo que terminasse a guerra do Paraguay.

Da correspondência que então foi trocada entre D. Pedro II e o conselheiro Martim Fran- cisco deduz-se ter sido a redacção da resposta discutidissima entre o rei e o ministro. Não é, portanto, rigorosamente exacto o que Joaquim Nabuco assegura a esse respeito em sua obra Um Estadista do Império (*).

Era senhor da tribuna. Nas sessões de 1865 a 1868 salientou-se discutindo os orçamentos da Marinha, Justiça e Extrangeiros, e defendendo- se como ministro da Justiça.

Era, porém, mais eloquente quando falava de improviso.

Das tradições santistas e paulistas ainda se não apagaram de todo a defesa, no jury e ex- officio, que fez em Santos, em 1853, de duas des-

ci Diz que a redacçllo foi oxrlnsivamente de D. Pedro 11. E' possível qwe nma das cópias da redacçflo final Bcja delle, explica-nos roni II veÍH sanasl ica Imbilual o nosHU prusado amigo dr. Martim Francisco Juuior.

TRADIÇÕES E BEMINISCEMGIAS 185

<j;raçadas meretrizes implicadas em infanticidio, nem a esplendida peroração com que, em nome (ias senhoras paulistas, disse, no antigo quartel, o adeus á bandeira do 42 de voluntários da pátria, em 1870.

Commovia-se e transferia a commoção ao auditório.

Era, em matéria doutrinaria, de uma inde- pendência de espirito, compativel com a sua ele- vação de caracter.

Na tribuna politica sustentou muitas vezes o voto feminino, o imposto sobre solteiros e a separação da Egreja do Estado.

Nunca promoveu a demissão de quem quer ([ue fosse. Nunca tirou uma vingança ou mesmo guardou rancores.

Pertenceu sempre ao partido liberal.

Falleceu em 1866. A Assembléa Provincial levantou a sessão em signal de pesar, orando pelos liberaes o dr. João E-ibeiro, pelos conser- vadores o auctor desta clironica e pelos republi- ( anos o dr. Quirino dos Santos.

Morreu pobre. Por iniciativa dos deputados provinciaes Barão do Rio Pardo e Cândido Ro- drigues, foi consignada no orçamento uma verba de 150):>000 para as despesas de sepultura.

Agora, para terminar, mais alguns dictos espirituosos do conselheiro Martim Francisco:

136 A ACADEMIA DE S. PAULO

A um afilhado de casamento (o velho vi( leiro Cabral), que lhe consultava se a noiva, mãe de vários filhos, poderia levar ao altar gri- nalda de fiores de laranjeira :

Leve laranjas e os respectivos caroços.

A outro afilhado, moço sem préstimo algum e sem o minimo expediente para a vida, que lhe foi participar o seu futuro casamento :

Sim?! respondeu-lhe o conselheiro E contra quem se vae v. casar?

E com D. F. de T., meu padrinho. Estas iniciaes indicavam uma rica matrona,

viuva e . . . d'un certain age.

Parabéns pela conquista ! replicou o conselheiro. Mas, então, não é contra^ é sobre.

Era-lhe frequente dar forma engraçada e pittoresca aos seus pensamentos. Disse elle uma vez, empregando imagem muito apropriada ao meio paulistano :

Não costumo pedir senão duas coisa-s : vo- tos e fructas.

Fructas em S. Paulo quer dizer jaboticabas.

Delle ouvimos que, quando lhe acontecia de momento não conhecer algum patrício, com ares de chefe politico do interior, se abstinha de per- guntar ao interlocutor quem elle era. Certo o correligionário se maguaria, attribuindo injusta-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 137

mente á soberba ou á ingratidão a falta de me- moria; e meditaria desde logo exemplar desforra aa primeira eleição.

Mas, então perguntámos que faz v. ex/ jara se livrar da diííiculdade?

Não me dou por achado. Trato o inter- locutor como velho conhecido, dou-lhe de «meu Mnigo», e, por íim, pergunto-lhe pelos «negócios

Tda localidade».

Ah! percebo. . .

Então, com a res^josta, vou-me orientan- do, até que acabo por saber, sem ter feito inter- pellação directa, com quem estou falando. Sol- dado velho não se aperta !

Numa occasião foi consultado o conselheiro Martim Francisco sobre a idoneidade moral de um seu adversário politico para o exercicio de importante commissào :

Não o conheço pessoalmente respondeu; conheço-lhe, porém, os ascendentes ; são boa gente. E como tenho o habito de julgar os ho- mens como aos cachorros e aos cavallos, isto é, pela raça, cuido que este moço, ainda que bem joven, deve ser muito bom.

Procurado, uma vez, por uma commissão de senhoras, interrompeu amavelmente a oradora, que começara excusando-se por vir importunal-o para pedir. . .

138 A ACADEMIA DE S. PAULO

Perdão, minhas senhoras, v. ex.^"* não m importunam. Uma senhora jamais me molest quando me pede, mas somente quando me negí

O seu fino espirito nos diálogos, e, ao mesm temjjo, a sua altivez de caracter salientaram-s no seguinte incidente que se tornou historic( occorrido na Secretaria do Extrangeiros, no E-ic estando Martim Francisco no exercicio da resp( ctiva pasta, em 1866, da qual passou para a d Justiça, no gabinete de 3 de agosto :

O notável diplomata, ministro do Urugua} sr. André Lamas, após uma reclamação proloi gada e pouco ao sabor do nosso governo, prat cou a incorrecção de elevar a voz além do naturs diapasão. Atalhou-o de prompto Martim Franciscc

Sr. Lamas, em vez de vir aqui aborrt cer-me, fora preferivel que o sr. aconselhasse a seu paiz a pagar o que deve ao Brasil.

Garanto-lhe que o meu paiz ha de paga o ultimo vintém ! . . .

Pois garanto que ainda não pagou o pr meiro !

Summariando :

Um homem de coração. Bonita intelligencií muito absorvido na esterilidade das contenda partidárias. Levou a vida a ganhar eleições, j sua lealdade levou-o, porém, mais de uma vez, sacrificar os interesses politicos. Assim (e va

TRADIÇÕES K REMINISCKNCIAS 139

m gora a revelação de um segredo que nos foi it; ommunicado pelo dr. Martim Francisco Júnior) jam 1867, quando ministro da Justiça, por contem-

lação ao Amaro Bezerra, deixou de acceitar Hl ma candidatura á senatoria pelo Rio Grande do •síorte. O resultado desta esquivança não foi pro- ioeitoso áquelle amigo e ainda menos ao partido ioberal, pois a vulgaridade dos nomes apresen- jõidos deu logar a ser furada a chapa liberal por d; alies Torres Homem, que foi o escolhido pela

Jorôa; o que, como se sabe, deu em terra com o ly abinete Zacharias e com elle a situação politica, in 16 de julho de 1868.

ti por não ser natural do Rio Grande do •aíorte, não era sufficiente razão para os escrúpu- lo )s de Martim Francisco, pois que também não •e era o candidato conservador. ai

Tristão de Alencar Araripe. Cearense, alho de Tristão Gonçalves de Alencar. Nasceu

a villa de Icó, em 1821. li De estatura regular, cheio de corpo, claro,

Drado, e pouca barba, que trazia feita á moda do

3mpo.

Fez em Pernambuco o 1.° e o 2.° annos, e as três restantes em S. Paulo, onde se bachare- iim em 1845.

J Era um bom estudante.

8 Na vida publica seguiu a carreira da magis- ijratura, e, por fim, a politica.

10

140 A ACADEMIA DE S. PAULO

Eis, em traços largos, os principaes cargos por elle exercidos:

Juiz municipal da Fortaleza em 1847; official da Secretaria da Fazenda em 1852; juiz de di- reito de Bragança, no Pará; chefe de policia do Espirito Santo em 1856; idem de Pernambuco em 1859; juiz de direito do Eecife em 1861; desembargador da Relação da Bahia em 1870, e dalli removido para a da Corte; em 1874, presi- dente da Relação de S. Paulo, que installou. solennemente, proferindo eloquente discurso; re- movido para a E-elação da Corte, onde se conser- vou até ser promovido em 1886 para o Supremc Tribunal, do qual passou em 1890 para o Su premo Tribunal Federal, em cujo cargo se apo sentou em 1892 contando 43 annos de ser viço.

Foi deputado provincial no Ceará, no biennií de 1848-49, e deputado geral por aquella Provin cia em quatro legislaturas, tendo sido um doi mais valentes campeões do abolicionismo.

Exerceu altos cargos politicos e administra tivos, como sejam os de presidente da Provincis do Rio Grande do Sul, em 1876, da do Pará, eu 1885, e foi ministro da Fazenda e da Justiça •! Interior, sob a presidência do marechal Deoi doro.

E auctor de vários trabalhos juridicos, entr os quaes dois de subido valor jurídico e grand concentração mental, a saber: a Consolidarão d\

I

TRADIÇÕES E BSMimSCENCIÀS 141

processo criminal e a Consolidação do processo civil.

O sr. conselheiro Alencar Araripe reside hoje no Rio de Janeiro, está cheio de vida e ainda escreve bellissimos versos, repletos de sau- dades dos tempos idos . . . e das pessoas queridas que elles roubaram.

1

t

CAPITULO V

A turma aeademica de 1847-51

Directoria ainda acepliala. Os lentes da tnrnia. Relação com- pleta dos lentes desde 1828 até hoje. Os bacharéis de 1851. Es- tatistica dos bacharéis formados em S. Paulo desde 1831 ató 1906. Relação nominal dos doutores. Peqitenina turma aca- démica de 1847-51. Carlos Canuto IMalheiros. Francisco Emy- gdio da Fonseca Pacheco. .Joaquim B. M. de Souza Castellões. José Maria de Andrade. O Ypiranga. Dados biographicos. José Martiniano de Oliveira Borges. Laurindo Abelardo de Brito. Sua administração em S. Paulo. Memorável pleito eleitoral em 1881 . «Egualou pelo deiifefí. Rótulos trocados. Epigramma dos adversários. vMa<ji>i ainicH^i Plato». Seu cora- ção philantropico. Luiz J. Ferreira de Araújo. Paschoal de Mattos. Bernardo Guimarães. .Jovial, intelligente e expan- sivo. — Os seus hcstialogieos. Notável trinmvirato. A Epij- rintii. Fraco estudante de Direito. Na vida pratica. Seu património literário. Dados biographicos.

D,

URANTE todo esse período (de 1847 a 1851) continuou acephala a Academia de S. Paulo. Di- zemos continuou^ porque a acephalia vinha do anno de 1842, data da demissão de Nicolau Vergueiro, e prolongou-se até 1 de dezembro de 1857, data da nomeação efFectiva de Manuel Joaquim do Amaral Gurgel.

Em todo esse período intermediário estiveram

144 A ACADEMIA DR R. PAULO

como directores interinos Brotero e Manuel Joa- quim, pois que o effectivo, Visconde de Goyana, jamais entrou em exercicio.

Compunha-se nessa época a congregação da Faculdade, dos seguintes lentes: Brotero, Car- neiro de Campos, Cabral, Falcão, Manuel Joa- quim, Pires da Motta, Manuel Dias, Anacleto, Silveira da Motta, Chrispiniano, E-amalho, Pe- dreira e Carrão.

Damos em seguida, observada a ordem chro- nologica, a relação dos lentes da Academia de 8. Paulo, desde a data da sua fundação até ao ]jre sente :

José Maria de Avellar Brotero, nomeado a 12 de outubro de 1827, jubilado em 1872, fal- lecido em 1873;

Balthazar da Silva Lisboa, nomeado a 22 de junho de 1828, demittido em 1830, fallecido em 14 de agosto de 1840;

Luiz Nicolau Fagundes Varella, nomeado a 22 de junho de 1828, fallecido em 1831;

Thomaz José Pinto de Cerqueira, nomeado a 22 de junho de 1828, demittido a 24 de abril de 1834;

António Maria de Moura,, nomeado a 11 de agosto de 1828, fallecido a 12 de março de 1842;

Carlos Carneiro de Campos (depois Vis-

TftADIçÔES E tlEMlNlSCEIÍClAS 145

conde de Caravellas), nomeado a 9 de fevereiro de 1829, jubilado a 29 de janeiro de 1858;

José Joaquim Fernandes Torres, nomeado a 21 de fevereiro de 1829, demittido a 22 de agosto de 1833, fallecido em dezembro de 1869;

Prudencio Geraldes Tavares da Veiga Ca- bral, nomeado a 8 de abril de 1829, jubilado a 22 de janeiro de 1861, fallecido em 1862;

João Cândido de Deus e Silva, nomeado a 30 de outubro de 1830, não tomou posse; fal- lecido ;

Clemente Falcão de Souza, nomeado a 5 de novembro de 1830, jubilado a 17 de setembro de 1864, fallecido a 28 de abril de 1868 ;

Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, no- meado a 12 de outubro de 1833, jubilado a 18 de março de de 1858, fallecido a 18 de novembro de 1864;

Vicente Pires da Motta, nomeado a 22 de maio de 1834, jubilado a 7 de agosto de 1860;

Manuel Dias de Toledo, nomeado a 22 de maio de 1834, jubilado a 26 de outubro de 1870, fallecido em 1874;

Anacleto José Ribeiro Coutinho, nomeado a 20 de junho de 1834, jubilado a 1 de janeiro de 1859 ;

José Ignacio Silveira da Motta, nomeado a 20 de junho de 1834, jubilado a 31 de maio de 1856;

Francisco José Ferreira Baptista, nomeado

146 A ACADEMIA DE S. PAULO

a 3 de setembro de 1834, demittido a 31 de março de 1837;

Francisco Bernardino E-ibeiro, nomeado a 22 de dezembro de 1835, fallecido em 1837 ;

João Chrispiniano Soares, nomeado a 23 de abril de 1836, jubilado a 22 de novembro de 1871, fallecido em 1876;

Joaquim Ignacio Ramalho, nomeado a 23 de abril de 1836, jubilado em 1880, fallecido a 15 de agosto de 1902;

Luiz Pedreira do Couto Ferraz (depois Visconde de Bom Retiro), nomeado a 25 de ou- tubro de 1839, demittido em 1868;

Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, nomeado a 26 de outubro de 1839, ju- bilado em 1882, fallecido a 3 de maio de 1890;

João da Silva Carrão, nomeado a 10 de junho de 1845, jubilado em 1879, fallecido em 1887;

Martim Francisco Ribeiro de Andrada, nomeado a 1 de julho de 1854, fallecido em 1886 ;

António Joaquim Ribas, nomeado a 1 de julho de 1854, jubilado a 23 de fevereiro de 1870, fallecido no Rio, em 1885;

Gabriel José Rodrigues dos Santos, no- meado a 1 de juUio de 1854, fallecido a 23 de maio de 1858;

João Dabney de Avellar Brotero, nomeado para a Faculdade de Pernambuco a 1 de julho

TRADIÇÕES B REMINISCÊNCIAS 147

de 1854, removido para S. Paulo a 3 de maio de 1856, fallecido a 1 de setembro de 1859;

José Bonifácio de Andrada e Silva, no- meado para a Faculdade de Pernambuco a 1 de julho de 1854, removido para a de S. Paulo a 5 de maio de 1858, fallecido a 26 de outubro de 1886;

António Carlos Ribeiro de Andrada Ma- ( liado e Silva, nomeado a 3 de agosto de 1859, jubilado em 1S90, fallecido a 19 de outubro de 1002;

Francisco Justino Gonçalves de Andrade, nomeado a 17 de setembro de 1859, jubilado (Compulsoriamente em 1890, fallecido a 25 de ju- 'iho de 1902 ;

Clemente Falcão de Souza Filho, no- meado a 16 de maio de 1860, fallecido a 4 de abril de 1887 ;

João Theodoro Xavier, nomeado a 6 de novembro de 1860, fallecido a 31 de outubro de 1878;

Ernesto Ferreira França, nomeado a 20 ide julho de 1861, jubilado, fallecido no Rio de Janeiro ;

Manuel António Duarte de Azevedo, no- meado a 30 de julho de 1862, jubilado, presi- dente do Senado de S. Paulo ;

José Maria Corrêa de e Benevides, no- meado a 8 de julho de 1865, jubilado em 1890, fallecido nesta capital.

148 A ACADEMIA t)E S. PAULO

João Jacintlio Gonçalves de Andrade, no meado a 6 de março de 1869, jubilado em 1890 fallecido nesta capital.

Carlos Leôncio da Silva Carvalho, no meado a 4 de janeiro de 1870, jubilado en 1901 ;

José Joaquim de Almeida Reis, nomead( a 27 de setembro de 1871, fallecido a 18 d agosto de 1873 ;

Francisco António Dutra Rodrigues, no- meado a 9 de outubro de 1872, fallecido a 29 de setembro de 1888;

Joaquim José Vieira de Carvalho, no- meado a 17 de junho de 1874, jubilado em 1897, fallecido a 23 de setembro de 1899;

Joaquim Augusto de Camargo, nomeado a 4 de dezembro de 1875, fallecido a 10 de agosto de 1882;

Joaquim de Almeida Leite Moraes, no- meado a 24 de agosto de 1873, fallecido a 1 de agosto de 1895;

José Rubino de Oliveira, nomeado a 18 de novembro de 1880, fallecido a 4 de agosto de 1891 ;

João Pereira Monteiro, nomeado a 2 de setembro de 1882, em disponibilidade, fallecido a 18 de novembro de 1904;

Vicente Mamede de Freitas, nomeado a 2 de setembro de 1882, em exercido;

Américo Brasiliense de Almeida Mollo,

TRADIÇÕKS E RKMINISCENCIAB 149

nomeado substituto em 1882 e cathedratico a 18 de novembro de 1888, falleceu no Rio de Ja- neiro a 25 de março de 1896;

António Dino da Costa Bueno, nomeado substituto em 1883 e cathedratico a 6 de setem- I )ro de 1890, em exercicio ;

Brasilio Augusto Machado de Oliveira, nomeado substituto a 30 de junho de 1883 e cathedratico a 30 de setembro de 1890, em exer- cicio;

Brasilio Rodrigues dos Santos, nomeado substituto em setembro de 1883 e cathedratico a 30 de dezembro de 1890, fallecido a 30 de março de 1901 ;

Frederico José Cardoso de Araújo Abran- ches, nomeado substituto a 2 de setembro de 1887 e cathedratico a 30 de dezembro de 1890, jubilado a 17 de junho de 1903 e fallecido a 17 de setembro do mesmo anno ;

Pedro Augusto Carneiro Lessa, nomeado substituto em 1888 e cathedratico a 21 de março de 1891, em exercicio;

Manuel Clementino de Oliveira Escorei, nomeado em 1888 para a Faculdade do Recife e transferido para a de S. Paulo, a 21 de março de 1891, em exercicio ;

João Mendes de Almeida, nomeado sub- stituto em 1889 e cathedratico a 21 de março de 1891, em exercicio;

José Luiz de Almeida Nogueira, nomeado

150 A ACADEMIA DE S. PAULO

substituto em 1890 e catHedratico a 31 de ja- neiro de 1891, em exercicio;

António Amâncio Pereira de Carvalho, nomeado a 2 de fevereiro de 1891, em exercicio;

Uladislau Herculano de Freitas, nomeado a 21 de março de 1891, em exercicio ;

Jesuino Ubaldo Cardoso de Mello, no- meado a 21 de março de 1891, exonerou-se;

António de Campos Toledo, nomeado a 21 de março de 1891, exonerou-se ;

António Januário Pinto Ferraz, nomeado a 21 de março de 1891, em exercicio ;

Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, nomeado a 21 de março de 1891, fallecido a 20 de abril de 1897;

Augusto César de Miranda Azevedo, no- meado a 21 de março de 1891, em disponibili- dade; fallecido a 12 de março de 1907;

Augusto Nogueira da Rocha Miranda, nomeado a 21 de março de 1891, fallecido em setembro de 1893 ;

Ernesto Moura, nomeado a 1 de agosto de 1891, em exercicio ;

Alfredo Moreira de Barros Oliveira Lima, nomeado a 1 de agosto de 1891, em goso de li- cença ;

Manuel Pedro Villaboim, nomeado a 1 de agosto de 1891, em exercicio;

José de OHveira Machado, nomeado a 1 de agosto de 1891, em disponibilidade;

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 151

Severino de Freitas Prestes, nomeado a B de agosto de 1895, fallecido a 11 de setembro de 1896 ;

Raphael Corrêa da Silva Sobrinho, no- meado a 15 de maio de 1895, em exercicio;

José de Alcântara Machado, nomeado a i de setembro de 1895, em exercicio;

José Ulpiano Pinto de Souza, nomeado a 27 de janeiro de 1897, em exercicio;

Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta, Qomeado a 19 de abril de 1897, em exercicio;

João Pedro da Veiga Filho, nomeado a 12 de maio de 1897, em disponibilidade;

José Mariano Corrêa de Camargo Aranha, Qomeado a 5 de julho de 1897, em exercicio;

Gabriel José Rodrigues de Rezende, no- meado a 10 de agosto de 1897, em exercicio;

Reynaldo Porchat, nomeado a 18 de ou- tubro de 1897, em exercicio;

Dário Sebastião de Oliveira Ribeiro, no- meado a 17 de janeiro de 1898, em exercicio;

José Bonifácio de Oliveira Coutinho, no- meado a 5 de junho de 1901, em exercicio;

Frederico Vergueiro Steidel, nomeado a 17 de maio de 1902, em exercicio ;

João Braz de Oliveira Arruda, nomeado em outubro de 1906, em exercicio.

Muito reduzida foi a turma académica que se bacharelou em 1851. Não excedia, no seu

Ib2

A ACADEMIA DE 5. PAILO

5.° armo, de oito estudantes, dos qiiaes cinco paulistas, um fluminense, um baLiano e um es- pirito-santense.

Aos nossos leitores, dados a estudos estatis- ticos, ofíerecemos o seguinte quadro relativo ao numero de bacharéis formados annualmente pela nossa Academia, desde a data da sua fundação até hoje:

1831 6

1832 35

1833 54

1834 77

1835 41

1836 36

1837 33

1838 21

1839 17

1840 7

1841 9

1842 9

1843 13

1844 10

1845 15

1846 11

1847 9

1848 25

1849 14

1850 29

1851 8

1852 22

1853 40

1854 38

1855 32

1856 43

1857 58

1858 66

1859 66

1860 52

1861 69

1862 92

1863 113

1864 60

1865 86

1866 65

1867 91

1868 45

1869 62

1870 31

1871 26

1872 25

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS

153

1873 25

1874 25

1875 32

1876 29

1877 32

1878 46

1879 35

1880 82

1881 82

1882 82

1883 90

1884 103

1885 64

1886 80

1887 63

1888 51

1889 70

1890 84

1891 56

1892 43

1893 50

1894 31

1895 18

1896 48

1897 46

1898 11

1899 2

1900 32

1901 68

1902 40

1903 47

1904 62

1905 66

1906 129

Estes algarismos sommados dão o total de 3.490. E este, até ao fim de 1906, o numero de bacharéis graduados em direito pela Faculdade de S. Paulo.

Destes, defenderam theses e receberam o grau de doutor, até o anno próximo passado, 115, cujos nomes são os seguintes:

Em 1833 Manoel Dias de Toledo, Manoel Joaquim do Amaral Gurgel e Vicente Pires da Motta.

154 A ACADEMIA DE S. PAULO

Em 1834

Anacleto José Ribeiro Coutinho, Francisco José Ferreira Baptista, Francisco de Assis Monte Carmello, Manuel Libanio Pereira de Castro, Mi- guel Archanjo Ribeiro de Castro Camargo, José Ignacio Silveira da Motta, Francisco António de Araújo, Rapliael de Araújo Ribeiro, Joaquim José Pacheco e Marcellino José da Ribeira Silva Bueno.

Em 1835

Francisco Bernardino Ribeiro, Joaquim Igna- cio Ramalho, João Chrispiniano Soares e José Joaquim de Siqueira.

Em 1836

Cypriano José Lisboa e José Thomaz de Aquino.

Em 1838 Gabriel José Rodrigues dos Santos, Ilde- fonso Xavier Ferreira, Joaquim José Ribeiro Guimarães e João da Silva Carrão.

Em 1839

Luiz Pedreira do Couto Ferraz, Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça e Joaquim António Pinto Júnior.

Em 1840 António Joaquim Ribas.

TRADIÇÕP^S E REMINISCÊNCIAS 155

Em 1843 José António Pimenta Bueno.

Em 1846 Eduardo Olympio Machado.

Em 1849 Agostinho Marques Perdigão Malheiros, Ole- i;ario Herculano de Aquino e Castro e Francisco .A [ária Velho da Veiga.

Em 1851 Francisco Justino Gonçalves de Andrade e João Dabney de Avellar Brotero.

Em 18Õ2 Martim Francisco Ribeiro de Andrada.

Em 1856 João Theodoro Xavier, António Carlos Ei- beiro de Andrada Machado e Silva e António Ferreira Vianna.

Em 1857 Domingos de Andrade Figueira e Clemente Falcão de Souza Filho.

Em 1858 João Baptista Pereira, José Maria Corrêa de e Benevides, José Maria da Camará Leal,

11

156 A ACADEMIA DE 5. PAULO

Tito Augusto Pereira de Mattos e Mamede José Gomes da Silva.

Em 1859

Hygino Alves de Abreu e Silva, Aureliano Cândido Tavares Bastos, Vicente Mamede de Freitas, Balthazar da Silva Carneiro, Manuel An- tónio Duarte de Azevedo, José Carlos de Oliva Maia e Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira.

Em 1860 Paulo António do Valle, José Vieira Couto de Magalhães, Américo Brasiliense (le Almeida Mello, Joaquim de Almeida Leite Moraes e Er- nesto Ferreira França.

Em 1862 Emilio Valentim Barrios, Rodrigo Octávio de Oliveira Menezes, Francisco Gomes dos San- tos Lopes e José Joaquim de Almeida E-eis.

Em 1863 José Joaquim Vieira de Carvalho, José da Silva Costa e Egydio Barbosa de Oliveira Ita- qui.

Em 1865 João Jacintlio Gonçalves de Andrade.

Em 1866 Joaquim Augusto de Camargo, Francisco

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 157

António Dutra Rodrigues e Emygdio Joaquim dos Santos.

Em 1867 Ezequiel de Paula Ramos e Delfino Pinheiro de Ulhôa Cintra.

Em 1869 António Cândido da Cunha Leitão, Carlos Leôncio da Silva Carvalho, José Rubino de Oli- veira e António Ferreira França.

Em 1870 José Júlio de Albuquerque Barros.

Em 1871 Affonso Augusto Moreira Penna.

Em 1872 José Pereira Terra Júnior e Victorino Cae- tano de Britto.

Em 1873

Benedicto Cordeiro dos Campos Valladares e João de Souza Reis.

Em 1874 José Luiz de Almeida Nogueira, .Toão Pe- reira Monteiro Júnior e Genuino Firmino Vidal Capistrano.

158 A ACADEMIA DE S. PAULO

Em 187Õ Brasilio Augusto Machado de Oliveira, Jú- lio César de Moraes Carneiro, João Evangelista Sayão de Bulhões Carvalho e E,omualdo de An- drade Baena.

Em 1876 António Dino da Costa Bueno e António Augusto de Bulhões Jardim.

Em 1877 António Januário Pinto Ferraz, António Ti- burcio Figueira, Frederico José Cardoso de Araújo Abranches e José Maria Leitão da Cunha.

Em 1878 Pedro Vicente de Azevedo e Luiz Lopes Baptista dos Anjos Júnior.

Em 1879 Vicente Ferrer de Barros Vanderley.

Em 1880 António Caio da Silva Prado, Fernando Mendes de Almeida, João Manuel Carlos de Gusmão, João Mendes de Almeida Júnior, José António Pedreira de Magalhães Castro, Manuel Joaquim da Silva Filho e Severino de Freitas Prestes.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 159

Em 1881 AíFonso Celso de Assis Figueiredo Júnior e António Luiz dos Santos Werneck.

Em 1883 Joaquim de Almeida Leite Moraes Júnior.

Em 1887 Jesuino TJbaldo Cardoso de Mello.

Em 1888 Abelardo Saturnino Teixeira de Mello e Pe- dro Augusto Carneiro Lessa.

Em 1904 João Gonçalves Dente e José Fernandes Coelho.

Em 1905 Armando da Silva Prado.

Em 1906 Luiz Nunes Ferreira Filho.

E tempo de passarmos á resenha dos estu- dantes que compuzeram a turma académica que perambulou pelas arcadas da Academia no quin- quennio de 1847 a 1851.

Comecemos, pois.

Caklos Canuto Malheiros. Paulista, apa-

160 A ACADEMIA DE S. PAULO

rentado numa importante família fluminense. Filho de António Pinto Cardoso Malheiros.

Exerceu nesta província, logo após a sua formatura, os cargos de promotor publico, em 1852, e de juiz municipal, em 1853.

Deixou depois a magistratura e abriu escri- ptorio de advocacia, cremos que na cidade do Hio Claro.

Escasseiam-nos noticias a seu respeito.

Francisco Emygdio da Fonseca Pacheco. Paulista, natural de Ytú, de antiga e illustre fa- mília daquelle município. Filho de José Manuel da Fonseca Pacheco.

Desde a sua formatura, envolveu-se activa- mente nas agitações da politica local, onde go- sava de grande prestigio e muita popularidade no seio do partido conservador.

Nos biennios de 1854-55, 1858-59 e 1800-61, fez parte da Assembléa Provincial de S. Paulo.

Em 1871, juntamente com outros importan- tes fazendeiros seus conterrâneos, o dr. Fonseca Pacheco declarou-se republicano.

Não faltou quem filiasse essa resolução po- litica á primeira lei de emancipação do elemento servil.

O que é certo, entretanto, é que essa ar- dente e j)restigiosa phalange deu vivo impulso á propaganda republicana. De então em doante a[)pareceu sempre o nome do dr. Fonseca Pa-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 161

checo entre os dos mais ardentes campeões das Qovas ide as.

Após a proclamação da Republica, foi sena- dor do Estado, na 1.^ e 3.^ legislaturas, a saber, em 1892 e em 1896, vindo a fallecer antes de terminado este sexennio.

Joaquim Baptista Martins de Souza Cas- TELLÕES. Fluminense, carioca.

Em 1857 foi supplente de juiz municipal na Corte.

Exerceu por algum tempo a advocacia e foi conselheiro do Instituto da Ordem dos Advo- gados.

E fallecido ha muitos annos.

José Maria de Andrade. Paulista, desta capital, filho de Jeronymo de Andrade e irmão do dr. Cândido de Andrade e de Jeronymo de Andrade, que foi escrivão do Tribunal da Rela- Içáo deste districto; e pae do dr. José Augusto 'de Andrade, secretario da Junta Commercial. Era casado com uma filha do dr. Daniel Macha- do, do qual nos occupámos.

Na Academia, foi um estudante regular- mente applicado e de exemplar assiduidade.

Após a sua formatura, dedicou-se ás lides forenses, trabalhando no escriptorio de José Bo- nifácio, de quem foi amigo constante e dedi- cado.

162 A ACADEMIA DE S. PAULO

No segundo período da existência do Ypi- ranga, valente orgam do partido liberal paulista, foi elle o principal proprietário e um dos reda- ctores da folha, a qual também redigiam com muito brilhantismo e excessiva vivacidade Salva- dor de Mendonça e Ferreira de Menezes, sem falarmos nos collaboradores, que eram muitos, e da categoria de José Bonifácio, Martim Fran- cisco, Carrão, Américo Brasiliense e outros.

Antes de se arvorar jornalista, o dr. José Maria de Andrade havia desempenhado os cargos de promotor publico desta capital, de juiz muni- cipal de Jacaréhy, de secretario da policia desta Província em 1857, e de juiz de orphams de S. Paulo em 1862.

E fallecido ha muitos annos.

José Martiniano de Oliveira Borges. Pau- lista, de Guaratinguetá, filho do Visconde de Gua- ratinguetá e sogro do conselheiro E-odrigues Alves.

Foi no seu curso académico um estudante talentoso, circumspecto e applicado.

Começou como promotor publico e depois juiz municipal em Guaratinguetá em 1855. A comarca de Guaratinguetá comprehendia nesse tempo os termos de Guaratinguetá, Bananal, Arêas e Lorena; Barreiros, Queluz e Silveiras nem termos ainda eram. De Cruzeiro e Cachoeira, não falemos.

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 163

Em 1858 foi eleito deputado á Assembléa Provincial de S. Paulo, para o biennio de 1858-59.

De volta do Rio de Janeiro, falleceu em ca- minho, na Barra Mansa, victimado pela febre amarella, que trazia incubada e então se mani- festou com fulminadora violência.

Laurindo Abelardo de Brito. Nascido em 8 de setembro de 1828 em Montevideu, de pães paulistas, que se achavam em serviço de guerra. Filho de Manuel José de Brito.

Sua mãe casou-se, em segundas núpcias, com o conselheiro Ramalho que, aíFeiçoando-se muito ao enteado, fel-o estudar preparatórios e aos 19 annos matricular-se no curso juridico.

Durante todo o seu periodo académico, foi Laurindo um bom estudante, intelligente e bas- tante applicado. O padrasto alli estava sempre vigilante ao seu lado, incitando-o ao estudo, di- rigindo-o e explicando-lhe os pontos mais com- plicados.

De posse do seu pergaminho, seguiu o dr. Laurindo para Curit^^ba, que era então a sede da 5.^ comarca da província de S. Paulo, e ahi fez carreira.

Em 1852, foi promotor publico de Curityba; em 1857, deputado á Assembléa Provincial do Paraná. Contrahiu matrimonio com uma filha do coronel Manuel Ignacio do Canto e Silva, e per- maneceu por mais de vinte annos no Paraná,

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onde, apesar de abrir lucta com o conselheiro Jesuino Marcondes, proeminente chefe do partido liberal, então dominante, conseguiu eleger-se deputado geral, na 12/'^ legislatura.

Em 1878, mudou a sua residência para esta capital, onde, após a ascensão do ministério Si- nimbu, foi nomeado inspector do thesouro pro- vincial de S. Paulo; e no anno seguinte, em 1879, presidente da província, de cujo cargo tomou posse a 12 de fevereiro daquelle anno, exer-

cendo-o até 4 de marco de 1881.

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A sua administração, se bem que acoimada pelos adversários políticos como excessivamente partidária, assignalou-se todavia por mais de um importante melhoramento para a província. Basta mencionarmos a reorganização da Escola Nor- mal, a restauração do Jardim Publico e os am- plos auxílios que prestou ao Lyceu de Artes e Officios.

Em 1881, por occasião do primeiro ensaio da reforma eleitoral Saraiva, o conselheiro Lau- rindo de Brito (pois fora agraciado com o titulo de conselho), apresentou-se candidato á Assem- bléa Geral pelo 1.° districto de S. Paulo.

Era o único candidato do partido liberal, e tinha por antagonistas dois candidatos conserva- dores, António Prado e João Mendes, e um can- didato republicano, Américo Brasiliense.

Este, relativamente, teve pouca votação. En-

TRADIÇÕKS E REMINISCÊNCIAS 1G5

jTB três outros, porém, que alcançaram a maioria relativa, a votação distribuiu-se assim :

Laurindo de Brito 411 votos

António Prado 409 »

João Mendes 381 »

Nos termos da lei então vigente, teria de correr segundo escrutinio entre os dois candida- tos mais votados.

Fora presumivel, a julgar-se pela força po- litica manifestada nesse resultado, que o nome de António Prado emergisse victorioso, por con- siderável maioria, das urnas do segundo escru- tinio. Havia, porém, em opposição a esta conje- ctura outro factor a animosidade existente em avultado numero de conservadores mendistas con- tra António Prado e o seu supremo interesse em combater por todos os modos a influencia prac^isf a.

Esta odienta discórdia, entre as duas avul- tadas fracções do partido conservador, deveria necessariamente beneficiar a candidatura do con- selheiro Laurindo.

Aguardava-se, por isso, com geral emoção, o segundo escrutinio, marcado para o dia 9 de de- zembro de 1881.

A eleição correu animada e disputadissima. O resultado foi o seguinte:

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António Prado 658 votos

Laurindo de Brito 658 »

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A ACADEMIA DE S. PAULO

Esta hypothese, prevista pela lei eleitoral, resolvia-se pela edade dos candidatos. O mais velho seria considerado o eleito.

Coube, por isso, a victoria ao conselheiro Laurindo.

Appareceu nessa occasião, na secção livre do Correio Paulistano^ o seguinte epigramma, cheio de espirito e mordacidade, allusivo á eleição e ao voto que havia dado ao candidato liberal o coronel Dente, eleitor conservador:

«Nhô Lau, rindo, egualon pelo dentei.

Embora alistado no partido liberal, o con- selheiro Laurindo era dotado de um espirito accentuadamente cunservador. . . quasi tão con- servador quanto era liberal António Prado. Os rótulos evidentemente andavam trocados.

Esse sentimento auctoritario do conselheiro Laurindo, que elle externou em seu discurso de estreia na Camará dos Deputados, e teve occasião de comprovar por mais de um acto de sua admi- nistração nesta provincia, não impediu que elle fosse, com razão talvez, accusado de intolerante por seus adversários politicos.

E possivel que contribuíssem para tal ajire- ciação tanto propriamente os actos como algu- mas manifestações oraes e até o gesto irritado qiie elle por vezes não reprimia.

Em represália chasqueava-o, por isso, a sa-

TRADIÇÕES E REMINISCÊNCIAS 167

iyra politica em allusão á sua pequena estatura, jom o appellido de nTíco-tico raivosor>.

Como se sabe, estava naquelle tempo, em 3. Paulo, dividido e subdividido em fracções, grupos e greys, o partido liberal paulista. O íonselheiro Laurindo íiliava-se dedicadamente 10 grupo, á grey mais intima de José Bonifácio.

Para exprimir a sua paixão pelo grande ora- ior, pelo (.(Divíno))^ seu chefe, costumava elle iizer que preferia errar com José Bonifácio a icertar com quem quer que fosse.

Esta fórmula irritava sobremaneira os seus 50rreligionarios anti-bonifacistas.

Sincero abolicionista, o conselbeiro Laurindo iemonstrou praticamente os seus sentimentos phi- antropicos de um modo expressivo, a saber li- bertando espontaneamente todos os seus escravos.

E-eferem-nos (e é este um complemento da lemonstração do quanto elle era humanitário) jue tinha particular carinho pelas crias da sua iasa, tratava-as com extrema bondade e meiguice, elava-lhes pela saúde e prodigalizava-lhes to- los os possíveis confortos.

Era, além disso, um exemplar pae de família.

O conselheiro Laurindo falleceu nesta capi- ;al no dia 2 de abril de 1885.

Luiz José Ferreira de Araújo. Espirito- iantense.

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Foi deputado á Assembléa Geral pela sua província á 9.* legislatura.

Faltam-nos noticias a seu respeito, e seriamos gratos a quem nol-as fornecesse.

Paschoal Pereira de Mattos. Bahiano.

Cursou na Academia de Olinda os três pri- meiros annos e fez em S. Paulo. . . outros três.

De facto, teve de cursar duas vezes o 5.*^ anno, por ter sido reprovado em 1850.

Deste desastre nenhuma pecha resulta para o seu nome, pois foi devido a uma causa, por assim dizer, extrinseca. Fora visto pelos seus lentes, na ójya de um collega que se graduara, em dia em que estava de oratório.

Será necessário explicarmos que, na giria académica, ój)a é o festim de grau, e oratório o estudo do ponto na véspera do acto?

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães. Mineiro, de Ouro Preto ; filho de João Joaquim da Silva Guimarães. Nasceu a 15 de agosto de 1827; outros biographos pretendem que de 1825.

Alto, magro, tez morena, barba toda e pou- ca, anellada, assim como os cabellos, que eram castanhos e rej)artidos á direita; testa larga, com grandes entradas. Olhos garços e scismadores ; a sua expressão physionomica (jue, na quadia académica, era viva e prazenteira, revestiu-se,

TRADIÇÕKS E REMINISCÊNCIAS 169

íom O perpassar do tempo, de vaga melanco- ia, que se foi transformando em sombria tris- leza. Eis como nol-o descreve Couto de Maga- hães, na Revista Académica de 1859 :

«Emquanto estudante, Bernardo Guimarães )ra dotado de um caracter alegre e expansivo ; ua conversação era interessante, pelos rasgos lumoristicos em que abundava. Nalguns desses nuitos folguedos, que os estudantes fazem para natar o tempo, elle deixou sua lembrança pro- úndamente gravada nas discussões cheias de sa- ryras e de rasgos extravagantes, que elle derra- nava como uma torrente de H. Heine.

Alguns amigos reuniam-se em casa delle, e leste numero era o distincto poeta Aureliano osé de Lessa. E-euniam-se em torno da mesa ias quartas-feiras de tarde, preparavam uma íeia escolástica^ faziam saúdes e cada um tinha )or obrigação dizer um discurso hestialogico. Ber- lardo Guimarães era um verdadeiro génio neste jenero ; subia acima de uma cadeira e come- iava a discorrer: foi numa dessas occasiões que )lle improvisou uma celebre poesia, em que vi- iham toda a sorte de extravagâncias, e que fez ai impressão que tem sido conservada na me- QOria dos estudantes.»

Apreciem este trecho de uma das taes poe- ias bestialogicas.

Hão de ver os leitores que os versos são sim- plesmente admiráveis, quanto á forma, á estru-

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ctura, de uma arte perfeita; quanto ao fundo, porém, são adrede monstruosos, verdadeiros cBgri somnia :

Com grande desgosto dos povos da Arábia Vieram os bonzos da parte de além, Comendo presuntos, empadas de trigo, Sem ter um vintém.

E os ratos vieram, trotando depressa. De espada na cinta, barrete na mão, Prostraram-se ante elles, fazendo caretas Com gran devoção.

E o filho dos ermos, do monte rolando, Puchou pela faca de grande extensão, Caliiu como o cysne que toca trombeta De ventas no chão.

E pelos pólos de gelo abrazados

Eu vi Napoleão Puchando as orelhas ao fero Sansao, E um lindo mancebo de nobre feição Brincando entre as pernas do rei Salomão.

Bernardo Guimarães figura com justo titule na galeria dos melhores poetas e dos mais notá- veis literatos brasileiros.

Contemporâneo e amigo dedicado de Alva- res de Azevedo, era digno de emparelhar com elle. Houve mesmo entre elles e Aureliano Lessa o projecto de darem á publicidade, sob o titule Li/ra dos vinte annos, uma collecção de poesias dos três poetas mineiros.

Teria sido Bernardo Guimarães um dos só- cios da Ej)ycuréa, sociedade académica fundadt

TRADIÇÕES E REMINISCKNCIA8 171

ao tempo de Alvares de Azevedo e cujo nome ieixa entrever o programma?

Eis sobre esta associação a noticia que en- jontramos num estudo histórico de Couto de \iagalhaes sobre a literatura académica :

«Composta de um grande numero de acade- nicos, tinha ella por fim realizar os sonhos de 3yron. Um dos sócios, que vive hoje (*) em Mi-